Sábado, 23 de Setembro de 2017
Amor é

Amor é

Não querer saber o que é

Não querer escrever sobre o que é

Pensar pode ser 

Mas sem querer

E sem precisar de concluir

O que for

Assim é muito simples isso do amor

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publicado por Manuel Anastácio às 20:34
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Segunda-feira, 6 de Março de 2017
Todas as águas

Aqui é primavera.

O inverno espreguiça-se, contrito.

Pede perdão enquanto morre.

As árvores explodem no grito

Aflito do tempo. Os minutos escorrem, húmidos,

Frios, sujos e vivos como o rio

Onde desaguam, como dejetos, os adjetivos.

Aqui é primavera e deus não quer saber dos vivos.

Limita-se a dar corda ao mecanismo

- motor imóvel do vazio.

As aves devoram o abismo e a madrugada.

Os gatos choram no cio. A vida acorda transtornada.

Aqui é primavera, mas deus não deu por nada.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:28
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Sábado, 25 de Fevereiro de 2017
Todos os poemas

A má poesia é dizer lágrimas

Silêncio

Marés

Lua

É dizer corpo e suor.

É discorrer sobre orvalho, geada e flores.

É convocar dores em apóstrofe.

É fazer chorar guitarras

E rimar com cigarras o coachar das rãs.

É dizer noite com palavras diurnas.

É cobrir o sol de gargalhadas soturnas

E abafar a luz com a melancolia do amor.

É usar o ponto de exclamação

E reticências.

É falar do coração!...

De coração. É saltar cacofonias.

É transmutar palavras em excrescências.

Fazer do verbo quistos e tumores.

É dizer o que se quer esconder;

Fingir que as alegrias são dores;

E explicar o que ninguém quer, mesmo, de todo, saber.

 

Má poesia é toda a poesia.

Nem Homero, nem Virgílio nem Pessoa.

Nem Pessanha, nem Dante nem peçonha.

Só os doidos a escrevem,

Nos espavoridos esgares da ronha,

E a recitam em veludos de hipocondria.

Entretanto, outros passarão por ela

E verão nas formas do seu caos

Sublimes cânticos de profecia.

É assim a pior,

Como será, provavelmente, a menos má,

E mais inútil, da poesia.

 

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publicado por Manuel Anastácio às 23:30
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Domingo, 15 de Janeiro de 2017
Yonkers, Tyler, the Creator

Tyler, The Creator, tem uma conversa cheia de contradições com Wolf Haley, um dos seus heterónimos a quem o mesmo atribui a própria autoria deste vídeo. Wolf é caucasiano e é má rês. Mas tem jeito. A fotografia, num preto e branco sublime, joga magistralmente com a instabilidade da focagem, e a sua radical transformação em sombra, como que dobrando a própria instabilidade lírica, confessional e polifónica.

O vídeo foi amplamente considerado um dos melhores do ano de 2011.

 

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publicado por Manuel Anastácio às 18:31
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Quarta-feira, 24 de Julho de 2013
I've seen horrors... horrors that you've seen.

Baba-se, a criatura.

Escorre saliva pelo queixo.

Falta-lhe compostura.

É asquerosa, viscosa, a criatura,

porque saliva. Não se controla.

Vai de viola, a criatura.

No reino da normalidade,

a saliva tem sentido único. E há controlo.

Ordem, criatura.

Baba-se, a criatura. Coisa feia.

Decadente. Velhice, doença, estado demente.

Falta-lhe compostura,

à abjeta criatura.

E chora, parece que tem sentimentos, a criatura.

Talvez os tenha.

Mas falta-lhe a compostura.

Parece ter o mundo às costas

e, lá dentro, todas as culpas originais,

congénitas ou acidentais, florescem em doces súplicas.

Mas anormais.

Baba-se, a criatura.

É mais linda, que as demais,

Mais aberta, luminosa, e tudo o mais.

Mas baba-se, a criatura,

escorre saliva pelos queixos.

Não pode aspirar a mais.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:50
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