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Domingo, 7 de Abril de 2013
Mails da treta: Ímans e alimentos

O seguinte texto é copiado, mantendo a formatação, de um mail viral, que são aqueles mails que pedem para serem “repassados”. Já expliquei aqui que o objetivo de criar mails deste género é recolher o máximo de endereços electrónicos que depois são vendidos a empresas que depois enviarão a sua publicidade indesejada e geralmente fraudulenta a um largo número de pessoas. Mas porque é que estes mails primam quase sempre pela mentira, pelo ódio, xenofobia, pela estupidez? É simples. Porque pessoas que demonstram a falta de bom senso para “repassar” este género de mails são as vítimas mais vulneráveis da fraude na Internet. Ao repassar este género de mentiras e mensagens idiotas, você está a dizer aos burlões: EU SOU UM IDIOTA. E são os idiotas que eles procuram em primeiro lugar, por razões óbvias.


Vamos ao mail mentiroso, para depois o analisar ponto por ponto:



ÍMANS NO FRIGORIFICO - ALERTA SERiíSSIMO.

 
 
 
 

 
       Lá vou tirar os meus.....e comprar um quadro para os colocar...
 


 
SERÁ?? PELO SIM E PELO NÃO MAIS VALE PREVENIR E TIRÁ-LOS DE LÁ.

Perigo à vista!

UNIVERSIDAD DE ALMERIA - ESPANHA Professor VICENTE TORTOSA PEREZ
Faço estas declarações, para dar-lhes a segurança de que é um envio,
realizado com toda a seriedade do caso.
Quando ler o conteúdo, cada um poderá atuar de acordo com sua ideia.
Por enquanto retirarei os que por publicidade estão nas portas do meu
frigorífico

REITORADO E SERVIÇOS GERAIS UNIDADE DE EXTENSAO UNIVERSITARIA.

Camino del Pozuelo s/n, 16071 - Cuenca - Espanha

Investigadores da Universidade de Princeton descobriram algo considerado
assustador .
Durante vários meses estiveram alimentando dois grupos de ratos, um
grupo com comida guardada num frigorífico ,
e ao outro com comida guardada frigorífico com vários imãs decorativos
fixados na porta.
O objeto do estudo era ver como afetavam as radiações eletromagnéticas
dos imãs nos alimentos.

Surpreendemente e após rigorosos estudos clínicos, constataram que o
grupo de ratos que consumiram a comida irradiada > > pelos ímãs tinha um 87%
mais de probabilidades de contrair cancro que do outro grupo.

Os ímãs aderidos a qualquer aparelho (eletrodoméstico) ligado à
corrente elétrica aumenta o consumo/gasto/elétrico do > > determinado
aparelho, por aumentar a força eletromagnética do campo elétrico do
aparelho.*
Todos têm algum ímã no frgorífico , como elemento decorativo, sem que
até agora se suspeitasse que fossem rejudiciais. > > PORÉM SAO FATAIS.


É perigoso brincar com as forças da natureza e com as energias.* Se
tiveres algum ímã, retire-o rapidamente
e coloque-o longe de qualquer alimento. Graças a Internet e à boa vontade
de todos, podemos ajudar-nos mutuamente.

ESPALHE ENTRE FAMILIARES E AMIGOS URGENTEMENTE
 
Passemos a analisar o mail:

1.


ÍMANS NO FRIGORIFICO - ALERTA SERiíSSIMO.


--> O título já indica que é treta. Os alertas seriíssimos são divulgados na Comunicação Social. Não em mails.

 

 

2.

 


 

  Lá vou tirar os meus.....e comprar um quadro para os colocar...

 


---> a formatação do texto, muito amadora, com letras gigantes, coloridas, e com largos espaços em branco , é apelativa para pessoas que não estão habituadas a ler e a informar-se. O público alvo é claramente o largo segmento da população que desconfia dos jornais e da comunicação em geral e que acredita que o boato transmitido pelo  vizinho é mais digno de crédito que uma peça jornalística. Entendamo-nos. Por mau que seja o jornalismo atual, as informações dos jornais podem ser confrontadas com as informações de outros jornais. Aquilo que o seu amigo diz porque ouviu a outro, não. Pessoas que desconfiam sistematicamente dos meios de comunicação são pessoas facilmente manipuláveis porque não têm sentido crítico. Julgam-se espertas e, por isso mesmo é que são tão fáceis de enganar.


3.

SERÁ?? PELO SIM E PELO NÃO MAIS VALE PREVENIR E TIRÁ-LOS DE LÁ.


