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Sábado, 28 de Dezembro de 2013
Cristianismo

Bastaria que eles, sempre, em cada ocasião, se perguntassem "o que faria Jesus"? Subiria ao púlpito defender a proibição da entrada de emigrantes? Choraria frente aos caixões de Lampedusa e depois manteria as fronteiras a cadeado? Não. Os Cristãos que enchem as Igrejas e mantêm o poder nas mãos do conservadorismo militar, dos gajos dos submarinos, dos patriotismos, das austeridades (muito pouco franciscanas), parecem ter uma visão muito distorcida daquilo que Jesus faria. Para estes Cristãos devotos dos mercados, Jesus é um pedaço de pau, sagrado, mas não mais que um pedaço de pau, um totem do seu clã. Uma bandeira sem outra moral que não seja a da defesa intransigente da sua cómoda e confortável posição numa cadeia alimentar antropófaga. Cada vez que um cristão conservador se curva reverentemente frente a um crucifixo, Jesus é novamente espetado com a lança da mesma maldade e desprezo com que antes foi sacrificado. Sempre que um político cristão avança com medidas gravosas para órfãos, viúvas, pobres, e deixa as grandes fortunas incólumes, tem a sua própria mão a bater com as canas verdes do ódio e da iniquidade a coroa do martírio. Domine, ignosce eis, quod enim faciunt, nesciunt. Perdoai-lhes, Senhor, que a tua misericórdia é infinita, apesar de apertada. A minha é finita. Tolero porque não tenho outro remédio. O omnipotente és tu.

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publicado por Manuel Anastácio às 22:41
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Segunda-feira, 29 de Julho de 2013
LXXVIII

Depois de um papa cujo único mérito foi resignar-se antes que a Irmã Morte o fosse buscar, os cardeais decidiram, com alguma sensatez, escolher alguém com o perfil necessário para ser canonizado em vida. Francisco sabe já que, quando morrer, começarão a tratar do processo para o tornar oficialmente santo. Oficialmente porque, mesmo segundo os critérios teológicos do catolicismo, haverá com certeza mais santos no céu do que aqueles a quem o Vaticano põe o carimbo de certificação de qualidade. E não vou discutir agora se alguns merecem ou não serem santos. Eu não participo no jogo, quem participa é que deve pôr em causa as regras do mesmo. Mas, ainda assim, este papa, a meu ver, tem sido sobrevalorizado. Eu mesmo embarquei no entusiasmo no simples momento em que ouvi dizer que chamar-se-ia Francisco, o nome do santo que, no meu abalável agnosticismo (inabalável até ao momento), esteve mais perto do ideal cristão da ingenuidade infantil. Acontece que este Francisco não é Francisco de Assis. Pode entrar na morada dos pobres, caminhar entre os pobres, rir-se com os pobres; pode não cair no miserável ridículo de benzer artigos de luxo, como o papa anterior. Mas não é Francisco de Assis, até porque Francisco de Assis nunca desceria à indignidade de ser bispo e muito menos de ser papa. Aliás, como o próprio Jesus Cristo, o mais anti-sacerdotal e anti-hierárquico dos líderes religiosos da história da Humanidade. Hoje, vejo algumas pessoas a abanar ramos de palma e a gritar hossanas por uma bela treta dita pelo papa, treta essa interpretada abusivamente como um sinal de abertura e tolerância da Igreja. No Público aparece “Papa Francisco contra a marginalização dos homossexuais” - título interpretativo de um discurso puramente conservador. Veja-se: “O Papa lembrou que “o catecismo da Igreja Católica diz muito claramente que os homossexuais não devem ser marginalizados [por causa da sua orientação] mas devem ser integrados na sociedade”. Mas também recordou que a doutrina entende os actos homossexuais como um pecado.”. O papa disse, no fundo, que os homossexuais são aceites pela Igreja desde que... não pratiquem a homossexualidade. Só eu, neste triste mundo é que vejo como isto é ridículo?


