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Sábado, 5 de Maio de 2012
Metamorfoses

 

 

 

Num canto de um quarto com reminiscências expressionistas, visto sob um olhar circular (mas plano, sem utilização de qualquer deformação por lente olho de peixe) projectado na parede do fundo do cenário, um homem (uma larva, um conceito?) contorce-se. No palco térreo, um violinista e um clarinetista, como prolongamentos da mobília, vestidos com o mesmo padrão do estofo das cadeiras formam um biombo mudo no meio dos sons electrónicos difusos e estalidos eléctricos, ao mesmo tempo que lâmpadas confundem-se com velas propiciatórias de um sacrifício ou de um ritual iniciático. O violinista começa um chamamento hierático que estabelecerá com o clarinete baixo um ritmo de horror e de ansiedade em comunicar, concomitante a um alheamento que se manterá até ao fim daquilo que nos é permitido ver. Saindo da tela projectada, que se mantém com o quarto vazio, ao fundo, o homem-larva avança em todo o fulgor anímico e primordial de um pesadelo infantil ou mitológico. As luzes desenham cada pormenor de uma anatomia que parece irromper de uma pele que se estica devido a convulsões internas e dolorosas. A larva estende-se para os músicos, entre a admiração contemplativa, o espanto e o desejo. Os músicos levantam-se, mudam para duas estantes ao fundo do palco. São atiradas roupas semelhantes às que usam para o chão. A larva conceptual, o homem indefinido e em mudança explora as cadeiras deixadas vazias e esconde-se e espreita para lá das estantes. As cadeiras são modificadas pelo ato de as virar e deitar, dando-lhes outro significado, transformando-as num objecto outro que, para além do complemento funcional à postura corporal, toma o lugar, primeiro, de limite, de grade, de fronteira, depois, de cela ou casulo onde a larva se aninha até que eclode. Mas a eclosão não dá imediatamente lugar à transformação. Esta é gradual, o inseto nascido toma as roupas deixadas no chão e abandona o palco. Durante todo o processo, as luzes sobem e tremem no vendaval horrendo e fascinante de uma partitura de íntimas preocupações e fantasmas à procura de uma resolução que não chega. A transmutação não traz alívio. A larva deixa o palco e volta gradualmente, primeiro como sombra, depois como corpo vestido, transformado em desenho monocromático que ondula no canto mais afastado, ao centro da tela em que olhamos e, por onde, por fim, somos olhados e definitivamente excluídos do ato voyeurista de entrar nos sonhos mais perturbadores de alguém tão indefinido quanto nós.

Falo de “Metamorfoses”, uma criação da Companhia “Mundo Razoável”  que assim se estreia com um espetáculo (será um espectáculo, deveras?) tão perturbador quanto belo sobre a relação confusa entre o ver e o intuir, o ser e o devir, o alhear-se e o sentir. O homem-larva, kafkiano, visto como se estivesse sob as pinceladas rudes de Paula Rego, é encarnado e transmutado por uma excelente interpretação de Carlos Silva, ao som da partitura inconformável de Dimitris Andrikopoulos e a coreografia incómoda de Cláudia Marisa.  Os músicos: o violinista, Emanuel Salvador, e o clarinetista Jordi Pons, interpretam um diálogo surdo (dois monólogos em paralelo) de nervos desnudados, numa composição poética dolorosa a que dão um brilho a que a minha imperfeita melomania não consegue dar a justa avaliação para além de um efeito emocional desgastante que não me permitiu sair do espectáculo satisfeito da vida, mas em suspenso perante os monstros que dormem nos recantos da minha alma ou das almas que comigo se cruzam, vestidas com os mesmos trapos com que se vestem as mobílias, dando a imagem de lugares compostos na paisagem social, mas tão revoltos no seu interior quanto o magnífico desenho de luz de Rui Damas.

Quarenta e cinco minutos de uma bem merecida tortura emocional e deslumbrante fruição estética a vários níveis. A repetir amanhã e depois de amanhã (dias 5 e 6 de Maio), às 10 da noite no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura, mesmo ao lado do Mercado Municipal de Guimarães.