---> Outro indício de que o mail é treta. A utilização de letras maiúsculas, que ofendem a vista de quem tem alguma experiência no uso da Internet, é facilmente usada e aceite por quem utiliza acriticamente este meio. Usa maiúsculas para escrever frases inteiras? Não lhe faz impressão ler frases escritas só com maiúsculas?  Sem querer ofender, está a transmitir a mensagem de que é um analfabeto ou quase. Repare que no início deste texto eu escrevi uma pequena frase com letras maiúsculas. Mas aí é por uma razão de estilo: na verdade é como se estivesse a gritar.


4.

Perigo à vista!


---> Os mails da treta, em vez de passarem à notícia, são alarmistas e repetem mil vezes frases e expressões como estas em vez de ir diretos ao assunto.


5.

UNIVERSIDAD DE ALMERIA - ESPANHA Professor VICENTE TORTOSA PEREZ


---> Uma simples pesquisa na Internet bastará para mostrar que esta pessoa, se existisse (e não existe), não tem qualquer relevância na comunidade científica nem fez ou faz parte dos professores da Universidade indicada. E quem não tem relevância na comunidade científica não é credível. A Ciência não é feita por génios isolados. É uma atividade feita por um conjunto alargado de investigadores - a Comunidade científica. Claro que depois de se confirmarem os resultados de uma investigação, os créditos são, em princípio, dados a quem fez o estudo primeiro, mas se o estudo não for replicado por outros laboratórios é, quase de certeza, uma fraude.


6.

Faço estas declarações, para dar-lhes a segurança de que é um envio,

realizado com toda a seriedade do caso.

Quando ler o conteúdo, cada um poderá atuar de acordo com sua ideia.

Por enquanto retirarei os que por publicidade estão nas portas do meu

frigorífico


--> Frase mal construída. Quem escreve assim não será, de certeza, grande investigador.


7.

REITORADO E SERVIÇOS GERAIS UNIDADE DE EXTENSAO UNIVERSITARIA.


Camino del Pozuelo s/n, 16071 - Cuenca - Espanha


--> Não existe tal serviço nem a dita Universidade tem qualquer extensão em Cuenca.


8.

Investigadores da Universidade de Princeton descobriram algo considerado

assustador .


---> Descobre-se uma coisa em Princeton, mas quem divulga a notícia é de uma Universidade espanhola. Isso não é parvoíce que chegue para mostrar que isto é mentira? Novamente, em vez de se passar direto ao assunto, volta-se a afirmar que a descoberta é assustadora. O suspense serve para alarmar o leitor. Uma técnica sensacionalista típica.


9.

Durante vários meses estiveram alimentando dois grupos de ratos, um

grupo com comida guardada num frigorífico ,

e ao outro com comida guardada frigorífico com vários imãs decorativos

fixados na porta.

O objeto do estudo era ver como afetavam as radiações eletromagnéticas

dos imãs nos alimentos.


--->  A última frase não tem nexo gramatical. Quem acredita num texto assim escrito, acredita em qualquer coisa, desde que seja mentira. Ninguém iria estudar a influência dos ímans na porta de um frigorífico sobre os alimento. Isso é demasiado parvo. Os alimentos não têm constituintes influenciáveis pela radiação electromagnética, e o próprio planeta Terra é um íman gigante, para não falar de que a distância entre os ímans na porta e os alimentos é suficiente para não haver qualquer interação entre os dois - o campo magnético da terra e mesmo dos componentes do próprio frigorífico sobrepor-se-iam-se facilmente à ninharia de um íman. É demasiado estúpido para que um cientista que fosse se decidisse a fazer o estudo.


10.

Surpreendemente e após rigorosos estudos clínicos, constataram que o

grupo de ratos que consumiram a comida irradiada > > pelos ímãs tinha um 87%

mais de probabilidades de contrair cancro que do outro grupo.


---> Rigorosos estudos clínicos? Tão rigorosos que não dizem quais foram, nem onde foram publicados, nem qual o método utilizado,  nem se encontram em lado algum...


11.

Os ímãs aderidos a qualquer aparelho (eletrodoméstico) ligado à

corrente elétrica aumenta o consumo/gasto/elétrico do > > determinado

aparelho, por aumentar a força eletromagnética do campo elétrico do

aparelho.*

Todos têm algum ímã no frgorífico , como elemento decorativo, sem que

até agora se suspeitasse que fossem rejudiciais. > > PORÉM SAO FATAIS.


