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Domingo, 13 de Maio de 2012
Achitecture and Nature, por Kengo Kuma

 

Loja Starbucks, em Fukuoka, de Kengo Kuma

 

No salão de entrada da Fábrica Asa, numa construção imponente de tábuas e barrotes aparafusados segundo uma ideia estética mais ou menos conseguida, querendo lembrar uma catedral ou uma mesquita com um coração negro destinado à celebração mística das palavras, Kengo Kuma esteve ontem em Guimarães a falar da sua arquitectura de respeito à Natureza. Começou por falar da força destrutiva da Natureza, onde a fragilidade do que é construído pelo ser humano, e do próprio ser humano só consegue alguma ideia de perenidade ao assumir, paradoxalmente, o caráter transitório dos nossos esforços. A ideia de arquitetura expressa por Kengo Kuma, derivando vagamente de uma concepção existencialista desenvolvida por Heidegger no seu “Habitar, construir e Pensar” vai para lá do respeito ao local para uma concepção ainda mais reverente para com os acidentes naturais, vistos na sua ambivalente compleição de resistência e acolhimento, seja no desnível dos terrenos, obsessivamente mantidos , seja na procura da horizontalidade da água, segundo o modelo, deixando por Bruno Taut na sua passagem pelo Japão depois da ascensão de Hitler ao poder. Ouvir Kengo Kuma é partilhar do profundo respeito pelo poder do lugar, mas também do profundo respeito pelos materiais, desde a madeira que encaixa sem a violência do metal à leveza do coração das pedras. Um exemplo de grandeza e sensibilidade, sem reinventar a natureza – amando-a, apenas.

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publicado por Manuel Anastácio às 15:52
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Sábado, 21 de Fevereiro de 2009
Enciclopédia Íntima: Chorar

Excerto de "Sonata de Outono", de Ingmar Bergman.

 

Quando era pequeno (e ainda sou pequeno) desenvolvi a teoria de que as pessoas choravam para que o mundo aparecesse desfocado. Enquanto chorava, as lágrimas transformavam a realidade cúbica do mundo numa confusão de círculos de luz. E isso era belo. Era o mundo desfigurado onde preferia viver. As linhas rectas pertenciam à estrutura de toscos do edifício onde tinha nascido. Um mundo de sarrafos sujos e onde tudo tinha a utilidade sórdida da economia que não me permitia simplesmente ficar a ler à sombra dos pinheiros que agora já não existem, substituídos que foram pelos eucaliptos que tomaram conta da paisagem da minha infância. No saco onde levava a bucha para os dias de trabalho, levava sempre um livro. Sujo de cimento, li Saramago e Homero. Sujo de cimento, não podia ver os filmes da época áurea do cinema que passavam à tarde na televisão pública e que, ainda assim, e afortunadamente, conseguia gravar num VHS (que ainda funciona), usando o temporizador. Por vezes, os filmes ficavam incompletos. E, por um minuto que faltasse, não os via. Tinha de os ver desde o primeiro ao último fotograma. Quando chorava, o mundo era belo. Os meus olhos tornavam-se câmaras que distorciam a dor de viver e a transformavam na suportável experiência de assistir à dor. O cinema era uma forma de chorar através dos olhos dos outros. De manhã, entre as escoras das cofragens que me cabia a mim desmontar e transformar em pilhas de madeira ordenada e limpa de pregos, imaginava planos que captassem a beleza dos pingentes de argamassa que se formavam entre as juntas das tábuas e a beleza das escoras, primeiro de troncos de eucalipto jovem, mais tarde de extensores de metal, que se iam sobrepondo, tapando e revelando como colunas de uma fria arquitectura imitando grades, em profundidade, frente ao céu rosa das manhãs que se estendiam sobre os baldios à espera de mais construções à moda ortogonal da Maison-Domino de um Le Corbusier que eu desconhecia, quando já discorria, no silêncio do meu cérebro rejeitado, sobre Aristófanes e John Ford. Nessa altura, não gostava de arquitectura. Era a arte perversa de me roubar a infância.

