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Segunda-feira, 1 de Abril de 2013
The Medium is the Massage

 

The Medium is the Massage, em 1967, foi um livro que, de alguma forma e através de uma forma gráfica ora ilustrativa, ora redundante, ora provocante nas questões capaz de suscitar, pretendia dar aos sentidos uma experiência consentânea com as teses de Marshall McLuhan. A interferência entre imagem e texto ficou nas mãos do artista gráfico Quentin Fiore, com a coordenação Jerome Agel. O livro marcou não uma geração, mas todas as gerações a partir da década da confusão e, provavelmente, aquilo que tanta confusão fazia a quem se esforçava por entender o pensamento de McLuhan, já que se utilizavam ferramentas e modelos interpretativos do passado para compreender um futuro de perigosidade e confusão obrigatória é hoje igualmente difícil para quem nasceu imerso na própria extensão electrónica de uma rede de sistemas nervosos centrais e tem apenas como referências ferramentas e modelos interpretativos de um passado onde o indivíduo não era o que é hoje. Um ano depois do livro, John Simon, da Columbia Records, decide pegar no conceito subjacente ao livro e traduzi-lo numa gravação. Mantém os créditos do livro e dá origem a uma fascinante montagem ao modo de colagem de sons e música(s), evocativos da aparente descoordenação dos média e da televisão em particular, com citações, predominantemente de McLuhan, mas também de autores como John Cage, Joyce, Sócrates, Lewis Carroll, numa série de vozes diferenciadas na sua interpretação e no seu posterior tratamento. Não é por acaso que Joyce aparece entre as vozes dispersas, já que o fluxo de consciência que constitui grande parte da sua obra não é apenas percursor como é a própria forma adotada por esta narrativa sonora prenunciadora do zapping (anos 80) e da conversão da sociedade linear ocidental ao hipertexto e hipermédia (termos vindos à luz em 1963), bem como a um esquema mental que pouco difere das paranomásias de McLuhan, espelhado nas próprias formas de humor da era do Facebook. O medium é a mensagem (message), a era da confusão (mess age), a era das massas (mass age) e a massagem (massage - como aparece no título, supostamente graças a um erro de impressão que foi bem recebido e apropriado por McLuhan). Aqui vos deixo as duas partes desta gravação que alterou a percepção da realidade a muita gente e ainda o pode fazer hoje em dia. Podem acompanhar as citações aqui à medida que vão ouvindo esta ópera ainda contemporânea.

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publicado por Manuel Anastácio às 13:10
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Domingo, 13 de Maio de 2012
Vou te contar, meu camarada, de Gláucia Lemos

Se há coisa que me atormenta, é a responsabilidade de estar vivo entre outros vivos. Se pensar que a minha vida é independente da dos outros, ou que a minha ação não terá qualquer resultado porque há no mundo uma resistência ou maldade maior às minhas capacidades de luta ou de verdadeiro altruísmo, estarei a aceitar a minha condição de morto no meio dos mortos. Disse Jesus que não há maior amor do que dar a vida por quem se ama. Dar a vida significa o quê, ao certo? Há várias formas de interpretar tal dádiva, mas todas têm em comum a ideia de perder o medo. Vêm estas considerações preambulares a propósito do tema de dois livros de Gláucia Lemos que, num gesto de puro amor, mos ofereceu, com outros de que já aqui falei, dando-me, através deles, a sua vida - sem medo das minhas palavras, sem medo da minha leitura. como faz cada pessoa que, através da escrita se expõe aos olhos dos outros. Estes dois livros, que ainda não comentei, constituem, a meu ver, um par temático sobre a cobardia. O tema predominante nas obras de Gláucia Lemos a que já tive acesso é o tema da espera, como se um certo complexo de Penélope identificasse uma certa forma de ser mulher, algo resignada, mas não menos lutadora e corajosa. A mulher que espera tem, na obra de Gláucia, os dedos calejados pelo mourejar. É uma atitude complexa que vacila entre o trabalho, ativo, e a atitude passiva da espera - como Penélope fazendo e desfazendo o seu trabalho no tear. Note-se, contudo, que há, nessa resistência pelo trabalho, o esforço de manter a porta aberta para o regresso de Ulisses, mantendo-a fechada aos apelos de traição do amor ausente. É uma situação difícil que em nada revela absoluta resignação e cuja passividade é apenas aparente. Mas falei de cobardia... e, curiosamente, ou não, o tema apresenta-se nestes dois livros, "Vou te contar, meu camarada" e "As aventuras do Marujo Verde" através do elemento masculino. Logo na capa de "Vou te contar, meu camarada" vê-se uma mulher em silhueta, junto ao mar, enquanto um rapaz, o protagonista e narrador, se retrai numa atitude de desejo reprimido perante o "território" marcado de outro homem. Mais curiosamente, a esta impotência declarada do narrador, o homem rejeitado ou que se autoexclui, não tem qualquer contraponto de coragem em Zé, o macho viril que possui o seu objeto de desejo, Marialva. Pelo contrário, à cobardia de um corresponde um género diverso de cobardia por parte do outro, em moldes que não posso ou devo revelar, a não ser no seu óbvio desânimo supersticioso que nos é oferecido nas primeiras páginas, quando Zé contamina o seu barco, e o seu destino, com a presença sacrílega de Marialva no seu barco "Vendaval". Este livro está inserido dentro da produção "infanto-juvenil" da autora, o que poderá espantar quem leu este texto até aqui. Não me espanta a mim, já que perante a crueza das paixões e dos medos relatados (o livro é um constante e áspero suceder de medos e indecisões), a candura da linguagem popular e a sua oralidade confessional, já expressa no título, acaba por permitir o olhar dos leitores mais jovens para a câmara indiscretamente aberta por um narrador que confia as suas fraquezas a um camarada ouvinte. Há, como em "Bichos de Conchas" (que levaria a outros voos de ousadia a coragem da mulher em contraponto à impotência masculina), a sugestão anímica do vento que ensombra de forma expressionista o final desta obra prima da autora e que aqui se insinua, já, como símbolo de separação e tragédia. Como aconteceria, aliás, de forma ainda mais óbvia, mas não com menos força, em "À espera do tornado". Todos os livros, quando escritos com alguma nudez de alma (que os há em que a alma está bem enterrada em atavios de vergonha) nos podem dar algo de inspirador para que nos sintamos vivos entre os vivos, de forma não resignada, calejando os dedos no trabalho e na espera dos dias em que tudo será explicado. Este é um livro de uma rude austeridade que não esperava em Gláucia Lemos, para mais numa obra destinada a um público jovem, mas é isso que a torna particularmente interessante e ousada, seguindo o caminho de outras ousadias de uma escritora que, qual experimentalista, raramente se apega a um estilo e se afirma enquanto autora, mais dentro de um determinado universo psicológico que numa forma de escrever. "Vou te contar, meu camarada" é um livro austero, por vezes rude, e de uma simplicidade desarmante no seu enredo quase policial mas que se revela como uma história de gente simples caída no vazio e na angústia da falta de uma orientação que dê sentido à vida. Gláucia já muitas vezes disse que a filosofia existencialista, e Camus em particular, são elementos fundamentais para a compreendermos como pessoa. E se o absurdo já poderia aparecer no onirismo de "Luaral", é no duro realismo de "Vou te contar, meu camarada" que os dilemas existenciais se encontram mais vincados, ainda que de forma subentendida, como na passagem em que, defronte a uma decisão difícil, o narrador confessa: "os atalhos da vida são tão escuros que eu acho que um homem nunca vai ser um homem completo, no sentido de resolver as estradas da sua vida com sabedoria". É, de fato, no largo espaço luminoso do mar que Gláucia decidiu oferecer-nos uma história de escuros atalhos, dúvidas e medo. Medo da autoridade, medo de os outros nunca reconhecerem as nossas pequenas verdades e medo de um destino onde não há chão palpável nem certezas. E, para esse medo, Gláucia dá-nos uma prova de coragem, ao aceitar como caminháveis os mais espinhosos caminhos.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:19
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Quinta-feira, 19 de Abril de 2012
O Coração Sabe, de Vasco Ferreira Campos

