.Últimos bocejos

. Dia de Todos os Santos

. Professor Anastácio, espe...

. A caverna

. Vendo a noite por um canu...

. Promessas

. Gosto de... casas no Inve...

. Canja de porco

. Gosto de... aprender cois...

. Buscas pedidas - "Ribeira...

. Buscas pedidas - "Ribeira...

.Velharias

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Agosto 2016

. Maio 2016

. Janeiro 2015

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Março 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

. Dezembro 2003

Quinta-feira, 1 de Novembro de 2012
Dia de Todos os Santos

Não haverá hoje muitos miúdos a sair de casa, cedo, em Carvalhal, para gritar “Bolinhos, bolinhos” de porta em porta. Há sítios onde se pede “pão, por Deus”. Em Carvalhal apela-se aos mortos que cada vivo carrega nas suas dores. “Bolinhos, bolinhos, em redor de seus santinhos”. Podia ser “Bolinhos, bolinhos, em redor dos seus santinhos”, em Constância dizem “bolinhos, bolinhos à porta dos seus santinhos”, mas era a primeira versão, com um certo matiz brasileiro na construção frásica, que era utilizada para pedir coisas boas junto das portas que conseguíssemos percorrer com um saco de pano para os secos, um de plástico para os tremoços e uma bolsa para dinheiro. O trânsito de canalhada a sair pelos quintais e varandas era acompanhado de informações relevantes. Ali dão-se tremoços, e dispensávamos tal porta, que de tremoços estávamos fartos. Ali não se dá nada. Não em casa pobre - nessas havia sempre um figo seco, um rebuçado melado ou um beijinho meio desfeito - mas em casas repenicadas, com jardins à Versalhes e paredes imaculadas. E gritávamos para os donos, trancados com portas de ferrolhos dourados: “Arrebolão, arrebolão, caia esta casa no meio do chão!”. Ali, dá-se dinheiro, e corríamos, ávidos, às moedas de dois e quinhentos ou, em casa mais farta, de dez escudos, brilhantes, acabadas de vir do Banco, em rolinhos de papel. Ali dão-se broas dos santos, bolos lêvedos com cheiro a erva-doce, cobertos do vidrado castanho escuro e brilhante de pinceladas de gema de ovo, riscadas com os dentes de um garfo. Ali, só fatias, ali broas inteiras, pequeninas, por vezes grandes. Uma vez recebi uma broa de honrosa dimensão das mãos de uma velhota simpática que se limitara a dar um punhado de castanhas aos meus companheiros. Não entendi logo a razão do tratamento diferenciado, mas agradeci. O mistério revelou-se  mais tarde. Um dia, ajudara-a com o pesado cesto de erva para o gado que as mulheres costumavam, nessa altura, levar na cabeça, das fazendas, nos vales, aos currais, nos cabeços, por caminhos de cabras de sísifa extensão. Ali, romãs, fruto perfeito, com jóias de sangue esbugalhadas ainda antes de voltar a casa, enquanto as nossas mãos avaras de crianças contava o dinheiro arrebanhado e comparávamos contabilidades. E o sino tocava para a missa, junto aos muros do Cerro, ao lado das vinhas que ondulavam em direção à igreja. As portas voltavam a fechar-se.

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 09:45
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (1) | Adicionar aos favoritos
|
Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009
Professor Anastácio, especializado em esconjuros de mau olhado e outras mazelas e feitiços de maldade. Consultas grátis.

Chega-me a notícia de que tenho poderes sobrenaturais ou, pelo menos, não acreditando muito nessas coisas, pareço ser tão bom como o professor Makumba ou outro qualquer do género. Um senhor da minha terra (o Simão do cabeço da Igreja) chegou aos meus pais, perguntando a meia aldeia quem era um tal de Manuel Anastácio de lá, e que escrevia na Internet. Entrou no meu blogue à procura de rezas contra o quebranto. Achou uma. Leu-a em conjunto com a família e, no fim, enquanto se sentiam libertos do peso malsão que sobre eles pairava, o candeeiro suspenso na sala onde estavam caiu estrondosamente no chão.

