.Últimos bocejos

. Ayre I

.Velharias

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Agosto 2016

. Maio 2016

. Janeiro 2015

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Março 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

. Dezembro 2003

Domingo, 8 de Julho de 2007
Ayre I


11 de Setembro, de Alejandro González Iñarritu. Música de Gustavo Santaolalla e Osvaldo Golijov. Deve a luz de Deus guiar-nos ou cegar-nos?


Ayre, de Osvaldo Golijov, compositor argentino, disponível numa versão da Deutsche Grammophon, na voz de Dawn Upshaw, é uma obra admirável onde o experimentalismo vocal se alia a uma reinterpretação de música étnica de origem mediterrânica, sefardita e árabe, com dois intervalos musicais pela mão de Gustavo Santaolalla. A obra, composta por um ciclo de canções, é ainda pontuada por elementos de “música electrónica semítica” em perfeita comunhão com as variações de humor de uma obra de espantos, carícias, arrepios e sorrisos e incongruências conceptuais. A segunda canção…

 

 

E uma mãe assou

E comeu o seu querido filho:

 

“Olha nos meus olhos, mãe.

Aprendi a lei com eles

 

Olha a minha testa, mãe.

Já nela enverguei filactérios

 

Olha a minha boca, mãe:

Aprendi a lei com ela.”

 

 … baseada nas “Lamentações de Jeremias” é de uma doçura a toda a prova, apesar dos versos macabros que a originam.

 

Outra canção, Wa Habibi (Meu amor, em árabe)…

 

Meu Amor, Meu Amor

O que te aconteceu?

Quem te viu e quem por ti sofreu,

Por ti, que és justo?

Meu Amor, qual a culpa dos nossos tempos e dos nossos filhos?

Permanecem sem cura, estas feridas.

 

… alterna, da mesma forma, com um sentido dramático deslumbrante, a lamentação de uma melodia da Semana Santa do cristianismo árabe com a mais desenvolta e sensual dança oriental. De seguida, num trabalho de colagem sonora, volta outra canção da Semana Santa:

 

Choram sem parar os meus olhos

Porque não terei descanso

Até que Deus a si se revele e olhe do céu.

Fiz subir as minhas preces em Teu nome,

Ó Deus

Não afastes os teus ouvidos

Ouve a minha voz e vem agora.

 

A primeira canção do ciclo, “Mañanita de San Juan”:

 

Na manhã do Dia de S. João

Mouros e Cristãos foram à guerra

Em combate, foram morrendo

Quinhentos de cada lado.

O almirante Rondale,

Ficou, então, cativo.

Quebrada a sua espada, a meio da batalha

Viu-se prisioneiro e começou a chorar.

 

A princesa, ouvindo-o do alto do seu castelo:

“Não chores, Rondale, não sofras

Dar-te-ei 100 marcos de ouros

E tudo o que quiseres,

Casando comigo, meus vinhedos e riachos.”

 

“Possa o fogo maldito devorar-te as vinhas

Os riachos e tuas casas

Tenho uma mulher em Paris: é com ela que caso”

 

Ouvindo isto a princesa,

Teve-o, morto.

 

… baseia-se num Romance tradicional sefardita. Diz a capa do CD que a tradução é de Hamete Benengeli, o que pressupõe ser o próprio Golijov num processo de mistificação narrativa, da mesma forma que Cide Hamete Benengeli não era mais que o fictício autor das aventuras do Engenhoso Dom Quixote de La Mancha. O espírito orientalista, esteticamente modificado e apropriado por Golijov, à maneira daquela personagem Byroniana do conto de Edgar Allan Põe com que dei início a este meu blogue:

 

“Sonhar, continuou, retomando o tom do seu diletante colóquio, enquanto levantava até à soberba luz de um incensório um dos seus magníficos vasos - sonhar tem sido o motivo da minha vida, por essa mesma razão tenho eu fundado para mim mesmo, como pode ver, uma clareira de sonhos. No coração de Veneza poderia eu ter erigido algo melhor? Vê à sua volta, é verdade, uma miscelânea de adereços arquitecturais. A castidade jónica é ofendida pelos temas antediluvianos, e as esfinges do Egipto estendem-se sobre tapetes de ouro. Apesar disso, o efeito é incongruente apenas para os acanhados. A harmonia de estilos locais, e especialmente temporais, são os fantasmas que aterrorizam a humanidade, desviando-a da contemplação do sublime. Eu mesmo já fui um decorador segundo os preceitos do bom gosto; mas essa sublimação do ridículo enfadou-me o espírito. Tudo isto é agora o que melhor se ajusta ao meu propósito. Como estes incensórios cheios de arabescos, o meu espírito contorce-se em fogo e o delírio desta cena enforma-me nas visões selvagens dessa terra de sonhos reais para a qual estou agora a partir.”