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publicado por Manuel Anastácio às 02:02
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Quinta-feira, 19 de Abril de 2012
O Coração Sabe, de Vasco Ferreira Campos

Que "O Coração Sabe" coisas que o intelecto se recusa, por teimosia, a olhar de frente, todos sabemos. Mas poucos são aqueles que as sabem transformar em certezas e, menos ainda, aqueles que as conseguem expor no seu esplendor de coisas não corrompidas pelo pensamento. Vasco Ferreira Campos é um poeta capaz de definir as certezas com a mesma convicção com que defendemos os nossos pressentimentos. É um poeta das coisas concretas, tal como a memória as desencanta dos recantos mais luminosos daquilo que nos define enquanto pessoas. Há nos seus poemas um clarão místico, de coordenadas meridionais e orientais, com toques de uma religiosidade e fé pagã, natural, alheia à catequese. Da mesma  forma que uma criança, perante o rosto das respostas que lhes são dadas, não aceita a possibilidade do engano, há uma puerilidade sábia e reflectida em cada um dos seus versos ("agora até sou mais inteligente, mais convencido / e, inevitavelmente, menos sabedor"). 

 

A dedicatória do livro de poemas que tenho agora ao meu lado é dirigida aos seus filhos. E Vasco Ferreira Campos deixa-lhes, neles, uma herança de certezas talvez deles recebida. É à luz do olhar infantil que a sua poesia, madura, justifica esta primeira impressão de infância recuperada, com uma força descritiva e evocadora ao modo de Proust, mas de forma sintética e quase epigramática. Chamei um dia, a um dos poemas deste livro, um tratado de antropologia íntima. É daquelas expressões que eu gosto de buscar ao baú das minhas impressões confusas, mas que, no fundo, o meu coração sabe estarem certas. Antropologia, dizia eu, mas poderia chamar-lhe, também, epistemologia prática. Uma epistemologia que legitima alguns enganos (não erros) que nos deixam uma esperança intimamente justificada de estarmos certos. Mas as palavras do Senhor Vasco, como o conheci pela primeira vez, nem são dessa esterilidade discursiva para a qual está a cair este meu texto (e que já me fez perder 60% dos leitores que avançaram para lá da segunda linha de texto), nem exigem profundidades de análise porque convém que sejam lidas de olhar lavado e com o estado de espírito próprio de quem vai ser admitido numa casa acolhedora, a meio de uma tempestade ou a meio da desolação da inexistência. E há, de poema em poema, um percurso onde nos confrontamos com a infância, as responsabilidades que assumimos e para as quais nos faltam a simples possibilidade de as manter, não por impotência, mas pela própria essência do devir e da entropia, a felicidade dos espaços familiares, a intimidade dos olhares sempre à procura de um horizonte fixo onde assentar certezas sem nome, mas luminosas e propiciadoras de uma paz que ora toma a forma de uma casa ora a sombra de uma árvore (talvez ambas, a mesma coisa). Mas sempre que evoca a árvore ou a casa, não o faz de forma abstrata. As árvores e as paredes têm uma realidade própria feitas de experiências sensoriais sugestivas, mas sugerindo sempre verdades íntimas que se confundem com verdades universais, da mesma forma que o contato erótico, sugerido mais pela cadência dos versos nos poemas que pelas imagens mínimas do cabelo ou da pele humedecida, toma a mesma certeza intemporal, semelhante à certeza da morte, tão próxima da certeza da própria existência. A dignidade humana é feita destes arrepios feitos de tempo, espaço, memória ("os nossos mortos / têm a localização exacta / dos seus vivos") e na conciliação de todas as dualidades graças à escolha, a cada passo, de um novo abrigo: a casa iluminada, a árvore, os objetos de um quotidiano harmonioso e belo, não obstante a corrupção do mundo e - principalmente - os filhos, herdeiros das certezas e dos enganos cósmicos que mantêm a sucessão das estações e a permanência das coisas belas enquanto manifestação da própria natureza em nós, que somos apenas um elo entre as ternuras a nós passadas ("As pombas esvoaçam em redor do meu pai. // A minha mãe por todo o lado") e as que, o coração sabe, transparecem na contemplação da luz que ilumina, reciprocamente, o amador transformado na coisa amada.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:59
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Sexta-feira, 30 de Março de 2012
Tabu, de Miguel Gomes

"Aquele Querido Mês de Agosto" foi uma pequena revolução no cinema português. Com música dita pimba por fundo, florescia em fogo e sangue uma imagem de um povo através da sua própria expressão artística. Pegava num objeto dito "menor" ou, por vezes, considerado mesmo como reflexo da mediocridade das classes "incultas" e transformava-o em objeto de arte erudita. Não é inédito. A arte erudita, e a música em particular, sempre utilizou a arte popular como referencial cultural. Não da mesma forma como Amadeo pintava objetos do artesanato, não mantendo a sua essência e deles retendo apenas alguns atributos, como a forma parcial ou a cor,  mas da mesma forma como faziam os compositores dos romantismos  nacionais e regionais ou muitos dos chamados "cantores de intervenção". Usar música pimba como adereço de um filme artisticamente ambicioso não era novidade mas, que eu saiba, não tinha havido até então obra alguma que, respeitando o espírito e o objeto da música popular portuguesa recente, tão odiada e desprezada pela classe média culta, conseguisse transformá-la em arte de profundidade, reconhecendo-lhe uma dignidade própria.