Repare-se que os grupos neonazis russos que engatam homossexuais na net para os humilharem e torturarem publicamente poderiam subscrever na íntegra este discurso, até porque pretendem, desta forma, dar um corretivo a alguém que, no ver deles, será um pedófilo no futuro. Tudo a bem da integração numa sociedade onde ter satisfação sexual (mútua) com alguém do mesmo sexo é pecado. Heil Papa!

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publicado por Manuel Anastácio às 21:46
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Terça-feira, 9 de Julho de 2013
Enciclopédia Íntima: Pátria

Portugal, o país, nasceu de um puro desejo de poder. Não houve nele desígnios divinos ou um papel predestinado na história da Humanidade. Um rapaz quis ser rei, ou chefe de um bando de gente com força suficiente para se demarcar de outros com o mesmo desejo de dominação, e para isso lutou, matou, roubou. Impôs-se com a sua força e teve a sorte de os outros, por razões diversas, não terem conseguido impedi-lo de alcançar uma independência que não era mais que uma divisão entre senhores, em que o povo não foi tido nem achado. Depois, as lendas foram criando um sentimento de unidade. De Conquistador, Afonso Henriques passou a Libertador, coisa que nunca foi a não ser, talvez, de si mesmo, se descontarmos a ajuda que deu à libertação de alguns senhores do Norte, a um bispo e a algumas comunidades monásticas. Os primeiros a morrer nas batalhas que fundaram este país não lutavam por essa idealização tribal que é a Pátria, morreram porque a isso foram coagidos pela força ou porque tentaram a sua sorte. Mais tarde, sob a bandeira de uma propaganda política sustentada em histórias da carochinha, onde não faltaram milagres e aparições, a ideia de Pátria nasceu. Morrer como português, isto é, como cãozinho fiel a um dono imposto pela ordem da força e da mentira disfarçada de religião, passou a ser uma questão de honra, um livre trânsito para o panteão dos trouxas.


Talvez não seja assim tão simples. Nestas questões, os fautores da mentira são os primeiros a acreditar nela. Daí não faltarem nobres paspalhos elevados a heróis de um valor tão alto como as ilusões de glória e grandeza. Mera vaidade. Morte, apenas. Uma Pátria é um monte de ossos. Por respeito a essa vala de enganos e vidas desperdiçadas, em vez de missas, lápides e monumentos de bronze podia, ainda assim florescer a vida, o riso, a beleza compartilhada. Isso seria uma Pátria, e estaria disposto a morrer por ela. Por uma questão de amor.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:52
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Sábado, 6 de Julho de 2013
LXXVII

Há coisas de tal modo evidentes que não me ocorre senão pensar que o povo português, tão crente nas virtudes dos sacrifícios bestiais e demoníacos, à moda dos pastorinhos e da Senhora da azinheira, como crente na teoria de que a crise se deve aos bifes que andámos a comer a mais, só pode ser um povo de retardados mentais. Todos aqueles que acreditam que o resgate nos veio resgatar de alguma coisa e que a austeridade tem de ser e tem de continuar porque não há dinheiro (dizem eles,  repetindo a cassete: "eu também não gosto da austeridade, mas tem de ser, blá, blá, blá"), são os mesmos que apoiam os cortes na cultura, esse sorvedouro do dinheiro dos contribuintes para financiar os delírios duns gajos e de umas gajas de costumes fáceis e sem moral, que se autodesignam de artistas. Acontece que esses delírios dão lucro, dão receita. Há retorno. Nos resgates do FMI temos, de retorno, um abismo cada vez mais fundo, tanto nas contas do estado como na vida e dignidade de quase todos, para lucro de quase nenhuns. Isso devia ser evidente. Mas não é. O meu povo prefere acender velas à mensageira do advento neoliberal1. Falo da Merkel ou da gaja da azinheira? Das duas.

 

Peço desculpa antecipada a todos os crentes das ditas Senhoras, mas as árvores conhecem-se pelos frutos e destas azinheiras, só vi bolota bichosa e podre que nem aos porcos aproveita.
 

 

1. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz. (2.º segredo de Fátima: façam bom proveito deste tempo de paz, que até a senhora diz apenas "algum").

