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Domingo, 27 de Maio de 2012
Tourada, princípios e imagem

Tive a honra de participar como delegado na última Convenção do Bloco de Esquerda, onde se definiriam as orientações políticas do partido. Muita gente, ao saber desta Convenção pelas notícias, regalou-se com as cisões ideológicas entre alas mais "Louçã" (as minhas) e outras alas, simpáticas umas (como a antitotalitária) e a extremista (que, entretanto, debandou para outras freguesias). Para mim, foi o revelar de um partido feito de partidos, feito de opiniões e de gente que não canta a mesma cartilha como se fosse a tabuada na escola. Estava entre gente que pensava por si, entre ovelhas negras, azuis e de todas as cores, não dispostas a seguir o rebanho, mas a decidir em conjunto o caminho a seguir pelo rebanho. À entrada, ativistas dos direitos dos animais pediam para votarmos a favor da inclusão de uma adenda que colocasse o Bloco de Esquerda como defensor implacável dos direitos destes animais nobres e criados na natureza como soberbos na sua herbívora dignidade. Detesto o taticismo político. Sei que o há também no Bloco de Esquerda, como em qualquer partido. Sou por princípios. E o princípio de que tourada na arena é barbárie e na cama é coisa boa, é daquelas coisas que gostaria de ver ser considerada pelos meus camaradas como coisa unânime, fossem eles marxistas, leninistas, maoístas, estalinistas ou que bem lhes apetecer na carola. Não era contra os bifes que se insurgiam os ativistas - e bem podiam. Custa-me admitir, mas é verdade que eu como e gosto de carne, mesmo reconhecendo a violência implícita no ato. Mas há uma diferença entre matar um animal para comer (como acontece, violentamente, na Natureza desde que há animais) e matar para divertimento e prazer estético. Talvez um dia me torne vegetariano, mas essa é outra conversa, embora me custe deixar a posta mirandesa (sinto-me como um canibal com peso na consciência). Não tive dúvidas de que deveria votar a favor de um partido absolutamente antitourada. E foi assim que votei, tal como a maioria dos delegados. Mas dos outros que votaram contra, curiosamente, ninguém era a favor das touradas. E eu não compreendo isso, nem no Bloco nem na Santa Madre Igreja. Princípios são princípios. Vão contra um gosto enraizado de um povo embrutecido, que se diverte a passar coelhos e sapos a ferro na estrada, e a ver sangue a jorrar e vísceras a latejar em corpos de belos animais esventrados. Há gostos para tudo, dizem. Pois há, mas nesse caso também deveríamos legalizar a pedofilia, são gostos, não é assim? Que gostos não se discutem. Parvoíce, extrema, que os gostos são a coisa mais discutível do mundo e por isso mesmo são o melhor tema de conversa entre gente que se conhece há pouco tempo. Nesse dia, o Bloco de Esquerda passou a ser, contra a tradição grunha portuguesa, contra as touradas. E eu fiquei mais orgulhoso do meu partido do que nunca, pela coragem tomada. Há dias, à conta de uma fotografia falsa que anda pela Internet, deparei-me novamente com uma coisa que me incomoda deveras - quando aqueles que estão supostamente do meu lado tentam convencer os outros usando da mentira. Quando Saramago ou Miguel Torga descreveram o sofrimento do animal sob o seu ponto de vista fictício, usaram de uma mentira benigna e nobre. Mas quando se apresentam fotografias de um suposto acontecimento que, se alguma vez ocorreu, não foi fotografado, aí, quem se indigna sou eu. A mentira descarada nunca poderá servir de alicerce à mudança das consciências. Ou a verdade fala por si, ou a luta é contaminada pelos mesmos vícios daqueles que já mandam nos destinos do mundo. A fotografia mostra um toureiro sentado em posição de desânimo, como se tivesse sido atacado por um qualquer achaque físico ou psicológico perante um touro, sangrando no dorso, numa atitude não ofensiva. Descobri que a fotografia foi sendo interpretada e reinterpretada por muitos, a ponto de se identificar o toureiro com o colombiano Álvaro Múnera, que se dedica atualmente à defesa dos direitos dos animais e das pessoas incapacitadas, depois de ter sido colhido quase fatalmente na arena, pouco antes de outro amigo seu, também toureiro, ter morrido em situação semelhante. Na verdade, Múnera confessou numa entrevista que por várias vezes tinha ponderado deixar a arte de matar em público. Depois de matar uma novilha grávida e ver o feto morto, vomitou,mas foi convencido de que nojos desses eram para maricas. Foi preciso que a força torturada de um animal o convencesse. A sua história é mais bela e convincente que uma fotografia falsa. Mas uma imagem, mesmo falsa, vende melhor uma ideia; um texto é sempre difícil e ninguém está para isso. É verdade que uma imagem diz mais que mil palavras. Mas cuidado. Pode dizer também aquilo que nunca foi. E, aí, só as palavras resgatam a imagem daquilo que ela não diz.

