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Sábado, 30 de Maio de 2009
Encontrado no baú (não sei para onde é que este texto ia, mas ia com certeza em direcção ao Inverno)

Excerto de "O meu vizinho Totoro" de Hayao Miyazaki

 

Folhas. O Outono são as folhas. O sol vai para a escola e empurra as andorinhas para longe. Tem de ter a secretária limpa para as folhas limpas dos cadernos e para o odor fresco a tipografia dos manuais. A Primavera é apenas a altura em que as árvores escrevem as histórias. No Verão, imprimem-se as cartilhas maternais. No Outono, o Sol começa a soletrar frases e a virar as páginas. Desleixado, e com hábitos um tanto ao quanto porcalhões, molha os dedos com saliva e vira-as devagar. Os caracóis deixam um rasto viscoso sobre os poemas escritos pela luz. O sol não sabe, mas foi ele mesmo quem escreveu aquilo que agora não consegue decifrar.

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Domingo, 17 de Maio de 2009
O Homem que matou José Sócrates

Excerto de "O Homem que matou Liberty Valance", na altura em que matar era uma questão de honra.

 

Chama-se erva-cicutária, mas não tem nada a ver com cicuta que matou o sábio grego. É uma planta umbelífera. As flores, minúsculas, estão agrupadas naquilo a que os botânicos chamam de umbelas, palavra que faz lembrar guarda-chuva. São umbelíferas as cenouras e a salsa, mas os alhos, que não são umbelíferas, também têm flores em forma de umbela. Há outras ervas altas a passar perante o olhar fixo no fundo da estrada daquele homem que vai mudar o mundo... o mundo não, vá lá... Portugal. Sim, aquele homem vai mudar Portugal ao fazer a curva tapada por grandes hastes de erva cicutária, erva que nasce muito vulgarmente nas beiras das estradas e caminhos portugueses. Este homem que vai a correr, aconselhado pelo médico por causa da hipertensão que lhe foi diagnosticada não sabe que ao virar daquela umbela branquinha mais espetada se vai espetar contra o primeiro-ministro português que, não sendo natural daquela terra, ali pernoitou por causas que se prendem ao cargo e que não vêm agora ao caso, até porque o ficcionista tem mais em que se preocupar.

 

Do lado ortogonalmente oposto ao do homem que, por enquanto, ainda não matou Sócrates, nem sei se vai matar, vem esse mesmo, de nome José, senhor de porte elegante e cabelos prateados que, apesar de simples primeiro ministro de um país que apenas foi grande em épocas passadas, já dá nas vistas dos ociosos jornalistas das vaidades mundanas do país ao lado. Naquela hora da manhã, quando os jornalistas ainda não o perseguem (é a vantagem de se ser primeiro ministro num país como este, onde os fotógrafos cor-de-rosa, como qualquer funcionário público, gostam é de passar a manhã na caminha, cansados das noitadas ao lado da Lili Caneças), Sócrates, com a noite mal dormida, passa rente às ervas que recebem indevidamente o nome daquela outra que matou o seu homónimo filósofo grego, mas ignora essas particularidades científicas. Por enquanto, só lhe passa pela cabeça aquela anedota parva que o põe a dizer num hotel, com o seu excelente inglês técnico, tu ti tu tu tu tu, querendo dizer "dois chás para o 222". Ele sabe que a anedota não é sobre ele em particular - basta procurar no Google para ver que outros políticos, como o Lula da  Silva, também são escolhidos pelos respectivos governados como personagens principais da anedota, mas não deixa de ser triste. Ele tem os seus defeitos, claro que tem... Quem não tem pecados que atire a primeira pedra, ora raios... É como aquela treta dos favorecimentos que os beiços gordos e peçonhentos da Moura Guedes pretende vender... Mesmo que fosse verdade... repete para si... mesmo que fosse verdade: quem é que em Portugal não vende favores? Quem???

 

Ao virar a última erva-cicutária daquele lado do caminho, bateu com o homem das Novas Oportunidades. Um simples choque que não traria consequências de maior, não fosse o caso de ambos estarem a grande velocidade e, em termos relativos, terem embatido ao dobro da velocidade média de um homem a fazer jogging, o que no momento foi particularmente grave já que o coração, em momento de diástole, não recebeu o sangue que devia entrar pelas aurículas, pelo que o primeiro caiu no chão, redondo, enquanto no seu cérebro apenas ouvia a sílaba parva de um tu tu tu tu e sobre ele dançavam umbelas brancas e angelicais. Antes de se apagar, ainda pensou que, felizmente, não devia nenhum galo a Esculápio.