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publicado por Manuel Anastácio às 00:35
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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2012
A explicação dos abutres

Havia um padre na manifestação de ontem da CGTP, ao lado do povo, solidário com o povo. Os bispos portugueses, por seu lado, mostram bem de que massa fermentada são feitos. "Sentem a importância da explicação, clara e prévia, das medidas que se tomam e das razões que as determinam”. Pode parecer inócua esta frase que, aliás, não é nova e já foi proferida várias vezes por tais abéculas que o povo considera como guias espirituais e portadores de anéis dignos de beijoquice santarrona. Mas não é inócua nem apolítica-apartidária, como muito em má hora está na moda. Dizer-se que as medidas de exploração sádica de um povo empobrecido ao limite têm de ser explicadas tem uma mensagem explícita e imediata para quem os ouve: a mensagem de que estas medidas são justas. Incompreensíveis, mas justas. A Igreja, que tem grande prática em pedir/impor crença em troca de argumentos nulos (chamam-lhe Fé), pede agora resignação aos crentes, e uma dose de reforçada de fé numa coisa que tem explicação, mas que os governantes não têm conseguido explicar. Creio que estes senhores são minimamente inteligentes e sabem bem que a única explicação a dar é a de que este governo, e a direita em geral, só quer uma coisa: rebaixar o pobre à indigência para, assim, se arrogar ao papel sádico do exercício do poder e, simultaneamente, ao papel caridoso e paternalista capaz de aumentar a sua influência na sociedade. À Igreja não interessa, nem nunca interessou, que as pessoas vivam com dignidade, mas que só consigam obter essa dignidade graças aos seus favores, como bem o sabe e pratica a Máfia italiana. Um povo pobre e carente é um povo submisso e fiel cumpridor dos preceitos religiosos. Pode ser um povo alcóolico, minado de vícios: desde que peregrine de joelhos até aos santuários onde se prostitui a ideia de Deus e da santidade, tudo estará bem. A desgraça e a miséria é amiga da religião. Um governo que semeia destruição e desespero é um maná dos céus para as instituições de "solidariedade" social, veículo de vaidades de quem dá com a mão direita fazendo questão de que a esquerda e o resto do mundo o saiba. Não são todos assim, dirão. Pois não, o mecanismo é talvez inconsciente, fruto de uma ação impensada. Haverá, porventura, bondade nesta gente, mas é uma bondade envenenada, alienada, docemente drogada pelo cheiro do incenso e dos rituais; uma bondade nascida de uma maldade profunda, que se compraz nos sentimentos mais dolorosos da alma; uma bondade que se compraz em abraçar leprosos, achando nesse abraço a redenção da sua própria lepra moral; uma bondade que gosta de remediar os males que semeia e que evita a prevenção da tragédia; a bondade de quem lava a cara suja de esterco de quem caiu na latrina aberta por essa mesma vontade. Podia explicar isto melhor? Não, não podia. Nada há a explicar para quem, como Pilatos, lava as mãos e, assim, se embebeda no sangue dos mártires. E há quem prefira viver à espera de explicações que não existem do que em abrir os olhos para os expostos frutos podres da sua caritativa maldade.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:55
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Segunda-feira, 10 de Setembro de 2012
Deus e Eu