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Melancolia

Melancolia, de Albrecht Dürer


A melancolia não é um estado depressivo. Pode ser ou não. Não é isso que a define. A melancolia é o estado de alma que nos aproxima do peso e do número das coisas. É o estado necessário para a compreensão íntima da música. Uma pessoa que afaste a melancolia nunca será - notam a aliteração? - um melómano, porque não apreende intuitivamente os números e as grandezas - e a música não é mais que grandezas puras em diálogo, onde apenas o timbre se insinua como elemento concreto a contaminar de realidade material um objeto feito de vibrações e de tempo. Enquanto que os estados despreocupados e luminosos nos conduzem à unidade do real, a melancolia conduz à multiplicidade definida de cada instante, como acontecerá a um cego que se orienta, no mundo, guiado pelas dimensões exatas e relações espaciais definidas e de preferência não alteráveis. O melancólico vê em cada acidente do real a excepção, sem desejar sistematizar o mundo em regras mais ou menos constantes e, por isso, evita a ação por lhe faltarem os instrumentos com que poderia redistribuir o real. Para o melancólico, o número é a quantidade contemplável mas alheia a qualquer manipulação ou operação.

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Quinta-feira, 25 de Março de 2010
A violência nos filmes de John Ford era verde, como o vale...

Nesta cena de "O Vale era Verde", de John Ford (o maior realizador de cinema de sempre, e um dos melhores contadores de histórias de sempre), o bullying, que ainda não tinha esse nome nessa altura, é abordado de um ponto de vista algo condescendente, ainda que possa reter algumas ideias sábias. Condescendente é pensar que o acto de andar à porrada é potenciador da cumplicidade masculina. Isso já acontece em "O Homem tranquilo", outro grande filme de Ford, onde dois homens, depois de se escavacarem, estabelecem um pacto de tréguas selado na taberna. Há aqui uma moral absolutamente fora de moda que concerne aos estereótipos da masculinidade - e note-se que o fenómeno do bullying é também típico do sexo feminino (de uma forma mais subterrânea mas frequentemente causadora de maior sofrimento que a mera violência física, típica dos rapazes). Lembro-me de um agressor que tira partido (e prazer sádico) da fraqueza das vítimas num filme de Ford: Liberty Valence. Num mundo sem lei, Liberty é o legislador. As vítimas, desejando a instauração da lei, são obrigadas a responder contra Liberty Valence nos termos da sua própria lei, através da violência e do homicídio, para poderem instaurar, finalmente, o estado de direito. Numa escola onde não há lei (ou há, mas cuja aplicação prática se resume à inacção), nada mais resta às vítimas senão aceitar a lei do agressor. Com uma diferença, em relação ao filme: o estado de direito não será instaurado.

 

Mas, deste filme, e desta cena em particular, fica a atitude do pai que paga ao filho por cada nódoa negra e por cada ferida que trouxer da escola, enquanto que a mãe prega as virtudes da não-violência. Nisto, Ford (através do pai) tem razão. Fugir às feridas é semeá-las.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:30
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Sábado, 20 de Março de 2010
Faça lá um poema, ou, então, copie

O Dia Mundial da Poesia vai ser comemorado amanhã no Centro Cultural de Belém com a presença das ministras da Cultura, Gabriela Canavilhas, e da Educação, Isabel Alçada e, entre as actividades previstas, para além de uma maratona a ler Fernando Pessoa, serão entregues os prémios de um concurso escolar, no âmbito do Plano Nacional de Leitura, de seu nome "Faça lá um poema". Até aqui, tudo bem.

 

No regulamento do concurso é dito, entre outras coisas, que:

9. Os trabalhos serão avaliados por um júri de cinco elementos, designados pelo CCB e pelo PNL. O júri terá em conta a correcção da escrita, a riqueza de conteúdo e a originalidade do tema e da linguagem
10. Não haverá recurso das decisões do júri.

 

Há uma certa tendência, nas pessoas íntegras, para acreditarem nos regulamentos dos concursos. Mas sabemos bem que, em geral, os critérios utilizados pelos júris em Portugal são inescrutáveis, se acreditarmos nas suas boas intenções.

 

Ora, o poema que foi indicado como vencedor (1.º Prémio) do 1.º Ciclo, reza assim:

Eu quero ser tudo:
Arquitecta e aviadora,
Actriz de cinema mudo,
Médica ou domadora.