 

Se é mentira, não fui eu quem inventou.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 18:21
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (11) | Adicionar aos favoritos
|
Terça-feira, 21 de Julho de 2009
A caverna

Marcha Triunfal da Aida, de Verdi. Lorin Maazel. Teatro Alla Scala de Milão.

 

Quando a televisão ainda só existia em Carvalhal e arredores num só lugar público de que não sei o nome (talvez no café da Portela, onde o Silvério Salgueiro viu o homem a descer à lua), porque não é do meu tempo, as pessoas do povo juntavam-se, após os dias de trabalho na lavoura ou na madeira (os grossos troncos de pinho carregados pelas mulheres à cabeça, sob uma rodilha de trapos entrançados revestidos de resina que era arrancada das mãos com a ajuda de petróleo) para ver as telenovelas brasileiras. Se "Gabriela" foi a primeira novela da televisão portuguesa, o grande marco no imaginário popular foi, sem dúvida, a "Escrava Isaura". Não é do meu tempo. Ainda vi uns capítulos esparsos de uma reposição feita à tarde e de outros de um remake mais recente. Tudo muito narrativa do século XIX com uma certa pimenta operática. Havia a escravatura, claro. E o povo sentia como suas as agruras dos negros presos ao tronco. As mulheres choravam baba e ranho e gritavam de dor a cada chicotada. Quando duas (creio que eram duas) personagens conhecidas pela sua bondade morrem num incêndio desencadeado pelos maus, ouço dizer que nada conseguia fazer parar as mulheres de chorar de desespero, enquanto os homens, não menos afectados no seu imo-senso de dureza masculina, puxavam dos lenços de mão e carpiam silenciosamente a morte trágica compartilhada frente à caixa de fantasmas que, por alguma técnica mágica e improvável lhes fazia chegar sofrimentos condensados e afins aos seus. As personagens não sofriam mais que eles, mas sofriam de langorosa forma nos minutos de cada emissão e mantinham-se em agonia até ao próximo episódio, num tipo de purgatório que ninguém entendia bem e que não é mais que o tempo da ópera, distentido ou encurtado de acordo com a vontade de um narrador difuso, como acontece sempre em qualquer obra de arte colectiva. Claro que, após as passas do Algarve, sempre havia um final feliz para aqueles que, entretanto, não tinham morrido atrozmente nas mãos dos verdugos esclavagistas. E isso, se foi bom para todos, que finalmente puxaram dos lenços para enxugar os olhos e um glauco pingo de felicidade que as mucosas do nariz segregavam, enfim libertas de opressão, trouxe consigo a maior decepeção de algumas daquelas vidas. Uma senhora, de que já não me lembro o nome, depois de ver o último episódio da Escrava e, começando a ver a telenovela que se seguiu, não gostou do que viu. Aqueles que tinham morrido entre as chamas estavam agora ali, com outras vestes, outros nomes e, por vezes, até com diferentes modos ou no lado contrário da barricada que divide os maus dos bons. A senhora prometeu (e, tanto quanto sei, cumpriu) jamais voltar a prestar a mínima das atenções àquela fantochada de sofrimentos postiços. Dura consigo mesma, negou a si mesma o prazer de sofrer o que sofrem os outros por interpostas e fantasmáticas pessoas. Passou a servir-se apenas da sua prória dor. Para si guardada, em si fechada, jamais transmitida na televisão. Fica aqui, contada agora ao mundo inteiro de uma só vez, o testemunho do seu voto de não se fixar, jamais, nas sombras ao fundo da caverna.

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 17:00
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (4) | Adicionar aos favoritos
|
Segunda-feira, 20 de Julho de 2009
Vendo a noite por um canudo

A Nebulosa do Anel, como eu não a conseguiria ver, de qualquer forma, há duas noites atrás. Carregar na imagem para os devidos créditos.

