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Terça-feira, 9 de Julho de 2013
Enciclopédia Íntima: Pátria

Portugal, o país, nasceu de um puro desejo de poder. Não houve nele desígnios divinos ou um papel predestinado na história da Humanidade. Um rapaz quis ser rei, ou chefe de um bando de gente com força suficiente para se demarcar de outros com o mesmo desejo de dominação, e para isso lutou, matou, roubou. Impôs-se com a sua força e teve a sorte de os outros, por razões diversas, não terem conseguido impedi-lo de alcançar uma independência que não era mais que uma divisão entre senhores, em que o povo não foi tido nem achado. Depois, as lendas foram criando um sentimento de unidade. De Conquistador, Afonso Henriques passou a Libertador, coisa que nunca foi a não ser, talvez, de si mesmo, se descontarmos a ajuda que deu à libertação de alguns senhores do Norte, a um bispo e a algumas comunidades monásticas. Os primeiros a morrer nas batalhas que fundaram este país não lutavam por essa idealização tribal que é a Pátria, morreram porque a isso foram coagidos pela força ou porque tentaram a sua sorte. Mais tarde, sob a bandeira de uma propaganda política sustentada em histórias da carochinha, onde não faltaram milagres e aparições, a ideia de Pátria nasceu. Morrer como português, isto é, como cãozinho fiel a um dono imposto pela ordem da força e da mentira disfarçada de religião, passou a ser uma questão de honra, um livre trânsito para o panteão dos trouxas.


Talvez não seja assim tão simples. Nestas questões, os fautores da mentira são os primeiros a acreditar nela. Daí não faltarem nobres paspalhos elevados a heróis de um valor tão alto como as ilusões de glória e grandeza. Mera vaidade. Morte, apenas. Uma Pátria é um monte de ossos. Por respeito a essa vala de enganos e vidas desperdiçadas, em vez de missas, lápides e monumentos de bronze podia, ainda assim florescer a vida, o riso, a beleza compartilhada. Isso seria uma Pátria, e estaria disposto a morrer por ela. Por uma questão de amor.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:52
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Terça-feira, 28 de Julho de 2009
Enciclopédia Íntima: Virgindade

Montserrat Cabalé canta "Casta Diva", da "Norma" de Bellini, no Festival de Orange, em 1974

 

Não sei se é verdade, mas li que se chamam de sobreiras aos sobreiros virgens. Virgens por jamais terem dado cortiça às ferramentas cortantes dos homens. Tal passagem de género tem implícita a ideia de que a virgindade é um valor meramente feminino, o que está, aliás, de acordo com as histórias das meninas que o fazem render em leilões na Internet. Li também, de alguém, que a terra mãe está esfaqueada por rios, córregos e ribeiras. Não é virgem, portanto.  Nem poderia ser de outro modo, senão, não poderia ser mãe. A não ser que a sua maternidade fosse protegida por algum dogma kitsch que pintasse de branco o verde do limo e arrasasse os desníveis da erosão diferencial que contorna os montes e desenha meandros. A virgindade é uma dada concepção do que é inteiro. Tudo o que é rasgado ou sulcado perde a virgindade. A lua, casta diva, perdeu-a com a primeira pegada do homem no seu solo. Mas, ainda nem as vestais a ela se rendiam em lésbicos mas platónicos desejos, e já o seu véu de gaze prateado se manchava de crateras abertas por másculos meteoritos que manchariam de sombras de pecado a superfície em que o sol se espelha. Porque o que não é inteiro e virgem passa a ter mancha. Sinal de vergonha. Leio que os pais de uma menina de oito anos, violada por um grupo de pré-adolescentes se recusaram a recebê-la de novo debaixo do seu sacro e imaculado tecto familiar. E penso que há cabeças e corações assim. Virgens, imaculados, inteiros e bravios, onde jamais um rasgão de água, doce ou salgada, ou gota que seja de sangue escorrendo de facada deixou um sulco que seja de vergonha na cara.

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publicado por Manuel Anastácio às 01:50
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Sexta-feira, 17 de Julho de 2009
Enciclopédia Íntima: Categorias

"Click, Click, Click, Click", dos Bishop Allen. Ontem, no Palácio Vila Flor, em Guimarães, para um público escasso (ai se fosse um jogo do Vitória...) e com meia dúzia de infiltrados sem categoria.