 

O homem das Novas Oportunidades não o reconheceu. Não tinha saldo no telemóvel (estava desempregado e não podia ter esses luxos, mesmo com o subsídio que recebia por andar a estudar de novo) e não ligou para o INEM. Azar. Fugiu dali como um coelho foge da raposa. Ingrato. Cobarde. Mas, à tarde, insuspeito, sentiu-se importante quando deram a notícia na televisão, enquanto rodava entre os dedos o canudo que lhe tinha sido entregue no dia anterior.

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Terça-feira, 16 de Setembro de 2008
Curta 40

"Modern Times", de Charles Chaplin - início.

 

- Por que escreve poesia em vez de...  Romance?... Crônica... Ensaio...?!

- A poesia é sintética. Rápida. É o Big Mac da literatura. As crónicas, essas, já são um bife à café ou uma açorda à alentejana - é fácil de fazer, dá pouco trabalho, é água a ferver, coentros e alho... Um romance exige mais tempo. Muito lume brando.

- É por isso que os portugueses escrevem mais poesia que ficção?

- Poesia é ficção.

- É?

- É.

- É por isso que os portugueses escrevem mais poesia que prosa?

- Não acredito muito nisso. Acho que toda a literatura portuguesa é poesia. E a que não é, não presta.

- Cara: acha que é por isso que os portugueses escrevem mais poemas p'rá titia que romances p'rá vovó?

- Ah! Assim já estamos a falar a mesma língua. Não.

- Não?

- Não acho nada disso. Os portugueses - eu incluído - escrevemos poesia porque não temos tempo para escrever coisas que se pareçam com a verdade. A verdade, ou o seu simulacro, exige tempo. É artesanato. Pode não ser tão apreciado e valorizado quanto a arte, mas exige mais trabalho. Trabalho físico e intelectual, entenda-se. A arte socorre-se apenas da ideia de "génio". Enfim, coisa de preguiçosos. O artesanato tem um valor intríseco maior que a arte - ou, pelo menos, que grande parte da arte... Enfim, e em suma: os portugueses são quase todos escritores de nascença. Mas só podem ser poetas porque não têm vida para serem romancistas, nem ensaístas. Produzem coisas rápidas para serem digeridas com lentidão.

- Quanto demora digerir um hamburguer?

- Não sei. Depende do estômago.

- Quanto demora fazer um hamburguer?

- Não sei.

- Rápido?

- Não sei.

- Fico esclarecido quanto à sua ignorância.

- Fico feliz por ter sido útil.

- ...

- Já agora: quanto tempo leva a fazer um hamburguer?

- Qual?

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Sábado, 10 de Maio de 2008
Voca me

Confutatis e Lacrimosa, do Requiem de Mozart, John Eliot Gardiner conduzindo os English Baroque Soloists e o Coro Monteverd, Palau de la Musica Catalana, Barcelona, Dezembro de 1991.

  

A mãe sentava-se no canto. Aborrecido com o seu silêncio acusador, fazia-lhe uma careta, acendia a televisão, aborrecia-se ainda mais, levantava-se e saía. Sem dizer nada. Seguia ao longo da estrada, atravessava os campos sem prestar atenção à erva ou à terra que calcava, ao rio escondido entre salgueiros e choupos ou às torres de tijolo abandonadas, e espreitava o local onde, por vezes, as prostitutas esperavam a paragem de um carro que justificasse a espera. Passava rente a elas, à espera de um comentário ou mesmo de uma proposta. Às vezes acontecia, não a proposta, que não havia tempo para diversões gratuitas, mas a frase solta de quem se esconde atrás de um falso descaramento. Ou de um verdadeiro, se este for a acção de perder a cara, de diluir a face numa vergonha misturada de coragem, desespero e fraqueza. Mas, isso, ele não entendia. Tinha alguma pena delas, mas não o bastante para as olhar como seres humanos, como, de facto, não se olhava a si mesmo. Ele era o que passava, o que agora desejava. O que fazia.

            Não queria saber de futuros nem do bem que todos lhe diziam querer. Preferia fugir pela cidade e chegar tarde a casa. A mãe, sempre no canto, não lhe fazia perguntas. Por onde andaste, que fizeste, nada. O pai chegava mais tarde ainda. Com ele falava. Pouco, mas falava, de raparigas, do futebol e, infelizmente, por vezes, da escola, a que faltava invariavelmente. Tal como, por vezes, lhe oferecia a tareia que, na escola, se dizia não receber. Mas preferia a mão pesada do pai ao silêncio acocorado da mãe.

            O pai seguia em primeiro lugar para o quarto, cansado, enquanto a mãe parecia de volta ao canto depois de nem ter sido possível reparar que de lá tivesse saído.