 

Se em "Aquele Querido Mês de Agosto" havia a luz solar e a incandescência destrutiva do fogo, em Tabu, Miguel Gomes dá-nos a penumbra da nostalgia das solidões à beira de um monte fictício que dá nome ao filme e que se ergue como sombra telúrica de um continente que pesa e continuará a pesar na memória de um pequeno país onde uma solidão de pedra é apenas mascarada por tentativas anedóticas de estabelecer qualquer tipo de vizinhança. Pilar (Teresa Madruga) é uma católica progressista, uma alma justa e boa, de coração aberto aos outros, mas perdida nas contradições de afetos que nunca cumprem o objetivo de lhe encher a existência. Na casa ao lado, vive Aurora (Laura Soveral), acompanhada de Santa (Isabel Cardoso) numa relação de mútua rejeição e dependência desenhada segundo o estilo corrosivo e pausado das obras de João César Monteiro. Santa é como o Sexta-feira da obra de Defoe, onde vai exercitando as suas competências de leitura: um elemento estranho que disfarça a solidão de uma desterrada que não consegue destrinçar o sonho da realidade. "Paraíso Perdido" é o nome desta primeira parte de um filme, após um prelúdio irónico, como é irónica toda esta epopeia, reflexo de uma grandeza colonial que nunca foi mais que uma anedota grandiloquente. 

 

Sem rejeitar a prosódia declamativa que tanto marca o cinema português desde o "Amor de Perdição" de Manoel de Oliveira, e que estava ausente na forma de falar das personagens de "Aquele Querido Mês de Agosto", Miguel Gomes, num ano em que Hollywood celebrou a força genesíaca e auroral do cinema mudo, desenvolve, depois, uma segunda parte quase muda, narrada na voz absolutamente brilhante de Henrique Espírito Santo. E essa segunda parte é, provavelmente, o melhor que já se fez em cinema em Portugal sem que lá deixem de estar todos os mestres que, até agora, apenas podiam ser apreciados por uma minoria bem pensante. Pessoas haverá que, não conseguindo aguentar um filme de Oliveira ou cinco páginas de Camilo, terão aqui a oportunidade de sentir a universalidade destes criadores portugueses, numa obra que parece não inventar nada mas cuja inovação justifica em absoluto o prémio Alfred Bauer. Inova sem rejeitar a herança cultural, transformando-a e ampliando-lhe o horizonte para lá de quaisquer Tabus que circunscrevam o limitado espaço de alcance do cinema português. E Tabu é universal, da mesma maneira que Daniel Defoe, Melville e Murnau o são e da mesma maneira que Camilo, Eça e Oliveira o deveriam ser.

 

A fotografia, de uma beleza sem mácula, passa pelos corpos e gestos juvenis desta segunda parte, chamada de "Paraíso", onde Ana Moreira e Carloto Cotta encarnam duas personagens dignas de figurar no Panteão cinéfilo de Afrodite, tal a carga erótica com que incendeiam cada cena que protagonizam juntos, até um desfecho abrupto e brilhante in media res, estuando no mar negro da separação e numa solidão de cinzas. 

 

Um filme para se amar de forma perdida e incondicional. Agora e já, um clássico.