--> Texto extremamente mal escrito, explicação “científica” simplista e sem qualquer sustentação. Conclusão alarmista em letras maiúsculas. Estes mails adoram adjetivos como “fatal”. É fatal como o destino.


12.


É perigoso brincar com as forças da natureza e com as energias.* Se

tiveres algum ímã, retire-o rapidamente

e coloque-o longe de qualquer alimento.


--> textos fraudulentos adoram usar conceitos científicos difíceis de entender como “forças” ou “energias”.


13.

Graças a Internet e à boa vontade

de todos, podemos ajudar-nos mutuamente.


---> Graças à Internet e espalhando mails deste género, estaremos a contribuir para o incremento da ignorância e da crendice pseudocientífica. E estamos a dar de bandeja os nossos endereços a burlões que saberão quais são as pessoas mais fáceis de enganar.

 

14.


ESPALHE ENTRE FAMILIARES E AMIGOS URGENTEMENTE


---> O ENGRAÇADO É QUE NÃO ESPALHAM AS VERDADES. É SEMPRE AS MENTIRAS. POR QUE SERÁ? (DESCULPEM O GRITO)
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Segunda-feira, 20 de Julho de 2009
Vendo a noite por um canudo

A Nebulosa do Anel, como eu não a conseguiria ver, de qualquer forma, há duas noites atrás. Carregar na imagem para os devidos créditos.

 

As noites já não podem ser tão escuras quanto aquela que guiou a alma do poema de São João da Cruz. Não nas cidades. Quando, pequeno, tinha de seguir pelas Oliveiras entre a paragem da carreira, o fundo da estrada, e subir junto à mancha de pinheiros que ainda hoje se mantém imune aos incêndios que transofrmaram Carvalhal num enorme eucaliptal, sentia-me como a Branca de Neve a fugir aos ternos braços das árvores, transformados pela escuridão em monstros que sobrepunham sombras a sombras. Só o primeiro candeeiro da Rua da Glória me acalmava os passos. Mas aquilo que ilumina o chão tem o triste condão de apagar o céu à noite.

 

Ó ditosa ventura, a de ver claramente vista a estrada que seguia para Santiago e que, em certa parte bifurcava o destino das almas destinadas ao Paraíso ou o adiava no Purgatório... Ditosa a ventura de inventar constelações, não tendo eu livros de astronomia nem internetes que me ensinassem a distinguir Vega da Próxima Centauri. Ditosa a ventura de ver mais de quinze estrelas cadentes a riscar o céu numa só noite, deitado nos montes de caruma cheios de carraças da minha infância. Lembro-me bem de sonhar, à noite, num céu legendado, onde a minha imaginação acordada pelo sono dispunha as constelações como figurinhas perfeitas e luminosas a imitar os bonecos que enfeitavam os signos que a minha prima Donzília lia na Crónica Feminina. Hoje, quando chego a casa dos meus pais, invariavelmente à noite, no fundo da rua, entre os fatais eucaliptos que vão dar para os negrumes da Valada e do Cã das Bouças, onde dou a volta ao carro, saio por vezes para voltar a entrever um pouco desse céu, mas já não é o mesmo. Teria que me aventurar pelos caminhos agora cobertos de silvas e, reduzindo o meu horizonte a sul, entrever pelos ramos das árvores, esquecido das sombras, aquele pó luminoso que torna as noites escuras perfeitas imagens de felicidade. Basta um candeeiro para apagar o céu à noite.

 

Há dois dias atrás, fui fisgado de poder ver algo semelhante no alto do Bom Jesus de Braga. Prometeram apagar as luzes até à meia noite para que astrónomos amadores e profissionais me mostrassem, hoje, aquilo com que sonhava em criança. Ao chegar, julguei que me tivesse enganado no dia - na noite. Mas não. Os eventos culturais e científicos em Portugal têm este condão de se ofuscar perante as luminárias broncas das entidades que os promovem. Luz por todo o lado, a iluminar os hotéis a abarrotar de ricaços do futebol que não podem andar às escuras, não fossem ficar lesionados ao tropeçar numa pedrita da calçada. Os astrónomos  eram todos amadores - nem um profissional, ao contrário do que tinha sido prometido. Não que tenha qualquer queixa a fazer dos astrónomos amadores, simpáticos, pacientes e cujo brilho nos olhos apenas reflectia o das estrelas, não o obscurecendo. Não fossem eles e mais rota teria sido a iniciativa, apenas remendada pelo Coro Académico da Universidade do Minho, que, junto às estátuas da Fé, Esperança e Caridade encheram o espaço demasiado iluminado até que a EDP, finalmente apagou um terço das lâmpadas, incluindo as que iluminavam o Coro que teve, depois, de cantar sem o apoio de microfones e banda sonora adicional. Depois do recital, três astrónomos desiludidos pelo falso apagão, lá me mostraram os anéis de Saturno, a Nebulosa do Anel e, com uns raios laser todos catitas me foram apontando as constelações e as estrelas que teimavam em brilhar mais que o manto de escuridão luminosa que apagava por completo o horizonte sobre Braga (há quem se encante com as luzes das cidades, à noite...).