 

Foi já em 2006 ou coisa que o valha, em Israel. Várias meninas de corpinho perfeito e olhos de anjo eram entrevistadas para que dissessem que eram a favor da Paz Mundial e, já agora, que eram vegetarianas. Uma das meninas disse, provavelmente influenciada por alguém que conhece os tiques do meio, que o era. Vegetariana. A entrevistadora perguntou-lhe, mais coisa menos coisa, e cheia de graça, que, provavelmente, ela sentia-se comovida ao olhar para os olhos meigos de uma vaca (e não há aqui qualquer ironia: não há olhar mais meigo que o de uma vaca) e, por isso, seria incapaz de comer um bife. A menina assentiu. Jamais tocaria num bife. E então, se não comia bifes, comia o quê? A menina respondeu: frango. Ah, então não és vegetariana, concluiu a entrevistadora fazendo um perfeito raciocínio lógico, se partindo da sua categorização dos seres. A menina disse que não, que era vegetariana sim, jamais comeria o quer que fosse que viesse do corpinho de um animal. A entrevistadora, boquiaberta, arriscando-se a comer um mosquito, perguntou-lhe qual a diferença entre uma galinha e uma vaca. A menina, cheia da sua sabedoria biológica, respondeu, fazendo um ar de desconsolo perante a estupidez dos outros, que uma galinha era uma ave (talvez tenha dito pássaro, não sei, não sei falar hebreu e se todos os tradutores forem como eu, muita coisa se perde ou acrescenta no processo) e que uma vaca era um animal. Claro que a frase, bombástica, caiu sobre israel de várias formas. Houve quem dissesse que era um belo sinal da degenerescência judia. Um petisco para antissemitas, esses que dizem que um judeu é um judeu e um homem é um homem, o que está bem em qualquer categorização, mas que, implicando algumas deturpações de ordem lógica e a intromissão de pressupostos discutíveis, para não dizer inaceitáveis, legitima a estupidez em regime político capaz de ensombrecer todo um século.

 

A estupidez é, contudo, e essencialmente, um problema de categorização. De taxonomia ética, moral, mas também científica. Quem nega as categorias da Ciência procura as suas próprias categorias. E se lhe der jeito que as aves constituam um Reino biológico próprio, inventa-se o novo Reino. Há quem julgue que, na educação, hoje em dia, com toda a catrafada de informação que existe, não é preciso que as crianças conheçam pormenores sobre as diferenças entre um inseto e uma aranha ou entre o traje de um nobre romano ou o hábito de um frade mendicante. Acredita-se que basta ensinar a aprender (como se isso não se fizesse de uma só maneira: aprendendo). Acredita-se que basta educar civicamente, para não termos terroristas e bombistas suicidas no futuro. Eu acredito, contudo, que isso só se consegue centrando o ensino, não no aluno (ai o que eu fui dizer) mas no conhecimento e, em primeiro lugar, na categorização das coisas. É preciso dizer: isto, em primeiro lugar, é um homem: seja ele israelita, palestiniano, negro, amarelo, cor-de-rosa, mendigo, ladrão, empresário, santo, herói, passador de droga... E, depois, ir baixando às categorias menores sem deixar de passar pelas que suscitam dúvidas na sua menoridade, onde deve reinar a tolerância no julgamento. Eu acredito, também, que toda a gente devia esclarecer, bem, qual a categorização que rege o seu pensamento. Se um político falar dos portugueses, deve esclarecer bem quem são, a seu ver, os portugueses. Hoje, contudo, os estúpidos grassam na política, não porque digam coisas erradas, mas porque partem de categorias erradas. Entre eles e a modelo pseudovegetariana há apenas a diferença de que, ao contrário desta, estes não definem (porque no fundo, sabem a estupidez em que assenta o seu edifício moral) as categorias com que escrevem os seus interesses.

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publicado por Manuel Anastácio às 17:09
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Sábado, 21 de Fevereiro de 2009
Enciclopédia Íntima: Chorar

Excerto de "Sonata de Outono", de Ingmar Bergman.

 

Quando era pequeno (e ainda sou pequeno) desenvolvi a teoria de que as pessoas choravam para que o mundo aparecesse desfocado. Enquanto chorava, as lágrimas transformavam a realidade cúbica do mundo numa confusão de círculos de luz. E isso era belo. Era o mundo desfigurado onde preferia viver. As linhas rectas pertenciam à estrutura de toscos do edifício onde tinha nascido. Um mundo de sarrafos sujos e onde tudo tinha a utilidade sórdida da economia que não me permitia simplesmente ficar a ler à sombra dos pinheiros que agora já não existem, substituídos que foram pelos eucaliptos que tomaram conta da paisagem da minha infância. No saco onde levava a bucha para os dias de trabalho, levava sempre um livro. Sujo de cimento, li Saramago e Homero. Sujo de cimento, não podia ver os filmes da época áurea do cinema que passavam à tarde na televisão pública e que, ainda assim, e afortunadamente, conseguia gravar num VHS (que ainda funciona), usando o temporizador. Por vezes, os filmes ficavam incompletos. E, por um minuto que faltasse, não os via. Tinha de os ver desde o primeiro ao último fotograma. Quando chorava, o mundo era belo. Os meus olhos tornavam-se câmaras que distorciam a dor de viver e a transformavam na suportável experiência de assistir à dor. O cinema era uma forma de chorar através dos olhos dos outros. De manhã, entre as escoras das cofragens que me cabia a mim desmontar e transformar em pilhas de madeira ordenada e limpa de pregos, imaginava planos que captassem a beleza dos pingentes de argamassa que se formavam entre as juntas das tábuas e a beleza das escoras, primeiro de troncos de eucalipto jovem, mais tarde de extensores de metal, que se iam sobrepondo, tapando e revelando como colunas de uma fria arquitectura imitando grades, em profundidade, frente ao céu rosa das manhãs que se estendiam sobre os baldios à espera de mais construções à moda ortogonal da Maison-Domino de um Le Corbusier que eu desconhecia, quando já discorria, no silêncio do meu cérebro rejeitado, sobre Aristófanes e John Ford. Nessa altura, não gostava de arquitectura. Era a arte perversa de me roubar a infância.

