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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2012
Fábulas de Esopo: a águia e a gralha

Harrison Weir, John Tenniel, Ernest Griset, et.al.



Andava a gralha a cirandar
p’los campos entre rebanhos
quando uma águia, do ar,
caindo sobre um dos anhos,
capturou-o com as garras,
e sem esforços tamanhos
numa ascensão sem amarras,
levou o manso cordeiro
em direção às bocarras
e ao bico carniceiro
das suas crias famintas.
Do alto do seu poleiro,
com vaidade sem meias tintas,
achou-se a gralha capaz
de servir-se das mesmas fintas.
De um borrego põe-se atrás
e agarra-o no cachaço,
fazendo o que águia faz,
sem ao siso dar espaço
para impor a sensatez.
Com os pés num embaraço,
de garras sem robustez
mais e mais se encravava
na lã dos flancos da rês.
O pastor que ali andava
achou graça àquela cena
em que a gralha se humilhava.
Capturou-a, sem ter pena
do bicho desenganado.
Ao cativeiro a condena,
e mal a casa chegado
ouve os filhos perguntar,
do pássaro desgraçado,
como se vinha a chamar.
“Uma gralha, penso eu...
Mas posso estar a errar:
vendo ao que se atreveu,
pensa, com toda a certeza,
ser uma águia do céu!”
Por aí muita esperteza
segue a mesma triste sina
ao julgar que é destreza
a estupidez cabotina.


(versão de Manuel Anastácio)

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Segunda-feira, 5 de Novembro de 2012
Fábulas de Esopo: a águia e a raposa

Harrison Weir, 1867



A águia, de alto semblante,
de uma raposa vizinha,
acordo desconcertante
de paz, com ela mantinha.
Debaixo de uma giesta
vivia a inocentinha,
que ao olhar da águia presta
a sua novel ninhada.
E atento era o olhar desta.
Mal a ocasião foi dada,
atirou-se às pobres crias,
devoradas à bicada
num festim de carnes frias
p´ra seus esfomeados filhos.
A raposa, nestes dias,
pisando os doridos trilhos
do luto, rezou a Deus
angustiados estribilhos
pela vingança dos seus.
Mas de Deus só a ausência
no abismo do adeus.
Movida pela urgência
de satisfazer o ódio
e a sua impaciência,
juntou lenha entorno ao pódio,
alta árvore inacessível,
onde fora o episódio
de crueza inconcebível
que a levara à loucura.
Acendeu o combustível
com as chamas da agrura
e esperou sem piedade
que os objetos de ternura,
tornados em crueldade,
ali tombassem assados.
E assim foi, na verdade.
Mais pela dor devorados
que pela fome da pobre.
Senhores de altos costados
de seleta casta nobre,
que julgais tudo poder,
o posto que vos encobre
pode-se bem abater.


(versão de Manuel Anastácio)

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Sábado, 3 de Novembro de 2012
Fábulas de Esopo: o burro e o cãozinho

De cane et asino, Francis Barlow, 1687

 

Certo dia, a um fazendeiro,

dono de um burro escorreito,

em visita, em que era useiro,

ao jumento, seu eleito,

deu-lhe p’ra levar um cão

de colo junto ao seu peito.

O canito, folgazão,

lambia-lhe, doido, a cara,

pedindo-lhe uma ração

com que o burro não sonhara

em momento algum da vida.

Vendo tal ternura rara,

nunca a ele despendida,

sentiu subir-lhe às entranhas

uma inveja desmedida.

Pensou, pois, em artimanhas

que lhe pudessem valer

do dono graças tamanhas.

Pensou então em fazer

Ao amo o que o cão fazia.

Dispôs-se para o lamber

de igual modo, nesse dia.

Assim pensou, assim fez

o que o ciúme pedia

e foi às duas por três

que lhe quis subir p’ra cima.

E como cabra-montês,

ao proprietário se arrima

com enorme estardalhaço.

Se de início bem se anima

a valente e grosso abraço,

vira o vento, vai de viagem

com pancadas no cachaço

dadas pela criadagem.

Grita o dono, zurra o burro.

Correu mal a homenagem.

Leva no focinho um murro

e fica de cara à banda.

Mesmo que isto cheire a esturro,

a lição não é nefanda

e acontece frequentemente.

O amo quer, pode e manda,

e a lei assim consente.

