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Segunda-feira, 9 de Junho de 2008
Buscas pedidas: "Galos com o rabo muito grande"

 


Galos. Copyright desconhecido.

 

Mesmo não tendo eu muito tempo para escrever para o blogue, parece-me por bem responder ao pedido de alguém que entrou por aqui à procura de “galos com o rabo muito grande”. Lembrei-me, a este propósito, de um conjunto de fotografias sobre galináceos que a Ana Ramon me enviou. Não sendo estes dois os mais interessantes dos espécimes, são, pelo menos, aqueles que melhor arvoram uma cauda de respeito. Ainda assim, nenhum rivaliza, de facto, com o galo de Barcelos, ainda que o mesmo estivesse depenado, degolado e morto na altura em que cantou miraculosamente, provando a inocência do galego que terá, segundo a tradição, esculpido o cruzeiro onde é contada a História e em cujo verso estão duas (ou quatro) figuras que muito me intrigam e que merecerão artigo à parte, a seu tempo. Nesta parte da frente, além do crucificado, do enforcado e do juiz que acorre a salvá-lo do nó lasso que lhe atarda a morte, vemos o galo com um rabo de respeito, como bem seria do agrado do visitante que daqui saiu, com certeza, desconsolado. Pode ser que volte, quem sabe…

Cruzeiro do Galo de Barcelos, Museu Arqueológico de Barcelos, foto minha em  Creative Commons

 

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publicado por Manuel Anastácio às 22:34
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Quarta-feira, 11 de Outubro de 2006
Pormenores: Coelhinha da Playboy (Barcelos)

Pormenor de uma campa tumular do século XIV da Igreja Matriz de Barcelos - Museu de Arqueologia de Barcelos

Continuando o meu passeio entre o espólio do Museu de Arqueologia de Barcelos, no antigo Paço dos Duques de Bragança (que também em Barcelos há um, mais genuíno que aquele que consigo entrever da minha varanda), deparei-me com uma campa tumular (muita campa fotografei nesse dia...) ornamentada com o símbolo da Playboy. É verdade. Não sei se dá para perceber bem, na fotografia, mas esta forma é indubitavelmente a marca de  Hugh Hefner! - Tá bem... invertida lateralmente, é certo, mas a forma é a  mesma (a coelhinha da Playboy tem o focinho para a direita). Sei que existem fábricas de têxteis portuguesas que conseguiram um bom negócio com a Playboy na área dos atoalhados. Mas pensar que no século XIV, já uma agência funerária portuguesa se tinha lançado na subtil erotização da morte... Dá que pensar...

Mas, de facto, é apenas uma tesoura. Talvez um símbolo da confraria dos alfaiates. Seja como for, não é um símbolo de castração. E pode dar origem a uma bela história de uma viagem no tempo - em que quem viaja, em vez de um ser humano é, por exemplo, um exemplar da revista mais conhecida do mundo... Imaginar os efeitos místicos de tal aparição entre o povo barcelense (com o milagre do galo pelo meio, mais a explicação para o facto de o símbolo aparecer invertido - a viagem no tempo pode incluir a inversão do objecto ao passar pela quarta dimensão) é meio caminho andado para uma historinha tão divertida quanto reveladora da condição humana.1

1
E assim, descarto-me, de forma muito borgiana  (ou borgesiana?), do trabalho de escrever o conto. Mas dou liberdade, a quem para isso tiver unhas, para escrever o mesmo conto, desde que o licencie no Creative Commons (carreguem neste link, porque vale a pena - explica bem o que é isso de criativecómones)....
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publicado por Manuel Anastácio às 22:13
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Terça-feira, 10 de Outubro de 2006
Pormenores: Cruz, Paixão e Morte, Barcelos

"Cruz, Paixão e Morte", Conceição Sapateiro

Caldas da Rainha e Barcelos são duas cidades que têm em comum uma produção cerâmica tradicional de excepção. Infelizmente, a maioria das pessoas só pensa nos falos das Caldas (desculpem-me o pudor de dizer "falos" em vez de outra coisa) e nos galos de Barcelos. De Barcelos, contudo, tenho uma preferência especial pela sua arte sacra popular com aspecto caricatural. A religiosidade nortenha não se escandaliza, em nada, em representar os santos - e até Jesus Cristo - com orelhas de abano, olhos esbugalhados, ar invariantemente sorridente e proporções corporais copiadas aos bebés. Ceramistas como Rosa e Júlia Côta ou Conceição Sapateiro transformam o barro num arraial minhoto de cores e brilhos que ofuscam qualquer galo de Barcelos. De Conceição Sapateiro (autora de uma série de figuras alegóricas sobre os sete pecados capitais, de que ressalto a obscenidade recatada da luxúria - que pode ser apreciada no Museu de Cerâmica de Barcelos) é esta belíssima cruz exposta num nicho da fachada ocidental da Câmara Municipal de Barcelos, com a representação dos momentos chave da Paixão de Cristo. Apesar, contudo, da ressurreição coroar o conjunto, é interessante que o título da obra limita-se a numerar a ideia do sacrifício: "Cruz, Paixão e Morte".