 

Quando era pequeno (e ainda sou pequeno) chorava todos os dias. Era a minha forma de escrever o mundo.

publicado por Manuel Anastácio às 00:18
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Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009
Enciclopédia Íntima: Hoje

 

Casablanca, de Michael Curtiz: o Inferno e o Hoje de mãos dadas (se não der para ver, ir aqui).

 

Depois de ter apresentado as minhas intenções de subverter o texto bíblico segundo as minhas palavras, a Maria Helena deixou-me um belo comentário a respeito das inquietações teológicas que me assaltavam quanto às palavras de Cristo ao chamado vulgarmente "Bom Ladrão", que eu quis chamar de "malfeitor arrependido", e que me fez passar um vergonha no 5.º ano quando eu me referi a ele, numa aula de Religião e Moral, como o Ladrão Bom. Enfim. Cheguei à conclusão que... não cheguei à conclusão, de facto: retornei à minha própria conclusão, que já direi qual é.

 

Conhecem aquelas senhoras que dizem que na outra vida foram, invariavelmente, a Cleópatra? Os homens costumam preferir Napoleão - não sei por que razão... Interessante que ninguém se aventura a ter sido Casanova... Pois, eu, fui, de certeza absoluta, Santo Agostinho. Quando li as "Confissões" confesso que tive vontade de ouvir alguma voz divina a dizer para ler as instruções a seguir num livro aberto ao acaso. Mas os milagres estão pela hora da morte, mesmo quando se trata de uma corriqueira revelação pessoal e íntima. Num mundo tecnologicamente1 avançado como o nosso, onde o virtual supera em riqueza de emoções orgânicas o mundo real, as revelações divinas são um simples charro sem grandes consequências. Pois, se tive alguma revelação com Santo Agostinho, que li lentamente, entre as terras do Alandroal, Carvalhal e Praia da Conceição (alguns grãos de areia rica em iodo o poderão confirmar entre as páginas do livro que tenho em casa), foi a revelação de alguém tão fraco como eu, tão pouco santo como eu, que, ainda assim, tinha a auto-estima (autoestima?) tão elevada que se deu ao trabalho de confessar em escrito aquilo que o vento poderia soprar ao aspirante (de aspirar, como um buraco negro) ouvido de Deus, e sem retorno. Se tive alguma revelação pessoal com Santo Agostinho, foi a revelação de que, santos e não santos, todos somos iguais. Apenas alguns se apaixonam pela ideia de um Certo Deus (e chama-se a isso Graça Divina), enquanto outros permanecem orgulhosamente apartados da alegria da luz, como certas personagens da Divina Comédia de Dante - no capítulo onde aparece o Saladino, procurem se estiverem interessados, que eu não me lembro, não me apetece ir Google, e ainda tenho 24 testes para corrigir hoje.

 

Diz a Maria Helena:

"Quanto ao tempo, para Deus não existirá, como também mostra a frase..."

 

Deus está fora do tempo, de facto, como se verá (na minha perspectiva) na minha subversão do Génesis.

 

"O perdão de Deus e entrada no Paraíso é dádiva e não conquista (...)"

 

Graça divina. Confesso que não gosto muito desta ideia. Parece-me contradizer aquela que refere, a dado momento, a do livre arbítrio...

 

"(...) é conversão de coração no reconhecimento do sofrimentos dos inocentes, é a capacidade para esquecer o sofrimento pessoal e tentar confortar o que está ao lado a sofrer e que todos, sem excepção,e por muito que nos custe engolir na nossa pequenez do coração, têm com a mesmíssima intensidade e verdade, a redenção."

 

Isto já me toca mais. Para mim reduz-se tudo a uma palavra: ser Bom. Por acaso, ou nem por isso, fugi à palavra Bom na minha versão do primeiro capítulo do Génesis.


"(...) O lugar no banquete celestial está reservado a muitos para quem olhamos com desconfiança porque Deus é que nos sonda o coração e o conhece."

 

Agora, falaria das "Florzinhas de São Francisco" (outro santo que eu fui na outra vida)... mas não tenho tempo. Fica para a aposentadoria (é assim que se diz, Gerana?).