 

Quando era pequeno (e ainda sou pequeno) chorava todos os dias. Era a minha forma de escrever o mundo.

publicado por Manuel Anastácio às 00:18
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Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008
Architectonica perspectiva

Foto de G & Poppe

 

É um univalve, ou molusco de uma só concha, como os caracóis e os búzios. Tem uma concha em espiral que, vista de lado, parece a maquete de um sonho. O nome científico foi-lhe dado por Lineu em 1758.

 


Foto de G & Poppe

 

Quando vi pela primeira vez uma destas conchas, no caso, fossilizada, mais que a perfeição da espiral, que constitui a menos arquitectónica perspectiva que se pode ter desta maravilha natural, fiquei encantado com o nome tão belamente escolhido por Lineu. Fui, depois, à procura de mais imagens na Internet. E descobri o claustro circular que tinha imaginado para o meu conto da Bela Adormecida.

 


Foto de Roberto Verzo

 

Não há na mente humana criação alguma que a Natureza, em algum lugar, não tenha já concretizado. Ainda que na inconsciência das coisas perfeitas.

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publicado por Manuel Anastácio às 08:56
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Domingo, 21 de Dezembro de 2008
João Luís Carrilho da Graça, Prémio Pessoa 2008

Pormenor do Museu do Oriente, de João Luís Carrilho da Graça. Foto de Fernando Guerra

 

Carrilho da Graça é o segundo arquitecto a receber o Prémio Pessoa, depois de Souto de Moura há dez anos atrás. E merece, por razões diferentes das de Souto de Moura. Souto de Moura é dono de uma forma de fazer arquitectura que assenta na relação entre forma e materiais. Carrilho da Graça cria sementes de poesia no espaço sem se impor como criador. Recebe os elementos poéticos a que o lugar apela e adequa-os aos percursos íntimos de quem os vai habitar. Não tem  mérito por causa de qualquer pureza conceptual e linguística que caracteriza, por exemplo, o Siza Vieira, mas porque sabe que a arquitectura reside não nas formas, não nos materiais, não nas relações espaciais, não no projecto, mas nas pessoas. Carrilho da Graça é um criador colectivo, um líder, decerto, de várias sensibilidades que orquestra consoante a partitura que o momento pede - não é um criador pessoal, no sentido estrito e limitador do génio que concebe a obra total, mas o criador que interpreta as vontades e procura o eco dessas vontades no local onde vai intervir. Para isso precisa do saber técnico que determina a forma, mas precisa também, de dominar o saber próprio da compaixão própria dos grandes condutores de orquestra - dos condutores das vontades múltiplas que só ganham sentido através de uma liderança que permite uma emoção de base comum, sem prejuízo de uma posterior experiência subjectiva. E esta característica de Carrilho da Graça é que verdadeiramente justifica o Prémio, mais que a coerência da obra, "que se adequa ao ambiente onde é instalada", ou "a clareza e a limpidez das formas", ou a "capacidade de criar obra nova e recuperar obra antiga, uma função altamente criativa". Vivemos, actualmente, em Portugal, uma grave crise de lideranças própria dos momentos que sempre antecederam os mais trágicos episódios da história. Julga-se que o líder é aquele que impõe a sua vontade, o iluminado, ou, pelo menos, o mais iluminado que poderíamos ter. Carrilho da Graça é um exemplo das lideranças que fazem falta a Portugal. Precisamos de alguém que, como a Blimunda do Memorial do Convento, recolha as vontades. Não de alguém que determine as vontades. A entrega deste prémio é, talvez inconsciente e inadvertidamente, um acto político crítico, lúcido e necessário.