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publicado por Manuel Anastácio às 19:11
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Domingo, 4 de Março de 2012
The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore, de William Joyce
Se pensarmos em livros no cinema, é inevitável pensar nas fogueiras distópicas do "Fahrenheit 451" (Grau de Destruição, em Portugal) de François Truffaut, onde o livro é elevado à categoria de objeto proibido, subversivo e potenciador da criação de universos individuais incompatíveis com uma ordem social nascida da formatação por igual, e por baixo, dos cidadãos. Nesta curta metragem, Os Fantásticos Livros Voadores de Mr. Morris Lessmore, o cinema volta a fazer uma homenagem aos livros e à literatura. E, usando mais referências cinéfilas que bibliófilas, usa o objeto livro como personagem principal de uma alegoria facilmente assimilável, terna e verdadeira. O que é um livro? Em termos absolutos, um livro em formato digital é também um livro - e sê-lo-á mais do que um livro fechado a correntes como acontecia no tempo de todas as fogueiras. Um filme, na minha opinião, é um livro, da mesma forma que um objecto de arte poderá ser uma página - e, por alguma razão se chamam álbuns aos conjuntos organizados de interpretações musicais. Um livro é mais que o objeto composto por folhas cosidas a uma lombada e coberto por uma capa, mas será sempre, parece-me, esta a imagem que dele teremos no futuro, mesmo quando os suportes digitais conseguirem atingir a maleabilidade, adaptabilidade e especificidade de cada livro, nas suas características materiais, na sua relação com o leitor. O peso do livro, a sua grossura que diminui a cada página virada, a marca do uso por mãos anteriores, os sinais da sua perenidade deciduidade, são aspetos que não devem ser ignorados na paixão que alguns seres humanos desenvolveram em relação a um dos objetos também mais odiados e constantemente condenados à destruição por parte de outros seres humanos. Este pequeno filme centra-se na relação entre o livro e a morte e, dando aos livros propriedades físicas e biológicas que a eles não pertencem, põe de forma clara a tónica na eternidade do livro enquanto conceito e não enquanto objeto físico, sem que este último mereça menor consideração. O ser humano pode caminhar feliz na estrada da desmaterialização da informação, mas os nossos primeiros livros serão sempre físicos. O primeiro livro de uma criança é o objeto que esta leva à boca, assimilando uma realidade desconhecida à sua única maneira de sentir o sabor do mundo. O ser humano necessita dos objetos como totens ou amuletos configuradores de uma verdade imaterial mas que se relaciona com a realidade material que, para todos os efeitos é, no nosso entendimento, a realidade - por mais que acreditemos em energias e espíritos, e por mais fé que depositemos na falsidade da matéria, quando pensamos em verdade pensamos em objetos alheios a nós, como se nos fosse impossível participar dessa verdade com volume e presença perante a nossa figura fantasmagórica contaminando de falsidade os objetos. Ao mudar uma pedra de sítio, penso: tirei-a do seu lugar próprio, interferi na realidade, tornei falso aquilo que era verdadeiro. Quem escreve sabe bem que, ao escrever, está a dar forma material ou visível a uma verdade que, em grande parte, é mentira, ou mentiras que, na sua mais íntima realidade, são verdades absolutas. A ficção pode muito bem ser mais verdadeira que a não ficção. Basta ler um livro de ciência de há um século atrás e verificar como envelheceram as suas verdades e como cada frase comporta em si o erro, enquanto que os romances que já eram extraordinários naquele tempo parecem mais válidos agora do que nunca. 
Pequenos filmes como este são úteis na compreensão desta relação de amor que estabelecemos com objetos que servem de testemunho de outras tantas relações entre a verdade e a mentira, a posse e a dádiva, a permanência da vida e a imanência da morte. Este filme é um livro. E como qualquer livro, não se encerra nas suas páginas porque suscita outras. Há nos livros uma capacidade reprodutiva e somos nós, que os habitamos transitoriamente, o meio de cultura que lhes permite a disseminação. Quem pega num livro e o abre participa no maior dos acontecimentos do Universo, o único onde todos os acontecimentos foram e continuarão a ser possíveis. E onde a realidade se torna verdadeira quando ainda todos andam no terreno falso de um furacão sem chão, sem pensamentos e sem sonhos partilhados. Que um livro, entenda-se bem, só o é quando passa de mão em mão.
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Sábado, 14 de Janeiro de 2012
Sebastiana e Manas, de Antonieta Ribeiro

Antonieta Ribeiro é uma daquelas grandes amigas que descobri graças à minha esparsa atividade na Internet. Este seu livro, magnificamente ilustrado por Rita Correia num majestoso preto e branco de traços complexos e tão cheios de referências ecléticas quanto o texto de Antonieta, é, logo ao primeiro encontro, um deleite para a visão e para a audição (se lido em voz alta para qualquer pequenote que não se interesse apenas pelas coisas sem interesse que atropelam a vida das crianças de hoje). 

 

Cinco irmãs, numa teia de cincos que despertam o leitor para as subtilezas dos pormenores literários, que vão desde os nomes das personagens aos génios e espíritos que dão forma aos sentidos, descobrem, num encontro de sensibilidades, a riqueza de um mundo onde em tudo moram deuses, como é dito no célebre fragmento de Tales de Mileto.

 

Há, por vezes, na literatura infantil, um certo medo da complexidade. Antonieta sabe bem que as crianças enfadam-se facilmente com a simplicidade minimalista, cujos encantos são apenas para alguns adultos iniciados na abstração. O Universo, para uma criança, é repleto de coisas para descobrir. E Antonieta abre portas em todas as direcções. Há neste livro uma chave para qualquer educador explorar em conjunto com a criança que nele se perder, entre nomes de espécies botânicas a grandes criadores da História Universal.