 

As noites já não podem ser tão escuras quanto aquela que guiou a alma do poema de São João da Cruz. Não nas cidades. Quando, pequeno, tinha de seguir pelas Oliveiras entre a paragem da carreira, o fundo da estrada, e subir junto à mancha de pinheiros que ainda hoje se mantém imune aos incêndios que transofrmaram Carvalhal num enorme eucaliptal, sentia-me como a Branca de Neve a fugir aos ternos braços das árvores, transformados pela escuridão em monstros que sobrepunham sombras a sombras. Só o primeiro candeeiro da Rua da Glória me acalmava os passos. Mas aquilo que ilumina o chão tem o triste condão de apagar o céu à noite.

 

Ó ditosa ventura, a de ver claramente vista a estrada que seguia para Santiago e que, em certa parte bifurcava o destino das almas destinadas ao Paraíso ou o adiava no Purgatório... Ditosa a ventura de inventar constelações, não tendo eu livros de astronomia nem internetes que me ensinassem a distinguir Vega da Próxima Centauri. Ditosa a ventura de ver mais de quinze estrelas cadentes a riscar o céu numa só noite, deitado nos montes de caruma cheios de carraças da minha infância. Lembro-me bem de sonhar, à noite, num céu legendado, onde a minha imaginação acordada pelo sono dispunha as constelações como figurinhas perfeitas e luminosas a imitar os bonecos que enfeitavam os signos que a minha prima Donzília lia na Crónica Feminina. Hoje, quando chego a casa dos meus pais, invariavelmente à noite, no fundo da rua, entre os fatais eucaliptos que vão dar para os negrumes da Valada e do Cã das Bouças, onde dou a volta ao carro, saio por vezes para voltar a entrever um pouco desse céu, mas já não é o mesmo. Teria que me aventurar pelos caminhos agora cobertos de silvas e, reduzindo o meu horizonte a sul, entrever pelos ramos das árvores, esquecido das sombras, aquele pó luminoso que torna as noites escuras perfeitas imagens de felicidade. Basta um candeeiro para apagar o céu à noite.

 

Há dois dias atrás, fui fisgado de poder ver algo semelhante no alto do Bom Jesus de Braga. Prometeram apagar as luzes até à meia noite para que astrónomos amadores e profissionais me mostrassem, hoje, aquilo com que sonhava em criança. Ao chegar, julguei que me tivesse enganado no dia - na noite. Mas não. Os eventos culturais e científicos em Portugal têm este condão de se ofuscar perante as luminárias broncas das entidades que os promovem. Luz por todo o lado, a iluminar os hotéis a abarrotar de ricaços do futebol que não podem andar às escuras, não fossem ficar lesionados ao tropeçar numa pedrita da calçada. Os astrónomos  eram todos amadores - nem um profissional, ao contrário do que tinha sido prometido. Não que tenha qualquer queixa a fazer dos astrónomos amadores, simpáticos, pacientes e cujo brilho nos olhos apenas reflectia o das estrelas, não o obscurecendo. Não fossem eles e mais rota teria sido a iniciativa, apenas remendada pelo Coro Académico da Universidade do Minho, que, junto às estátuas da Fé, Esperança e Caridade encheram o espaço demasiado iluminado até que a EDP, finalmente apagou um terço das lâmpadas, incluindo as que iluminavam o Coro que teve, depois, de cantar sem o apoio de microfones e banda sonora adicional. Depois do recital, três astrónomos desiludidos pelo falso apagão, lá me mostraram os anéis de Saturno, a Nebulosa do Anel e, com uns raios laser todos catitas me foram apontando as constelações e as estrelas que teimavam em brilhar mais que o manto de escuridão luminosa que apagava por completo o horizonte sobre Braga (há quem se encante com as luzes das cidades, à noite...).

 

É triste dizê-lo. Mas nem para apagar a luz temos gente capaz. Proponho ao Engenheiro e à Doutora Milu que abram cursos das Novas Oportunidades para o efeito. O céu agradeceria.