Super-heroína e marinheira,
Alpinista e professora,
Empregada e enfermeira,
Pirata ou engenheira.


Também quero ser escritora,
Polícia, com ou sem multa,
Mas o que eu quero mesmo ser
É uma feliz adulta.

 

 

Vou ter a discrição de não dizer o nome da autora deste poema, porque é uma criança, e a situação que me incomoda não se prende com a honestidade desta criança, mas com a competência do júri e/ou, sabe-se lá, com a honestidade intelectual dos professores que decidiram submeter este poema ao concurso. Está na hora de vos apresentar um outro poema, de José Jorge Letria, que integra um manual escolar do 4.º ano de escolaridade :

 

Eu cá quero ser tudo
Futebolista e arquitecto
Actor de cinema mudo
É preciso é que dê certo.

No fundo o que eu quero
É ser grande e bem depressa
Porque isto de crescer
Não pode ser só conversa.

Quero ser grande em altura
Sem ter projecto nenhum
E quem sabe se hei-de ser
Piloto de Fórmula Um?

Também quero ser marinheiro,
Alpinista e domador
Herói de banda desenhada,
Pirata e aviador.

Quero ser de tudo um pouco
Pois tenho imaginação
Para acreditar que acordo
Com o mundo na palma da mão.

No fundo, quando eu for grande
Sem que isso seja um insulto
O que eu acho que vou ser
Afinal é mesmo adulto.

 

As semelhanças entre os dois poemas são confrangedoras. É particularmente credível imaginar uma criança dizer que quer ser "actriz de cinema mudo" - tão credível que aposto que se lhe perguntasse o que é que é isso de cinema mudo, a menina deveria, provavelmente, fazer um esgar de espanto por tal pergunta já que, provavelmente, nunca pensou nisso. A menina que amanhã irá receber o prémio da mão da Ministra da Educação receberá, também, a excelente lição de que estamos num país onde papaguear, seguir, imitar e plagiar é condecorável. Todos sabemos que vivemos numa cultura de mediocridade, mas há algo em mim, algo que eu devia extirpar pela raiz, caso contrário ficarei com o sangue envenenado à medida que for envelhecendo, que me faz acreditar que não devemos abdicar da luta pela honestidade. E penso que a escola deve ensinar os alunos a não fazerem plágios e a valorizar a originalidade dos seus trabalhos, mesmo que, assim, a qualidade dos textos caia a pique. Ninguém espere sonetos de Camões da mão de uma criança do 4.º ano de escolaridade. Mas seria dignificante esperar que o júri, das duas, uma: ou respeitasse o regulamento e tivesse tido em conta o critério da originalidade (o que implicaria o simples trabalho de casa de dar uma vista de olhos nos poemas a que as crianças têm acesso, ou seja, geralmente, aos que aparecem no manual) ou, então, que quem concebeu o regulamento previsse a hipótese de haver recurso das decisões do júri. Graças a Deus que podemos dizer que o poema não é, palavra por palavra, um plágio, mas, tendo em conta o mérito dos alunos que ficaram com o segundo e terceiro prémio, creio que se devia valorizar o esforço de alguém que tentou acrescentar algo ao mundo e não apenas fazer fotocópias borradas. O bonito da coisa é que o autor do poema quase plagiado (eu retiraria o "quase", mas vou dar o desconto), José Jorge Letria fará parte das comemorações no CCB. Não faço ideia se o mesmo fazia parte do júri que atribuiu os prémios, o que teria a sua graça (o mestre a premiar a discípula?), mas acreditando que está alheio à coisa, espero que não haja escândalo durante a cerimónia. O mal está feito, o júri que pague um almoço ao Letria e fiquemos todos de boca calada, que daqui a uns meses ninguém mais fala ou pensa no assunto. A não ser, claro, uma criança que verá premiada a sua preguiça mental.

 

Finalmente, vou homenagear as crianças que se esforçaram e que terão o sabor azedo dos lugares secundários do pódio, até porque não tenho dúvidas de que já se aperceberam da injustiça. E homenageio-os com a publicação dos seus poemas, com a devida identificação do AUTOR.


Fernando Pessoa
I
Era poeta e escritor
Por quem a gente se afeiçoa
Escreveu poemas para crianças
Chama-se Fernando Pessoa.
I I
Era uma figura engraçada
Pequeno e muito magrinho
Parecia um pequeno triângulo
O seu pequeno bigodinho.
I I I
Na cabeça tinha um chapéu
Os óculos eram redondos.
Usava um casaco comprido,
Que lhe cobria os seus ombros.