 

Não consigo deixar passar despercebida as referências à cidade de Guimarães e a São Gualter, bem como as entradas da Wikipédia (algumas com um dedinho meu) com que Antonieta me fez crer (provavelmente sem eu ter razão em crer em tal) que este livro foi escrito para mim. Creio - qual creio, sei, que quem quer que nele pegue descobrirá um recanto de luz, perfume, delícia, carícia, bem como um certo murmurar de vozes que transcendem aquilo que sentimos. É preciso ir mais além. E Antonieta fê-lo. Diz-me o meu sexto sentido.

 

Onde comprar? Aqui vai a lista (tirada daqui).  

 

Les Enfants Terribles - Bar & livraria do Cinema King 
Rua Bulhão Pato Nº 1, Lisbon, Portugal 

Livraria Caminho 
Rua Pedro Santarém, n.º 41 
2000-223 Santarém 

Livraria Graça 
R. Junqueira 46 Póvoa de Varzim, 
4490-519 Porto 

Livraria Avenida 
Rua António Sardinha 11 -r/c 
7800-447 Beja 

Clube Literário 
Rua Nova da Alfândega, 22 
4050-430 Porto 

Aliete S Clara Brito 
Avenida 25 de Abril, 24 R/C 
8500-511 Portimão 

Livraria Portugal http://www.livrariaportugal.pt/ 
Dias & Andrade, LDARua do Carmo, 70 
1200-094 Lisboa 

Livros da Ria Formosa 
R D. Vasco Gama Edifício Vasco Gama-lj L, 8600-722 Lagos 

Culturminho – Braga 
Rua Dr. Francisco Duarte, 319 
4715-017 Braga 


Culturminho – Guimarães 
Praça Heróis da Fundação, 436 
4810-242 Guimarães 

Apenas online: 
Bertrand Livreiros 


Chiado Editora 

Ou falando com a autora Antonieta Ribeiro, fazendo o pedido directamente para o seu e-mail: aribeiro43@gmail.com

 

Não se vão arrepender.

 

 

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Sábado, 3 de Dezembro de 2011
L

"O fado é talvez a mais significativa forma de expressão artística em Portugal (...) e aquela que melhor define a alma do nosso povo”,  afirmou o nosso chefe de Estado, sua excelência Aníbal Cavaco Silva. É verdade, até a pessoa mais bacoca e insensível, como é o caso do nosso presidente é capaz de dizer coisas acertadas. O Fado é a expressão artística que melhor define a alma portuguesa. Um enorme lamento uivado e resignado.

Cavaco Silva lembrou os tempos em que o fado não era ainda “reconhecido e estimado” pelos portugueses: “Tempos houve em que o fado era apenas associado a uma vida boémia que continha em si retratos de uma Lisboa pouco recomendável”. Tempos em que o fado continha em si germes de revolta, e por isso tão pouco recomendável para o nosso presidente, ou tempos em que o fado era apenas uma forma autocomplacente das classes miseráveis transformarem em beleza a exordície em que viviam? Fica a questão.  Assim, ao longo de décadas, acrescentou, o fado “resistiu às modas e ao tempo”. Apesar de não ser verdade. O próprio presidente o afirma antes, ao recordar a origem boémia e pouco recomendável do fado, para não falar de todas as renovações que os grandes nomes do estilo sempre foram acrescentando, seja o Alfredo, a Amália, a Maria Teresa e que continua, com diferentes roupagens, hoje em dia. Mas o conservadorismo do senhor presidente faz-lhe ver resistências ao tempo em tudo. Só é pena que não a veja num pacote de leite azedo. Continua o senhor presidente a sua preleção dizendo que nas décadas de 70 e 80, o público acabou por se afastar um pouco do fado “por razões mais ou menos ideológicas”. A ideologia não deveria interferir com qualquer forma de expressão artística, como penso que é óbvio, mas é provável que não fosse a ideologia a afastar o fado mas o fado que, ao transmitir geneticamente uma ideologia de resignação, não soubesse lá muito bem, no seu travo rançoso, aos palatos de quem bebia pela primeira vez o néctar inebriante da liberdade. Inebriante porque deu em ressaca. E com a ressaca voltou o gosto pela choraminguice uivada. “Felizmente, os tempos de hoje são bem diferentes", diz o presidente. E diz muito bem, felizmente para ele e para todos os que espezinham a gentalha pouco recomendável mas devidamente resignada e grata pelos açoites que leva nos lombos. “Lembra-nos sobretudo que a crise não se vence apenas com a economia, vence-se também com a cultura, criatividade e alma”. Nesta frase outras questões se levantam: a crise vence-se? O presidente quer vencer a crise? Defina crise. Crise para quem? Criatividade? Criatividade de quem? Alma? Alma de quê? O senhor presidente não saberá que a alma foi sempre coisa negada aos escravos? Os escravos são objetos manipuláveis de acordo com os interesses dos seus amos. Não precisam de alma para nada... Ou talvez não. A existência da alma, imortal, sff, é a única esperança de quem é transformado em mero resíduo ou excremento de uma sociedade que prega moral enquanto semeia a imoralidade, que vangloria a arte e a criatividade e instaura a censura através da pauperização mental das massas.