Que "O Coração Sabe" coisas que o intelecto se recusa, por teimosia, a olhar de frente, todos sabemos. Mas poucos são aqueles que as sabem transformar em certezas e, menos ainda, aqueles que as conseguem expor no seu esplendor de coisas não corrompidas pelo pensamento. Vasco Ferreira Campos é um poeta capaz de definir as certezas com a mesma convicção com que defendemos os nossos pressentimentos. É um poeta das coisas concretas, tal como a memória as desencanta dos recantos mais luminosos daquilo que nos define enquanto pessoas. Há nos seus poemas um clarão místico, de coordenadas meridionais e orientais, com toques de uma religiosidade e fé pagã, natural, alheia à catequese. Da mesma  forma que uma criança, perante o rosto das respostas que lhes são dadas, não aceita a possibilidade do engano, há uma puerilidade sábia e reflectida em cada um dos seus versos ("agora até sou mais inteligente, mais convencido / e, inevitavelmente, menos sabedor"). 

 

A dedicatória do livro de poemas que tenho agora ao meu lado é dirigida aos seus filhos. E Vasco Ferreira Campos deixa-lhes, neles, uma herança de certezas talvez deles recebida. É à luz do olhar infantil que a sua poesia, madura, justifica esta primeira impressão de infância recuperada, com uma força descritiva e evocadora ao modo de Proust, mas de forma sintética e quase epigramática. Chamei um dia, a um dos poemas deste livro, um tratado de antropologia íntima. É daquelas expressões que eu gosto de buscar ao baú das minhas impressões confusas, mas que, no fundo, o meu coração sabe estarem certas. Antropologia, dizia eu, mas poderia chamar-lhe, também, epistemologia prática. Uma epistemologia que legitima alguns enganos (não erros) que nos deixam uma esperança intimamente justificada de estarmos certos. Mas as palavras do Senhor Vasco, como o conheci pela primeira vez, nem são dessa esterilidade discursiva para a qual está a cair este meu texto (e que já me fez perder 60% dos leitores que avançaram para lá da segunda linha de texto), nem exigem profundidades de análise porque convém que sejam lidas de olhar lavado e com o estado de espírito próprio de quem vai ser admitido numa casa acolhedora, a meio de uma tempestade ou a meio da desolação da inexistência. E há, de poema em poema, um percurso onde nos confrontamos com a infância, as responsabilidades que assumimos e para as quais nos faltam a simples possibilidade de as manter, não por impotência, mas pela própria essência do devir e da entropia, a felicidade dos espaços familiares, a intimidade dos olhares sempre à procura de um horizonte fixo onde assentar certezas sem nome, mas luminosas e propiciadoras de uma paz que ora toma a forma de uma casa ora a sombra de uma árvore (talvez ambas, a mesma coisa). Mas sempre que evoca a árvore ou a casa, não o faz de forma abstrata. As árvores e as paredes têm uma realidade própria feitas de experiências sensoriais sugestivas, mas sugerindo sempre verdades íntimas que se confundem com verdades universais, da mesma forma que o contato erótico, sugerido mais pela cadência dos versos nos poemas que pelas imagens mínimas do cabelo ou da pele humedecida, toma a mesma certeza intemporal, semelhante à certeza da morte, tão próxima da certeza da própria existência. A dignidade humana é feita destes arrepios feitos de tempo, espaço, memória ("os nossos mortos / têm a localização exacta / dos seus vivos") e na conciliação de todas as dualidades graças à escolha, a cada passo, de um novo abrigo: a casa iluminada, a árvore, os objetos de um quotidiano harmonioso e belo, não obstante a corrupção do mundo e - principalmente - os filhos, herdeiros das certezas e dos enganos cósmicos que mantêm a sucessão das estações e a permanência das coisas belas enquanto manifestação da própria natureza em nós, que somos apenas um elo entre as ternuras a nós passadas ("As pombas esvoaçam em redor do meu pai. // A minha mãe por todo o lado") e as que, o coração sabe, transparecem na contemplação da luz que ilumina, reciprocamente, o amador transformado na coisa amada.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:59
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Segunda-feira, 5 de Março de 2012
O Diário de Anne Frank