O que me irrita, de forma benigna, nos meus melhores amigos, é que eles não pensam como eu e, pricipalmente, eu não os compreendo de todo. Deus é um deles. Visita-me com frequência. Nunca me convida, aparece quando lhe apetece, e eu não levo a mal, até porque raramente aparece em alturas impróprias. Privilégio de ser Deus. Letra maiúscula por ser nome próprio e não por qualquer reverência. O cabrão, que é assim que o chamo e ele não leva a mal, condenando-me apenas ao Inferno (que ele jura não ter inventado) dá apenas uma gargalhada malévola e deixa a coisa continuar na amena cavaqueira. Há dias, estava eu piúrço com o gajo, chamei-lhe nomes que dava para um múltiplo infinito de Inferno, e amandei-lhe à cara que o Amor não poderia permitir a Morte, que eram coisas incompatíveis e que por isso, São João Evangelista, um gajo a quem pedi amizade no Facebook e até agora não respondeu, estava errado. Toda a gente que não aceita a minha amizade no Facebook está errada, como é óbvio. Não é o caso de Deus que não tem Facebook porque se diverte a ver contas fantasma a usurparem-lhe a divindade sem que o pessoal da Califórnia ligue puto à coisa. A Morte... dizia eu... e ele: sem a Morte não davas um chavo pelo Amor. E eu, que sou um gajo apaixonado para quem as mulheres se resumem a duas, a minha e as outras (Deus ainda me atirou à cara que ninguém possui pessoa alguma mas eu, como fanático que sou, dei um peido pela divina laracha), disse-lhe que só alguém com sérios problemas de Amor (a isso, o gajo fez um ar triste que me comoveu e que me levou a pensar que a vida amorosa é complicada até para quem é Todo Poderoso) é que podia ter inventado a Morte. E ele  disse-me, com a capacidade dada por milénios de conversas como esta, que estava sem palavras. E perguntou onde é que era a casa de banho. Ele foi e ouvi-o a virar o barco. Quando abriu a porta dei-lhe um abraço. Não te compreendo, és mau como as cobras ou pior, mas quem é que não fica avariado dos cornos pelo simples facto de ser Deus?... Ele sorriu, confundido e disse-me que eu não sabia a sorte que tinha. Enquanto ele descia pelo elevador, senti-me grato. Obrigado, Deus. Podes ser um verme execrável, mas deu-me a impressão que nos criaste assim por te sentires infinitamente inferior a alguém que te fez o que nos fazes a nós. 

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Terça-feira, 6 de Março de 2012
3 idiotas, de Rajkumar Hirani

Como é que um filme com este título, e fazendo-lhe jus de forma perfeita, consegue ser um dos meus filmes preferidos? Não sei explicar. Há partes que parecem a paródia de uma paródia a um filme de Bollywood (sendo, mesmo,um filme de Bollywood). Os atores parecem tirados dos Malucos do Riso (ou dos Trapalhões), mas com mais Graça. Não com mais piada. Graça. Porque este é um filme sobre a Graça. Não sobre a via da Graça e a via da Natureza segundo Malick. Nada de filosofias transcendentais. Apenas 1 idiota a quem a Graça dotou de uma sensatez indisciplinada e dois idiotas necessitados de quem os salve. Não um Messias. Disse-me a Maria Helena que quem acredita em nós é quem nos salva. Eu acredito nisso. Este filme também.

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Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011
Jesus ou Deus?

Fungo coral Clavaria zollingeri


 

Pedi perguntas a Deus. E Deus, lixado como é, que o diga o Diabo, veio-me com esta. Veio com uma asa avariada, tal como o anjo disfuncional do Caim do Saramago, que Deus não leu, e perguntou-me, com voz trovejante:

 

- DEUS OU JESUS?

 

E eu, cheio de temor a Deus, tendo acabado de ler o início do Oseias, só me ocorreu aquela de tomar como mulher uma prostituta, o que não parece ser conselho divino, não fosse ele lixado como nós sabemos que é. E disse-lhe, ó amigo, lá por ser Deus não quer dizer que agora tem o direito de fazer ultimatos desses. E ele (perdão, Ele) disse:

 

- EU SOU AQUELE QUE SOU!

 