 

Beatriz Neves de Carvalho

EB1 de Lombo d’ Égua

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Se eu fosse um lápis…

 

Se eu fosse um lápis
Nas tuas mãos a rodar,
Desenhava o teu rosto
Com um belo olhar.
Se eu fosse um lápis
Desenhava a lua e o mar,
E no imenso céu
As estrelinhas a brilhar.
Se eu fosse um lápis
Pintava rosas, cravos e jasmim,
E com lindas cores
Faria um belo jardim.
Se eu fosse um lápis
Desenhava um balão,
Para andar sempre
No calor da tua mão.

 

Leonor Brito Barata

EB1 TÍLIAS – Agrupamento de Escolas Serra
da Gardunha

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publicado por Manuel Anastácio às 17:16
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Domingo, 12 de Julho de 2009
Elogio da frustração

"A pair on a chair", de James P. Blair.

 

Leio no Paulo Brabo uma citação brilhante de  Ashleigh Ellwood Brilliant: "as minhas fontes não são confiáveis, mas as informações que me passam são interessantíssimas". Brilliant tem aquele toque de espírito (ou será humor inglês?) que consiste na reformulação do sentido da ironia de forma a dar consistência lógica e moral ao que é reprovável. Foi ele quem disse que, das duas, uma: ou queria menos corrupção, ou mais possibilidades de participar nela, até porque a corrupção não é mais que a forma determinada pela Natureza para que se mantenha a fé do cidadão na Democracia.  Não tenho dúvidas de que a Democracia, ao dar poder ao povo (mesmo que um poder mitigado e diluído, como acontecerá em qualquer democracia representativa ocidental), está a receber dele a permissão para que os representantes escolhidos pelo voto usem dos mesmos vícios populares, mas a outra escala. Só os ditadores se podem dar ao luxo de serem incorruptíveis sem se sentirem atingidos intimamente pelo sentimento da frustração. E não há sentimento mais reprovado hoje em dia pela sociedade que a frustração. E isso frustra-me. Errado. Chateia-me, apenas. Não há, hoje, maior ofensa que chamar alguém de frustrado. As pessoas são constantemente pressionadas para realizar os seus sonhos - e se desistem de o fazer, mesmo que seja porque os sonhos já não são os mesmos de antes, ou porque aos sonhos se decide preferir o chão em que os pés assentam, são imediatamente consideradas como abortos vivos, seres que não atingiram a perfeição de um sonho realizado. Sonho esse que, quantas das vezes, não é o seu. Ser doutor, ser rico, ser aplaudido, ser seguido, ser admirado, ser invejado. É esse o sentido da vida de quem não aceita ser falhado e recusa a simples ideia de conviver com a frustração. E claro que a corrupção é, evidentemente, o meio mais eficaz (ainda que nem sempre o mais eficiente) de realizar os sonhos e fugir à frustração. O homem político, frente à vida colectiva, não deixa de ser um indivíduo que partilha da crença comum de que a frustração é a negação da própria vida. Por isso, cede. Corrompe-se. E corrompido, destituído intimamente da sua integridade moral, retornará rapidamente, se for boa pessoa, ao ventre materno da frustração. Mas até os maus regressam à frustração depois do clarão ofuscante da realização do irrealizável. Graças a Deus, o mais democrata e igualitário dos ditadores, somos todos feitos de material corruptível e degradável, tanto no corpo, como no espírito, como na reputação. Brilliant diz que a vida não tem significado. Ou, por outro lado, até tem um certo significado. Que eu, como ele, pobres criaturas conscientemente e orgulhosamente frustradas, desaprovamos. É na desaprovação moral da condição humana e do seu destino em direcção ao nada que a frustração, metamorfoseada no sentimento profundo da injustiça, nos poderá fazer semelhantes aos santos. E superiores aos doutores, aos ricos, aos aplaudidos, aos seguidos e admirados. E, suprema felicidade, poderemos almejar (sem qualquer obrigação social ou íntima de chegar a tal meta) à repousante ausência do desejo de ser invejado.

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publicado por Manuel Anastácio às 06:45
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Sábado, 11 de Outubro de 2008
Problemas de comunicação

Restaurante "O Abocanhado", em Brufe, Terras de Bouro.

 

No artigo anterior, apresento como enigma a placa que encontrei em Brufe, Terras de Bouro. Como não tinha localizado especificamente este Brufe, é natural que alguns leitores, pouco conhecedores da geografia do Norte montanhoso de Portugal, pudessem pensar, depois de uma consulta a Santo Google, que me referia à freguesia de Brufe, em Famalicão. A internet e os meus posts podem, de facto, levar a essa conclusão errada. Em artigos anteriores, tenho exposto algumas fotografias de milheiros na paisagem montanhosa da Serra da Amarela, apenas com a menção de "Brufe". Se eu for, entretanto, à Wikipédia no momento em que escrevo este artigo, encontro na página "Brufe" a desambiguação para duas freguesias com o mesmo nome, uma em Famalicão, outra em Terras de Bouro. Acontece que a fotografia que ilustra o Brufe de Famalicão é um milheiro, no meio de couves galegas recém-postas e murchinhas de sede, num alto montanhoso. É natural, portanto, que se julgue (para quem não conheça as notórias diferenças entre Famalicão e Terras de Bouro), que eu falava do Brufe de Famalicão. Entretanto, já pus, na Wikipédia, a fotografia no lugar certo.