O Tiago pediu a minha opinião sobre "O Diário de Anne Frank". Ora, este é um livro sobre o qual é impossível ter opinião. Lembro-me um dia de, numa aula, a professora de Língua Portuguesa ter pedido para escrevermos um texto sobre um dos momentos mais fortes, emocionalmente, da nossa vida. Eu não o fiz. Escrevi sobre uma treta qualquer sobre um filme que amava muito na altura (e que agora, embora o considere um dos filmes da minha vida, já pouco me diz) e assim escapei de ter de expor as minhas maiores dores. Até porque naquela idade temos pouco discernimento sobre a tragédia ou sobre a impressão que cada coisa, individualmente, terá na nossa vida. Uma grande amiga minha, de quem perdi totalmente o rasto, escreveu um texto sem particular valor literário mas infinitamente superior àquilo que alguma vez escrevi ou escreverei, a não ser que um dia eu venha a passar por algo semelhante (e queira Deus que não). Quando a professora entregou os textos, ela deu-mo para ler e disse que estava arrependida de ter escrito o que tinha escrito e perguntou-me o que é que eu pensava daquilo. Li o texto. Não era uma obra de grande literatura, mas estava lá tudo o que deveria estar em cada linha da grande literatura. Um grito de revolta, de dor e, ao mesmo tempo, do amor mais profundo. Não vou dizer o que lá estava escrito, porque acho que não devo, mas o importante a reter é que a literatura não é a vida. Pode orientar-nos na vida, preencher grande parte da nossa vida, mas não é a nossa vida. Na altura em que li aquele texto da minha amiga, não chorei lágrimas de comoção como já fiz por coisas menores, disse-lhe apenas que aquilo era coisa sobre a qual não poderia ter opinião. Ela fez um ar triste e disse que me compreendia. Não era possível dizer-lhe que aquela frase ficaria mais elegante dita desta ou daquela maneira, porque há coisas em que a elegância do estilo é dispensável. A verdade é superior a qualquer figura de estilo. E quando a verdade se parece com uma figura de estilo, ou estamos frente a uma anedota verídica ou perante a mais pungente das tragédias. Naquele texto havia apenas a descrição de uma noite em que alguém bateu à porta da minha amiga e deu uma notícia por meias palavras. Hoje, eu poderia dizer à minha amiga: o teu texto está excelente, mas, sabes,  esse último parágrafo em que explicas o que aconteceu e não quiseram dizer quando abriste a porta era dispensável - assim como tu mesma percebeste o que te tinha acontecido com as meias palavras de quem te deu a notícia, da mesma forma o leitor o perceberá. Mas eu nunca o teria dito porque o tema era mais forte que o estilo. Um escritor com alguma capacidade sabe quando é que deve parar de narrar. Muitos jovens julgam que precisam de explicar aquilo que escrevem - e na verdade, precisam, porque estão numa altura de aprendizagem em que é preciso reflectir de forma académica sobre as coisas que escrevem. Eu sou a favor de uma educação académica. Deve-se dar prioridade às coisas certinhas e bem feitas. Os génios saberão, depois, fazer coisas novas. Mas um professor não avalia génios. Tem uma tarefa mais modesta, mas não menos importante. Os génios são avaliados pela Humanidade. É por isso que acho que aquelas histórias sobre os professores que não viram que o Einstein era um génio são um perfeito disparate. Mas voltando à minha amiga e ao seu texto: há palavras sobre as quais quaisquer palavras são demais. Onde a crítica não é possível.

 