Vale a pena ver a sério. Mas a Câmara já podia ter mandado alguém limpar o vidro que protege o nicho...
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publicado por Manuel Anastácio às 19:57
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Domingo, 8 de Outubro de 2006
Pormenores: o Barbadão (Solar dos Pinheiros - Barcelos)

Imagem esculpida entre os despojos de antigas remodelações da Igreja Matriz de Barcelos, actualmente no museu de arqueologia da mesma cidade.

Dizem os roteiros turísticos que na fachada sul do "Solar dos Pinheiros", mandado construír por Pedro Esteves, em 1448, em Barcelos, junto à Igreja Matriz, se pode ver a imagem esculpida de um homem de grandes barbas, chamado de "Barbadão". Confesso que me foi difícil descobri-lo, logo abaixo da cornija do telhado. No fundo, é apenas uma cara, com uma barba não propriamente descomunal, que é cofiada (ou agarrada como quem a quer arrancar, como depreende o povo) pelo braço direito. Vários relatos populares tentam explicar a simbologia da pequena escultura. Em termos gerais, é identificado com Tristão Gomes Pinheiro, fidalgo que mantinha más relações de vizinhança com os senhores do Paço dos Duques de Bragança, um pouquinho mais acima. As razões da inimizade dever-se-iam, talvez, ao facto de D. Afonso de Bragança não lhe permitir a construção do solar como pretendia, com torres mais altas, que facilmente devassariam o interior do Paço, ou, como prefere a maioria da população, refere-se a um protesto do mesmo fidalgo contra um Cavaleiro da estirpe dos Braganças, que teria desonrado a sua filha. Outras fontes referem que a figura representa não mais que o avô materno do primeiro duque de Bragança - o que não confere com a versão de Damião de Góis, segundo o qual seria Mem da Guarda, judeu converso de Castela que se teria fixado na Guarda, onde exercera o ofício de sapateiro, sendo conhecido, pelas gerações futuras dos Pinheiros, como "Borboleta" (em jeito depreciativo, como é típico das famílias que se envergonham dos seus antepassados plebeus) e que, para aumentar a confusão, é considerado o pai de uma tal de Inês Peres, Inês Fernandes ou Inês Pires Esteves (variantes que correspondem a outras tantas filiações) que, depois de andar enrolada com o Mestre de Aviz terá dado à luz o primeiro Duque de Bragança, D. Afonso. Se alguém conseguir desenvencilhar estas obscuras raízes de famílias que tanto as prezam, agradeço qualquer comentário.

Contudo, ao passear entre as ruínas dos Paços Ducais, transformadas hoje em dia em museu arqueológico ao ar livre, encontrei, entre velhos despojos da Igreja Matriz, outro Barbadão, tal e qual. Muito espantado estou por não encontrar qualquer referência, em lado algum, a esta personagem duplicada que é, provavelmente, irmã gémea da outra ou, pelo menos, irmã mais velha. O Barbadão do Solar dos Pinheiros  resultou, quanto a mim, apenas da apropriação privada dos materiais rejeitados numa qualquer remodelação da Igreja Matriz, coisa que é, de facto, muito comum em Portugal. Os solares portugueses são, quase sempre, edificados com os despojos dos conventos, igrejas e palácios que a nossa proverbial burrice permitia cair em abandono. A cobiça da arte é mais frequente entre a lusa fidalguia do que o gosto pela mesma... Nem vou falar do que os nossos republicanozinhos da primeira república também fizeram com os conventos que mandaram fechar, na sua sanha anticlerical, para imediatamente sangrar para as suas bacias de barbeiro transmudadas em elmos de  Mambrino. O mal é pátrio, e não de classe. E não se trata de gosto Kitsch nem Camp... Trata-se apenas de roubalheira por unhas abençoadas de quem nasceu com o rabo virado para a lua.
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publicado por Manuel Anastácio às 20:11
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