 

O Brufe de Terras de Bouro, situado onde Judas perdeu as botas é, entretanto, um local actualmente muito na moda graças a um restaurante de simples mas eficaz arquitectura contemporânea ("O Abocanhado"), sobre uma paisagem de maravilhas, e ao lado de uma aldeia de belos recantos de granito.

 

Entretanto, a Carla ajudou-me a clarificar algumas coisas, no mesmo sentido que a intervenção do Luís Bonifácio, cujas visitas muito me honram, a despeito das nossas claras diferenças ideológicas. Citando Manuel Antunes, no Blog Vento Norte: "[a Independência] pedimo-la [os de Terras de Bouro] logo em 1139, ainda antes da existência de Portugal, quando, na Veiga da Matança, em Valdevez, ajudámos (às ordens do normando Gonçalo de Abreu, descendente dos reis de França, vindo para Portugal com o Conde D. Henrique, donatário de Brufe, aldeia vizinha de Vilarinho) D. Afonso Henriques e os seus homens, contra o Reino de Leão. E lutámos por essa independência (a de Portugal), ao lado de D. João I e ao lado de D. João IV. Por isso é que, desde o princípio da nacionalidade, os reis de Portugal concederam às Terras dos Búrios (actual Terras de Bouro) o "privilégio" de os seus mancebos não participarem no exército do reino, com a condição de defenderem a fronteira com o país vizinho, nomeadamente na Portela do Homem, na Portela da Amarela, no Castelo de Bouro, etc. (...). "Privilégio" esse que perdurou até 1834."

 

O Luís Bonifácio, contudo, em comentário anterior ao da Carla dizia "No caso de Brufe, um dos direitos que tinha era o de não dar mancebos para o serviço militar, ao contrário do que sucedia com outras povoações ali perto. E porque é que Brufe tinha esse direito?" - pergunta... E responde: "Basta ler a placa!" - não, não basta ler a placa! A placa não explica, em lado algum a razão do privilégio (entretanto esclarecido pela Carla). Apenas diz que apesar desse privilégio, Brufe "honrava o país na luta contra o invasor"! Mas qual a razão da referência específica a 1706? E qual era esse invasor? O Luís diz: "os seus habitantes se notabilizaram por feitos heróicos na sua defesa [na defesa de quê, ao certo?], muito provavelmente durante a Guerra da Restauração, pois na Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714) não ocorreram quaisquer combates no norte do país." - ora, a Guerra da Restauração terminou em 1668, por isso continuo a considerar como enigma aquela data, naquela placa. E, tal como o Luís diz, na Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714) não ocorreram quaisquer combates no norte do país. Por isso, por que razão aparece 1706???

 

O enigma persiste. Para mim, pelo menos.

 

 

Paisagem da Serra da Amarela, Brufe, Terras de Bouro.

publicado por Manuel Anastácio às 19:51
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Terça-feira, 30 de Setembro de 2008
Buxo e buchos

Cena de Eduardo Mãos de Tesoura. Sem buxo.

 

A Gerana pergunta o que é buxo. Em primeiro lugar, é, de todas as plantas, provavelmente a que é mais utilizada na nem sempre nobre arte da topiária, que consiste em aparar árvores e arbustos de forma artística, como fazia o Eduardo Mãos de Tesoura. De facto, é das poucas plantas que gosto de ver aparadas. As árvores têm dignidade própria e uma beleza superior quando não são forçadas a caber nas formas do mau gosto humano. Claro que nem chego a falar do deplorável e criminoso costume de cortar drasticamente os ramos a árvores de grande porte, de modo a promover todos os anos uma copa desproporcionada de pequenos ramos enfezados - costume tão frequente no meu Portugal arboricida e que tem sido especialmente denunciado pelo meu amigo Nuno Teixeira Santos. O buxo (Buxus sempervirens), porém, permite devaneios artísticos ao jardineiro sem que a planta perca a sua dignidade. O jardim de "O Rapaz de Bronze", de Sophia de Mello Breyner Andressen dá especial atenção ao jardim de buxo, local que enchia as medidas da vaidade dos gladíolos.