Eu não considero o "Diário de Anne Frank" uma obra literária. Está bem escrito e toca na alma de qualquer um, e Anne Frank poderia bem ter vindo a ser uma grande escritora, não fosse a tragédia humana que foi, um dia, um povo ter encontrado uma ditadura de iniquidade a que se aninhar. Mas se não fosse o Holocausto, que seria daquelas páginas? Para começar, não teriam sido escritas, e Anne Frank teria escrito apenas um diário de adolescente sobre as primeiras impressões do amor. Da mesma forma como escreveu? Tenho as minhas dúvidas. A opressão, a perseguição, a miséria e a desumanidade tanto reduzem as pessoas a cinzas como podem fazer despertar nelas uma luz que permanece ao longo dos séculos. Anne Frank teve de viver, perante a permanente ameaça da morte, de uma forma mais intensa do que alguma vez teria vivido em tempo de paz e prosperidade. Não digo, com isto, que a guerra e a intolerância são boas! Jamais! Mas a verdade é que a Natureza e a História têm por vezes estas formas de justiça poética em que aqueles que poderiam passar despercebidos passam a ser heróis. Eu luto por um mundo onde os heróis seriam apenas aqueles que lutassem contra as forças da natureza a favor do seu semelhante humano. Por exemplo, já que o Tiago me pediu que lhe recomendasse um livro, faço-o agora: lê "O Escafandro e a Borboleta" de Jean-Dominique Bauby (até porque tem a ver com a tua confessada vocação). É um livro sobre alguém que, tal como Anne Frank, lutou contra um encerramento forçado e que, se não fosse esse encerramento, passaria por esta vida como um estranho - uma pessoa digna, sem dúvida, brilhante, sem dúvida, mas estranho e desconhecido para todos ou quase todos. Com uma diferença. Bauby escreveu um livro (e um dos mais belos alguma vez escritos) apenas com uma pálpebra. Não porque fosse artista de circo mas porque, encerrado no estado de saúde em que estava, só podia comunicar com o exterior com uma pálpebra. Não podia, sequer, utilizar a linguagem não verbal com que tantas vezes interpretamos as frases de quem conosco comunica. Tinha de se limitar à linguagem verbal, escrita, e a conta gontas. Mas Bauby foi um herói contra um estado de coisas que não foi provocado por outro ser humano. Foi vítima da Natureza. Talvez um dia haja algum neurocirurgião chamado Tiago Peixoto a libertar aqueles que vivem encerrados atrás de uma pálpebra - e que honra e alegria teria eu nisso, como se fosse eu mesmo a fazê-lo. Mas essa é uma luta contra as adversidades da natureza. Todos os heróis deviam ser assim. No caso de Anne Frank, o heroísmo é de outra ordem. Anne perdeu a possibilidade de viver uma adolescência normal graças à iniquidade de outros seres humanos e não porque tinha uma doença ou porque foi apanhada por uma inundação repentina. Foram outras pessoas a colocá-la naquela situação e foram outras pessoas que interromperam antes do tempo aquela obra de humanidade forçada. 

 

O Diário de Anne Frank é mais que um livro e mais que literatura, embora existam livros mais bem escritos. É um grito de humanidade sobre o qual não podemos ter opinião. É um pedaço sagrado de uma vida, uma relíquia de valor infinito. Também os outros livros o podem ou devem ser. Mas não de forma tão violenta. Não porque o livro seja violento. De facto, parece-se bem, e apenas, com um mero diário de uma rapariga mais inteligente do que a média posta numa situação que nunca deveria ter existido. Todos os dias penso para mim mesmo como seria bom que livros como "O Diário de Anne Frank" nunca tivessem sido escritos. Não saberíamos o bem que tínhamos. Mas, Tiago, como saberia bem essa ignorância.

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publicado por Manuel Anastácio às 21:44
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Domingo, 4 de Março de 2012
The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore, de William Joyce
Se pensarmos em livros no cinema, é inevitável pensar nas fogueiras distópicas do "Fahrenheit 451" (Grau de Destruição, em Portugal) de François Truffaut, onde o livro é elevado à categoria de objeto proibido, subversivo e potenciador da criação de universos individuais incompatíveis com uma ordem social nascida da formatação por igual, e por baixo, dos cidadãos. Nesta curta metragem, Os Fantásticos Livros Voadores de Mr. Morris Lessmore, o cinema volta a fazer uma homenagem aos livros e à literatura. E, usando mais referências cinéfilas que bibliófilas, usa o objeto livro como personagem principal de uma alegoria facilmente assimilável, terna e verdadeira. O que é um livro? Em termos absolutos, um livro em formato digital é também um livro - e sê-lo-á mais do que um livro fechado a correntes como acontecia no tempo de todas as fogueiras. Um filme, na minha opinião, é um livro, da mesma forma que um objecto de arte poderá ser uma página - e, por alguma razão se chamam álbuns aos conjuntos organizados de interpretações musicais. Um livro é mais que o objeto composto por folhas cosidas a uma lombada e coberto por uma capa, mas será sempre, parece-me, esta a imagem que dele teremos no futuro, mesmo quando os suportes digitais conseguirem atingir a maleabilidade, adaptabilidade e especificidade de cada livro, nas suas características materiais, na sua relação com o leitor. O peso do livro, a sua grossura que diminui a cada página virada, a marca do uso por mãos anteriores, os sinais da sua perenidade deciduidade, são aspetos que não devem ser ignorados na paixão que alguns seres humanos desenvolveram em relação a um dos objetos também mais odiados e constantemente condenados à destruição por parte de outros seres humanos. Este pequeno filme centra-se na relação entre o livro e a morte e, dando aos livros propriedades físicas e biológicas que a eles não pertencem, põe de forma clara a tónica na eternidade do livro enquanto conceito e não enquanto objeto físico, sem que este último mereça menor consideração. O ser humano pode caminhar feliz na estrada da desmaterialização da informação, mas os nossos primeiros livros serão sempre físicos. O primeiro livro de uma criança é o objeto que esta leva à boca, assimilando uma realidade desconhecida à sua única maneira de sentir o sabor do mundo. O ser humano necessita dos objetos como totens ou amuletos configuradores de uma verdade imaterial mas que se relaciona com a realidade material que, para todos os efeitos é, no nosso entendimento, a realidade - por mais que acreditemos em energias e espíritos, e por mais fé que depositemos na falsidade da matéria, quando pensamos em verdade pensamos em objetos alheios a nós, como se nos fosse impossível participar dessa verdade com volume e presença perante a nossa figura fantasmagórica contaminando de falsidade os objetos. Ao mudar uma pedra de sítio, penso: tirei-a do seu lugar próprio, interferi na realidade, tornei falso aquilo que era verdadeiro. Quem escreve sabe bem que, ao escrever, está a dar forma material ou visível a uma verdade que, em grande parte, é mentira, ou mentiras que, na sua mais íntima realidade, são verdades absolutas. A ficção pode muito bem ser mais verdadeira que a não ficção. Basta ler um livro de ciência de há um século atrás e verificar como envelheceram as suas verdades e como cada frase comporta em si o erro, enquanto que os romances que já eram extraordinários naquele tempo parecem mais válidos agora do que nunca. 
Pequenos filmes como este são úteis na compreensão desta relação de amor que estabelecemos com objetos que servem de testemunho de outras tantas relações entre a verdade e a mentira, a posse e a dádiva, a permanência da vida e a imanência da morte. Este filme é um livro. E como qualquer livro, não se encerra nas suas páginas porque suscita outras. Há nos livros uma capacidade reprodutiva e somos nós, que os habitamos transitoriamente, o meio de cultura que lhes permite a disseminação. Quem pega num livro e o abre participa no maior dos acontecimentos do Universo, o único onde todos os acontecimentos foram e continuarão a ser possíveis. E onde a realidade se torna verdadeira quando ainda todos andam no terreno falso de um furacão sem chão, sem pensamentos e sem sonhos partilhados. Que um livro, entenda-se bem, só o é quando passa de mão em mão.
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publicado por Manuel Anastácio às 09:48
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Sábado, 14 de Janeiro de 2012
Sebastiana e Manas, de Antonieta Ribeiro