            Ele também não ia logo para a cama. A vida de mandriice trazia-lhe a leve sensação de que o tédio era o maior dos prazeres porque exigia a procura de entretenimento, o que era a melhor forma de se entreter, já que chegando o divertimento, de novo se instalava o tédio. Mas era tudo uma sensação. Não se julgue que pensava nisso – e muito menos por estas palavras. Até porque conhecia poucas palavras, incluindo tédio. Entretenimento, saberia vagamente o que queria dizer. Até porque os dias eram uma fiada de horas que convinha encher de tudo, menos de palavras. Na escola, tudo eram palavras. E tédio, vontade de expandir aquelas paredes brancas sujas com becos de aventuras estranhas e olhares sedutores como o da morte. A escola parecia tão suja como os caminhos que o chamavam, mas sem os recantos onde anichava o seu desejo de ócio orgânico. De um tipo de sono acordado que queriam constantemente perturbar com palavras, imagens e raciocínios que só se tornavam vagamente interessantes quando reduzidos a anedota e ao ridículo da sua pomposidade e inutilidade exposta. Ao exercício do descaramento.

            Não ia logo para a cama. Olhava para a mãe, no canto. Sempre acusando-o com o olhar, apenas com o olhar, que não lhe levantava a mão. Já o fizera e arrependera-se. Tiveram de correr com os irmãos mais pequenos para casa da avó, que se recusou à troca inversa. A mãe passou a recolher-se ainda mais para o canto até à altura em que a forçaram a fazer qualquer coisa, a castigá-lo de alguma forma, para que não se tornasse no gandulo que todos pressagiavam que viria a ser. Castigou-o fechando à chave todas as pequenas coisas a que teria alguma afeição. Alguma, pouca. Bater-lhe, nem se atrevia, nem ninguém a tal a aconselhava. Ele ignorou o acidente: as ruas não se fechavam a cadeado. Um dia, quando voltou, estava a mãe deitada no chão, a gemer e a apontar na direcção do armário onde tinha o medicamento que a deveria socorrer. Ele puxou um banco e ficou a olhar para ela, silenciosa, no chão, de olhos cada vez mais vidrados, respirando a custo, talvez suplicando, ou não, até que começou a esboçar o sorriso plácido da paz que nunca tivera. Ele deixou-se ficar, até que o pai chegou. Vieram os bombeiros buscar-lhe o corpo. Seguiram-se dias de silêncio sem tédio e sem procura, até que tudo voltou ao mesmo, sempre ao mesmo, com ela sempre ao canto. Presente ali só para o castigar com o silêncio, ao canto, dizendo-lhe que também ela não faria nada para o salvar.

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publicado por Manuel Anastácio às 17:57
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Sábado, 27 de Outubro de 2007
O relicário de coral

Relicário de coral da Rainha Santa Isabel, de inícios do século XIV, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra. Foto de José Pessoa (Instituto Português de Museus)

Parece um castiçal onde duas velas, tomando a cor do sangue do mistério eucarístico, se tivessem contorcido na dor da paixão, distorcendo a própria base de metal cruzado, assente em dois leões levantados, de boca aberta e olhar de besta faminta. Suportam eles duas traves curvas que se cruzam sob as armas de Aragão e terminam no focinho de dois cães que latem em polos opostos, mas cujas pregas lavradas se assemelham à gema terminal de um caule que espreita o advento da Primavera. Sobre o cachaço dos cães, assentam dois prismas... hexagonais? Não é permitido ao narrador especificar muito mais - talvez sim, talvez não... não é este narrador descritor um espírito que se intrometa à volta do quarto para poder fazer melhor a descrição da peça... a rainha olha o magnífico objecto que tem à frente, mas não o descreve com a mente, apenas sente-o a imprimir-lhe manchas azuladas na retina quando cerra os olhos. Os dois prismas, assentes nos motivos zoomórficos, representam a transfiguração dos dois princípios morais na força criadora da natureza. O Bem e o Mal, arrancam dali num emaranhado de ramos desorientados e incongruentes, com remendos de metal que parecem dedos postiços a indicar de forma bruta e rígida o caminho ascendente em direcção à ordem apaziguadora. Tudo pelo meio das chamas alaranjadas do coral arrancado da escuridão rasteira do leito do mar, agora trasnportadas pelos artifícios do artista, a objecto de iluminação. Nada há aqui de princípios morais: apenas formas da própria natureza. A base do relicário, com os bichos que costumam assentar guarda nos túmulos das damas: cães e leões (alguns, mesmo, a disputar um osso, para a eternidade, num acesso de humor negro do mestre canteiro), são interpretados, amiúde, pela mente humana, como símbolos das virtudes e das fraquezas dos homens - são aceites pela estatuária oferecida como morada aos mortos, porque tal arquitectura é legítima e aceite aos olhos do criador. Deus é o Arquitecto. Aos homens resta a humildade de o imitar sem presunção, não de criar seja o que for. A Arquitectura é, no fundo, um pecado de orgulho e vaidade. E um relicário, como um túmulo, é uma peça de arquitectura para o espírito que nele é convocado através dos restos que, a bem dizer, são pedaços de podridão sem qualquer santidade. Mas é mesmo nessa podridão que reside o milagre. Não seria grande o feito divino, o de santificar o que é belo. A beleza, não se mantendo com a Graça exclusiva de Deus, só pode tomar o caminho da degradação, se deixada ao seu próprio alvedrio. O que é repulsivo, pelo contrário, procura o que é belo. E só é belo o que ascende a Deus. Os ramos fantasmagóricos do coral, interrompidos por excrescências de ouro que tentam dar unidade àquilo que a mente limitada humana nunca compreenderá, terminam como uma coluna que representa a unidade divina, acima do confronto temporal entre o Bem e o Mal. Identificar Deus com o Bem é de uma simplicidade que não satisfaz nem aos santos nem aos danados que nestas coisas cogitam (e serão, provavelmente, mais os danados que os santos a fazê-lo, e os primeiros, ao que parece, arderão nas dúvidas para a eternidade, não terminando jamais a sua tarefa de procura da sabedoria). Deus, de facto, está acima dessas coisas. É apenas pela arbitrariedade da sua Graça que os santos se sentam perto do seu calor. Da base una do relicário, acima da batalha de coral e das misérias da criação, ramifica-se, como base de três luzes, a simetria divina apartada da criação e do tempo, apartada das misérias, das dores, das contorções e dos juízos morais. A base una, assente em folhas de ouro, assume a única arquitectura possível para a simbologia divina. Para a ideia de Deus, só a copa das árvores é digna. Só a simplicidade vegetal pode suportar a luz divina e transformá-la em alimento.