 

Não confundir buxo com bucho, que é o estômago de alguns animais e que é utilizado na gastronomia da Beira Baixa e arredores. Na minha terra natal, o bucho de carneiro é utilizado para fazer "arroz de maranhos" que, geralmente, é confeccionado em bolsinhas de estômago cozidas. Quando havia a matança do porco (actividade que envolvia sempre muita gente, como se fosse uma festa) havia dois momentos altos que marcavam os trabalhos depois da morte do porco: quando se assava a passarinha e quando se assava o bucho. Quanto à passarinha, nunca entendi o que era bem ao certo - e não tem nada a ver com a genitália feminina, porque os porcos machos também a tinham. Santo Google diz-me que no Brasil chama-se passarinha ao pâncreas do Boi, mas não sei se poderei fazer a extrapolação. O bucho - o estômago do porco - era cozido com as morcelas logo no primeiro dia da matança e era comido grelhado mais tarde, marcando o final de toda a azáfama que se seguia à morte do porco - e que cabia sempre às mulheres. Os homens, depois de matar o porco, dedicavam-se à nobre arte de bem beber e petiscar.

 

Há ainda o bucho revirado, mal que dava a certas crianças e que não sei explicar. Terei de investigar. Santo Google não me ajuda.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:25
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Terça-feira, 16 de Setembro de 2008
Curta 40

"Modern Times", de Charles Chaplin - início.

 

- Por que escreve poesia em vez de...  Romance?... Crônica... Ensaio...?!

- A poesia é sintética. Rápida. É o Big Mac da literatura. As crónicas, essas, já são um bife à café ou uma açorda à alentejana - é fácil de fazer, dá pouco trabalho, é água a ferver, coentros e alho... Um romance exige mais tempo. Muito lume brando.

- É por isso que os portugueses escrevem mais poesia que ficção?

- Poesia é ficção.

- É?

- É.

- É por isso que os portugueses escrevem mais poesia que prosa?

- Não acredito muito nisso. Acho que toda a literatura portuguesa é poesia. E a que não é, não presta.

- Cara: acha que é por isso que os portugueses escrevem mais poemas p'rá titia que romances p'rá vovó?

- Ah! Assim já estamos a falar a mesma língua. Não.

- Não?

- Não acho nada disso. Os portugueses - eu incluído - escrevemos poesia porque não temos tempo para escrever coisas que se pareçam com a verdade. A verdade, ou o seu simulacro, exige tempo. É artesanato. Pode não ser tão apreciado e valorizado quanto a arte, mas exige mais trabalho. Trabalho físico e intelectual, entenda-se. A arte socorre-se apenas da ideia de "génio". Enfim, coisa de preguiçosos. O artesanato tem um valor intríseco maior que a arte - ou, pelo menos, que grande parte da arte... Enfim, e em suma: os portugueses são quase todos escritores de nascença. Mas só podem ser poetas porque não têm vida para serem romancistas, nem ensaístas. Produzem coisas rápidas para serem digeridas com lentidão.

- Quanto demora digerir um hamburguer?

- Não sei. Depende do estômago.

- Quanto demora fazer um hamburguer?

- Não sei.

- Rápido?

- Não sei.

- Fico esclarecido quanto à sua ignorância.

- Fico feliz por ter sido útil.

- ...

- Já agora: quanto tempo leva a fazer um hamburguer?

- Qual?

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publicado por Manuel Anastácio às 21:46
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Sábado, 5 de Julho de 2008
Enciclopédia Íntima: Memória (I)

Trailer de "Youth Without Youth" de Francis Ford Coppola.

 

A memória é uma das faculdades cognitivas mais mal compreendidas, mas também uma das mais fascinantes. Primeiro, porque, individualmente, manifesta-se de formas insuspeitas, por caminhos que ainda não entendemos, quer a nível fisiológico, quer a nível da sua estrutura conceptual. Segundo, porque é também um fenómeno social: há uma memória colectiva que se relaciona com outros conceitos como, por exemplo, o imaginário e, a nível da teoria da comunicação, com os suportes ou canais de comunicação. Terceiro, porque é uma faculdade da própria natureza, podendo-se manifestar em outros seres vivos que não o ser humano ou, quiçá, até em seres não vivos.