Antonieta Ribeiro é uma daquelas grandes amigas que descobri graças à minha esparsa atividade na Internet. Este seu livro, magnificamente ilustrado por Rita Correia num majestoso preto e branco de traços complexos e tão cheios de referências ecléticas quanto o texto de Antonieta, é, logo ao primeiro encontro, um deleite para a visão e para a audição (se lido em voz alta para qualquer pequenote que não se interesse apenas pelas coisas sem interesse que atropelam a vida das crianças de hoje). 

 

Cinco irmãs, numa teia de cincos que despertam o leitor para as subtilezas dos pormenores literários, que vão desde os nomes das personagens aos génios e espíritos que dão forma aos sentidos, descobrem, num encontro de sensibilidades, a riqueza de um mundo onde em tudo moram deuses, como é dito no célebre fragmento de Tales de Mileto.

 

Há, por vezes, na literatura infantil, um certo medo da complexidade. Antonieta sabe bem que as crianças enfadam-se facilmente com a simplicidade minimalista, cujos encantos são apenas para alguns adultos iniciados na abstração. O Universo, para uma criança, é repleto de coisas para descobrir. E Antonieta abre portas em todas as direcções. Há neste livro uma chave para qualquer educador explorar em conjunto com a criança que nele se perder, entre nomes de espécies botânicas a grandes criadores da História Universal.

 

Não consigo deixar passar despercebida as referências à cidade de Guimarães e a São Gualter, bem como as entradas da Wikipédia (algumas com um dedinho meu) com que Antonieta me fez crer (provavelmente sem eu ter razão em crer em tal) que este livro foi escrito para mim. Creio - qual creio, sei, que quem quer que nele pegue descobrirá um recanto de luz, perfume, delícia, carícia, bem como um certo murmurar de vozes que transcendem aquilo que sentimos. É preciso ir mais além. E Antonieta fê-lo. Diz-me o meu sexto sentido.

 

Onde comprar? Aqui vai a lista (tirada daqui).  

 

Les Enfants Terribles - Bar & livraria do Cinema King 
Rua Bulhão Pato Nº 1, Lisbon, Portugal 

Livraria Caminho 
Rua Pedro Santarém, n.º 41 
2000-223 Santarém 

Livraria Graça 
R. Junqueira 46 Póvoa de Varzim, 
4490-519 Porto 

Livraria Avenida 
Rua António Sardinha 11 -r/c 
7800-447 Beja 

Clube Literário 
Rua Nova da Alfândega, 22 
4050-430 Porto 

Aliete S Clara Brito 
Avenida 25 de Abril, 24 R/C 
8500-511 Portimão 

Livraria Portugal http://www.livrariaportugal.pt/ 
Dias & Andrade, LDARua do Carmo, 70 
1200-094 Lisboa 

Livros da Ria Formosa 
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Ou falando com a autora Antonieta Ribeiro, fazendo o pedido directamente para o seu e-mail: aribeiro43@gmail.com

 

Não se vão arrepender.

 

 

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Segunda-feira, 9 de Maio de 2011
Deixem passar o Homem Invisível, de Rui Cardoso Martins

Rui Cardoso Martins. Um dia, li um texto dele sobre a campanha de má memória do nefasto presidente que sobre nós paira com conselhos paternais de responsabilidade.

 

- Algo contra a responsabilidade?

- Nada, camarada, é responsabilidade mesmo que eu quero, mas não aquela de quem só a tem para proveito próprio.

 

Partilhando esse texto, que me fez vir as lágrimas aos olhos, a Maria Helena deixou-me o aviso de que algo me andava a escapar. Um livro deste autor, chamado "Deixem passar o Homem Invisível". Eu prometi procurar o livro. Mas a Maria Helena, mais célere na sua bondade sem limites, ofereceu-mo com o equinócio da Primavera e com as amêndoas pascais da doce amargura do cíclico renascimento do sol e da flora. No estado sonâmbulo em que me encontro, levei tempo a lê-lo. A responsabilidade de o comentar atrasou-me o gesto de o abrir. Este fim de semana, a caminho da VII Convenção do meu partido, onde tive a honra de ser um dos delegados, e como sou bom leitor de autocarro, escorreguei literalmente pelos canos deste sonho maior que a vida. Porque há sonhos maiores que a vida. Há filmes maiores que a vida. Há gestos maiores que a vida. Há livros maiores que a vida. E Rui Cardoso Martins é autor de um destes. Não é pela originalidade de um livro que, em muitas coisas, se assume como uma paródia à escrita de Saramago, seja o do Ensaio sobre a Cegueira seja o do Memorial do Convento. "Cegos são pessoas que não vêem, na minha opinião", abre ele num sorrido ácido e amargo disfarçado de tautologia. Disfarçado só. Porque La Palisse não mora aqui. E Saramago só mora como referência inevitável, mas dilacerada por um sentido de humor negro que faz chorar de desespero. Não me lembro de obra de arte alguma onde o humor (do melhor) me tenha feito chorar de tristeza. A alegoria está lá. Está lá o realismo mágico dos milagres que se escondem sob a forma de truques. Ou truques que se escondem sob a forma de milagres - se calhar, até é mais isto.