A rainha fecha os olhos e sente o cheiro das rosas a suavizar o mofo das tapeçarias. O rei acabou de entrar. Ela levanta-se e olha para a boca escancarada dos leões. Porque é que não pode, simplesmente, descansar ali, num daqueles caminhos que apontam para o nada?... Porque a vontade de Deus é esta. Há que aceitar o martírio, para que um dia, do seu corpo, nasçam as rosas da santidade.
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publicado por Manuel Anastácio às 19:25
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Quarta-feira, 6 de Junho de 2007
Rosas I - Confissão

"Santa Isabel e o Milagre das Rosas" , óleo sobre madeira, de Anónimo, Século XVI, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra

    - Juro que te tinha mentido! Eram pães e não rosas!
    - Isabel! Que queres que eu diga? Que foi milagre? É que se foi milagre, deixa-me dizer-te que um dos mandamentos da Lei Divina é, segundo creio, "não mentirás".
    - Sim, mesmo por isso te estou a confessar a minha falta. Foi provavelmente um justo castigo, este de te confessar uma mentira, tendo, para isso, de dizer uma verdade em que não acreditas!
    - Estás então a dizer-me que em vez de andares a depenar o jardim, andas a depenar os já de si pouco cheios cofres do Reino? Se és capaz de milagres, faz ao menos o da multiplicação do ouro - os teus pobrezinhos agradeceriam.
    - Não brinques com isso, Dinis. Desobedeci-te, menti - mas não fiz milagre algum. Quem faz os milagres é Deus. E, neste caso, parece-me que, mais que um milagre, foi isto uma advertência do Espírito Santo, para que não seja eu a fazer a caridade às escondidas, mas que tu mesmo compreendas que é altura de que todos os habitantes deste reino tenham direito ao pão. Aproxima-se o dia do Santo Corpo de Deus que, como sabes, é o pão da Santa Eucaristia. Dinis, vem aí um Novo Tempo, o tempo das Rosas, o tempo do Espírito...
    - Que pensamentos os teus. Vem aí um Novo Tempo? Claro que vem, vem sempre...
    - Não brinques com coisas sérias. Não tenho notícia de pães se transformarem em rosas, desta maneira...
    - A sério? É que a mim quer parecer-me que ouvi isso nalgum sítio, a uma tia tua, rainha da Hungria, se não estou em erro. Creio que ouvi a história ao frade que te trouxe aquele texto de Lúlio. Pelo que dizem, anda metido nessas coisas de fazer ouro a partir de latão... Acho que disse que era capaz de tranformar o Oceano em Ouro se tivesse fogo que chegasse... Ou fogo, ou mercúrio, ou enxofre... Não sei bem. Não tenho tempo para me dedicar a essas coisas.
    - Duvido. Se Lúlio se entrega a conhecimentos obscuros, não é, com certeza, à procura de ouro. Ele fala, com certeza, por parábolas. Assim como o fogo do Espírito Santo desceu sobre os apóstolos e os transformou, pondo-os a falar em línguas que desconheciam, assim é esse fogo filosofal de que Lúlio fala: o fogo que converterá as Nações infiéis e abrirá os portões da Glória do Espírito Santo...
    - Pois... Não te contei eu tudo: esse Lúlio tem, ao que se conta, uma certa tendência para se chegar aos infiéis e, como eles, gosta de explicar as coisas da alma através das rosas.
    - Muitas coisas se explicam através das rosas...
    - Minha querida: bem podias escrever cantigas - é pena que não fossem de amor...
    - Seriam de Amor Divino...
    - Que fossem, pois...
    - As grandes orações já foram escritas. As maiores já sairam da boca de Jesus, no Monte, e da voz do arcanjo Gabriel a Maria...
    - E que repetes tu no Rosário...
    - Menos vezes que aquelas que devia.
    - Queres, então, que venha um novo tempo.
    - Não é questão de querer. Ele virá. E como rei desta nação que descansa na pétala mais à direita da rosa dos ventos, cabe-te a ti mostrar humildade que enobrece quem se senta à direita do Pai.
    - Seja, então, minha amiga: se os teus pobres ficaram sem pão por causa de uma mentirinha tua - e dando eu crédito à intervenção de Deus no teu regaço...
    - Não sejas blasfemo...
    - Longe de mim, minha amiga: no próximo domingo em que se celebrar a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, serei eu mesmo a coroar um mendigo e a pagar um bodo de pão farto e bom vinho a todos por igual, como bem sei que fazem na tua Terra! Será a Páscoa Rosada, a abrir o novo Tempo que anuncias... Satisfeita?
    - Não é a mim que tens de satisfazer, mas ao Senhor...
    - Ele sabe bem o que me vai no coração.
    Isabel olhou-o e, sorrindo, adoçando o rigor das suas rugas, beijou-lhe a testa. Dinis , esse, fingiu que o beijo não lhe tinha passado além da pele.
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publicado por Manuel Anastácio às 23:59
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Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2007
Réquiem pela Wikipédia