Artigos da mesma série: , ,
publicado por Manuel Anastácio às 16:51
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (5) | Adicionar aos favoritos
|
Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009
Promessas

 

Casa da Ti Geéda. Carvalhal, Abrantes, Cabeço da Espanha. Foto minha na licença do costume.

 

Os poucos leitores que tenho são de uma fidelidade e de um coração de tal modo oceânico que chego a envergonhar-me das vezes que penso em terminar com o blogue e colocar um vídeo do Youtube com alguns dos finais mais bonitos do cinema como último artigo (a copiar a ideia do Spicka). E não consigo deixar de ser profundamente grato a quem, sem me conhecer de lado algum, e sem ter a natural predisposição que há para ler autores que passaram pelo crivo da publicação, da crítica, do público e da História, lêm e sentem o que escrevo quando tantas outras, que me conhecem de presença física e que, supostamente, são minhas amigas, não me lêm, não me querem ler ou dizem que escrevo muito (demais) e falo caro, ou, ainda, sentem como escarros na face algumas das coisas de que mais me orgulho de ter escrito. Ninguém é profeta na sua terra, dizem. Mas o meu fiel natal-conterrâneo (e, tanto quanto sei, único) leitor, Silvério Salgueiro, que, não fosse o blogue, na melhor das hipóteses, também não me conheceria para além da típica genealogia de aldeia, decidiu-se a contrariar o provérbio. E foi repescar algumas das promessas que tinha deixado em suspenso na bruma dos meus esquecimentos, o que só acontece quando vasculhamos os escritos do baú (coisa a que a escrita bloguística não convida muito). Na verdade, não são esquecimentos nem promessas de político. Em algum dos casos, a ideia que tinha em mente desenvolver simplesmente dissolveu-se em outras ideias ou degenerou irremediavelmente nas ideias que não consigo desenvolver, por bloqueios de ordem vária, mas que não creio, de todo, irremediáveis.

 

Assim, fica em suspenso um artigo sobre o professor Baptista Reis porque, depois do que sobre ele escrevi no Professores V (ponto 7) dificilmente conseguiria dizer mais. Mas não digo nunca.

 

Quanto ao texto que tinha deixado em suspenso, e para o qual o meu caro Silvério pede continuação :

 

" O autocarro parava em frente de uma vidraça de loja, no café da Portela, onde lia, aí reflectido "aramac lapicinum ed laodras". Parecia latim ou élfico superior. Depois, seguia por uma curva, ao lado da loja do pai do Americano, e com um eucalipto esguio - o último de um renque e que foi poupado para servir de ponto de referência a quem chegasse à terra, de modo a poder dizer: aqui, junto a este eucalipto cujos ramos baixos foram podados, para acentuar o perfil fálico, está a casa dos Pichas... "

 

... foi escrito estando eu absorto num sentimento particularmente doloroso e propenso a determinadas evocações. Não o vou poder repegar, também, a não ser que outra incógnita e insuspeita madalena de Proust se venha a insinuar nos meus dias e a obrigar-me a escrever aquilo que o computador não me deixou escrever nessa altura. Penso repegar naquele texto, de facto. Mas não agora. E aviso desde já que a casa dos Pichas merece, de facto, um artigo (não aquele, que apenas referiria a casa de passagem). Mas faltam-me os dados históricos e coscuvilhices e uma fotografia de jeito, ainda que a casa tenha entretanto sofrido uma profunda lavagem de cara, mantendo, ainda assim, muitas das dignas linhas da bela arquitectura vernácula de Carvalhal (que muito devem à família do Silvério Salgueiro, nomeadamente os mestres  Manuel Salgueiro e António Dias Salgueiro, respectivamente pai e avô do meu leitor), que as gerações recentes têm se esforçado por apagar e destruir.

 

Prometo que vou pensar no assunto.

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 02:00
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (8) | Adicionar aos favoritos
|
Sábado, 4 de Outubro de 2008
Gosto de... casas no Inverno


Casa da Ti Augusta, Carvalhal, Abrantes, no Inverno passado.