 

No final do dia, depois de uma longa pratada de discursos políticos, uns com mais oratória, outros com menos, mas todos carregados da angústia de quem traz o fardo do mundo nos sonhos que os outros não querem realizar, fui com alguns camaradas de Famalicão passear na baixa de Lisboa em direcção ao Tejo. Já tinha lido o livro. E não resisti a dizer, enquanto descíamos a Rua Augusta sob as ralas bátegas de uma chuva de miséria, que debaixo dos nossos pés seguia um cano de esgoto de três metros por três metros, o suficiente para passar por lá um elefante. No cais das colunas, fiquei frente ao cenário onde o livro encerra. Nada tinha sido programado. Não sabia que era ali que o livro acabava. Podia ter acabado o livro em Guimarães, à sombra do castelo, mas não. Li aquelas palavras torrenciais, sorridentes, maldosas, cínicas e maiores que a vida ali, a caminho de um Tejo que nos chama, que nos engole e nos vomita sem piedade. Como Rui Cardoso Martins nos faz nesta história sobre um cego advogado que, em estado sonâmbulo, aceita condenar os inocentes e verá cair-lhe nos braços o terno fruto do seu pecado.

 

Há neste livro o cínico olhar sobre a lusa maneira de ser enganado, a lusa maneira de acreditar, a lusa maneira de sermos totus tuus, Mãe de Deus, senhora celeste que pede orações e sonâmbulos sacrifícios que nos livrem da negra transparência dos demónios.

 

Volto a dizer que não sinto que haja aqui uma especial originalidade. Mas Rui Cardoso Martins vai para lá das pretensões. Afinal, não passamos de meros repetidores dos truccos feitos por ilusionistas dos tempos bíblicos. Nada há de novo a escorrer nos esgotos das nossas cidades. Há apenas a mera repetição das lágrimas, dos risos nascidos da resignação, da esperança infundada num milagre que por vezes acontece.

 

Um livro milagroso escrito, como disse alguém dos textos sagrados, por intermédio do Espírito Santo. Por inspiração divina. Creio sinceramente no que digo. Ao reler as últimas páginas compreendo perfeitamente que se acredite que o sacrifício do Filho se repita integralmente no acto da Eucaristia.

 

Tristeza não tem fim. Felicidade, sim.

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publicado por Manuel Anastácio às 21:03
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Terça-feira, 12 de Outubro de 2010
Trilha de Ausências, de Gláucia Lemos (contributo para uma resenha futura)

 

Adriaen van Utrecht: Vanitas - Natureza Morta com ramo de flores e caveira, c. 1642

Um dia, alguém escreveu  aqui que havia, num conto poema de Gláucia, a humanidade inteira concentrada na figura de Penélope, a mulher que fica, a mulher que espera, a mulher que trabalha na esperança de um retorno redentor que tarda. Em “Trilha de Ausências”, Gláucia vai além da figura de Penélope e penetra no próprio Universo de Ulisses. Tenho andado com o livrinho de lado para lado, fui juntando notas em folhas que foram engrossando o não muito espesso volume e, perante os remorsos de não ter escrito uma resenha a tempo e horas para uma autora que, mais que escritora, poetisa, contista, é um ser humano de excepcional humanidade, vi-me obrigado a dizer a mim mesmo: em vez de escreveres uma resenha, escreve já qualquer coisa, e depois, compõe com os trapos esfiapados do que te cair na saca de trapeiro um texto, uma teia, uma tapeçaria mais completa. E quando assim determinei a sorte das notas que fui sarrabiscando com lápis do IKEA, descobri que o fantasma erudito de minha casa (que, sim, tenho um fantasma erudito a passear em casa, que me rouba livros que, num qualquer dia de névoa pura, vêm pousar-me às mãos, dizendo, como é que nunca me viste, se estou aqui) roubou-me a “Trilha de Ausências”. E compreendi que o livro apenas se recusou a continuar a ser mais macerado que uma bíblia nas mãos de uma Testemunha de Jeová.

 