 

É triste dizê-lo. Mas nem para apagar a luz temos gente capaz. Proponho ao Engenheiro e à Doutora Milu que abram cursos das Novas Oportunidades para o efeito. O céu agradeceria.

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publicado por Manuel Anastácio às 16:51
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Segunda-feira, 13 de Julho de 2009
Pedido I

Procissão da Primeira Comunhão, de James P. Blair

 

Quando eu morrer, deixem que o meu carbono reentre no ciclo da vida. Não o petrifiquem. Não o purifiquem. Não me enverguem como jóia de família.

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publicado por Manuel Anastácio às 07:34
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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009
Conformes à sua espécie

A elipse de "2001: Odisseia no Espaço", de Stanley Kubrick

Escrevia, ontem, um aluno meu, num teste, que a "famia e o macho [da ave-do-paraíso] têm dimorfismo sequessual." Não está mal do ponto de vista científico. Está pior do ponto de vista do desacordo ortográfico. Mas só me lembrei disto por causa de, hoje, só se falar de Darwin, enquanto por estas bandas se discute a bondade e a beleza da criação. Claro que Darwin nunca negou a intervenção divina na evolução das espécies. E qualquer pessoa religiosa com meio palmo de testa sabe que a evolução é um ponto assente. Muito se terá ainda a descobrir quanto aos mecanismos pela qual funciona, mas o essencial é claro como a água. As aves, os insetos, os moluscos e todos os animais que rastejam não foram criados conformes à sua espécie. O conceito de espécie é, aliás, espinhoso. Quando os meus alunos me fazem a clássica pergunta do "Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha", eu respondo, como professor de Ciências Naturais consciente da enormidade do criacionismo que, se ele quiser acreditar em certas correntes ideológicas não científicas (e perigosas), o que nasceu primeiro foi a galinha. Deus não ia criar um ovo sem que houvesse outra galinha a chocá-lo, e a ideia de usar uma chocadeira parece-me blasfema. Mas, de acordo com a Teoria da Evolução, é ponto assente que nasceu primeiro o ovo. E quem pôs o ovo? Um animal parecido com uma galinha, e que, eventualmente, até poderia ser confundido actualmente com uma galinha. Mas que não era uma galinha. Ou era uma galinha (porque provavelmente se poderia reproduzir com outra galinha - ou melhor, com um galo) mas com algumas características que não coincidiriam com a definição pormenorizada que hoje podemos ter de uma galinha, incluindo o retrato-tipo da sua informação genética. Claro que quando estou a tentar explicar esta última parte, já o aluno deve estar a pensar que eu não devo bater bem da bola. Por isso, deixo o aluno pensar, contente, num dinossauro a pôr um ovo de onde sai uma galinha. É uma elipse, algo semelhante à do 2001 Odisseia no Espaço, mas perfeitamente aceitável para um aluno que ainda nem sequer sabe o que é o núcleo de uma célula.

 

Ora, que nasceu primeiro: o ovo ou a ave-do-paraíso, a tal que tem um dimorfismo sequessual muito pronunciado? A resposta poderia ser semelhante à da galinha, mas eu prefiro perguntar quem é que apareceu primeiro: o macho da ave-do-paraíso, bicho vistoso e saltitão (e que provocou largas gargalhadas numa aula)(...)

Parada nupcial da ave-do-paraíso (BBC Channel Planet Earth).

 

(...) ou a mais discreta fêmea? Confesso que não sei a resposta. O macho é aquele que produz células que se movem; a fêmea é aquela que guarda as células que esperam pelas células que se movem. Depreendo que tudo tenha começado com células a fazerem troquinhas de material genético. Mas quando é que uma rebanhada de células começou a perseguir  uma outra, específica, tornada objecto de competição, é coisa para a qual não tenho os conhecimentos científicos necessários para levantar uma hipótese-para-aluno-ouvir minimamente digerível.