 

Aestus

 

A terra cheira a vinho abafado.

As couves, tenras, aconchegam caracóis.

As vides, soltas, erguem falanges, tecem fantasmas.

A terra cheira a vinho abafado.

A mosto guardado em formol,

Como a doçura de quem nunca morreu.

Só mais umas gotas desta dor que, ardendo

Sabe a mel.

Em vez de fumo, nevoeiro,

E em vez de brasas, bagas de romã.

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 18:06
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (5) | Adicionar aos favoritos
|
Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008
Canja de porco

Trailer de "Ratatouille"

 

A canja de porco, ou sopa de ossos, é uma comida típica das matanças na minha terra natal, Carvalhal, Abrantes, e é servida no dia da desmancha do porco - isto é, no dia seguinte à matança, quando este é dividido, depois de se deixar, aberto, pendurado de pernas para o ar no chambaril, que é um pau curvo, parecido com um boomerang. A sopa é feita com os ossos frescos do porco (da cabeça), postos a ferver com presunto curado (do porco anterior). Quando o caldo está feito (com olhinhos de gordura a flutuar, como em qualquer canja), junta-se massa esparguete partida em pedaços de um centímetro, mais coisa menos coisa. A tradição, respeitada em casa do amigo Silvério Salgueiro, no entanto, manda que seja arroz (tal como na canja de galinha tradicional, onde as massas também já se impuseram).  O mais importante para mim, contudo, é lavar muitos raminhos de hortelã que são postos no prato na altura de servir. Tal como a canja de galinha, imputa-se a esta sopa propriedades medicinais, ainda que, em termos nutritivos seja obviamente pobre. Ouvi falar vagamente de uma lenda sobre alguém que a serviu a um rei, mas não sei precisar pormenores. Nunca dei muita importância a tal comezaina, mas a excentricidade da mesma merece referência. E, quer queira, quer não, faz parte dos cheiros e sabores da minha infância... E quem viu o "Ratatouille" sabe do que é que eu estou a falar...


Entretanto, tenho de pensar em escrever algo sobre o Kabra's. Ponham-me a falar de comida... 

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 19:03
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (2) | Adicionar aos favoritos
|
Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008
Gosto de... aprender coisas junto à lareira

Lume na lareira junto à qual li Júlio Dinis, José Saramago, Eça de Queirós, Maurício de Sousa, livros do Patinhas, Collodi, Salgari, Condessa de Ségur, Marquês de Sade (só a "Justine, ou Os Infortúnios da Virtude", juro...), alguns russos, José Mauro de Vasconcellos, Rómulo de Carvalho, Jorge Luis Borges, Camões, Camilo Pessanha, a Bíblia, Evangelhos apócrifos, Proust, livros da Anita, revistas das Selecções do Reader's Digest, John Steinbeck, Enid Blyton, Sophia, Santo Agostinho, Heródoto (os volumes que tinham saído das Edições 70... será que já publicaram os outros?), Homero, Henryk Sienkiewicz, Lew Wallace, Salman Rushdie, Edgar Morin, os livros da escola (da minha irmã, que eram mais interessantes que os meus)...

 

...E, claro, o "Seringador", enquanto a roupa molhada secava nas costas de uma cadeira e a minha mãe fazia mexuda de abóbora...

 

... E onde se cozia e assava o bucho que, tal como foi dito em comentário há dois artigos atrás, pelo meu natal-conterrâneo Silvério Salgueiro, também se come recheado, assim como a bexiga do porco, com os ingredientes utilizados nas morcelas. Na bexiga, como as morcelas de arroz e, no bucho, acrescentando pequenos pedaços de carne. Um dos dois, na casa do Silvério Salgueiro, que na minha não, era comido no Domingo Gordo como acompanhamento das sopas alvas com grão-de-bico e hortelã. Hortelã essa que é um dos cheiros típicos de Carvalhal, especialmente na estranha canja de porco que é servida no dia da matança, com massa esparguete.