O alemão louco colaborando na Wikipédia. Não aconselhável a quem não gosta de gritaria gratuita.

Eram quatro da manhã e ainda estava a meio de um artigo sobre o Feneco. O MSN, ligado, piscava de minuto a minuto com o H2mnO a perguntar-lhe se em Portugal se dizia "percebo" em vez de "entendo". De vez em quando, para desanuviar, saltava até às Páginas Recentes e verificava as contribuições de mais uns vinte anónimos. Um tinha acabado de substituir a biografia de Marie Curie por "Nuno Álvares é viado", mas o OS2WARRR já tinha feito a reversão... Metido!... Mais uma edição a menos na sua lista de Wikipedistas mais activos. Tinha mas era de começar a fazer como o Lípido: começar a gravar a cada frase que fizesse. Um só artigo valer-lhe-ia cerca de 15 edições, o que lhe permitiria aceder aos cinco mais... Parou. Censurou-se. Não! Não podia fazer isso! Estava a usar de forma egoísta os recursos da Wikimedia, fundação sem fins lucrativos que precisa de alguns milhões de dólares anuais, vindos apenas de donativos, para manter a funcionar um dos sites mais usados do Mundo sem qualquer dependência de publicidade. E arrepiou-se: é preciso que haja mais gente como eu, nesta febre louca, para que isto se mantenha em pé? Vendo que vacilava na fé, fustigou-se com o teclado. Teria de gravar o artigo sobre o menor dos canídeos (carece de fontes... o Lijó diz que carece de fontes... Ora porra... Onde é que tinha lido isso: encontrou algures que os canídeos "variam muito de tamanho (desde o pequeno feneco até ao lobo)"... Isso significa que o lobo é o maior dos canídeos???... Será? Quanto é que mede uma hiena? Não... as hienas pertencem são
hienídeos - nem sequer aos felídeos... Existem felídeos? Foi  ver... Sim, aliás: não existe a espécie hiena - esse é apenas um nome genérico para todos os animais dessa família...  Mas e os tamanhos? Como fazer as contas? Relação entre comprimento e envergadura? E onde raio é que ia encontrar essas medidas? Até podia ter uma data de Fenecos em casa - mas não podia ser, só com fontes bibliográficas é que valia). Entretanto, o artigo sobre a IURD estava sob fogo cruzado. Um IP escrevia "Cambada de LADRÕES" e outro escrevia "A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) é uma igreja cristã de linhas neopentecostais..." Hum... O artigo sobre Neopentecostais deveria chamar-se como? Existiria algo como Neopentecostalismo. Santo Google nos valha... Não é que existe mesmo? E começou a modificar o artigo que, afinal, já existia. Espera aí: ele, que há segundos atrás estava a pensar em fenecos e nada sabia sobre neopentecostais, estava agora a expandir um artigo sobre uma corrente religiosa? E daí? Estava apenas a fazer a massa. Os pormenores seriam, mais tarde, refinados por quem soubesse. Terminou o Feneco e deu uma olhadela à Esplanada. Os Fairusistas acabavam de, supostamente, comprovar astuciosamente que a Wikipédia Lusófona era ilegal porque apresentava como conteúdo livre material que o não podia ser. Foi até ao site da Sociedade Portuguesa de Autores e mandou um mail ao Webmaster para esclarecer dúvidas... Mas, provavelmente, ninguém responderia. Ninguém faz trabalho de advogado gratuitamente. Ninguém faz nada gratuitamente. Gravou o artigo do Feneco, fez o redireccionamento de "Vulpes merda" para... Merda! Vai ser gozado por todos: era Vulpes zerda e não merda!... E o m nem sequer está perto do z... Vai de marcar com "Eliminação Rápida", justificação: "erro meu" - eram 5 da manhã. Tinha de acordar às 8. Ao "salvar", apareceu uma caixa amarela na parte superior do monitor. Mensagem: "Caro senhor, este Wikipédia [este? Que raio de vontade de masculinizar A Wikipédia...] é uma vergonha censuraram-me o artigo sobre a "Igreja dos Egrégios Santos do Novo Mundo", dizendo que não é enciclopédico, quando há tantos artigos sobre Pokémons ainda mais quando acabei de ler um que diz que o Tricachu tem 25 pontos de força e 90 de resistência o que é falso aliás tenho aqui a caderneta de cromos que indica claramente que tem 45 de cada, excepto quando se aproxima de qualquer Ungilimon com ligações ao elemento fogo por isso esta enciclopédia é uma vergonha os administradores são uma escória uma máfia uma panela de viados que querem impor a sua visão mesquinha do mundo... etc etc etc". Respirou fundo - valeria a pena ler o resto?... Uma coisa era certa, os artigos dos Pokémons eram do piorio. Mas não seria, com certeza, ele a procurar uma caderneta de cromos dos mesmos para verificar a fiabilidade de cada um dos parâmetros dos bicharocos. O Feneco era mais importante. E tinha, obrigatoriamente, de descobrir onde é que vira que era o menor dos canídeos, antes de dormir. Lembrou-se ainda de ir ao site pt-wikipediasentinel-letrasfuradas.blogger.com onde viu que os seus argumentos da noite anterior eram rebatidos com uma lista de provérbios. Um deles dizia «Quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita.»... Subscrevia... Depende do que é que está torto: o espírito ou a matéria?