"Se Jesus foi directo ou não para o Paraíso, Manuel, confesso que não perco um segundo a tentar adivinhar. Já haveria Low Coast?! :-))))"

 

Hum... Acho que para o Paraíso não há aviões, só balsas daquelas que se faziam (ainda se fazem?) para sair de Cuba em direcção aos Estados Unidos...

 

Mas retomando: Hoje. Hoje é eternidade. Eternidade é Paraíso. A Eternidade opõe-se à Paixão. Agora citava Aristóteles, nas "Categorias" citadas por Santo Agostinho, a respeito da ideia de paixão, ou seja, sofrimento, não no sentido de dor, mas no sentido de ser submetido a uma acção, ou seja, no sentido de ser submetido ao tempo. Mas não tenho tempo de desenvolver a ideia... o tempo falta-me... faz-me lembrar aquele matemático que morreu num duelo... o Galois... e não tenho tempo!!!! E tudo para chegar à conclusão que:

 

O Paraíso está fora do Tempo. Por isso, qualquer momento, convertido ao Não-Tempo paradisíaco, é Hoje.

 

Resta-me acreditar que o Inferno, por oposição, é o Tempo. E sorrio. Nunca, nada, me pareceu mais claro que isto. Ainda bem que não tenho tempo para nada. Estava mais próximo do Paraíso do que pensava...

 

1. Já repararam que apenas um cn separa a tecnologia da teologia???

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publicado por Manuel Anastácio às 01:00
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Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008
Enciclopédia íntima: Memória II

Números 1, 5, 6, 7, 9, 11 e 14, das 'Catorze Anotações' de Fernando Lopes-Graça. Quarteto Lyra, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Matosinhos, em Novembro de 2006 .

 

Há um tipo especial de memória que se prende directamente aos objectos em si mesmos, sem que exista neles, de facto. É a memória que reside nos próprios objectos pelo facto de terem estado fisicamente presentes em determinados acontecimentos. Em termos puramente objectivos, essa memória é inexistente. É uma crença que apenas beneficia os falsificadores de antiguidades, já que só se pode conceber em termos subjectivos: é a presunção dessa presença, verdadeira ou falsa, que, efectivamente, se imprime no objecto. Qualquer marca acidental, involuntária ou contingente num objecto não tem significado em si mesmo. Pode conter em si "pistas" que podem esclarecer determinados aspectos do passado que aí ficam fossilizados, mas não é a esse carácter detectivesco ou científico que me refiro. O ser humano, tal como os elefantes, fetichizam determinados objectos na sua qualidade de relíquias. E o facto de estas serem falsas ou não é secundário. Enquanto não se provar que determinada relíquia é falsa, ela é, para todos os efeitos, verdadeira na sua qualidade de relíquia. Uma relíquia é um objecto onde está impressa a ideia da morte, porque preterifica uma realidade. Torna-a absoluta, completa, canonizada. É por isso que ninguém é santo em vida - em termos teológicos, de facto, nem Cristo o seria até ao momento do sacrifício. O seu nascimento por obra e graça do Espírito Santo tenta resolver o problema ao colocar Cristo fora da ordem natural das coisas, mas o facto de existirem tentações no seu caminho implica uma real possibilidade do ingresso de Jesus na ordem material, imperfeita porque não consumada. Assim que o passado fecha um capítulo, os objectos a ele associados tornam-se as únicas testemunhas desse capítulo que ficará necessariamente por contar na sua globalidade.

 

Há uns anos atrás ouvi, num programa da manhã da Antena 2, alguém que já não me lembra a entregar à então presidente da Casa Fernando Pessoa uma tábua de um chão que teria sido pisado pelo poeta e, quiçá, que terá testemunhado a fricção da sola dos seus sapatos ou os calos dos seus pés contra o verniz em, provavelmente, alguns dos momentos decisivos da história da cultura lusófona. Momentos esses vividos, pressupõe-se, na solidão própria do escritor. Ora, o valor daquela tábua reside no quê ao certo? Alguém que a veja num museu não ficará em nada mais esclarecido quanto à obra do poeta em causa. Mas tenho a certeza de que se dissermos a um grupo representativo da nossa sociedade, composto por pessoas que já ouviram, pelo menos, falar de Fernando Pessoa e da sua importância como figura tutelar da nossa cultura, serão mais, em termos puramente estatísticos, aqueles que se sentirão arrepiados por estar a ver aquela tábua ("ELE pisou-a!") do que aqueles que se sentirão arrepiados ao ler qualquer um dos mais geniais poemas de Fernando Pessoa. E isso será assim, numericamente, porque é bem provável que aqueles que verdadeiramente são devedores de Fernando Pessoa (os que se arrepiarão com o génio da sua escrita) terão a mesma atitude irracional em relação a esse objecto.

 

O ser humano, como os elefantes, é um ser vivo religioso. Sempre. Mesmo quando é ateu.