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publicado por Manuel Anastácio às 11:18
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Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008
Gosto de... Portugal

Painel de Azulejos na Estação de Caminhos de Ferro de Vilar Formoso: Mosteiro dos Jerónimos. Clicar para ver em pormenor (voltar a clicar na página que abrir).

 

... apesar de Portugal não gostar de mim.

publicado por Manuel Anastácio às 22:21
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Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007
Nostalgia

Genérico inicial do filme "The Go-Between" de Joseph Losey - um filme que não está na lista dos 100 porque tenho, antes, de o rever com atenção. A música, fantástica, é de Michel Legrand.


A respeito da casa existencialista, ilustrada por uma cabana na Floresta Negra, em Todtnauberg, onde Heidegger terá desenvolvido muito do que compõe o seu pensamento arquitecto-filosófico, Iñaki Ábalos, em "A Boa-vida", define a nostalgia como a manifestação dos conflitos existenciais com o tempo, ou, simplificando, "o produto de uma idealização da densidade e da solidez do passado frente à banalidade do presente".

A densidade psicológica do passado refere-se tanto à experiência individual quanto à experiência transmitida, que resume e carrega os contornos e o contraste de cada acontecimento, especialmente daqueles marcados pela violência e pela decisão. O presente é composto essencialmente por uma  vacuidade indecisa. E quando damos o passo decisivo, fazemos a nossa escolha, ou já nos vemos numa nova realidade que se impôs, alheia à nossa vontade, chegamos a duvidar da resolução (ainda mais se for de alvedrio próprio) porque somos habitantes de uma eternidade em crise. Eternamente expostos ao caminhos que se bifurcam, não somos mais que entidades ondulatórias que se multiplicam em fendas afastadas do centro de cada decisão que tomamos.

O termo nostalgia foi criado em 1688 por Johannes Hofer (1669-1752), um estudante de medicina Suíço, juntando dois radicais gregos:  νόστος - voltar a casa - e άλγος - sofrimento. Refere-se, portanto, ao desejo sofredor de regressar a casa, sendo a casa o lugar espácio-temporal idealizado, condensado, de todas as experiências que consideramos autênticas na nossa vida ou que desejaríamos ter presenciado. Saramago, ao falar de Blimunda e Baltasar Sete-Sóis, diz que "olharem-se era a casa de ambos". A nostalgia é a idealização do mundo sensível filtrado pela memória pessoal. É no mundo sensível que habitamos, mas só nele habitamos relacionando-o com a memória. E não há habitação onde a plenitude da nostalgia se sinta mais acre e docemente que no sentimento que designamos como Amor.

Há cinco anos atrás, num estúdio com uma janela larga sobre a lezíria do Ribatejo, mudei de casa. Ouvir a voz de cada um era a casa de ambos.

Quando comecei a escrever este texto, havia gotas de chuva no vidro em frente, que dá para o conjunto de árvores roxas que daqui a um mês estarão brancas de flores. Tenho saudades do tempo em que essas árvores ficam brancas. Saudades? Sim... Lembram-me a nostalgia da princesa nórdica casada com um Mouro que plantou amendoeiras no Algarve para lhe oferecer um sucedâneo de neve. Pelo menos é o que contam as lendas. Poderemos sentir saudades do que sabemos que virá, porque o tempo ainda (precariamente) é cíclico? Serão as saudades mais pungentes que a nostalgia? São os portugueses mais nostálgicos que os outros povos, ou somos mais apegados à terra que aos bons velhos tempos? Residirá aí a diferença entre a Saudade e a Nostalgia?