A Wikipédia era uma batalha, apenas. Uma batalha do que é torto pela rectidão. Teve de desligar o computador e deitou-se. Fechou os olhos... Ainda tinha uma lista de arquitectos sem biografia para terminar. Que percebia ele de arquitectos? Nada. Não percebia nada de nada. Mas aprendera alguma coisa.

Ao menos, era melhor que jogar Tetris. E adormeceu, beatificamente (ainda pensou no artigo sobre a Beata Alexandrina que precisava de uma nova imagem porque a que lá estava ia ser eliminada no Commons - havia de ir a Balazar no fim de semana seguinte...). E lembrou-se, ainda, de a "História do Cerco de Lisboa" - onde um revisor acrescentou um não às palavras dos cruzados que (não) ajudaram Afonso Henriques a conquistar Lisboa. Havia coisa mais bonita que a Wikipédia, no que à escrita diz respeito? Não, não havia. Um dia, tudo acabaria - os fundadores do projecto desapareceriam debaixo de um processo de fraude, os governos proibiriam os seus conteúdos depois de descobrirem que as suas biografias os faziam descender do cruzamento de ratos com galinhas, além de os descreverem como "Drag Queens" malucas (informação, por certo, verdadeira, o que a tornaria ainda mais perigosa). O interessante era saber até onde é que tudo iria. Por quanto tempo é que a boa vontade conseguiria manter à tona a mais disforme e fascinante das Bibliotecas que a humanidade alguma vez concebeu.