 

... E junto à qual muito bucho de criança, incluindo o meu, correu o risco de ficar revirado em brincadeiras contorcionistas... Mas quanto a isto, o caro Silvério ainda não me esclareceu cabalmente, já que ouvi a muita gente falar de casos concretos de buchos revirados (claro que pode ser um mito... rural...). E creio que fosse um estado mais grave e permanente que a ânsia de vómito e enjoo referido pela Gerana... E, já agora, creio que descobri o que é chamado de "passarinha" nas matanças de Carvalhal: o baço. Ainda que o uso da palavra "passarinha", na acepção referida pela Gerana num comentário anterior seja, de facto, corrente.

Artigos da mesma série: , , ,
publicado por Manuel Anastácio às 13:40
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (3) | Adicionar aos favoritos
|
Sábado, 19 de Agosto de 2006
Buscas pedidas - "Ribeira da Brunheta II"


O caminho revela então aquilo que já me tinham prometido: rastos de incêndio. A estrada de terra batida serve de fronteira entre um último reduto de pinhal verde e uma longa mancha de eucaliptal queimado.



A estrada segue por um vale que se manteve verde graças a qualquer sopro divino. As chamas parecem ter saltado o pequeno córrego escondido entre ervas e pequenos grupos de árvores isoladas. O calor da tarde quase que me obriga a meter-me pela erva adentro e escavar o fundo em busca de água. A palavra oásis assenta perfeitamente ao vale. Infelizmente.


Está certo que o fogo não mata, de facto, a maioria dos eucaliptos. Antes pelo contrário. Dispersa-os. Faz parte do seu ciclo natural. As suas sementes necessitam de passar pelo fogo para germinarem. Seria uma bela imagem, se não fosse a menos adequada para as outras árvores que, esforçando-se num último grito de vida, estendem ramos verdes sobre os tocos queimados. Como estes amieiros. Tão belos quanto um corpo com cicatrizes.


 Do lado direito, onde, antes, íamos às pinhas, restam apenas fetos e promessas de pequenos pinheiros bravos. Toda esta zona já pertenceu à maior mancha de pinheiro bravo da Europa. Agora não.



A Ribeira da Brunheta aproxima-se. Sento-me na berma ladeada de cardos, erva de serrã-pastor, colhões-de-galo (não conheço outro nome para tais ervinhas - e duvido da designação "corações-de-galo" com que alguns pudicos conterrâneos a baptizaram) e marcela. A marcela é uma erva profundamente aromática. Desconheço o seu nome científico e se tem outra designação no resto do país (não creio que seja o mesmo que macela) e era colhida pela altura das festas dos santos populares para ser queimada, juntamente com rosmaninho, em fogueiras dispostas ao longo da rua que se enchia de fumo branco com a suposta capacidade de curar a rabugem até ao ano seguinte. Era, de facto, este o principal motivo que me levava até à Ribeira da Brunheta, onde esta erva crescia com particular efusão pelas encostas dos campos de lavoura abandonados... Bem, os pêssegos que nasciam no pomar ao lado destas ervinhas comprovavam, também, todos os anos, que a fruta roubada tem um outro sabor... Hoje, nem sequer um pessegueiro se vê entre a erva seca. Só memórias e um tanque seco. Levanto-me. A Ribeira da Brunheta, na minha geografia mental, começa depois daquela curva.

Artigos da mesma série: , ,
publicado por Manuel Anastácio às 00:55
link do post | Dizer de sua justiça | Adicionar aos favoritos
|
Sexta-feira, 18 de Agosto de 2006
Buscas pedidas - "Ribeira da Brunheta I"


Enquanto a Carla fazia o jeito de jogar um pouco de Playstation com o Duarte, decidi ir até à curva da Estrada tirar fotografias à velhinha e bela casa da Ti'  Geéda (Tia Geada???), cujo telhado desabou . Pouco depois da casa, fugindo ao sol, entrei pelo pequeno pinhal da Tia Augusta. O caminho por onde seguia até à escola está agora impraticável, coberto de tojo e todo o género de plantas espinhosas. Lembro-me de os donos dos pinhais detestarem a presença de miúdos nas suas propriedades. Supostamente, não permitiam o crescimento de novas árvores. Treta. Não permitíamos, isso sim, o crescimento desregrado de uma selva selvaggia, aspra e forte...