Quando comecei a escrever este texto, havia gotas de chuva no vidro em frente, e lembrei-me de um filme que vi quando era ainda muito pequenino, na altura em que estava a ler um livro sobre realizadores de cinema. Nessa altura, os meus sonhos eram divididos por planos maravilhosamente montados. Lembro-me de um, em que a Rita Hayworth mergulhava no oceano, da porta de um vagão de comboio sobre uma ponte sem fim à vista. Tudo filmado num preto e branco tingido de tons dourados. Havia gotas de chuva no vidro em frente, e lembrei-me das imagens iniciais de um filme que vi em pequeno, sem ter grande capacidade para o compreender  – mas que vi fervorosamente porque era referido no livro que estava a ler – e adorei, mesmo sem ter percebido grande coisa. O filme era “The Go-Between”, de Joseph Losey. E começava com gotas de chuva sobre vidros de um carro. E na altura pareceu-me a imagem perfeita da nostalgia. Ainda hoje me parece. Hoje, ainda mais. Só que as gotas não são de chuva.

 

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publicado por Manuel Anastácio às 21:12
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Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2007
Com sua licença...

Cena licenciosa1, no portal da Sé de Lamego, ao estilo Manuelino. Fotografia em Creative Commons

Se é verdade que os direitos de autor (especialmente os que se referem a proventos monetários) são sagrados, porque os autores também têm estômago, estes deixam de ter, simplesmente, razão de ser quando contrariam o objectivo primordial do trabalho intelectual em questão. Explicando melhor: se o objectivo de um autor ou de uma instituição é a divulgação ou a valorização de um determinado património, as licenças de copyright  "todos os direitos reservados" são absolutamente inapropriadas. Tenho contactado o IPPAR para que eles definam, de uma vez por todas, qual a licença de uso das fotografias que a instituição divulga no seu site - muitas das quais seriam de grande utilidade para a Wikipédia, que não as pode usar (algumas, por acaso, estão por lá carregadas indevidamente  - mas não por muito tempo) porque a filosofia do projecto assenta na livre utilização dos conteúdos, incluindo o seu uso comercial. Esse princípio é muito mal digerido por alguns contribuidores ou pretendentes a contribuidores, que não querem que o seu trabalho seja usado para proveito económico de outrém. Mas uma árvore dá frutos por que razão? Porque quer que os animais os comam! Ao comerem os frutos, estão a disseminar as sementes! Uma licença livre permite que alguns se aproveitem para ganhar dinheiro, é certo - mas se a licença obriga a que os trabalhos derivados se mantenham na mesma licença (como acontece com a Creative Commons: Atribuição-Partilha nos termos da mesma licença 2.5), o oportunista nunca se poderá apropriar totalmente da obra! A livre cópia e distribuição da mesma será garantida! O oportunismo, neste caso, não será prejudicial, mas um meio legítimo para atingir um fim.

Claro que cada caso é um caso. Um fotógrafo profissional tem o direito de reservar para si todos os direitos do seu trabalho, porque vive dele. Um poeta, mesmo um daqueles que "ainda não chegaram às estrelas", tem o direito de proteger a sua poesia - pode ser que no futuro a venha a publicar e, eventualmente (e muito improvavelmente) venha a viver disso. Contudo, há casos em que proteger o trabalho com unhas e dentes é absolutamente impróprio. As fotografias que eu tiro às pedras lavradas do nosso património, com a minha máquina miserável, têm apenas como fim a divulgação desses pormenores. Não pretendo ganhar dinheiro com elas. Se as proteger, também não ganharei nada. Logo, se alguém conseguir ganhar cinco tostões com elas, que mal me faz isso à carteira?...

As licenças livres já vão tendo adeptos individuais, o que está apenas relacionado com  a consicência de cada um. Mas no caso de instituições de cariz público, a protecção dos conteúdos por elas produzidos é, se não inadmissível, vergonhosa. Segundo a lei dos Estados Unidos, todos os conteúdos produzidos por organismos estatais/públicos são do domínio público (salvo raras excepções). Os americanos podem ter muito defeitos - mas sabem bem que o conhecimento é um bem público, e que conhecimento puxa conhecimento ... Já existem, mesmo, empresas com fins lucrativos que utilizam licenças livres, sem prejuízo para o seu negócio - se outros utilizam os seus conteúdos, têm, ao menos, de retorno, publicidade e prestígio. É o caso da Agência Brasil, graças à qual a Wikipédia tem aumentado, e muito, o seu património.

