Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008
Gosto de... aprender coisas junto à lareira

Lume na lareira junto à qual li Júlio Dinis, José Saramago, Eça de Queirós, Maurício de Sousa, livros do Patinhas, Collodi, Salgari, Condessa de Ségur, Marquês de Sade (só a "Justine, ou Os Infortúnios da Virtude", juro...), alguns russos, José Mauro de Vasconcellos, Rómulo de Carvalho, Jorge Luis Borges, Camões, Camilo Pessanha, a Bíblia, Evangelhos apócrifos, Proust, livros da Anita, revistas das Selecções do Reader's Digest, John Steinbeck, Enid Blyton, Sophia, Santo Agostinho, Heródoto (os volumes que tinham saído das Edições 70... será que já publicaram os outros?), Homero, Henryk Sienkiewicz, Lew Wallace, Salman Rushdie, Edgar Morin, os livros da escola (da minha irmã, que eram mais interessantes que os meus)...

 

...E, claro, o "Seringador", enquanto a roupa molhada secava nas costas de uma cadeira e a minha mãe fazia mexuda de abóbora...

 

... E onde se cozia e assava o bucho que, tal como foi dito em comentário há dois artigos atrás, pelo meu natal-conterrâneo Silvério Salgueiro, também se come recheado, assim como a bexiga do porco, com os ingredientes utilizados nas morcelas. Na bexiga, como as morcelas de arroz e, no bucho, acrescentando pequenos pedaços de carne. Um dos dois, na casa do Silvério Salgueiro, que na minha não, era comido no Domingo Gordo como acompanhamento das sopas alvas com grão-de-bico e hortelã. Hortelã essa que é um dos cheiros típicos de Carvalhal, especialmente na estranha canja de porco que é servida no dia da matança, com massa esparguete.

 

... E junto à qual muito bucho de criança, incluindo o meu, correu o risco de ficar revirado em brincadeiras contorcionistas... Mas quanto a isto, o caro Silvério ainda não me esclareceu cabalmente, já que ouvi a muita gente falar de casos concretos de buchos revirados (claro que pode ser um mito... rural...). E creio que fosse um estado mais grave e permanente que a ânsia de vómito e enjoo referido pela Gerana... E, já agora, creio que descobri o que é chamado de "passarinha" nas matanças de Carvalhal: o baço. Ainda que o uso da palavra "passarinha", na acepção referida pela Gerana num comentário anterior seja, de facto, corrente.

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publicado por Manuel Anastácio às 13:40
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Terça-feira, 24 de Outubro de 2006
Pormenores - Mosteiro dos Jerónimos II


Ainda com os monstros e as flores dos Jerónimos na retina (e abençoada seja a máquina digital que revela pormenores na pedra lavrada que os olhos ainda ofuscados da luz exterior não conseguem discernir na escuridão da igreja), descubro que fui inscrito entre as retortas alquímicas de um blog de poesia que me impressionou pelos seus pormenores preciosos feitos de referências de pura e perfeita escuridão. Porque é a escuridão que define a luz, como bem ilustrou o Paulo Brabo no seu espantoso conto, Sesulis - como é hábito, a dar uma piscadela de olho a Jorge Luís Borges.

E tudo isto quando estava a ganhar coragem para pegar, finalmente, nas obras de Fulcanelli. Eu sou, de facto, um adepto da alquimia. Não da Alquimia folclórica, mas aquela que procura a pureza da verdade através dos sinais obscuros que nos raptam em direcção à transcendência. Não sei se pareço demasiado pretensioso com esta treta toda, mas não o consigo dizer de outra forma. Como o autor deste monstro, agachado num canto, na Igreja do Mosteiro dos Jerónimos, olhando com ar fero, mas também assustado, para o túmulo de Camões, há coisas que não conseguiremos dizer a não ser pela expressão dos monstros, por vezes belos, que nos velam o sono, os sonhos e o acordar de cada metamorfose.
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publicado por Manuel Anastácio às 23:30
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Segunda-feira, 23 de Outubro de 2006
Pormenores: Mosteiro dos Jerónimos I

Cercadura de porta na Igreja do Mosteiro dos Jerónimos, numa foto de Carla Cristiana Carvalho (1982 - )

Num passeio breve por Lisboa, num roteiro que se centrava basicamente nos espaços devolutos das margens do Mar da Palha, consegui, ainda assim, ler as pedras, os rostos, as carantonhas, as folhas e as flores de pedra do Mosteiro dos Jerónimos1. Em volta das portas do lado esquerdo da Igreja, deixei os olhos deslizar pelas curvas macias de heras, vides, acantos e... no meio destes pormenores vegetalistas todos, encontro esta cercadura de rostos totémicos que parecem saídos directamente da adaptação cinematográfica de "O Senhor dos Anéis"... Desde reis com ar sábio e proverbial, a demónios do Novo Mundo. Para além da personagem feminina no fundo numa posição erótica e exibicionista própria de uma pin up.

Não há, de facto, conceito algum que um só mármore não contenha. Basta que o mármore tome a forma da poesia.

Cercadura da mesma porta, do lado esquerdo de quem contempla
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publicado por Manuel Anastácio às 21:13
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