 

Em termos musicais, a existência de estilos musicais é coisa que a mim pouco interessa. A música é boa ou é má. Se é fado ou não é fado, tanto me faz - reconheço a qualidade artística e poética de uma peça musical independentemente dos valores mais progressistas ou mais retrógrados que o vulgo associa a cada estilo ou género. Mas calha bem ver o Fado reconhecido como Património Mundial nos dias que correm, em que os salazares se multiplicam em cada esquina. Agora, só falta canonizar os pastorinhos, e teremos a díade da resignação e do sacrifício estúpido a guiar os passos da felicidade choramingona que, dizem eles, e muito bem, nos define. Enquanto vamos à bola, claro.

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publicado por Manuel Anastácio às 10:11
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Sábado, 12 de Março de 2011
Já que explodes...

 

 

 

Orelha Negra parece nome de organização secreta. E há, talvez, muito de secretismo narrativo num grupo de Hip Hop que consegue ir além dos tiques revoltados mas ociosos deste género cultural urbano. Da mesma forma, Vhlis, como assina o artista português Alexandre Farto, reinventa a arte de marcar o espaço urbano através de meio que só aparentemente é mais violento e subversivo que a vulgar graffitagem com latinhas de spray. O trabalho de Vhils consiste em rasgar o estuque das paredes através da colocação paciente de explosivos sobre a sua superfície. Se o resultado final é belo, o fascínio do fogo e da explosão pede mais que o simples divertimento perante as bombinhas de carnaval. Há nestas imagens lentas de um processo de destruição calculada a chave metafórica para a mudança do mundo, do indivíduo e da sociedade. Há, sempre, no acto de fazer nascer, um gesto de morte.

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publicado por Manuel Anastácio às 12:49
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Sábado, 16 de Outubro de 2010
Modelos de Construcción del Objeto, Erick Beltrán, 2010

Carregar na imagem para ver em pormenor.

 

Quando estava a estudar para exercer a profissão que hoje vou aprendendo a exercer, eram os meus colegas frequentemente assaltados pelo medo das perguntas dos alunos para as quais não tivessem resposta. Eu, pelo contrário, nunca tive pejo (antes pelo contrário, tenho muito gosto) em dizer que não sei aquilo que não sei, seja sobre o animal, real ou imaginário, que o menino viu ontem numa macacada, seja sobre aquelas coisas que se interpõem entre a visão científica cumpridora dos paradigmas aceites pela comunidade dos que estudam os objectos, e a visão sonâmbula dos conceitos criados por um povo criativo mas limitado, nos ciclos e repetições poéticas de um mundo que não entendem. A Ciência é prosa e invenção. O sonho é poesia e repetição. Parafraseio, agora, uma frase em resposta à Maria Helena numa das resenhas dedicadas à Gláucia. Há coisas que não sei. E não invejo a Deus o saber tudo, se é que sabe. A ignorância é o campo onde a alma se estende, aquecendo-se em raios de sabedoria, mas não inflamando-se nela. Os estados místicos de êxtase teresianos, que não são mais que estados de consciência alterados, dão a sensação de que, num breve momento, tudo se compreende. E por alguma razão são tão passageiros e dão lugar a uma ressaca mística. Não somos lenha para tal fogueira.

 

Ora, a Gláucia pegou numa fotografia minha exposta no Facebook, onde apareço frente a um gráfico misterioso, e perguntou o que era. Um gráfico onde eu, com a cabecinha mesmo no centro dos círculos, aparecia aureolado de conceitos zumbindo como melgas. Zumbem de facto, estes conceitos, e outros. De forma confusa, em atropelo, e não organizadinhos segundo eixos de orientação bem definida como no caso desta obra de arte de Erick Beltrán, exposta no MUSAC, Museu de Arte Contemporânea de Castela e Leão, onde me tiraram a fotografia. Beltrán é um artista mexicano, nascido em 1974 e radicado em Barcelona, que transforma conceitos e as suas relações em obras gráficas, diagramas e infogramas que ascendem ao lugar de obra de arte tanto pelo seu conteúdo estético como pelo seu conteúdo informativo real, textual e, apesar de não especializado, tendente à objectividade. Por alguma razão é o objecto o conceito gerador do gráfico em questão.