 

Fernando Lopes-Graça, reconhecidamente não-crente, foi autor de uma das obras sacras mais profundas da arte portuguesa, se não a mais profunda: o seu "Requiem pelas Vítimas do Fascismo em Portugal". Já li muita justificação para a contradição intrínseca que existe na produção artística de muitas peças de Arte Sacra, desde a figurinha posta num altar a uma peça musical, por parte de artistas agnósticos ou ateus. E estas justificações centram-se sempre nos motivos subtilmente religiosos que moveram o autor. Este é o involuntário instrumento de Deus, que através dele providencia um objecto de veneração (quando o autor cria o objecto porque é de alguma forma forçado a fazê-lo ou por pura diversão) ou, pelo contrário, é realmente o artífice de um sincero testemunho de adoração teológica, seguindo um caminho paralelo à ortodoxia e/ou ao misticismo. Fernando Lopes-Graça pertence a este último grupo. Um dia, disse ao seu discípulo Pedro Amaral: "Rapaz: cada homem tem necessariamente um Deus, de outro modo não é possível viver... Ainda que esse Deus seja uma árvore, ou um rio". O Deus de Lopes-Graça pode bem não ser pessoal, omnipotente ou, simplesmente, místico. Pode ser apenas um Deus simbólico. De facto, os ateus não negam o valor dos símbolos. Ora, o símbolo é apenas uma forma mais abstracta da relíquia. O símbolo nasce quando o Homem se apercebe que a memória preterificada (o "pastness of the past") não reside nos objectos em si, mas na memória em si, pelo que o objecto de adoração ou de identificação pode ser criado no presente, com características mais ou menos convencionais que terão, por si mesmas, o poder da evocação (memória). De qualquer modo, o símbolo limita-se a heroizar um conceito absoluto, tal como o faz a relíquia, só que seguindo uma estratégia de linguagem diferente: em vez da metonímia que há num pedaço da "Vera Cruz", o símbolo recorre à metáfora e é, assim, que nasce o sinal da cruz. Memória gravada nos gestos. Poesia. Porque à memória histórica, científica, há que acrescentar e não desprezar a memória como poema; memória com que contamos as coisas para sempre invisíveis. É por isso que me arrepiarei se um dia estiver frente à tábua pisada por Fernando Pessoa. E apetecer-me-á roubar uma lasca e levá-la para casa. Eventualmente, para engastar num relicário. Mesmo que saiba que pode ser falsa.

publicado por Manuel Anastácio às 19:01
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Sábado, 5 de Julho de 2008
Enciclopédia Íntima: Memória (I)

Trailer de "Youth Without Youth" de Francis Ford Coppola.

 

A memória é uma das faculdades cognitivas mais mal compreendidas, mas também uma das mais fascinantes. Primeiro, porque, individualmente, manifesta-se de formas insuspeitas, por caminhos que ainda não entendemos, quer a nível fisiológico, quer a nível da sua estrutura conceptual. Segundo, porque é também um fenómeno social: há uma memória colectiva que se relaciona com outros conceitos como, por exemplo, o imaginário e, a nível da teoria da comunicação, com os suportes ou canais de comunicação. Terceiro, porque é uma faculdade da própria natureza, podendo-se manifestar em outros seres vivos que não o ser humano ou, quiçá, até em seres não vivos.

 

Há memória se houver evocação. A evocação é a contemplação de um objecto ou acontecimento não directamente apreendido pelos sentidos ou que pode, simplesmente, não existir. Há memória quando um animal reage a uma situação em conformidade com os efeitos que espera dessa situação (por exemplo, no reflexo condicionado) porque apesar de a situação ser, na altura, apreensível directamente pelos sentidos, os efeitos da mesma não o são. O cão sabe que o pau, batendo-lhe nas costas, provoca dor, e reage a quem o ameaça com o pau, não porque a memória evoque o pau, que é apreendido directamente, mas porque a memória vai evocar a dor, o que o obriga a reagir. Da mesma forma, há memória quando evocamos numa imagem, num som ou num cheiro o objecto que não está, efectivamente, ao alcance dos nossos sentidos, ainda que estes possam ser parcialmente iludidos. Há memória quando pensamos em flores ao cheirar um perfume. O cachimbo de Magritte é o mais flagrante dos ensinamentos sobre a memória enquanto representação: não é um cachimbo, mas evoca o cachimbo. Da mesma forma, quando vemos a representação de um unicórnio, esse ser, que, ao que parece, nunca existiu, é, da mesma forma, evocado, pelo que pode haver memória do inexistente -  entra-se aqui também no campo do imaginário, mas não exclusivamente. De facto, os próprios factos assentam em conceitos que, para todos os efeitos, não existem. A Matemática não é intrínseca à Natureza, ainda que a Natureza a ela obedeça  sem questionar a sua autoridade. A Matemática não existe, mas, ao ser evocada, tem, para o espírito, a autoridade da existência. Não sendo, é.

