Domingo, 28 de Fevereiro de 2010
A incalculável leveza do amor

Dendrites de cristal de prata. Carregar na fotografia para os devidos créditos.

 

Há, nos silêncios dos amigos, a ambígua oscilação entre a indiferença, a presença e a obrigação. Não há sentimento mais quebradiço que a amizade. Não digo frágil. Nada há de frágil neste amor desbastado  de hormonais ervas ruins. O amor que une duas almas na carne e nos fluidos, derivando da paixão e nela confluindo em marés duras e secas ressacas, também nada de frágil tem, a não ser que a sua elasticidade deformável se confunda com quebra, ruptura e morte – confusão, essa, tão disseminada entre os espíritos contemporâneos que se julgam capazes de perpetuar a beleza da Vénus de Milo controlando a luz e a humidade, mas incapazes de compreender que o amor que temos por tal peça de arte reside na sua tragédia de corpo truncado, por nós tornado perfeito apenas por intercessão da angústia e da saudade da imagem que nunca vimos. Dizia-me o Waldir, do alto da sua clara inocência, que andava à procura da equação que definisse o amor. Impossível não será, com certeza, dependendo das variáveis em consideração e do tipo de amor a ser calculado. A mesma equação, por mim definida, se a procurasse, serviria de igual modo para qualquer grau de afecto, desde o ódio cego que mata, ao doido amor que se afunda no suicídio. Entrariam como variáveis: a congruência material (atracção ou repulsa por motivos puramente materiais, formais, físicos ou químicos, onde tanto entra a excitação sexual e o apetite como o nojo e o desejo de degradação), a congruência social (partilha e complementaridade de valores) e, como constante (relativa ao indivíduo objecto do cálculo), um valor indefinido, incalculado por definição, porque consubstancial ao presente,  o “ego”, que permitiria aplicar a equação a qualquer relação possível. O problema desta equação é que implica referências circulares, em que o valor das variáveis depende do seu próprio valor, ainda não definido no momento do cálculo. Isso reconforta-me. É bom sentir-me incalculavelmente incalculável. É bom, mesmo que não queira dizer nada.

publicado por Manuel Anastácio às 20:19
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