 

A Arte Contemporânea centrou a autoria da obra de arte no indivíduo, espoliando-a (algo hipocritamente) ao artista que parece imolar a sua individualidade e o seu talento à capacidade dos outros em pensar aquilo a que se nega a fazer. Tem-se arte quando há alguém disposto a atribuir esse significado (e valor) artístico ao objecto criado, escolhido ou eleito. Neste gráfico, ainda que seja o objecto o centro, o todo é o indivíduo. Em contraste com a utilização dos conceitos num contexto poético, Beltrán expõe-os de forma sistemática, de acordo com critérios lógicos e estabelecimento de dicotomias quase objectivas, não fossem elas relativas a um ser humano cuja perspectiva jamais poderá ser objectiva porque está toldada pela inevitável ignorância que, mais que aquilo que sabemos, nos guia os passos. Confrontado com uma situação para a qual não se tem uma resposta objectiva e mecanizada, o ser humano é obrigado a distorcer a realidade de forma a conformá-la aos seus eixos de entendimento. Caso não o faça, entra na angústia da incapacidade de decidir. Um processo de decisão é sempre uma escolha feita pela emoção ao confrontar o nosso quadro mental ao quadro objectivo que nos coloca o problema.

 

Beltrán é o enciclopedista das perspectivas individuais. Ao analisar e confrontar a posição específica de cada um dos conceitos expostos no quadro referido, serão muitas as vezes em que eu mesmo seria tentado a mudá-los de sítio. Aquele não é o meu modelo de pensamento. Ao contrário do modelo das coisas materiais físico-químicas, para as quais, dentro de um paradigma científico, se pode chegar a um consenso, as perspectivas individuais são mais distintas que as nossas impressões digitais. O Homem Duplicado de José Saramago, por exemplo, pegou na questão da identidade pelo lado errado - não é a forma exterior, mas a interior, que nos identifica. E o professor de História e actor, sendo iguaizinhos, em nada eram iguais, e em nada se sobrepunham, em nada havia a motivação para a exclusão obrigatória do outro a não ser a inveja e a oportunidade de ocupar o lugar do outro. É um mau exemplo, ainda que o exemplo do professor de História de Saramago possa ser repescado por outra razão. Saramago apresenta o professor como defensor de uma extravagância pedagógica original: a de que a história deveria ser contada ao contrário, do presente para o passado mais remoto. Ora, ao contrário do que Saramago pressupõe, esta tese é popular nos meios pedagógicos há muito tempo e é aplicada frequentemente. É a noção de que se deve avançar, na construção do conhecimento, a partir daquilo que é conhecido ou de acesso imediato, em direcção ao que  mais se afasta da experiência quotidiana. Foi assim, aliás, que, bem visto, se criou a própria história. Ora, da mesma forma, a partir dos anos sessenta, anos de origem da actual inominada Arte Contemporânea, há no círculo dos historiadores a tese de que, em vez de se partir das grandes estruturas políticas, económicas, sociais e culturais (o macro), há que fazer o caminho inverso, partindo do que, mísero e mesquinho, lançará alguma luz a um novo caminho. E, na verdade, pululam agora as histórias sobre as coisas pequenas e, a partir desta nova história muitas respostas se foram iluminando e muitas questões se foram reformulando. Beltrán é outro cronista do mundo individual. É um retratista de ideias no seu meio natural: a cabeça de cada um.

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publicado por Manuel Anastácio às 11:57
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Terça-feira, 28 de Setembro de 2010
Pormenores: a casa dos plintos

Tirei estas fotografias de manhãzinha, pouco depois de o sol nascer, na estrada que vai de São Torcato a Garfe, numa laica peregrinação ao São Bentinho. Devo dizer que o dito santo não é das minhas preferências. Mas a manhã húmida do Minho, acompanhada das páginas de "A Cidade e as Serras", que ia lendo ao longo da estrada, merece destas caminhadas sem sentido de sacrifício, ainda que no dia seguinte não conseguisse dar um passo direito. Ao virar de um curva, ou de uma página do Eça, vai dar ao mesmo, encontrei esta casa (na verdade, o corpo central indiferenciado de um bloco de maiores dimensões) de gosto duvidoso, de blocos de granito com juntas de cimento, uma porta de madeira podre em cuja laje nascem polipódios separada de outras duas, de alumínio pintado de verde e dois registos de vidro nos dois terços superiores. Entre a primeira porta e as segundas, um banco de lajes de granito.