 

Paulo Rendeiro Marques, na Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura diz que a memória existe em todos os animais pluricelulares, excepto nos poríferos e nos mesozoários. Pouco sei de tal bicharada, nem sei a que género de testes foi submetida, mas duvido que não encontremos neles, de alguma forma, o conceito de memória. Não podemos, contudo, cair na tentação de confundir informação com memória. Por exemplo, a memória dos computadores não é, de facto, memória mas, apenas, armazenamento de informação - ou seja, disposição de matéria segundo uma ordem que pode evocar significados a um sujeito. A informação guardada num computador está tanto na memória como nos traços de um desenho sobre o papel... No entanto, depois de esquecermos alguma coisa (de a termos apagado da memória), pode acontecer que a reevoquemos a partir desses repositórios de informação externa à nossa memória. Isso é, de facto memória? É-o, já que algo não apreensível pelos sentidos (no passado) é evocado, posto à nossa apreciação, apesar de já não existir no mesmo contexto espácio-temporal do sujeito. E então, como é que ficamos: uma biblioteca ou um museu são ou não suportes físicos de memória? São. Enquanto existir gente que ao percorrê-los, consiga evocar o quer que seja, mesmo que de forma errada. O arqueólogo que interpreta de forma errónea um dado artefacto, fá-lo não por incompetência ou má fé mas porque a Ciência, enquanto mobilização da memória, vive da aproximação à realidade que se quer evocar tão próxima quanto possível da verdade objectiva, exterior ao sujeito. Acontece que qualquer evocação é sempre acompanhada de distorção e, por vezes, implica a reconstrução total do acontecimento, mesmo quando fomos actores nesse acontecimento. Um dia encontramos uma frase escrita num caderno e sabemos que fomos nós os autores da mesma, mas, por mais que nos esforcemos, não nos conseguimos lembrar o que nos motivou a escrever aquilo nem como e quando o fizémos. Resta-nos colocar hipóteses, algumas das quais, por serem consistentes, acabam por serem tomadas como factos e ficamos convencidos de que nos lembrámos da razão por que  escrevemos a frase.  A convicção torna-se quase certeza, ou mesmo certeza, porque o poder evocativo da hipótese mais consistente chega a propor-nos imagens do acontecimento que já estavam de todo apagadas da nossa memória ou que nunca nela poderiam ter estado, porque nunca as vivemos. Contudo, outra pessoa encontra a mesma frase e diz: escreveste isso naquele dia em que... e descobrimos que fomos traídos pela memória que, neste caso, se confundiu com a imaginação.

 

O conhecimento da História só pode germinar quando assumimos a impossibilidade de regredirmos ao passado, mesmo que a regressão ocorresse apenas com recurso à mentepsicose,  como acontece no filme "Youth without Youth" de Francis Ford Copolla. A Ciência teria sempre de olhar para a arqueologia mental da personagem do filme de Copolla (e do romance de Mircea Eliade) como um caso de imaginação prodigiosa - eventualmente muito proveitosa mas, ainda assim, imaginação e não memória. As duas, mais tarde, poderiam eventualmente diluir-se até a imaginação se transformar em imaginário, que constitui grande parte da memória colectiva.

 

Quero dizer, então, que, na Ciência, a memória tem origem na imaginação? Claro que sim: na imaginação que se desenvolve activamente a partir de um suporte objectivo e/ou cuja consistência e adequação ao que nos é dado a apreender pelos sentidos a habilita a transformar-se em memória colectiva, ou seja, a formar um dado quadro mental, que se inserirá, por sua vez, num paradigma mais vasto.

 

Quando escrevi, no poema do artigo anterior, que "creio (...) num só múltiplo princípio", evoco esta mesma indefinição do começo das coisas, sejamos nós mais ou menos deterministas. Contudo, o fim só pode ser um, ainda que eternamente adiado porque é inevitavemente incognoscível tendo em conta as nossas limitações corporais: esse fim é a verdade. O Juízo Final.

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Domingo, 29 de Junho de 2008
Enciclopédia íntima: Pútegas

Pútegas, imagem do Wikimedia Commons

 

Há coisas que se aprendem na escola, mas que são falsas. Quase todas as generalidades que dizemos sobre a vida são, num dado momento, falsas. Aprendemos que as plantas são seres autotróficos, isto é, que produzem o seu próprio alimento. Ora, se isso é verdade para a grande maioria, não faltam por aí plantas heterotróficas que, tal como os animais, se alimentam da seiva elaborada pelas suas irmãs providas de clorofila. É o caso das Orobanchaceae, e em especial desta extraordinária Orobanche sanguinea.

 

As pútegas  (Cytinus hypocistis), raro nome, formam outro interessante género de plantas, da família das raflesiáceas, parasitas das estevas (género Cistus), plantas que invariavelmente enchem a paisagem mental da minha infância e que são de todo ausentes aqui no Norte húmido de Portugal.

