Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
Prometo cenas

Para o César Machado

 

Prometo tentar dizer-te que falho
Constantemente,
E que sou imperfeito,
E que as nossas preocupações
Diárias são tão sérias
Quanto marcar férias
E cumprir objetivos.
Foca-te na luz dos mistérios
Mais sérios,
Órficos, que por furtivos aqui não cabem.
Os dias passam
E há mais clientes.
Passam as horas
E mais vaidades eclesiásticas há
A satisfazer. Mais para fazer.

Foca-te na espiral de Tântalo.
Sísifa, a vontade da clientela
Infernal não pode esmorecer.
Foca-te, mas não te fiques
Por aí.
Atira-te aos leões como gatinhos,
Procura nas suas garras os carinhos
Que outros acham na indolência.
Haja paciência.
Prometo pedras
Prometo chagas
Batatas fritas.
Maionese light.
Sombras negras em escala cinza
E algemas de cristal.
Prometo não estragar tudo
Por ser perfeito.
Não me leves muito a peito.
Há ainda muito a tentar.
A tentar-me,
E não sou Cristo.
Sou apenas isto,
Perfeito apenas.
Prometo cenas.
Prometo falhar.

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publicado por Manuel Anastácio às 14:55
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Um haiku

Para a Ana Rute Marcelino

Cheiro de alecrim.
O chão, pela procissão,
Parece um jardim.

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publicado por Manuel Anastácio às 04:34
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Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2017
Revista de imprensa 27/12/2017

Putin apresenta-se como candidato independente às presidenciais. - a independência é um estado de espírito.

 

EUA cortam 240 milhões de euros à ONU depois do voto contra mudança de embaixada - está certíssimo. Ninguém tem de pagar pelas virtudes dos outros. 

 

 

publicado por Manuel Anastácio às 14:37
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Sábado, 30 de Setembro de 2017
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Um dia, um escorpião queria atravessar um rio. Porque é que queira atravessar o rio, ninguém sabe. Houve quem inventasse que era por curiosidade. As montanhas do outro lado pareciam-lhe imensamente mais interessantes que as planícies monótonas onde até então tinha arrastado a sua existência. As montanhas seriam um desafio. Um objetivo sem sentido, mas que seria um objetivo. E para quem não tem objetivos ou não reconheça imediatamente os que tem, qualquer objetivo parece bom. Mas há quem discorde. E tal discórdia não é inocente perante os factos que se seguem e que são do conhecimento geral, principalmente desde que a história foi contada num filme onde uma mulher foi nomeada para Óscar de melhor ator secundário. A história não é velha, mas é mais conhecida do que se fosse.

Há quem diga que o escorpião queria fugir de um incêndio. Portanto, e não tendo eu paciência para procurar mais razões que tenham levado a tão desmesurado desejo de ultrapassar um acidente geográfico, posso apenas acrescentar que o escorpião podia, simplesmente, querer fazer o que fez a seguir. Mas não quero com isso chegar a qualquer conclusão sobre a natureza humana.

Querendo o escorpião atravessar o rio, pediu a uma rã que o ajudasse. A rã desconfiou, mas, pouco interessa qual o motivo, lá aceitou carregar com um bicho que, em princípio, jamais deixaria aproximar-se. O escorpião usou os seus dons de retórica ou aproveitou-se da inocência da rã. Na verdade, se tudo aconteceu por uma razão ou por outra é indiferente. Ou ambas as razões são uma só. Não interessa, por agora. As motivações pessoais contam pouco nesta história e, talvez tenha sido mesmo por isso que se tornou numa história que, mal tendo aparecido, logo pareceu que já existia há mais tempo, como aquelas músicas que, sendo ouvidas pela primeira vez, parecem já ter sido ouvidas noutro sítio.

Cada pessoa acredita saber a razão porque é que o escorpião queria atravessar o rio, da mesma maneira que acredita conhecer a razão que terá levado a rã a aceitar dar boleia, não a um estranho mas a um conhecido inimigo.

A verdade é que o escorpião, a meio do caminho, ferrou as costas da rã e deu cabo da vida aos dois. A rã envenenada, ele afogado. A rã ainda pergunta: mas porquê? E o escorpião diz que era a natureza dele.

E ficam as pessoas muito satisfeitas com a justificação. Gente má é má e pronto. O resto são histórias.

publicado por Manuel Anastácio às 07:11
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Sábado, 23 de Setembro de 2017
Amor é

Amor é

Não querer saber o que é

Não querer escrever sobre o que é

Pensar pode ser 

Mas sem querer

E sem precisar de concluir

O que for

Assim é muito simples isso do amor

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publicado por Manuel Anastácio às 20:34
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