 

 

A casa tem uma varanda disposta num segundo socalco de cimento armado, mais largo em relação ao chão de terra batida onde já poderia ter existido um jardim de pequenas dimensões, antes do passeio, agora de cimento, marcado transversalmente a ferros, para cortar a monotonia cinzenta. Frente às portas, três cadeiras ferrugentas. No centro do pátio, o simulacro do que poderia ser uma árvore, mas que nunca o chegará a ser, envasada, porque o dono gostará de árvores pequenas, sem raízes que destruam a bela fachada do seu palácio. Junto ao passeio, três plintos de granito encimados por cubos do mesmo material assentes num dos vértices. No puxador da porta, o saco deixado pelo padeiro com os trigos da aurora. No murete que separa o pátio do jardim do vizinho, cuja casa mantém o mesmo registo de fachada, mais três plintos - os das pontas, junto à parede e junto ao passeio, com esferas, o do centro com uma pequena laje facetada em pirâmide atarracada.

 

Resgardada, em relação ao passeio por estas peças de evidente significado alquímico, logo depois do primeiro socalco de quem vem de São Torcato pelo lado metafórico de Giães, deparamo-nos com uma face grosseira de granito com alguns remendos de cimento.

 

 

O remendo parece dar-lhe alguma antiguidade, mas as feições, ainda de arestas puras na zona da boca deixa lugar à dúvida. Aquele pequeno moai deslocado parece ter saído de alguma cachorrada, de alguma igreja ou capela. Quem encontrou o modilhão teve, ao menos, a decência de, ao integrá-la  no seu sistema estético neo-cubista, deixá-lo serenamente a vigiar os passos dos peregrinos. Nada mais sei desta personagem. Um dia destes saio de novo ao caminho, em direcção ao vinho verde tinto de São Torcato e pegarei conversa com os frequentadores das cadeiras ferrugentas. Um dia destes.

publicado por Manuel Anastácio às 20:47
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Sábado, 25 de Setembro de 2010
U smile, Justin Bieber 800% mais lento

Excerto de "U smile", de Justin Bieber, tocado 800% mais lento. Sincronizado com imagens genesíaco-apocalípticas (a parte final, com imagens do próprio Justin Bieber, é menos conseguida - mas o que interessa mesmo é o som).

 

Sobre a experiência  que Nick Pittsinger decidiu fazer, ao tocar 800% mais lento uma canção pop fraquinha de um miúdo com voz de gaja chamado Justin Bieber, e que é o ídolo das meninas pré-adolescentes, já muito se escreveu na Internet. Que é parecido a Sigur Ros ou a música ambiente ou New Age (eu prefiro a primeira das hipóteses, ainda que sem grande intenção de a defender). As ideias mais tolas, desde que minimamente divertidas ou extravagantes, têm a capacidade de se disseminar neste meio como o vírus da gripe A jamais conseguiu e, no íntimo da sua cápsula proteica, gostaria de ter feito. Acontece que este fenómeno é particularmente interessante do ponto de vista estético. A obra musical deste fedelho, ao ser deturpada, tem um valor artístico superior ao da peça original. Se considerarmos que essa obra derivada continua a ser uma obra de arte. Ora, se o é, é apenas indirecta e involuntariamente. É o dilema clássico do lenhador que, inadvertidamente, esculpe uma vaca num lenho: a obra do acaso poderá ser uma obra de arte? A Arte Pop e o Dadaísmo deram pistas para a resolução do problema. É arte aquilo que considerarmos arte - inclusive aquilo que foi feito sem intervenção humana mas que, ao ser observado ou escolhido passa a ser objecto de intervenção e eleição por parte do Homem. Esse carácter electivo é, de facto, a característica principal da Arte. A vaca esculpida pelo lenhador, ao ser queimada, caso não tenha sido identificada a imagem, nunca chega a ser obra de arte, mas se for posta a enfeitar a casa do lenhador, já o passa a ser, ainda que, eventualmente, um crítico de arte a venha a considerar mero artesanato. O problema da música esticada de Bieber (que é arte acústica de maior valor que muita feita intencionalmente) prende-se com a autoria. Nick Pittsinger não aceita ser o autor, já que se limitou a distender o tempo de execução de uma gravação de forma mecânica. Mas não se pode imputar a autoria a Bieber porque este não escolheu tocar assim nem cantar assim (e se tivesse escolhido não teria a fama que tem entre as meninas da mesma idade). A alteração mecânica simples da obra de outra pessoa, ao tornar irreconhecível o material original, não pode, do meu ponto de vista, ser considerado, sequer, obra derivada. É uma obra original, que deve a Justin Bieber tanto quanto o escultor de madeira deve à árvore abatida. E o seu autor é, sem dúvida, colectivo. Começa em Pittsinger e continua rede fora, mails fora, viralmente, sempre que alguém a ouve e se questiona quanto ao seu valor íntimo, espiritual, estético e filosófico.

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publicado por Manuel Anastácio às 13:53
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