 

São plantas pequenas, amarelo-avermelhadas, de caules muito curtos, com
folhas escamiformes, densamente imbricadas. São monóicas, ou seja, têm flores hermafroditas. Vivem a maior parte do tempo enterradas, aflorando, junto às raízes das estevas de que se alimentam,  apenas para florescer. As folhas, carnudas, são comestíveis, mas era o néctar doce das flores que punha as crianças à sua procura. Entre os seis quilómetros que separavam a escola do Sardoal e o perímetro da minha aldeia, quando não tínhamos paciência para esperar pelo autocarro, era frequente ir, com os meus colegas, às pútegas. E ríamos com a piada fácil. Mas eu raramente as encontrava. Entre o xisto e as resinas dos pinheiros e das estevas, entre o Vale da Amarela e o Vale de Carvalho, hoje calvas cabeças roídas pelo fogo, apenas encontrava a inocência de quem não sabia que aquele mundo estava a acabar.

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publicado por Manuel Anastácio às 09:13
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Sábado, 26 de Janeiro de 2008
Enciclopédia Íntima: Plano-sequência

Plano-sequência de Dunquerque, em "Expiação", de Joe Wright


Um plano-sequência pode ser muita coisa. Mas posso defini-lo como sendo o mais teatral dos planos. Em "A Arte do Cinema", Rudolf Arnheim usa a palavra "violenta" para referir-se à, actualmente, mais compreensível das estratégias narrativas cinematográficas: a montagem. Alguém bate à porta, e estamos na rua - e numa fracção de vinte quatro avos de segundo já estamos dentro de casa a abrir a mesma porta que também para nós estava fechada. No plano sequência só poderemos esperar que a porta se abra ou, então, procurar uma entrada alternativa: talvez entrar por uma janela ou pelo telhado; recurso  esse muito utilizado em alguns dos filmes mais insistentes da História do Cinema, como o "Citizen Kane" de Orson Welles ou o mais esquecido (mas frequentemente ressuscitado) "One from the Heart" (em português de Portugal, "Do fundo do coração") de Francis Ford Coppola. Os planos sequência permitem-nos fazer percursos "menos violentos" na perspectiva assustada de Arnheim, no nosso lugar fixo de espectador. Orson Welles, no seu "Touch of Evil", pretendeu, com certeza, brincar com a violência dos cortes da montagem depois de um longo plano em que subimos e deslizamos junto a uma fronteira onde, no momento em que tudo parece acalmar em braços apaixonados, o plano é subitamente interrompido.


Planos iniciais de "Touch of Evil", de Orson Welles.


Em "O Passageiro: Profissão Repórter, Antonioni prefere trazer a violência para o próprio plano, escondendo-a. Enquanto divagamos e atravessamos as grades, algo acontece no ponto de partida.

"O Passageiro: Profissão Repórter" de Michelangelo Antonioni.

Andrei Tarkovsky, autor de um tipo de cinema que só quem procura poesia nesta arte poderá apreciar, comete a inaudita violência da lentidão pendular, onde a fragilidade humana se concentra numa tarefa aparentemente sem sentido. Também aqui, como em Welles, o plano sequência é apenas um caminho que desemboca na vertigem da montagem onde perdemos consciência do que vemos, obrigados que somos a arrancar a alma do lugar onde estava.

"Nostalgia", de Andrei Tarkovsky


Mas se falo de planos-sequência, é apenas por causa do premiado "Atonement" ("Expiação", em Portugal), filme cuja habilidade técnica a nível de montagem e de mise-en-scène, não chega, ao que parece, para o tornar no filme do ano. De facto, não é nem pode ser. É um filme irremediavelmente datado como a inscrição numa lápide funerária. Todo o filme é, de facto, um monumento fúnebre que pretende, através da ilusão da imagem e do som, evocar as cinzas da eterna separação e dos actos imperdoáveis. Há uma passagem em "Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister" onde Goethe conduz o jovem iniciado a um mausoléu de luz. A descrição do ambiente tem algumas semelhanças com a relação que o estado totalitário de "Admirável Mundo Novo" pretende que os seus cidadãos tenham com a Morte. Este filme, sem ter grandes pretensões intelectuais, dá-nos, contudo, a ingenuidade num prato de suavidade. E a morte deve-nos ser servida assim mesmo: com a suavidade do que é irremediável e com a ingenuidade de quem pensa que a vida continua. Sendo um filme baseado em literatura, será normal levantarem-se as típicas e enjoativas vozes que dizem que o livro é melhor... Não faço ideia se é. Se for, tanto melhor. O filme  é académico até à exaustão, não tenho dúvidas, mas o movimento pendular da narrativa, usado de uma forma impecável e certinha aparenta este filme mais ao plano de Tarkovsky que a qualquer outro dos que apresento neste post, enquanto o Youtube os não fizer desaparecer por conta dos direitos de autor. O filme é datado, já disse. Tem um sopro de Joseph Losey e David Lean, seguindo a tradição britânica dos filmes que confundem os adereços com a alma. E a grande maravilha e espanto, o coração deste filme é um plano-sequência, na praia de Dunquerque, que resume em si a essência artística do  épico melodramático. Ninguém tenta atravessar a praia com uma vela acesa. O plano que se segue ao plano-sequência não quebra a corrente teatral do movimento. É apenas um plano-sequência, improvável até à exaustão, sem outro objectivo que não seja o de mostrar um percurso onde os horrores da guerra ficam, de facto, camuflados pelo movimento poético e patético de um plano muito bem filmado. Como uma estela funerária onde não devem figurar sinais que lembrem ossos ou podridão.
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publicado por Manuel Anastácio às 16:43
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Sábado, 16 de Junho de 2007
Enciclopédia íntima: Retrato

