Domingo, 23 de Março de 2014
Manual de Etiqueta e boa Educação no Facebook: contributo I

Em Portugal, escrever sobre etiqueta e boa educação sempre foi atividade de sucesso em termos monetários e reconhecimento social. O fenómeno Paula Bobone veio demonstrar outra coisa ainda. Que não é preciso ser-se bem educado para dar aulas de boa educação, da mesma forma que o padre não precisa de ser homem de fé para que a comunhão seja válida, pobre Cristo, humilhado mesmo depois da Glória, obrigado a fazer renascer a sua carne nas mãos de tanta gente malvada. Adiante.

 

Ora, eu não sou gente recomendável no que diz respeito a regras de boa educação em qualquer meio de convivência social que se firme apenas no conceito de liberdade de associação entre pessoas. Se sou obrigado a associar-me com alguém, seja profissionalmente, seja contratualmente, seja no decorrer das minhas mais primárias necessidades, sou obrigado a ser bem-educado. Entre amigos (o que pode incluir ou não a família), posso ser eu mesmo. Que eu mesmo não sou bem-educado. Ninguém é. Que fique bem assente que a boa educação é, acima de tudo, uma máscara conveniente para o trato desimpedido e funcional com outros seres humanos com quem não temos confiança. Uma forma de manter a ordem social mínima entre desconhecidos ou pessoas que não partilham qualquer tipo de afeição. De resto, a boa educação, entre amigos, é altamente prejudicial e é a principal causa dos mal-entendidos que levam ao fim das amizades. Uma amizade firmada em sinceridade é duradoura. Uma amizade firmada em regras e códigos termina sempre com cisões insanáveis e cismas sangrentos. Adiante.

 

Não sou gente recomendável no que a regras de etiqueta diz respeito. Mas tenho alguma capacidade de análise dos comportamentos humanos pelo que posso adiantar ao que venho.

 

Há um pequeno grupo de utilizadores do facebook que utiliza sistematicamente o mural das outras pessoas para publicitar as suas coisas, seja um meme, seja um poema, seja um pensamento. Daí não viria mal ao mundo se partilhasse um determinado estado no mural de uma pessoa, ou duas pessoas, ou de um grupo restrito de pessoas que estão diretamente relacionadas com o assunto e causa. Por exemplo: "E então, ppl, como está a ressaca?" pode-se partilhar no mural das ditas pessoas que podem estar de ressaca devido a uma atividade comum, desde que se saiba de antemão que desse comentário não decorrerá qualquer constrangimento profissional, familiar ou social grave. Isto é, se escrevemos no mural de uma pessoa, é como se estivéssemos a dar-lhe uma prenda. Um miminho. Algo que sabemos que aquela pessoa vai gostar. Já espetar com um vídeo de que gostamos no mural de uma pessoa que mal conhecemos, pode ser extremamente constrangedor para a pessoa em questão, e será muito bem feito se sairmos da aventura com um bloqueio nas trombas. Adiante.

 

O problema agrava-se quando alguém decide partilhar um determinado estado, identificando nele dezenas de pessoas que não têm nada em comum. Chega a data da festa da freguesia e publica-se o cartaz das festas com 43 pessoas identificadas ou mais. Os identificados, sejam da freguesia ou não, são imediatamente vinculados à festa e vêem os seus murais invadidos por comentários de gente estranha e recebem notificações de segundo a segundo, de gente que não conhece de lado algum, a comentar “a sua foto”. Imagine que lhe colam nas costas um cartaz sem que dê por isso. Enquanto vai andando pela rua, ouve comentários. Não entende bem do que estão a falar, até que descobre que a sua imagem e a sua própria identidade foram parasitadas pela mensagem de um terceiro que, aproveitando-se do facto de ser seu “amigo” lhe deu uma palmada nas costas e, com ela, um outdoor.


Um poema dedica-se a uma pessoa ou a grupo específico de pessoas. Nunca a mais de três pessoas. E devemos ter a certeza de que essas menos de três pessoas não vão ficar constrangidas com a mariquice que é ter um poema com dedicatória nos seus murais. Quem diz poema, diz a anedota, a convocatória para uma manifestação, a fotografia bonitinha de gatinhos, paisagens de sol posto e pensamentos profundos do Gandhi ao Quim Barreiros. Quando dedicamos algo que consideramos belo a alguém, o destinatário até pode não gostar da oferta, mas entende a intenção. Vê nisso um gesto de bondade. Contudo, se dedicamos o fruto das nossas preferências a mais de uma dezena de pessoas estamos a funcionar como parasitas. Entramos na esfera pessoal de alguém e associamo-la à força a um conjunto de pessoas de outra esfera. Isso é violação! Não é uma homenagem. Não é um presente. É usarmos os outros para promovermos as nossas mesquinhas preocupações. É para isso que serve o botão “Gosto”: para as pessoas se associarem às nossas preocupações, se assim entenderem. Ao identificarmos as pessoas antes delas terem conhecimento da mensagem estamos a obrigá-las a assumir uma posição que pode não ser a delas. É uma atitude ditatorial, violenta. Pensem nisso. Boa noite.

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publicado por Manuel Anastácio às 19:55
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