Terça-feira, 12 de Maio de 2009
Luaral, de Gláucia Lemos

Metamorphosis 1, de Philip Glass. Branka Parlic ao piano, 27 de outubro de 2004, na Sinagoga de Novi Sad.

 

A boa vontade com que tenho sido agraciado do outro lado do Oceano (e do hemisfério) fez-me chegar, de novo, à caixa de correio, um livro que a Gláucia, generosa como a lua cheia, me ofereceu. Não é uma obra recente, recentíssima. Vem já do virar do século, quando a superstição do Milénio fez passar pela boca de todos, de forma irónica ou crédula, a aproximação do Fim do Mundo. E este livro, um romance com a extensão de uma novela, é sobre o Fim do Mundo. Mas também sobre o Princípio. Primeiro, fiquei com a impressão de que estaria a ler um pequeno Silmarillion, um pequeno poema genesíaco. E não me afastaria muito da verdade, se o livro não se estendesse até ao fim, e até ao lado de lá do fim, naquele lugar onde as Atlântidas, os Shangri-las, as Utopias, as Terras Médias e as Terras do Nunca permanecem reais e tangíveis, quase mapeáveis, mas absolutamente acessíveis e necessárias a quem as procura. A criação repetida de mundos de fantasia reside na mesma necessidade, que atravessa os séculos e os milénios da existência humana, de criar poesia, isto é, de recriar através de meios expressivos, uma imitação da realidade que a transfigura de modo a aproximar-se dos nossos anseios e das nossas frustações, mas também dos nossos mais íntimos sorrisos e certezas (aquilo a que chamamos de Fé).

 

A segunda sensação que repassa estas páginas é o seu carácter meridional e solar que, paradoxalmente, se expressa pelo aprisionamento do sol (a unidade do real) e pela fragmentação das preocupações humanas através da influência astrológica de luas que se sucedem segundo um modo astronómico aleatório que faz lembrar os esquemas astronómicos anteriores a Copérnico. O carácter solar e meridional deste romance repete-se em vários momentos, como na simbologia religiosa sul-americana  do milho, alimento base do povo de Luaral, mas também na simbologia mediterrânica das uvas e do vinho. Gláucia associa, assim, no imaginário onírico deste livro, dois pontos meridionais, unificados sob a influência de um Cruzeiro do Sul despojado da sua significação cristã e reescrito segundo a linguagem pagã das cosmogonias antigas.

 

Se em "Bichos de Contas" eu mesmo encontrei uma Gláucia centrada nas preocupações do imaginário cristão, à procura de uma racionalidade da fé e da descrença que justificasse a tragédia da insatisfação humana, num quadro imaginário que remonta ao Velho Mundo, em "Luaral", a minha amiga procura as raízes mitológicas dos povos que habitaram o seu chão natal. O onirismo deste livro vai ao ponto de ignorar por completo a unidade lógica e referencial com  que poderíamos estabelecer um mecanismo previsível para a sucessão de acontecimentos que nos são narrados. Tal como em "Bicho de Contas", estamos no território das fábulas, mas agora de forma mais explícita. Os sentimentos humanos são apresentados de forma mais definida (e, porventura, mais redutora, mas nunca as fábulas pretenderam ser psicologicamente profundas) e sublimada, mas num contexto onde não há lugar à verossimilhança e onde as metamorfoses das personagens em constelações, em animais e em objectos, ainda que bebendo das fontes greco-latinas, renascem com o sabor acre das terras viciosas cantadas por Camões. A dada altura, lembrei-me daquele filme de Alain Resnais, "Providence", onde a topologia do espaço se altera subitamente, sem que o fio narrativo se quebre. Assim é, companheiro, "Luaral", contado como quem conta uma história à luz quente de uma fogueira ao relento. Assim são, companheiro, as histórias que nos passam frente aos olhos quando fechamos os olhos, antes e depois de adormecer.

 

Obrigado, companheira Gláucia, mais uma vez.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:08
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Terça-feira, 5 de Maio de 2009
In memoriam Vasco Granja (1925 - 2009)

Concerto Grosso Modo, de François Aubry, do National Film Board of Canada

 

Dele, a minha mãe só dizia que estava sempre na mesma. Apresentava bonecos. Mais tarde, passei a chamar-lhes desenhos animados. Mais tarde ainda, passei a chamar-lhes, pomposamente, cinema de animação. Hoje, os meus alunos de Urgezes, dizem que é macacada. E isso irrita-me. É deplorável ver múdos daquela idade com a sensibilidade tão romba que, não sendo capazes de admirar uma cena lamechas do Bambi, muito menos o serão de um filme do National Board of Canada... É deplorável, acima de tudo, saber (de conhecimento certo) que aquilo que nos eleva a alma será motivo de troça, não só daqueles que, hoje, rombos, julgam que são árbitros do gosto, mas também daqueles que, no futuro, senhores de outros níveis de compreensão da realidade íntima das coisas e da coisa humana, nos olharão, e aos nossos objectos de adoração, como meros acidentes evolutivos, incompletos, rombos. E quando isso me assalta, só me resta pensar como a Santa Teresinha do Menino Jesus que dizia que a santidade não se mede pela quantidade de Espírito Santo, mas pelo de grau de satisfação da alma, no seu todo, no que diz respeito à recepção da graça divina. Se alguém for um vaso de grandes proporções e estiver apenas meio cheio será mais santo que o pequeno dedal que fica cheio apenas com algumas gotas de santidade? É mais importante a quantidade ou a relação? Obviamente que é a relação. A Santa de  Lisieux não estava muito longe, na Teologia, do que Einstein pensava na Física - vá lá eu pregar isso aos retrógrados católicos (não falo do catolicismo em geral, entenda-se, mas de alguns espécimes manhosos) que recusam todo e qualquer argumento racional só porque é "relativista". Eu sou relativista. Graças a Deus. E tenho para mim que Deus também o é. Quanto ao Vasco Granja, que não tem culpa nenhuma das minhas preocupações teológicas (eu devia mas era estar a corrigir testes), foi uma dessas almas que me encheu a alma. De graça divina. Obrigado, Vasco. Que a minha mãe tenha razão, e que te mantenhas sempre na mesma. Gostaria que sim.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:10
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Sexta-feira, 1 de Maio de 2009
Os amentilhos dos choupos-negros de Guimarães II

Fragmentos de primavera que, ao som de Bach e de Rostropovitch parecem, de facto, como alguém disse, lágrimas vagarosas e espessas.

 

Agora, num vídeo mais elaborado, num parque ao pé de mim. A primeira árvore a aparecer é o choupo que quase toca na minha varanda... Espero que o vídeo não tenha perdido a leveza pueril do primeiro.

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publicado por Manuel Anastácio às 02:38
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