Pouco depois, mesmo sem dar por mim, estou do outro lado da estrada, junto a terrenos de cultivo com sebes de silvas que crescem pelo caminho também abandonado. Por aqui, já nem se brinca nem se trabalha. Deixam-se as silvas abrir caminho aos fogos devoradores de biomassa.



Era este o caminho que fazia quando seguia em direcção à Ribeira da Brunheta. Os fetos cobrem esta parte do vale. Diz a minha mãe que antes não havia por aqui fetos. Hoje, parecem querer lutar com as silvas e com os eucaliptos pelo direito ao monopólio das terras. À direita, havia uma clareira onde fazia cabanas com cascas de eucalipto, sobrepostas, formando paredes com estrias horizontais de luz e onde se entrava pelo tecto.



Entre as silvas, um grande cedro. É difícil o caminho até este Deus recôndito, iniciador da minha persistente dendrolatria.



A máquina fotográfica não consegue, de facto, captar a face do Deus. Volto ao caminho. Subo a encosta e dou, por fim a um caminho liberto, onde retiro os espinhos que, entretanto, se infiltraram pelas sandálias.



É aqui que começava, de facto, o caminho em direcção à Ribeira da Brunheta. Uma pequena aldeola, que mal conheço. Mas, fazendo a vontade a quem procurou por tal nome no Google, é para lá que me dirijo. Amanhã continuo o passeio.
Artigos da mesma série: , ,
publicado por Manuel Anastácio às 02:14
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (6) | Adicionar aos favoritos
|
.Nada sobre mim
.pesquisar
 
.Março 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
.Artigos da mesma série

. notas

. cinema

. livros

. poesia avulsa

. só porque

. política

. curtas

. arte

. guimarães

. música

. estupidez

. traduções

. wikipédia

. religião

. poesia i

. gosto de...

. ono no komachi

. narrativas

. tomas tranströmer

. buscas pedidas

. plantas

. arquitectura

. blogues

. enciclopédia íntima

. blogs

. braga

. fábulas de esopo

. as quimeras

. gérard de nerval

. carvalhal

. animais

. cultura popular

. disparates

. Herbário I

. poesia

. póvoa de lanhoso

. estevas

. pormenores

. umbigo

. bíblia

. ciência

. professores

. vilar formoso

. barcelos

. cinema e literatura

. coisas que vou escrevendo

. curtíssimas

. Guimarães

. rádio

. receitas

. ribeira da brunheta

. teatro

. vídeo

. da varanda

. economia

. educação

. família

. leitura

. lisboa

. mails da treta

. mértola

. Música

. os anéis de mercúrio

. cachorrada

. comida

. cores

. dança

. diário

. direita

. elogio da loucura

. escola

. esquerda

. flores de pedra

. hip hop

. história de portugal

. kitsch

. memória

. ópera

. profissão

. recortes

. rimas tontas

. sonetos de shakespeare

. terras de bouro

. trump

. Álbum de família

. alunos

. ângela merkel

. arte caseira

. aulas

. avaliação de professores

. ayre

. benjamin clementine

. citações

. crítica

. ecologia

. edgar allan poe

. ensino privado

. ensino público

. evolucionismo

. facebook

. todas as tags

.O que vou visitando
.Segredos
  • Escrevam-me

  • .Páginas que se referem a este site

    referer referrer referers referrers http_referer
    .Já passaram...
    .quem linka aqui
    Who links to me?
    .Outras estatísticas
    eXTReMe Tracker
    blogs SAPO
    .subscrever feeds