E eu, cheio de temor a Deus, porque Deus é lixado e é mau para os filhos da sua primeira amada só porque são filhos da prostituição (Deus é lixado e faz os filhos pagarem os desvarios genitais dos pais, mesmo que ele tenha participado na ménage), não me fiquei e deixei bem claro que não lhe tinha nada que prestar contas, e que se alguém tinha que prestar contas dos meus defeitos era ele (perdão, Ele - que se lixe o perdão, ele mesmo) porque ninguém culpa o prato com falha pela falha que tem. Culpa-se o oleiro que, se for bom no seu ofício tem ao menos a piedade de enviar o fruto defeituoso do seu trabalho para o lixo assim que o faz, fazendo-o retornar para a reciclagem natural do Mundo que não criou. Deus há de ter, com certeza, um Mundo, por ele não criado, onde deitar o lixo que nascesse das obras que fez. Mas não o fez porque lhe dá jeito. Viver na eternidade não é coisa que cheire a ninguém. A Perfeição é, mais que tédio, inanidade e falta de imaginação. Deus precisava da Imperfeição humana como de pão para a boca. Fez-nos pequenos, pequeninos, para que não levantássemos a voz. Mas quando levantamos, ele diverte-se. É giro ver micróbios a comportarem-se como gigantes. E ele, divertido, vendo que já tinha lugar ao lado dele no Inferno (porque Deus só passeia no Paraíso pela brisa da tarde, e nem sempre, como fica claro nos primeiros versículos do Génesis), desligou o Caps Lock e deixou de gritar. Imberbe, não trazia traços de velhice. O Deus pai é, na verdade, um adolescente. Uma criançola, para dizer a verdade. Quase que dá, logo à primeira vista, para simpatizar com as suas falhas desumanas - desculpáveis, até porque nunca teve pretensões de ser humano.

 

- Deus ou Jesus?

 

E eu falei com ele com  outros modos. Que te interessa o que eu penso? Não sabes tu já o que eu penso?

 

- Se soubesse, não te tinha dado liberdade para fazeres as asneiras que fazes. Não coloquei câmaras de vigilância no cérebro de ninguém.

 

Isso fez-me simpatizar com Ele (ele, perdão), confesso. Quer dizer que não sabes tudo?

 

- Claro que não. O Espírito Santo é que anda por aí a espiolhar a trama do Mundo, não vá haver um paradoxo que me leve com o resto num estouro, para o nada.

 

E interessa-te o que eu penso?

 

- Tudo o que é humano me interessa. Por isso criei o Homem. À minha semelhança, mas não igual a mim.

 

Inferior a ti?

 

- Não diria tanto. Em termos de comparação de valor, vamos dar ao mesmo.

 

Isto fez-me simpatizar mesmo com ele. Pareces-me mais humano do que pensava. Mais que a maioria dos humanos.

 

- A culpa de me imaginarem de certa maneira é apenas da responsabilidade dos seres humanos. Volto à pegunta inicial: Deus ou Jesus?

 

Mas tu és Deus. Estou a falar contigo. E não tive o privilégio de falar com Jesus. E, confesso, pelo que sabia de ambos, que Jesus era melhor peça que tu.

 

- E se Jesus fosse Eu, de facto?

 

Não acredito. Sois muito diferentes.

 

- Somos mesmo?

 

Não. De facto, sois iguais. De facto, sois iguais a todos nós. Filhos da prostituição, citando Oseias.

 

- Estás a chamar-me o quê?

 

Isso mesmo, mas sem ofensa.

 

- ... Tu o dizes.

 

E o seu olhar de sofrimento fez-me ter compaixão dele e aceitei, por fim, o lugar reservado no Inferno, sem orgulho, sem resignação. Deus não é perfeito. E Jesus não ressuscitou.

 

Porque nunca morreu.

 

E Deus tem o dom de nos comover, fracos que somos.

 

 

...

 

 

 

- Assim, Deus vem ter contigo para discutir um assunto sério e resolves tudo com meia dúzia de frases, sem qualquer nexo?

 

Acho que foi revelação divina. Algo que nunca saberás o que é. A intuição a Deus não pertence.

 

- Confesso que, ao menos, agrada-me a conclusão. Temos a Eternidade para discutir os pormenores.

 

Tu o dizes.

 

 

 

...

 

 

- Ainda assim, a pergunta não era "Deus ou Jesus", mas "Jesus ou Deus".

 

Tens razão. Dá para outro texto. Mas tu é que me deste a volta e trocaste a ordem. Não existe a propriedade comutativa da interrogação.

 

- Tenho sono.

 

Já tinha reparado.

