Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009
Para a Maria Helena

"Lamentação da Virgem", de "As Horas da Cruz" do Mestre de Rohan. 1435

 

No horizonte, na ténue linha onde os gritos morrem

E se cala o eco,

As montanhas concentram-se num fractal

Onde o bem e o mal tomam formas

De insuportáveis dimensões.

Antes do horizonte, insustentáveis, as coisas fogem ao olhar,

E os sentidos obrigam a um só momento.

Antes do horizonte não há memória nem pensamento,

E a erosão destrói a história e qualquer outra ilusória narração.

As imagens, oxidadas, envelhecem, veladas em poeira e abrasão.

Os mantos abrem buracos por onde o coração das coisas vê as estrelas

E Abraão, sem vê-las, planeia veredas.

Mas antes do horizonte apenas seguem sendas e atalhos

Cortados em retalhos sem limite.

Antes do horizonte, os caminhos

Esbarram na impossibilidade de atravessar o que a luz obriga.

Dos mais curtos, dos prometidos, há pedaços.

Há fragmentos de percursos interrompidos.

Há farrapos de mera possibilidade.

E, na verdade, perdidos,

Somos rendidos nos caminhos pelos deuses que passam

E nos trespassam com sonhos e promessas

Que se esbatem no horizonte.

 

A erosão corrói a cutícula do universo

E há no seu inverso, a deposição, o mistério das coisas como elas são.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 18:44
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De Gerana a 25 de Fevereiro de 2009 às 03:12
Uma troca linda de versos. Maria Helena, você também é poeta.
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