Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
Prometo cenas

Para o César Machado

 

Prometo tentar dizer-te que falho
Constantemente,
E que sou imperfeito,
E que as nossas preocupações
Diárias são tão sérias
Quanto marcar férias
E cumprir objetivos.
Foca-te na luz dos mistérios
Mais sérios,
Órficos, que por furtivos aqui não cabem.
Os dias passam
E há mais clientes.
Passam as horas
E mais vaidades eclesiásticas há
A satisfazer. Mais para fazer.

Foca-te na espiral de Tântalo.
Sísifa, a vontade da clientela
Infernal não pode esmorecer.
Foca-te, mas não te fiques
Por aí.
Atira-te aos leões como gatinhos,
Procura nas suas garras os carinhos
Que outros acham na indolência.
Haja paciência.
Prometo pedras
Prometo chagas
Batatas fritas.
Maionese light.
Sombras negras em escala cinza
E algemas de cristal.
Prometo não estragar tudo
Por ser perfeito.
Não me leves muito a peito.
Há ainda muito a tentar.
A tentar-me,
E não sou Cristo.
Sou apenas isto,
Perfeito apenas.
Prometo cenas.
Prometo falhar.

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publicado por Manuel Anastácio às 14:55
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Um haiku

Para a Ana Rute Marcelino

Cheiro de alecrim.
O chão, pela procissão,
Parece um jardim.

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publicado por Manuel Anastácio às 04:34
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Sábado, 23 de Setembro de 2017
Amor é

Amor é

Não querer saber o que é

Não querer escrever sobre o que é

Pensar pode ser 

Mas sem querer

E sem precisar de concluir

O que for

Assim é muito simples isso do amor

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publicado por Manuel Anastácio às 20:34
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Segunda-feira, 6 de Março de 2017
Todas as águas

Aqui é primavera.

O inverno espreguiça-se, contrito.

Pede perdão enquanto morre.

As árvores explodem no grito

Aflito do tempo. Os minutos escorrem, húmidos,

Frios, sujos e vivos como o rio

Onde desaguam, como dejetos, os adjetivos.

Aqui é primavera e deus não quer saber dos vivos.

Limita-se a dar corda ao mecanismo

- motor imóvel do vazio.

As aves devoram o abismo e a madrugada.

Os gatos choram no cio. A vida acorda transtornada.

Aqui é primavera, mas deus não deu por nada.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:28
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Sábado, 25 de Fevereiro de 2017
Todos os poemas

A má poesia é dizer lágrimas

Silêncio

Marés

Lua

É dizer corpo e suor.

É discorrer sobre orvalho, geada e flores.

É convocar dores em apóstrofe.

É fazer chorar guitarras

E rimar com cigarras o coachar das rãs.

É dizer noite com palavras diurnas.

É cobrir o sol de gargalhadas soturnas

E abafar a luz com a melancolia do amor.

É usar o ponto de exclamação

E reticências.

É falar do coração!...

De coração. É saltar cacofonias.

É transmutar palavras em excrescências.

Fazer do verbo quistos e tumores.

É dizer o que se quer esconder;

Fingir que as alegrias são dores;

E explicar o que ninguém quer, mesmo, de todo, saber.

 

Má poesia é toda a poesia.

Nem Homero, nem Virgílio nem Pessoa.

Nem Pessanha, nem Dante nem peçonha.

Só os doidos a escrevem,

Nos espavoridos esgares da ronha,

E a recitam em veludos de hipocondria.

Entretanto, outros passarão por ela

E verão nas formas do seu caos

Sublimes cânticos de profecia.

É assim a pior,

Como será, provavelmente, a menos má,

E mais inútil, da poesia.

 

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publicado por Manuel Anastácio às 23:30
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