Quem jumento assim nasceu,

Por muito que se atormente

só o jugo terá, de seu.

 

versão de Manuel Anastácio

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Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011
Fábulas de Esopo: O leão moribundo

Doente, no fim da vida,

Sufocado de aflição,

Com a força constrangida

Pela dor estava o leão.

De rastos, junto à morada

Da sua jurisdição.

Logo se forma manada

Em torno do decadente.

Em respeito iniciada,

Atraída gravemente

pela dor, se forma fila

querendo ver o doente.

Assim que a morte perfila

os seus traços no monarca

logo a vingança cintila

entre a multidão anarca.

"É boa a ocasião

de fazer o patriarca

sentir a humilhação

que ele já nos fez sofrer".

Vem o javali malsão

com as presas a fremer

prontinhas para o castigo

fazendo o leão gemer.

De igual forma, sem perigo,

lhe lançou o touro os cornos.

Assim seguiu o fustigo

sem no trato serem mornos.

Sentindo os cascos do burro,

Tendo chagas como adornos,

Impotente a cada murro

que em fila se sucedia,

cego p'lo sangrento enxurro,

sem predizer acalmia

no ardor da multidão,

para si mesmo dizia

perante tal beija-mão:

"antes de uma outra morte

os meus vassalos me dão",

mas vero é que contra o forte

nunca os cobardes se viram

a não ser que venha a sorte

e as forças se transfiram.

 

Versão de Manuel Anastácio

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Quarta-feira, 6 de Abril de 2011
Fábulas de Esopo: A raposa e o corvo

Capitel da Igreja românica de San Martín de Fromista, Palencia (Espanha).

 

À raposa, certo dia,

Ao ver um corvo a pousar

Numa certa ramaria,

Deu-lhe para reparar

Num queijo que ele, c' o bico,

Acabara de roubar.

E ela, num saltarico,

Sob o ramo se meteu,

Cobiçando o pitéu rico

Daquele bico pr’o seu.

“Boa tarde, Mestre Corvo”

Assim ela se atreveu,

Sem receio como estorvo,

Pronto a tudo arrumar

Num rápido e curto sorvo.

"Não me canso de admirar

A elegância e beleza

Com que se quis enfeitar

A animal natureza,

Ao, no seu corpo, investir

Tamanha delicadeza.

É difícil decidir

O que mais belo parece:

Essas penas a luzir

Ou esse olhar que enternece

O mais duro coração.

Confesso que me apetece

Ouvir-vos numa canção.

Vossa voz está, certamente,

P'ra lá de comparação,

Mesmo para ouvido exigente,

Seja com o rouxinol

Ou outra canora gente.

Das aves serás o sol,

Como deus, idolatrado

Serás por certo, se ao rol

Do qu'ora me é mostrado,

Se juntar o belo canto

Que em vós tenho adivinhado.

Movido pelo encanto

Da raposa mentirosa,

O corvo, sem grande espanto,

Faz a asneira desastrosa

De abrir o bico e grasnar,

Pensando ser maviosa

A sua voz de assustar.

Claro que o queijo caiu

Mal começou a cantar.

E como a ladra previu,

Caindo directo ao chão,

Logo a boca se serviu.

“Não vos vou pedir perdão”,

Disse a desavergonhada,

“Pago-vos com uma lição,

A que estou mui obrigada

Em paga da refeição

Que terei daqui a nada.

Quem confia em elogios

Sem olhar a quem os faz

Devia acalmar os brios

Que na sua alma traz.”

 

(versão de Manuel Anastácio)

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Terça-feira, 19 de Outubro de 2010
Fábulas de Esopo: O Rato do Campo e o Rato da Cidade

Gravura de Václav Hollar (1607-1677), O Rato do Campo e o Rato da Cidade.