Obrigado, Wikipédia. Se não durares mais três meses, como dizem, continuarás a ser uma semente. Uma luz. Uma fé. Uma escuridão. Uma droga, um amor-ódio. Uma dependência. Uma espada de destruição e um tijolo. Um motivo para pensar. Para não dormir. Para aprender que ninguém sabe o quer que seja, mas o que vale é acreditar, procurar e tentar, quando se acredita procura e tenta com e através do amor - amor por todos, pela humanidade - ... pela almofada... Há alguma coisa que valha a pena?... Sim: dormir. E amar. Dar...
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publicado por Manuel Anastácio às 23:01
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Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007
Curta 25
Ela, assim que entrou, dirigiu-se à secretária de forma resoluta, decidida e com o brilho nos olhos de quem fizera uma enorme descoberta. Estendeu, orgulhosamente, o dedo avermelhado frente ao rosto do professor. E disse:
- Stôr, desde a última aula...
Neste entretanto, o professor gritou ao Rui que entrou e deu um pontapé ao Pedro.
E ela, olhando o rosto avermelhado do professor, dirigiu-se silenciosamente para o seu lugar, por entre mochilas que voavam. Não falou do dedo. Abriu com desalento e resignação o caderno diário. O professor, sem saber o que ela queria dizer, tinha de responder à desordem e às agressões - não podia ignorar o mal que vinha de fora da sala. Sentiu-se, então, desgraçado, por perder, à conta daqueles que dele nada queriam, a palavra que avermelhara um dedo. Sabia que, por orgulho, já não ouviria a história com o mesmo entusiasmo. Há coisas que só se dizem ao entrar na sala. Chorou intimamente. Por dentro, enquanto recitava as regras, como quem repete o terço. Porque os professores não choram de forma visível. Caso contrário, são comidos vivos.
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publicado por Manuel Anastácio às 00:15
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Domingo, 28 de Janeiro de 2007
O Grito

"O Grito do Ipiranga" - Pedro Américo (1888)

 - Chalaça, não aguento mais.

- Esperai apenas por aquela curva. Corre por ali um riacho. Terá algo mais para se limpar que calhaus e folhas secas.

 Avermelhado pela urgência, sorriu perante tão amável conselho e apertou o corpo contra o cavalo, enquanto as dores o começavam a agoniar. Assim que ouviu a água a correr, saltou para o chão e, enquanto se dirigia para a beira do córrego, aproveitou para ir baixando as calças. Ainda antes de se pôr de cócoras, sentiu o baixo ventre a explodir. Seria isto o que as mulheres sentiam ao dar à luz? - pensou. Mas envergonhou-se de tal pensamento. Não era digno da sua pessoa pensar no que sentiriam as mulheres quando faziam aquilo para que tinham sido feitas por Deus Nosso Senhor. A ele tinha cabido outra parte no processo e tinha muito prazer nisso. Entrar muito nas dores das mulheres era pouco menos que deixar-se contaminar por uma esfera que não era a sua nem pretendia ser. Mas que o mistério do baixo ventre feminino lhe tomava em cerco a alma, lá isso tomava. Qualquer vulva era sagrada, e a ele era dado a oportunidade fácil de haurir o sacro espírito da mãe natureza que se lhe apresentava em todas as formas, tons e cheiros, desde a mais corpórea catinga  ao mais etéreo, enjoativo e incensado dos perfumes. Apesar do cheiro pútrido da soltura, não lhe era indiferente o espaço vivo onde rebaixava o corpo à mais comum e vulgar das maleitas. Além dos arbustos, os cavalos parados resfolegavam e os donos riam sem grande alarde. Dele, talvez?... Importaria isso? O respeito que lhe deviam mantinha-se apesar de saberem bem que ele era tão humano quanto eles. Mais humano ainda. Não o dizia, por modéstia, mas sentia-o. Havia mais de homem numa gota do seu sangue ou do seu sémen do que em todo o corpo do mais limpo de diarreias dos seus acompanhantes. Acocorado junto a um ribeiro, à espera de sentir algum alívio dos intestinos rebeldes, era mais digno que qualquer um deles, se por acaso a traição ou a descrença se lhes insinuasse num sorriso de comiseração. Entre ele e o passarito que deixara o excremento branco que manchava a pedra à sua frente, pouca diferença haveria. O pássaro talvez tivesse nas suas mãos um destino a ele desconhecido - talvez o rumo das constelações, à noite, pudesse por ele ser desviado, enquanto que a si, pouco mais lhe havia calhado que a liderança de homens. Duas almas que deixavam no mundo um rasto de excrementos. Eis como, provavelmente, a Divina Providência os poderia classificar, da mesma forma clara e descritiva com que a sua esposa falava dos percevejos de élitros pentagonais ou de insectos que emergiam de baba viscosa com formas mais exuberantes que as dos lírios do campo que teriam envergonhado Salomão. Mariquices, isso de competir com flores no que à roupa diz respeito, quando umas calças de linho e um chapéu de palha bem chegariam para contentar cada ser humano, incluindo ele. Não pretendia outro ornamento que a honra e o cumprimento cabal do seu destino. Chegou-se à água e limpou-se. Levantou-se, mais leve, ainda que sentindo ameaços futuros. Foi abotoando o uniforme em direcção ao cavalo, guardado pelo padre Belchior que o aguardava. Ouviu então os cascos de um cavalo que se aproximava em louca correria. Reconheceu o cavaleiro, Paulo Bregaro, de seu nome. Este, assim que reconheceu o vulto régio, freou violentamente o cavalo que espumava pela boca, correndo o risco de conhecer a mesma sorte que os quatro que lhe tinham antecedido na correria, apenas para que algumas folhas de papel chegassem às mãos de alguém que, com mais acerto, usara água ainda há instantes - não havendo, de facto, indícios de que se usasse papel para outros fins que escrever em tal época.