Foto de Luís Efigénio/NFactos

O artigo do Público sobre a Wikipédia está equilibrado e não se deixa levar por equívocos nem por ideias e premissas erradas sobre o que seja o projecto, à maneira de Pacheco Pereira e afins. Entretanto, a fotografia que publicaram da minha pessoa acabou por reflectir o meu calculismo simbólico... O Luís Efigénio, que estoicamente aguentou a insistência felina do Mies em interromper a sessão fotográfica teve a ideia de me rodear de livros e de me fotografar em ângulo picado, como se o Espírito Santo viesse para iluminar o Wikipedista perdido na floresta escura do meandro osmótico que se estabelece entre entre a Wikipédia e os livros. Perante a sugestão, decidi rodear-me de alguns ícones: com o portátil com que escrevo este post sobre as pernas,folheio, à direita, uma página de um volume do Houaiss. A Língua portuguesa em primeiro lugar, claro, mas sem o bairrismo da Pátria Lusa. Mas, sem esquecer que, afinal, sou português (e não admito que me digam que não sou patriota... fanático não, mas patriota sou, ainda que me esteja a borrifar para os resultados da Selecção Nacional), tenho, sob o meu braço direito, a "Viagem a Portugal" do Saramago - reconhecível por quem conhece os livros pelas capas. Ainda do meu lado direito, à frente, uma biografia de Pedro IV de Portugal, primeiro imperador do Brasil - novamente, a referência explícita à lusofonia que, não excluindo os países africanos e Timor, tem de se centrar prioritariamente na relação Portugal / Brasil, já que se assumem como os dois pólos orientadores da Língua Portuguesa. No mesmo monte, aparece a obra completa de Jorge Luís Borges - e que autor mais Wikipédico existe que este???... A biblioteca de Babel, o caminho da impossibilidade de qualquer conhecimento, apesar da inevitável e justificadora persitência de quem nele segue, bem como a centralidade do leitor enquanto verdadeiro criador do texto lido justificam que tivesse de convocar Borges. E, finalmente, do meu lado esquerdo - ainda um lado meu, e do coração, ainda que simbolicamente mais crítico, tenho um volume aberto da Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira da Cultura, Edição Seculo XXI. Ora, é uma enciclopédia, com certeza. Que uso frequentemente, com certeza. E que critico frequentemente pelas suas passagens com tantos erros como a Wikipédia, com a diferença de que os erros desta Enciclopédia foram todos (espero eu) escritos com boa intenção - e não poderão ser corrigidos por quem os encontrar. E cujos erros são tornados verdade por estarem subscritos por nomes "credíveis", ao contrário dos anónimos que editam a Wikipédia.

Um retrato deverá convocar a tensão entre o retratado e a sua duplicação através de uma imagem que a ele apenas se refere, mas não o substitui. O retrato é uma interpretação do outro condicionada pelos meios físicos de execução da obra - condicionantes esses que se esbatem na pintura (cujas condicionantes são mais técnicas que que "referenciais") mas que são especialmente prementes na fotografia. Esta, estando, hoje, longe da simples tarefa de reprodução do real continua a ter no real a sua matéria prima, mesmo quando o objecto final - a fotografia - não é uma entidade sensorialmente reconhecível. Contudo, mesmo um retrato abstracto, coisa perfeitamente possível, terá de ter, paradoxalmente, um elemento mimético reconhecível. A acção de retratar vai buscar o seu nome ao latim retrahere, que significa copiar. Copiar, acima de tudo, para resgatar da morte. Por alguma razão os primeiros retratos aparecem em contextos funerários, como no retrato rupreste da Floresta de Vilhonneur ou na cultura egípcio-romana. Contudo, é na época renascentista e, mais especificamente na pintura flamenga que o retrato chega a confundir-se com o seu próprio ideal, ao transcender a reprodução física, integrando uma linguagem que vive do contexto e do carácter gerador de significados das imagens usadas. Não sou propriamente um modelo fotográfico, mas parece-me que o Luís Efigénio tem alma renascentista.
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publicado por Manuel Anastácio às 14:24
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