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publicado por Manuel Anastácio às 22:02
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Sexta-feira, 9 de Julho de 2010
Eu sou o caminho, a Verdade e a Vida - Evangelho Segundo São João 14, 6

O comentário lacónico (ainda que repetido: propositadamente?) da Gerana ao artigo anterior fez-me compreeder que não fui muito claro na exposição da ideia a ele subjacente, podendo parecer que fazia a apologia do sacrilégio, pelo que decidi tentar mais uma vez:

 

A imagem de Cristo (Cristo, enquanto símbolo) com uma mulher nua é provocação pela provocação? Eu tenho as minhas dúvidas, ainda que tenha a leve impressão que os responsáveis da Playboy portuguesa não andassem muito longe. Segundo eles, a revista não é apenas uma revista de mulheres nuas (apesar de ser por causa delas que a revista tem o seu público cativo), tendo, também o objectivo de agir social e culturalmente. Supostamente, a homenagem a Saramago, utilizando a imagem geralmente atribuída a Jesus de Nazaré (que não seria aquela, quase de certeza) serviria o fim de reequacionar a ideia de pecado. Ora, não há evidências nem históricas nem seriamente teológicas de que Jesus de Nazaré não tenha conhecido o amor da carne, utilizando a expressão de Saramago. A ideia de que Jesus se absteve sempre do amor carnal fundamenta-se na mesma ideia, hoje considerada heresia pela própria Igreja Católica, de que as funções vitais biológicas (alimentar-se, por exemplo) eram, em Jesus, mera aparência.

 

Mas vamos partir da ideia de que Jesus, de facto, jamais conheceu o amor carnal ou, pelo menos, jamais o consumou, apesar de, eventualmente, ter tido o desejo biológico conforme ao mesmo. Será que Jesus iria condenar a utilização da sua imagem, ou da imagem que os séculos lhe atribuíram, num contexto erótico? Talvez sim, talvez não. Muitos foram os momentos em que Jesus se comportou de forma inesperada ou mesmo sacrílega. Muitos foram os momentos em que as convicções morais dos seus discípulos sofreram fortes abalos perante a liberdade de julgamento de Jesus. Ele sentava-se à mesa com aqueles que pecavam em detrimento daqueles que se julgavam os baluartes dos bons costumes. Se há algo de profundo na mensagem de Cristo é a ideia de que é o amor que redime o ser humano e não a reverência perante os símbolos. O sacrilégio é o desrespeito deliberado em relação aos símbolos sagrados - até porque é impossível desrespeitar o sagrado em si mesmo. O sagrado é transcendente e não é manchado por qualquer acção humana. Jesus, ao desrespeitar o sábado fê-lo de forma deliberada. Sabia perfeitamente que estava a remeter o símbolo para o seu lugar de símbolo, o ritual para a sua mera função ritual, ou seja, dramatização da coisa sagrada. E a dramatização pode ser profanada. O sagrado só pode ser manchado pelo Homem através da sua consciência, já que é na consciência humana que reside o sagrado ou, pelo menos, se estabelece a ligação entre o indivíduo e o transcendente. O pecado "contra o Espírito Santo", aquele que não é passível de perdão, é um pecado contra o sagrado em si mesmo e não um pecado contra os símbolos ou os rituais. É o pecado contra a própria consciência.

 

Na minha consciência, Jesus, tendo ou não conhecido o amor carnal, saberia ler no coração de quem fez a capa desta "Playboy". E veria, com certeza, mas apenas, a mancha da despudorada vontade de vender e obter lucro com o desrespeito a um símbolo.

 