Está na hora de contar a história daquele rato que se viu a visitar outro da ninhada nato da sua tia da aldeia. Era humilde no trato, o primo da mesma veia, que só pôde oferecer algumas papas de aveia
que logrou enriquecer com pedaços de toucinho, mais o sal do bem-querer e alguns gestos de carinho.
Disse então o da cidade,
Estendendo o seu focinho
Cheio de urbana vaidade
Para o seu rústico primo:
"Vejo que a necessidade
Não permite qualquer mimo
Na hora de aqui jantar.
Mas enquanto a bucha ultimo -
Que bucha posso chamar
A tão pobrezinha ceia -
Posso-te adiantar
Que isto é coisa de aldeia.
A cidade é outra louça.
Assim que lá faças estreia,
Deixas por completo a bouça
E nem vais acreditar
Que esta sorte que balouça
Entre nada para jantar
E este pouco mais qu' isso
Um dia foi teu azar.
Saiu então do cortiço,
O aldeão esperançado
De abandonar tal enguiço.
E foi bem esfomeado
Que à metrópole chegou.
E foi, então, de bom grado,
Que o primo o presenteou,
Sem nada ter preparado,
Com um manjar que o espantou.
Levou-o a uma grande sala
Onde os restos eram pitéu:
Quase ficou sem fala
Com esta visão do céu.
E põe-se a comer à pala
E a fazer grande escarcéu
Em volta de sobremesas,
Entradas e aperitivos.
Tinham baixo as defesas,
Absortos nos atractivos
Doces restos sobre as mesas,
Quando, ante os agressivos
Sons que ouviram de outro lado,
Demoraram a fugir
Vendo o coiro ameaçado.
"O que é que estou a ouvir?"
Diz o rústico assustado.
"São só guardas a acudir
Ao que de nosso não era...
São cães, gatos ou o que é...
Mas são, decerto, uma fera.
O que interessa é dar ao pé
E não ficares à espera
Quando deles deres fé."
"É só isso, nada mais?
Estou muito mais descansado!
Eu cá, vou pr'ós abrunhais
Ou pra outro descampado.
Aqui não me apanhas mais.
Antes livre que amarrado."

(Versão de Manuel Anastácio)
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Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008
Fábulas de Esopo: O homem e a serpente

Excerto de "A Sagração da Primavera" de Stravinsky, Pina Bausch, Wuppertal Tanztheater

Por azar, em acidente,
O filho de um fazendeiro
Tropeçou numa serpente,
Que dando troco certeiro
O mordeu até matar.
O pai, feito justiceiro,
Em raiva a foi procurar
E munido de um machado
P'la cauda se fez cobrar,
Deixando o bicho amputado.
A serpente, enraivecida,
Virou-se-lhe contra o gado
Causando-lhe, de vencida,
Um enorme prejuízo.
Com a esperança perdida,
Perante um fim indeciso,
Pensou este lavrador
Fazer o que era preciso.
À toca do predador
Foi levar pãozinho e mel
E disse, apaziguador:
"Minha cara cascavel,
Creio que chegou a hora
De, enfim, pedir quartel.
Que sentido tem agora
Manter esta divergência?
É viúva a minha nora
Pela tua violência,
E mortos os animais
Que me davam subsistência.
Que podes tu querer mais
Que não te console já?"
E foi com palavras tais
Que apelou à bicha má
Contra o orgulho ferido.
"A mim tanto se me dá"
Disse o verme enraivecido
"Que me venhas com presentes,
Que não nos é concedido
Ignorar que estão ausentes,
Para sempre, a cauda minha,
Primo orgulho das serpentes,
E o que já não acarinha
Tua parental esperança."
A moral já se adivinha
Desta dança e contradança:
É possível perdoar,
Mas jamais a confiança
Se fará do olvidar.

 

(versão de Manuel Anastácio)

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Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008
Fábulas de Esopo: o lobo e o grou

Capitel do portal da Catedral de Autun (1130 - 1140). Desenho de Eugène Viollet-le-Duc, em

Dictionnaire raisonné de l’architecture française du XIe au XVIe siècle.

 

Depois de ver morta a presa,

O lobo deitou-lhe o dente.

Mas calhou-lhe na empresa

Que um ossinho impertinente

Se viesse a alojar

No pescoço imprevidente.

Estando assim a agonizar,

Incapaz de engolir,

Incapaz de vomitar,

Tanto se pôs a ganir

À procura de conforto

Que, sem ninguém oprimir,

Para chegar a bom porto,

Desfez-se em suaves juras,

Por não poder falar torto

Às mesquinhas criaturas

De quem estava dependente.

"É com palavras seguras,

Que eu, agora penitente,

Prometo mundos e fundos

A quem se mostrar valente,

E nos estreitos profundos

Do meu nobre gorgomilo,

Onde os ais são oriundos,

Consiga tirar aquilo

Que agora me tira o sono

E não me deixa tranquilo."