O título do livro tem um poder de síntese arrebatador.  Há muitas teses sobre quais os grandes temas da grande literatura. Será o Amor? Claro que é. Mas o Amor é luva adaptável a todas as mãos. Na literatura europeia, desde o século XIX,  o segredo é o tema que mais tem inspirado os escritores. O segredo que não pode ser desvelado. Que deve, a todo o custo, ser protegido, como é pungentemente explorado em forma de tese/narrativa  em “O Leitor” de Bernhard Schlink. Mas Gláucia consegue, num mero título, fundir a visão própria do romance: o caminho stendahliano, à espera, paciência e contemplação poética que remonta a Homero. Mas sem grande segredo. As confissões e acusações de Gláucia não são envergonhadas e têm, por vezes, a insolência e astúcia masculina de Ulisses, entrelaçadas com a máscula androginia de Santo Agostinho, sem que deixe, jamais, de ser simples e supremamente mulher, de ser espera e, muito, resignação religiosa. Resignação essa que se justifica e redime, no sentido pejorativo que possa existir na palavra, através da audácia de quem se faz ao caminho com a sapiente irresponsabilidade de Ulisses, mas também com o doce desencanto de Penélope. Gláucia, dona do mais doce e feminino sorriso, traz nos traços do rosto tanto os caminhos violentos dos povos invasores, como o abraço quieto daqueles povos que, ou violentados ou fecundados no esplendor da mestiçagem, continuaram a esperar pelo eterno ciclo da Natureza, mesmo quando a enxurrada parecia tudo ter destruído. Por força do Amor e da inexorabilidade e absurdo da existência. Os poemas de Gláucia são existencialismo genético, enformado em sensibilidade que, reconhecendo o absurdo que rege as relações humanas, das mais superficiais às mais profundas, recusa o absurdo, porque ao Pathos, o caminho, responde sempre com um Ethos uma ética, uma morada.

 

No poema “Recado”, Gláucia Lemos começa por estabelecer o território vasto da geografia mítica da sua íntima epopeia. Termina esse poema dizendo que amar-te “mais intenso foi que penetrar na morte”. Amar-te. “Te amar”. Fala aqui do amor que une o escritor do poema pelo leitor idealizado. Aquele que, provavelmente, não lerá o poema. Porque entre o autor do poema e o leitor ideal há o abismo da morte e da intransponibilidade. Sempre. Tal como entre dois amantes, cada carícia parece apenas agravar os limites dos corpos e a impenetrabilidade das almas. Há também um sentido quase didáctico nesta ideia. Entre Bach e os compositores do período romântico interpuseram-se gerações que, apesar da sua soberba arrogância de filhos ingratos, não poderão negar uma paternidade real, para sempre cavada entre os que deram à luz e aqueles que viram a luz dada por pais a que se não poderão aconchegar num abraço de amor, calor de pele e pulsação sanguínea, no aconchego do filho que sente o bater do coração da mãe e teme, em todos os horrores que a infância destila, o momento em que a essa pulsação se seguirá o silêncio como resposta aos gritos, seguindo o curso previsível da Natureza. Há, em “Bichos de Conchas”, também de Gláucia, essa sina terrível dos entes que se amam e irremediavelmente se separam. Irremediabilidade essa que nunca é definitiva pela mão de Gláucia. Há, talvez, um fundo místico e religioso fundado numa crença pessoal de reencontro, mas que nunca é explícito. Gláucia não é autora de catecismos. As suas crenças nunca são impostas mas sublimadas em imagens e em actos de amor e espera, fundindo duas virtudes teologais, a Fé e a Esperança, e revestindo a maior de todas, o Amor, na sua verdadeira tradução para a nossa língua.

 

Gláucia revisita, nesta sua poesia amorosa (mais filosófica que lírica, diria eu), o indissolúvel pacto entre o Amor e a Morte. Mas, em vez da tragédia, em vez de Romeu e Julieta e do veneno e da espada que encurta o reencontro na decomposição; em vez de Pedro e Inês e da procura da justiça a qualquer custo; em vez de Tristão e Isolda e da entrega orgásmica a um wagneriano Espírito do Mundo, Gláucia oferece-nos a placidez calma de quem espera, encontrando, já, nessa espera, um clarão de felicidade. Há, com certeza, a escuridão da impossibilidade, da dor e da dúvida, mas apenas como contexto desse clarão e dessa luz que transborda, aliás, do seu pessoal e invariável sorriso que, infelizmente, apenas conheço de fotografia.

 

No poema “Percurso”, Gláucia desenvolve uma forma rítmica e poética que me é cara, brincando com o som e com a forma, liberta de outros cânones que não aqueles que o espírito que escreve pressente a partir da verdade que releva da beleza do mundo revelada pelos nossos sentidos. Podia chamar-se Scherzo, a esta exploração de afinidades sonoras entre as palavras que vão para lá da aliteração e da rima, na procura de uma flaubertiana palavra justa para um justo e amoroso pensamento. Há a procura de um ritmo ético-retórico, onde se consegue a persuasão do discurso através da exposição de imagens fortemente pictóricas, dispostas segundo uma estética própria das colagens criativas e da montagem cinematográfica, onde a memória da imagem anterior interfere com a exposição da imagem seguinte,  revelando a Natureza do tema unificador destes poemas, que é o “percurso” (ou “trilha”) enquanto acumular de ausências.

 

Se Stendhal dizia que o romance é um espelho ao longo do caminho, Gláucia demonstra que a literatura é o próprio caminho. Se Stendhal considerava que o caminho era real, e a literatura o seu reflexo imaterial, Gláucia demonstra que o caminho nunca é real para além do passado/ausência que se acumula enquanto se caminha (“nos rastros, o pó é o sangue dos perdões inúteis”). Há na palavra passado o significado de “passo dado”, de passo irreversível, para sempre engolido no vazio e na ausência, embora seja nessa ausência e nesse passo dado que se encontra a dor que motiva e orienta o passo que se dá e se imaginam os passos que se darão.“Tudo fica nos rastros. Só as cicatrizes não. As cicatrizes seguem todos os passos no percurso”.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:53
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Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010
IX

 

 

 

O gótico foi um estilo artístico medieval que se definia, estruturalmente, pela ascensão. Hoje em dia, os chamados góticos definem-se estruturalmente pelo peso e pela atracção pelo abismo. Sempre houve este desejo doentio pelo que morre e pelo que cai nas trevas. Valha-nos o Monte dos Vendavais. Nunca vi nenhum filme nem li nenhum livro da chamada "Saga" Twilight (apesar dos produtos anexos serem explícitos quanto à coisa) e os vampiros de agora são todos uns coisos que não vale a pena nomear. Que diferença entre esta vampiresca moda e o Nosferatu de Murnau... A profundidade do mito ao serviço da expressão da Condição Humana desceu (ou subiu - à superficialidade) às partes baixas dos adolescentes e,em vez de sangue, que segundo o Renfield do Bram Stocker, era vida, são as hormonas a ditar a lei da parte escura da alma. Talvez tenham razão. Calo-me. Às vezes a verdade vem ao de cima, quer dizer, à superfície, como o azeite - ou os elefantes.