 

Há memória se houver evocação. A evocação é a contemplação de um objecto ou acontecimento não directamente apreendido pelos sentidos ou que pode, simplesmente, não existir. Há memória quando um animal reage a uma situação em conformidade com os efeitos que espera dessa situação (por exemplo, no reflexo condicionado) porque apesar de a situação ser, na altura, apreensível directamente pelos sentidos, os efeitos da mesma não o são. O cão sabe que o pau, batendo-lhe nas costas, provoca dor, e reage a quem o ameaça com o pau, não porque a memória evoque o pau, que é apreendido directamente, mas porque a memória vai evocar a dor, o que o obriga a reagir. Da mesma forma, há memória quando evocamos numa imagem, num som ou num cheiro o objecto que não está, efectivamente, ao alcance dos nossos sentidos, ainda que estes possam ser parcialmente iludidos. Há memória quando pensamos em flores ao cheirar um perfume. O cachimbo de Magritte é o mais flagrante dos ensinamentos sobre a memória enquanto representação: não é um cachimbo, mas evoca o cachimbo. Da mesma forma, quando vemos a representação de um unicórnio, esse ser, que, ao que parece, nunca existiu, é, da mesma forma, evocado, pelo que pode haver memória do inexistente -  entra-se aqui também no campo do imaginário, mas não exclusivamente. De facto, os próprios factos assentam em conceitos que, para todos os efeitos, não existem. A Matemática não é intrínseca à Natureza, ainda que a Natureza a ela obedeça  sem questionar a sua autoridade. A Matemática não existe, mas, ao ser evocada, tem, para o espírito, a autoridade da existência. Não sendo, é.

 

Paulo Rendeiro Marques, na Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura diz que a memória existe em todos os animais pluricelulares, excepto nos poríferos e nos mesozoários. Pouco sei de tal bicharada, nem sei a que género de testes foi submetida, mas duvido que não encontremos neles, de alguma forma, o conceito de memória. Não podemos, contudo, cair na tentação de confundir informação com memória. Por exemplo, a memória dos computadores não é, de facto, memória mas, apenas, armazenamento de informação - ou seja, disposição de matéria segundo uma ordem que pode evocar significados a um sujeito. A informação guardada num computador está tanto na memória como nos traços de um desenho sobre o papel... No entanto, depois de esquecermos alguma coisa (de a termos apagado da memória), pode acontecer que a reevoquemos a partir desses repositórios de informação externa à nossa memória. Isso é, de facto memória? É-o, já que algo não apreensível pelos sentidos (no passado) é evocado, posto à nossa apreciação, apesar de já não existir no mesmo contexto espácio-temporal do sujeito. E então, como é que ficamos: uma biblioteca ou um museu são ou não suportes físicos de memória? São. Enquanto existir gente que ao percorrê-los, consiga evocar o quer que seja, mesmo que de forma errada. O arqueólogo que interpreta de forma errónea um dado artefacto, fá-lo não por incompetência ou má fé mas porque a Ciência, enquanto mobilização da memória, vive da aproximação à realidade que se quer evocar tão próxima quanto possível da verdade objectiva, exterior ao sujeito. Acontece que qualquer evocação é sempre acompanhada de distorção e, por vezes, implica a reconstrução total do acontecimento, mesmo quando fomos actores nesse acontecimento. Um dia encontramos uma frase escrita num caderno e sabemos que fomos nós os autores da mesma, mas, por mais que nos esforcemos, não nos conseguimos lembrar o que nos motivou a escrever aquilo nem como e quando o fizémos. Resta-nos colocar hipóteses, algumas das quais, por serem consistentes, acabam por serem tomadas como factos e ficamos convencidos de que nos lembrámos da razão por que  escrevemos a frase.  A convicção torna-se quase certeza, ou mesmo certeza, porque o poder evocativo da hipótese mais consistente chega a propor-nos imagens do acontecimento que já estavam de todo apagadas da nossa memória ou que nunca nela poderiam ter estado, porque nunca as vivemos. Contudo, outra pessoa encontra a mesma frase e diz: escreveste isso naquele dia em que... e descobrimos que fomos traídos pela memória que, neste caso, se confundiu com a imaginação.

 

O conhecimento da História só pode germinar quando assumimos a impossibilidade de regredirmos ao passado, mesmo que a regressão ocorresse apenas com recurso à mentepsicose,  como acontece no filme "Youth without Youth" de Francis Ford Copolla. A Ciência teria sempre de olhar para a arqueologia mental da personagem do filme de Copolla (e do romance de Mircea Eliade) como um caso de imaginação prodigiosa - eventualmente muito proveitosa mas, ainda assim, imaginação e não memória. As duas, mais tarde, poderiam eventualmente diluir-se até a imaginação se transformar em imaginário, que constitui grande parte da memória colectiva.

 

Quero dizer, então, que, na Ciência, a memória tem origem na imaginação? Claro que sim: na imaginação que se desenvolve activamente a partir de um suporte objectivo e/ou cuja consistência e adequação ao que nos é dado a apreender pelos sentidos a habilita a transformar-se em memória colectiva, ou seja, a formar um dado quadro mental, que se inserirá, por sua vez, num paradigma mais vasto.