 

Quanto ao dimorfismo sequessual da ave-do-paraíso, lembrei-me dele por causa da maçã de Adão, objecto mitologico-alegórico transformado em caracter sexual secundário (as tais diferençazinhas entre macho e fêmea sem contar com as ditas cujas) da espécie humana. Maçã que não poderia ser o fruto proibido, se o fruto fosse, de facto, um fruto na acepção botânica actual. A maçã é um pseudo-fruto, ou pelo menos é assim designada a sua parte comestível (o fruto será o coração onde se encerram as sementes: aquele que, cortado transversalmente, dá a ver uma estrela nunca antes vista) já que não provém de nenhum tecido do ovário da planta. Ou seja, escolheu-se para fruto da tentação uma coisa que apenas aparenta ser o que é, mas não é. Um frutóide, diria o meu aluno. E eu aprovaria a criatividade vocabular.

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publicado por Manuel Anastácio às 01:21
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Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009
Ninfas

Cisnes brancos, foto de S Sepp em Creative Commons e GFDL.

 

Hoje (ontem, em relação à data de publicação deste artigo) a Wikipédia fez oito anos. O colega Eduardo Pinheiro foi à Antena 3 falar sobre aquele que, para mim, é o maior feito da Internet desde que se decidiram juntar computadores a uma escala global. É há de continuar a ser. Entretanto, penso em implementar projectos a nível da escola, para que possa, de novo, voltar a participar naquele projeto que tanto amo sem que tenha de roubar tempo às atividades de carácter pedagógico. O que é complicado. É que os computadores da escola são claramente insuficientes para fazer algo do género, e os computadores da e-escola continuam por aparecer para a grande maioria dos alunos (será que serão entregues na próxima legislatura?).

 

Hoje andei às voltas com a palavra "ninfa", no que diz respeito às metamorfoses dos insectos. Ensinei numa aula que é a fase intermédia entre a fase larvar e o inseto adulto. Depois, li algures: "o gafanhoto passa por metamorfose simples, passando apenas por uma fase larvar ou ninfa". E fiquei confuso. Teria, na próxima aula, de fazer errata das minhas afirmações. Não sou propriamente dos professores que nunca erram e raramente têm dúvidas. E há muitos destes últimos: não me refiro apenas a um certo professor de economia. E, ao contrário da maioria dos meus colegas, não tenho medo de responder "não sei" às perguntas que os alunos fazem (e são muitas), apelando à sua própria pesquisa. Contudo, não é assim. Julgo eu, agora. Ninfa é uma palavra utilizada indiscriminadamente, em português, tanto para definir a forma larvar já algo semelhante ao imago (insecto adulto) dos insetos hemimetabólicos, como a cigarra, como para se referir à fase inativa, intermédia entre larva e imago nos insetos holometabólicos. Como é hábito, a nomenclatura científica em português é confusa a esse respeito. A Wikipédia reflete essa confusão e o artigo Ninfa da Wikipédia em português ainda não esclarece a confusão. Mas há de esclarecer. Acredito que a Wikipédia serve como centro gerador de conteúdos científicos. Sei que os académicos portugueses fogem da Wikipédia-cruz-credo-canhoto-canhoto como o diabo supostamente foge da cruz, mas isso é apenas sinal do provincianismo da nossa elite cultural. Os conteúdos da Wikipédia estão sujeitos a muitos erros, mas ao abrir os portões à participação de todos, principalmente aos não especialistas, está-se a criar um ponto de referência que poderá congregar e descodificar a linguagem obscura que os académicos portugueses tanto gostam de cultivar, para mal do progresso da Ciência em território nacional. E grande parte dessa obscuridade advém de cada académico usar as palavras de forma rigorosa, admito-o, mas cujo rigor se limita ao campo lexical da sua panelinha que, provavelmente, difere de Universidade para Universidade. Um país tão pequeno com tamanho separatismo vocabular a nível das elites é coisa que espanta. A coisa piora, claro, quando passamos a englobar nestas diferenças académicas as versões brasileiras (que as outras lusófonas ainda não têm qualquer expressão). É por isso que é importante cutivar a Wikipédia em português: porque é o único recurso que temos para podermos vir a compreender tanta gíria obscurantista. A Ciência é só uma. A sua linguagem devia ser também, tendencialmente, una. A Wikipédia Lusófona é ainda apenas um reflexo fantasmático do que poderá vir a ser um dia. Mas está a dar frutos. Não nela própria, mas fora das suas fronteiras, entre outras fontes ditas mais confiáveis que começam a reagir criando e disponibilizando conteúdos que, não fosse a Wikipédia, se manteriam nos cofres dos senhores ciosos da sua egoísta sabedoria.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:13
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