 

De facto, sou incapaz de ouvir esta obra de Golijov sem evocar o ambiente de sonho antes do encontro definitivo – onírico, sem ser surreal. Apenas sublimemente incongruente como os pregões sefarditas com que se compôs a primeira canção. Apenas revelador de um desejo de quebrar os muros que encerram a terra e que almejam limitar o próprio céu.

 

A terceira canção, “Tancas Serradas a Muru”, com letra e música de Francesco Ignazio Mannu (Sardenha, ca. 1795):

“Cercam os muros a terra

Tomada em voraz avareza,

Fosse o céu aqui também

E seria da mesma forma cercado!”

 

... e a quinta canção pegam novamente no tema dos limites, das cercas e das portas, mas sob o ponto de vista dos indefesos e dos traídos. Como é habitual nas canções de embalar, o propósito não é apenas o de adormecer mas o de confessar à criança, que não entende, tudo aquilo que atormenta o coração de quem o embala, como que pedindo vingança e salvação àquele que agora se protege. É este um dos arquétipos dos nossos mitos universais, que em vez de afastar os papões dos telhados, apenas os convocam para o espírito do infante que, de outro modo, desconheceria a sua existência. Pela mesma mítica mão de Benengeli:

 

Dorme, meu filho, dorme…

Dorme, maçã do meu olhar.

Antes que chegue o teu pai,

De ânimo exaltado.

 

Abre a porta, mulher,

Abre a porta

Que venho cansado

De lavrar os campos.

 

Não ta abrirei

Porque não estás cansado.
Sei bem que vens

Da casa da tua nova amante.

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 12:54
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (1) | Adicionar aos favoritos
|
.Nada sobre mim
.pesquisar
 
.Março 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
.Artigos da mesma série

. notas

. cinema

. livros

. poesia avulsa

. só porque

. política

. curtas

. arte

. guimarães

. música

. estupidez

. traduções

. wikipédia

. religião

. poesia i

. gosto de...

. ono no komachi

. narrativas

. tomas tranströmer

. buscas pedidas

. plantas

. arquitectura

. blogues

. enciclopédia íntima

. blogs

. braga

. fábulas de esopo

. as quimeras

. gérard de nerval

. carvalhal

. animais

. cultura popular

. disparates

. Herbário I

. poesia

. póvoa de lanhoso

. estevas

. pormenores

. umbigo

. bíblia

. ciência

. professores

. vilar formoso

. barcelos

. cinema e literatura

. coisas que vou escrevendo

. curtíssimas

. Guimarães

. rádio

. receitas

. ribeira da brunheta

. teatro

. vídeo

. da varanda

. economia

. educação

. família

. leitura

. lisboa

. mails da treta

. mértola

. Música

. os anéis de mercúrio

. cachorrada

. comida

. cores

. dança

. diário

. direita

. elogio da loucura

. escola

. esquerda

. flores de pedra

. hip hop

. história de portugal

. kitsch

. memória

. ópera

. profissão

. recortes

. rimas tontas

. sonetos de shakespeare

. terras de bouro

. trump

. Álbum de família

. alunos

. ângela merkel

. arte caseira

. aulas

. avaliação de professores

. ayre

. benjamin clementine

. citações

. crítica

. ecologia

. edgar allan poe

. ensino privado

. ensino público

. evolucionismo

. facebook

. todas as tags

.O que vou visitando
.Segredos
  • Escrevam-me

  • .Páginas que se referem a este site

    referer referrer referers referrers http_referer
    .Já passaram...
    .quem linka aqui
    Who links to me?
    .Outras estatísticas
    eXTReMe Tracker
    blogs SAPO
    .subscrever feeds