 

Quando escrevi, no poema do artigo anterior, que "creio (...) num só múltiplo princípio", evoco esta mesma indefinição do começo das coisas, sejamos nós mais ou menos deterministas. Contudo, o fim só pode ser um, ainda que eternamente adiado porque é inevitavemente incognoscível tendo em conta as nossas limitações corporais: esse fim é a verdade. O Juízo Final.

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publicado por Manuel Anastácio às 01:11
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Sexta-feira, 30 de Maio de 2008
Vénus reflectindo sobre o que lê

Vénus reflectindo sobre o que lê. Escultura em granito, data desconhecida, Paço de Ançariz, Escudeiros, Braga. Foto minha em Creative Commons

 

 

É terreno privado. Pedras privadas. Interesse público. O lugar é o Paço de Ançariz, Angariz ou Ancariz, em Escudeiros, Braga, e que terá sido pertença do arcebispo Dom Diogo de Sousa, que o terá trocado pelo Campo da Vinha – conta a anfitriã que pouco sabe contar daquilo que vi. Como passava por lá frequentemente, e tendo eu manifestado interesse em conhecer os jardins e as pedras, conhecimentos houve que me abriram o portão ao lado da capela. Das pedras que vi, e das quais me falta bibliografia e palavra ajuizada para as compreender, restou-me o encanto e a revolta. Encanto, porque não há Miguel Ângelo nem Brancusi que me enterneça mais que os rudes talhadores de  granito das terras lusitanas. Não há igreja românica ou gótica que passe indiferente à minha vista. Cada rosa, signo-saimão, entrelaçado, flor-de-lis, carantonha, ave, monstro, sereia, esfinge ou pormenor pornográfico que se insinue na pedra medieval é por mim admirado à exaustão. Sou daqueles chatos que se demoram nas visitas em museus a olhar os pormenores que quase ninguém quer ver. Infelizmente, grassa a praga, nos museus, de se proibirem as fotografias (mesmo sem flash). Por isso, não são poucas as vezes em que gostaria aqui de falar de alguns desses pormenores, e não falo, porque me falha a pena, faltando-me a janela.

 

Faz-me impressão a apropriação por privados daquilo que devia ser pertença de todos. Há em Campo Maior um menir que foi transformado em acessório de uma discoteca. Menos mau é o caso, que a reutilização da Arte não é mais que prolongar-lhe a vida. Pior é quando a arte cai nas mãos de quem a esconde aos olhos de quem a quer ver. Ainda mais quando essa arte é um testemunho histórico que a torna indubitavelmente pertença de todos, usufruída apenas por alguns. A minha conversa de esquerda enjoará a muitos, com certeza, numa época em que ninguém é de esquerda, incluindo os adversários do nosso socrático governo. Mas ninguém me tira da cabeça que há coisas que não podem ter dono, ou cuja posse deveria ser criteriosamente regulada por leis que permitissem o acesso de todos os cidadãos ao seu usufruto. Não proibiria simplesmente a posse desses tesouros da nossa história aos privados porque sei, simplesmente, que na mão das entidades públicas provavelmente ficariam em pior estado ou guardadas com o cadeado da arrogância institucional das nossas ipparescas vergonhas. A história da arte portuguesa há muito que se escoou por entre os dedos dos ladrões liberais anticlericais que despojaram os nossos mosteiros e, depois, entre as palmas apertadas de quem gosta de ter bibelôs de luxo, mesmo que os considere, apenas, pedras sem fala.

 

Ao ir-me embora daquele recinto, de que falarei mais vezes, em breve, vi ao cimo da dupla escada de granito, o corpo deitado dela. Julguei ser uma Senhora da Boa Morte, mas em boa hora me enganei. Não sei o que é. Faltam-me os pergaminhos e o olho clínico. Mas é figura pagã. Não sei o que tem entre as mãos, se é um frasco, se é o próprio coração. Por vezes, dá-me a sensação de que lê. Parece ser para um livro que o seu olhar seguia antes de o ter fechado (ao olhar), como quem reflecte. Pode não ser um livro. É provável que não seja. Para mim, é. Noto nos requintes do lavor de toda a parte superior da estátua, a testa alta, o cabelo voluptuosamente espalhado e… o sorriso. Digno de inveja por parte daquela outra que todos conhecem. Seria isto uma pedra tumular? Não compreendo a forma arcada e abatida do nicho. Não compreendo, sem sei se há quem compreenda. E vacilo entre a vontade de querer saber quem é aquela mulher (sim, estou a citar Buraka) e o desejo de ficar para sempre na ignorância. Mas a elas voltarei. À mulher. E à minha ignorância.

 

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publicado por Manuel Anastácio às 01:39
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