Não deixado ao abandono,

Veio o grou em valimento

Pelo prometido abono.

Directo ao encravamento,

Fez perfeita a cirurgia

E apagou o sofrimento

Ao lobo que assaz gania.

"Abri, senhor, a goela

Até ver a luz do dia,

P'ra que dê uma olhadela,

E, com o bico, consiga

Remediar a mazela."

Antes que o grou se desdiga,

Fica o lobo escancarado

E o grou pronto investiga

Com o pescoço enfiado

Da boca até à barriga

Do predador melindrado

Até ter visto extraído

O ossinho aziago.

"O que me foi prometido

Espero qu' ora seja pago",

Disse o grou, persuadido

De não vir dali estrago.

Ao que o lobo respondeu

Mostrando os feros caninos

E assim agradeceu:

"Que desejos peregrinos

É que, tola, concebeu

A tua mente? Cretinos

São os que suspiram

E anseiam favor régio

E nem sequer se admiram

Nem do benefício egrégio

A que mui poucos aspiram

Nem do grande privilégio

Que é na minha boca entrar

E de lá sair inteiro."

Assim faz quem governar,

Que quem se vê em Primeiro

Bem se pode endividar,

Que o calote voa ligeiro.

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publicado por Manuel Anastácio às 18:59
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Terça-feira, 24 de Junho de 2008
Fábulas de Esopo: A parte do leão

Foi o leão em caçada

C’ o lobo e outros que tal,
Sujeitos à sua alçada.
A raposa e o chacal
Detiveram na empresa
Comprometimento igual.
Procurando com destreza,
Um veado encontraram
Que logo se tornou presa.
Comprazidos, argumentaram
Como o iriam cindir,
Mas pouco mais conversaram
Ao ouvirem proferir
Estas ordens do leão:
“Há que em quatro dividir
a carcaça em rectidão.”
Fizeram-no de bom grado,
Procedendo à divisão
Depois do bicho esfolado.
O leão que tudo vira,
Tudo deu por aprovado.
Autoridade transpira
Enquanto se pronuncia:
“O quarto que aqui se estira,
Convém-me por regalia,
Que sou rei dos animais.
O segundo, todavia…
Também me cabe, ademais,
P’la responsabilidade
Do poder dos tribunais.
O terceiro, na verdade,
Tendo em conta o meu trabalho
Meu é, sem perplexidade.
O quarto quarto não falho
Nestas minhas pretensões:
Transformarei num frangalho
Quem ignorar as razões
- que me isento de ditar –
Que unem as quatro porções
Em meu exclusivo jantar.”
Baixando o focinho ao chão,
Sem queixas apresentar,
Permitiram ao leão
Consolar o apetite.
A zorra sem pretensão
De esperar outro convite
Sai dali envergonhada
E entre dentes se permite
À sentença confirmada:
“Hão-de os grandes te pedir
Os esforços da caçada,
Que nunca irão dividir,
Em equidade e justiça,
O despojo que acudir
Frente à sua vil cobiça.”

(versão de Manuel Anastácio)

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Domingo, 8 de Junho de 2008
Fábulas de Esopo: O cão e o seu reflexo

"Madame Tutli-Putli" de Chris Lavis e Maciek Szczerbowski (2 partes), porque, ao contrário do que Esopo pretende, nem sempre é possível distinguir a substância da aparência.

 

Trazia, um cão, entre os dentes
Um naco de carne fresca,
Ansiando, em passos frementes
Pela ceia principesca
Que em paz, em casa, faria.
Entre a trilha pitoresca
Em que entretanto seguia
Passava larga ribeira
Que de atravessar teria.
Passou-a de tal maneira
Sobre uma tábua lá posta
Que uma imagem traiçoeira
Sobre a água foi disposta.
Julgou que via outro cão
E em sua boca outra posta.
Ignorando a ilusão
Dele mesmo reflectido,
E tomado de ambição
Do caso tirar partido,
Desfechou contra a miragem
Intimidante latido.
Tal como ele, fez a imagem,
Largando da boca o naco
Que se perdeu na voragem.
É de entendimento fraco
Quem troca clara certeza
Pelo sortilégio opaco
De uma ilusória esperteza.

(Versão de Manuel Anastácio)
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