Mas ao desrespeitarmos um símbolo, não estamos a desrespeitar as pessoas que reverenciam esse símbolo? Com certeza que sim. E Jesus fê-lo constantemente. Não porque o símbolo seja desprovido de qualquer valor - tem, ao menos o valor do significado de uma mensagem que é partilhada por uma dada comunidade, mas não tem o valor do próprio sagrado. São coisas distintas. Da mesma forma que as palavras. Também elas são suportes arbitrários através do qual se transmite algo que não é arbitrário. Se uso palavras para transmitir uma ideia, posso fazê-lo utilizando qualquer código linguístico (e qualquer código é, em si mesmo, arbitrário), mas a ideia a ser transmitida não é arbitrária, tem uma realidade própria que não é modificável, mesmo que possam ocorrer erros na utilização e interpretação das palavras usadas. Quando eu digo "Jesus gosta disto", posso ser mal interpretado exactamente porque as palavras são pura areia movediça. O "gosto disto" do Facebook é, mais que uma expressão composta por duas palavras, uma ferramenta no sentido próprio do termo: uma entidade física (neste caso, software) que permite uma determinada acção considerada útil, que neste caso é acompanhar uma ideia e a interacção que outros têm com essa ideia, na procura incessante da sua cabal apropriação. Por isso, um artista pode passar a vida a compor, esculpir ou pintar sobre um determinado tema, porque "gosta disso". É uma ideia que acompanha, com o fim da sua apreensão o mais completa possível. Por isso, os textos filosóficos parecem, tantas vezes repetitivos. Porque o Filósofo tem consciência de que as palavras usadas numa formulação não bastam para a transmissão cabal da ideia, sendo necessário reformular até à exaustão aquilo que nele é claro ou, pelo menos, pressente como claro. Tal como as palavras, os símbolos não são sagrados. A óstia consagrada só é sagrada no íntimo, ou na consciência, de quem participa do ritual da comunhão. Não é a própria óstia que é sagrada, apesar de as palavras dizerem que sim. Porque as palavras, tal como os símbolos, são sempre deturpáveis. São-no constantemente, mesmo pelo mais fervoroso crente que, muitas vezes, interpreta de modo errado aquilo em que supostamente acredita. E aquilo em que supostamente acredita só pode seguir dois caminhos: ou se enquista num dogma pessoal e na ausência de questionamento (isto é, a ausência de caminho), ou segue a trilha da dúvida e da procura da verdade (o caminho percorrido por Jesus: "Eu sou o caminho, a Verdade e a Vida"). E a procura da Verdade e da Vida é contrária à reverência absoluta aos símbolos. É por isso que acredito piamente que Jesus "gostaria" daquela capa, mesmo que, tal como eu, a pudesse considerar uma foleirice feita sem qualquer gosto.

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publicado por Manuel Anastácio às 09:53
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Terça-feira, 18 de Maio de 2010
In vino veritas

Havia, segundo Heródoto, um povo cujos legisladores embebedavam-se enquanto faziam as leis e depois as ratificavam enquanto estavam sóbrios. Há, sem dúvida, maravilhas na abstinência. Há, sem dúvida, horrores na dependência. Há, porém, sabedoria na convivência. O álcool, como qualquer droga - que é uma droga, disso ninguém tem dúvida, e sem tem dúvida é porque é ignorante - abre portas para o desconhecido. Mas o desconhecido nem sempre é bom caminho. Há quem sabe conviver com a desorientação e torná-la via aprazível. E há quem, desorientado, não sabe voltar a casa.

 

Ver Nostalgia.

 

O vinho apenas é bom para os nostálgicos. Os outros, que já sofrem por viverem sempre em casa, ou são alcoólicos ou, ainda bem, são abstémios.

 

Não estou a brincar. O álcool é um dos fundamentos da civilização ocidental. Para o melhor e para o pior. Vai da apreciação relaxada de uma boa garrafa de vinho ao envenenamento de estudantes (e do futuro da humanidade) numa queima das fitas.

 

E o fígado agradece um pouco de vinho (a biologia ensina que excessos casuais são essenciais para a manutenção do equilíbrio do organismo - a hiperprotecção só resulta em enfraquecimento orgânico). O estômago, também, agradece - já o dizia Paulo a Timóteo. E digo-o eu, que sou muito severo com Paulo.

 

Reparem que falo de vinho. Não falo de cerveja nem de vodkas, runs, cachaças e derivados... Essas são outras histórias.

 

E termino fazendo tin-tin (expressão copiada da Gerana) a todos aqueles que optam por negar a si mesmos um prazer. O prazer é a chave para a perdição da humanidade. Cristo sabia-o (e bebia vinho). E não recusou a si mesmo, no Jardim das Oliveiras, o cálice supremo do vinho amargo do desconhecido.

 

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publicado por Manuel Anastácio às 23:22
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