Indígena Ashaninka Aldeia Apiwtxa/Ashaninka Acre, Brazil © Pedro França/MinC
Éramos crianças
e só sabíamos que queríamos, da vida, amar.
Esperámos um pelo outro
e quando nos encontrámos
éramos crianças
ainda.
E finda a passagem aberta pela folhagem aberta pelas tempestades
da nossa inocência,
Encontrámo-nos ainda crianças.
Trocámos alianças,
beijámo-nos,
sem outras esperanças
que amarmos.
Pisámos o chão dos amantes envergonhados
e, apaixonados,
duvidámos que ainda o fôssemos. Crianças.
Éramos crianças ainda,
E duvidámos de o ser.
Iam as laranjeiras desfolhadas
amadurecendo;
Iam os limoeiros solitários
ao peso vergando
dos frutos verdes,
e éramo-lo, ainda: crianças,
trincando o azedo perfume da acidez,
mordendo, à vez,
a erva amarga da limpidez
que tardava, no nevoeiro,
sendo nós inda crianças.
Éramos luz fosca indefinida,
ramagem indevida ao vento vergada,
invernia invertida na nossa peugada,
passos de éguas fecundadas pela arajem.
Dançámos ao som das ladainhas
de pinhas que se abriam sobre nós.
Debruçámo-nos sobre o tormento de sermos sós,
e sobre nós derramou-se um chuviscar resinoso
de desejo de eternidade.
Recusámos até o cálice venenoso de outra verdade
que não fosse a nossa.
Hoje, crianças,
trocámos alianças,
sem outras esperanças
que sermos, do que fomos,
retas perfeitas entre lembranças.
Um gafanhoto mexe as mandíbulas sem osso
Uma formiga-leão alada olha desconsolada
Os pais dos que serão mortos pelos seus filhos.
Seguem, insetos, os trilhos do nada
E no nada são tudo o que a vida alguma vez quis ser.
Uma carraça espreita a seara de sangue de uma só colheita
Um pardal alheio ao mal e à injustiça
Ouve com preguiça o canto de um santo esfarrapado,
E sobre um estrado, um pombo larga parasitas
Sobre outras caganitas onde bactérias fecais
Fazem bacanais, mas sem maldade.
Sem piedade,
Um louva-a-deus cuida dos seus
Dando o pescoço à maternidade.
E os vermes, pouco dados à estética,
Dão uma aula peripatética sobre a decomposição em fatores primos.
Uma ave-do-paraíso, sem do bem ou do mal fazer juízo,
Aceita o impreciso fluir das escolhas
E morre sem outra angústia que a angústia de morrer.
E os búzios, sem nada ouvir,
Fingem repetir o que não lhes foi dado, jamais, a discorrer.
No meio do caminho da nossa vida
encontrei-me numa floresta escura e maldita
onde a estrada do bom caminho estava mal escrita.
Ai,
Como encontrar o bom caminho era sem sentido.
Voltei atrás.
Encontrei-te.
E o purgatório que fosse dar uma volta,
que o Paraíso era já ali.
Ah, que bom ter um bom livro para escrever
e não o fazer. É melhor ler. E, já agora,
Dormir,
Esquecer.
Para voltar atrás e voltar a conhecer
aquilo que nos faz sorrir por ser tão simples.
Dormir também é viver.
E recordar é esquecer.
Dona Senhora feia
Que me fazeis fastio,
Ai Deus, não mereço o enguiço
De vos não desamigar.
Dona Senhora feia
do sorriso postiço,
Por Deus, não mereço o enguiço
de vos aturar.
Senhora dona feia
- se sois senhora e não só meia,
que a meia coisa de mau feitiço
fazeis por vos aparentar.
Podeis até nem ser senhora
E em vez de passarinha ter chouriço
Mas não me causeis o enguiço
De convosco me cruzar.
Senhora dona feia,
que em má hora pediste amizade,
Ou pedi eu, pelo demo embarcadiço,
podeis ser a flor do caniço,
Que o demo, pardeus, que nos amigou,
Já me vos fez desamigar.
Outros deixarão o mesmo rasto
de poeira luminosa e gratidão.
Outros caminharão sobre os verdes pastos
da imensidão onde foste pastor.
Outros deixarão poemas
na forma de frases simples, claras
e sem outro sentimento que o sentimento
a que se dá o nome de Verdade.
Outros caminharão na estrada da Liberdade
E como tu, não se calarão
Nem no perfeito mergulho na Eternidade.