 

Isto só para apresentar o vídeo da Florence Welsh. Gótico à moda moderna, para essa Saga que ainda não vi. E lembro-me, entretanto, que não apareci no lançamento do segundo volume da Lua da Anabela Lopes, porque não pude mesmo (ela deve julgar que não apareci porque não me deu a ler o livro antes, como tinha prometido inicialmente.... :| )... E não faço ideia onde é que o livro está à venda, por isso ainda continuo sem saber se a Lua, ao entrar na pré-adolescência, se rendeu à licantropia ou se tornou vestal... Entretanto, tenho umas resenhas sobre livros da Gláucia que estão a custar a parir. Muitas folhas, muitos apontamentos, muita responsabilidade nas palavras que aqui gravar, muito medo de meter os pés pelas mãos... Gláucia, uma coisa lhe garanto: não há dia que não passe desde há dois meses atrás (mais: a sua assinatura é de Maio, Deus meu!...) que não me julgue em dívida. Já escrevi muito sobre as suas palavras. O pior é dar-lhes luz. Banhá-las com a luz do sol que (antigamente) matava os vampiros. Tenho a "Trilha de Ausências" aqui ao lado. A capa vai dando sinais de uso. E o mesmo acontece ao Marujo Verde que, coitado, é obrigado pela minha insistência a voltar ao alcance da bocarra do Dragão de Komodoro ou das setas dos caçadores de cabeças... para não falar daquele cão azul nunca visto, saído da mochila amarela de Mariela... É assim, há meses para mim cheios, sem que deles reste registo fóssil ou outra coisa que aos outros preste.

 

Mas já falei de mais. Aliás. Hoje nem era para dizer coisa nenhuma. Falei e disse. E quem fala assim, na verdade... às vezes gagueja.

 

E queria aproveitar para mandar um beijinho e um abraço ou vice-versa, conjuntiva ou disjuntivamente... posso?... para... adivinhem. Esqueçam. Não vou mandar beijos para ninguém. Nem abraços. Se os querem, venham cá buscá-los, que é de graça.

 

Perdoem-me a parvoíce.

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publicado por Manuel Anastácio às 22:02
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Sábado, 5 de Junho de 2010
O Tanto que não Sou
Um dia, decidi fazer uma lista com os cem filmes da minha vida. E, graças a escrúpulos quase inconfessáveis, também decidi não incluir "O Paciente Inglês". Foi um filme que de tal modo me transtornou e maravilhou que julguei que qualquer pessoa digna de ser pessoa não poderia passar indiferente por aquela parcela de Inferno escavada em beleza. Enganei-me. Um objecto estético, por mais belo que nos pareça, não tem valor absoluto a não ser na nossa própria alma. E mesmo as pessoas que mais amamos poderão bocejar perante o poema que nos conduzirá ao suicídio ou à glória. Hoje consegui roubar um segundo (na verdade, nem isso) para ir aos correios levantar o livro que a Gláucia, em acto de caridade, a caridade de que fala Paulo no capítulo treze da Primeira Epístola aos Coríntios, me emprestou. Um livro nunca se dá, a não ser uma vez, quando se escreve. Gláucia emprestou-me este livro e guardá-lo-ei, com a dedicatória, até que a morte, ditosamente mo transvie para as mãos e para o olhar de alguém que nele lerá aquilo que agora não conseguirei ler. Hoje, ultrapassados os escrúpulos que me fizeram afastar o cálice amargo de "O Paciente Inglês" das minhas oficiais preferências, encontrei, em epígrafe do livro de Gláucia, aquele "todos os dias arranco o meu coração e ele torna a crescer"(Every night I cut out my heart. But in the morning it was full again), frase que se refere a um outro diálogo entre o paciente, antes de ser paciente e antes de ser inglês, e Katharine, em que este lhe fala de uma planta cujo coração deverá ser arrancado para, depois de absorver a humidade do ar nocturno, lhes dar, pela manhã, água no deserto onde correm o risco de morrer (e onde o Conde de Almásy não terá a romântica satisfação de morrer). Katharine responderá, de forma pragmática e brutal (ainda que disfarçada de simples humor negro): encontra essa planta e arranca-lhe o coração. Assim é o amor. Não como Paulo o descreveu aos Coríntios, mas como se dá a conhecer, dolorosamente, a quem procura, não o desinteresse dos céus, mas as santas inclinações da alma, a que chamamos coração e que, na nossa bestial ignorância bem intencionada, julgamos ser egoísmo. E é apenas ausência. A ausência a que irremediavelmente nos entregamos, não por maldade ou indiferença, quando o objecto da nossa afeição está ao nosso lado, mas porque somos feitos de ausência, da mesma ausência que se derrama em lágrimas no primeiro poema, que Gláucia chamou de "O Tanto que não Foste" e que bem poderia ser "O Tanto que não és", não fôssemos nós apenas orvalho e chuva depois de sermos gás, espírito, invisibilidade, ausência. Enquanto somos, não vemos nem somos vistos.
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publicado por Manuel Anastácio às 01:54
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