Pedro estendeu as mãos trémulas. Colhe o fruto, que está maduro, dizia a sua esposa. Baixai a penca contra o chão, rapazinho, diziam as Cortes de Lisboa. O rapazinho, ainda combalido dos intestinos, sorriu. Estava na sua altura de mudar o rumo das constelações. Subiu para o cavalo, deixando cair os papéis que pouco mais faziam que rebaixá-lo a uma alma com um rasto de subserviência e subiu para um morro, rasgando entre as hostes de almas, envergando o sabre, onde parecia luzir um cruzeiro de luz. Junto ao húmus aluvial do Ipiranga, as moscas empenhavam-se laboriosamente na decomposição do mundo.
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publicado por Manuel Anastácio às 22:15
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Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007
Noli me tangere

Nolli me tangere, de Correggio (1489-1534)

Era uma vez uma senhora muito casta chamada Madalena. Acentuo que era casta porque o nome Madalena dá-se a certos abusos - e as tentativas de Dan Brown em limpar o nome da mais famosa das Madalenas não têm tido tanto sucesso quanto o romance. O pessoal continua a dizer que era uma ex-prostituta: nada a fazer! Por isso mesmo, a senhora gostava de dizer que era apenas Madalena1 - nada de ex- qualquer coisa - até porque, segundo ela, as brasileiras já lhe tinham tirado qualquer possibilidade de negócio. Mas continuava casta porque, de boa cepa lusa, só casaria com um português da mesma cepa. No seu sangue puro corriam as últimas gotas do mais ancestral dos portugueses. Os mais insígnes genealogistas faziam remontar a sua árvore ao último dos "H
omo neanderthalensis" a reagir com raça e determinação à decadente mestiçagem (e os sotaques e crioulos horríveis que daí vieram a seguir) com uns tais de "Homo sapiens sapiens", de baixa linhagem. Ela estava destinada a um príncipe de sangue puro, isso sabia ela... O que ela não sabia é que a disposição dos seus olhos na caixa craniana provocavam um efeito de distorção visual no que dizia respeito aos tamanhos... Pelo que (não, não é nada disso que estão a pensar) sempre viveu na ignorância, julgando que o seu cérebro ocupava um volume maior que o da média da população, que prosseguia numa espiral de decadência devido à contaminação do seu sangue pelo contacto com pretos, intelectuais, brazucas, jornalistas, muçulmanos, professores,  judeus, ciganos, poetas, artistas e outros exemplares da pior escória a que, às vezes, a sua miopia designava de "padres, missionários e freiras" (vá-se lá saber a causa da confusão, já que ela mesma era muito católica, e quando rezava, rezava com muito sentimento e paixão).

Um dia encontrou o seu príncipe. Fez-lhe o teste do calhau debaixo do colchão ortopédico e, tendo-se ele queixado que a sandes de coirato estava mal passada, ficou rendida. Quis casar-se. Mas foi difícil encontrar um padre que não fosse brasileiro - ainda tentaram mudar de religião, mas o Brásiu (como ela dizia) estava em todas. E antes quereria ir para a cama fora dos laços do matrimónio, do que receber o sacramento "matrimoniau" em vez do sacramento "matrimonial". O seu último exemplar de neanderthalensis concordou. Foi para a cama com ela... e perdeu-lhe o respeito. Começaram a fazer coisas vergonhosas, como a falar com sotaque brasileiro enquanto... enfim, não vou entrar em pormenores sórdidos. Claro que isso era só na intimidade. Ninguém diria que aquela senhora tão correcta (jamais correta, Deus me livre!), que até escrevia "poix" em vez de "pois" (a primeira forma é a forma clássica, já utilizada por Fernão Lopes) era, no fundo, uma "safadona"... Mas era. E graças a isso, tiveram muitos neandertalitos que, contudo, foram dizimados décadas depois, mas como santos mártires da Nação, ao recusaram-se a beber guaraná durante uma celebração eucarística obrigatória, no terceiro ano do reinado de Marcelo Rossi III.

1Também não gostaria nada dessa ideia de ser a Madalena do Proust se, por acaso, soubesse o que isso alguma vez foi. Mas gostava muito da Iglésias... ah... as canções daqueles tempos... Aquilo sim!...

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publicado por Manuel Anastácio às 19:56
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