Incrível é que instituições como o IPPAR mantenham para si todos os direitos sobre os seus conteúdos! Estão a prestar, assim, um péssimo serviço à cultura em Portugal! Ao aceitarem uma licença da Creative Commons, como a Atribuição-Partilha nos termos da mesma licença 2.5 estariam a garantir que os mesmos fossem divulgados, ao mesmo tempo que o próprio IPPAR seria visto, de facto, como um organismo público - que, obviamente, não é.

Já contactei o IPPAR sobre este assunto. No mesmo mail, referia-me a dois erros que tinha encontrado em artigos sobre alguns monumentos. Num dos artigos, o IPPAR referia que a "ponte velha" de Gimonde era sobre o Rio  Igrejas - quando está, de facto, sobre o Rio Malara. Consertaram isso. Também os alertei para o facto de dizerem que o pelourinho de Ponte da Barca estava sobre uma plataforma de três degraus, quando são quatro, como se pode ver nesta minha fotografia (em Creative Commons). Também consertaram isso. E mandaram-me um mail, muito correcto, dizendo que as correcções tinham sido feitas. Óptimo. Mas sobre o essencial do meu mail, que era um pedido para reverem as suas opções no que diz respeito às licenças de uso, e uma proposta específica para que considerassem a adopção de uma licença da Creative Commons (e menos que a Atribuição-Partilha nos termos da mesma licença 2.5 de pouco servirá) - a respeito disso, nem uma palavra! Até podiam dizer apenas: estamos a considerar a sua proposta... Mas não. Nem uma palavra.

É por isso que, se não obtiver uma resposta nos próximos tempos, estou a pensar em proceder a uma petição para que os organismos públicos portugueses tornem os seus conteúdos livres, para bem da educação e da cultura de um país cada vez mais analfabeto e inculto e sem esperanças de melhorar.

1Cena esta que conjuga dois aspectos muito presentes no Manuelino: os "putti" - ou pessoas esculpidas com traços infantis - e os pormenores lascivos. Claro que não nos ensinam isto na escola, quando falamos no Manuelino - aliás, ensinam-nos algo totalmente errado: isto é, que o Manuelino caracteriza-se pela presença de motivos relacionados com o Mar!!! Isso é treta. Leiam o artigo na Wikipédia (minha autoria, quase tudo) se tiverem dúvidas.
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publicado por Manuel Anastácio às 08:58
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Domingo, 14 de Janeiro de 2007
Aves e ovídios

Portal lateral do Mosteiro de Vilar de Frades (Areias de Vilar) - foto minha, em Creative Commons

Se há imagem que me intriga entre os granitos que vejo aqui pelo Norte, nos capitéis e nos portais de Igrejas são as figuras humanas ladeadas de um par de pássaros que lhes depenicam o corpo (mais especificamente a cabeça e a zona dos ouvidos). Este género de iconografia é comum já no Românico e manteve-se até tarde, sendo muito frequente no Gótico final (vulgo Manuelino). Semelhantes "aves devoradoras" (serão, de facto, devoradoras?) aparecem, sei-o eu, algures na Sé de Braga (não me lembro onde, mas sei que na altura fiz uma certa associação entre a escultura e Santo Ovídio de que falarei mais à frente) e em São Pedro de Rates. Sabemos que os religiosos portugueses sempre foram amigos de sincretismos religiosos - coisa bonita, não fosse a confusão que faz germinar entre as mentes dos fiéis analfabetos, que vão assimilando a coisa de forma poética e pouco teológica. Para meu gáudio (que gosto destas fantasias populares), indiferença de muitos dos religiosos institucionais (que julgam que Lázaro já se contenta com as migalhas que lhe caem da mesa farta) e para desespero dos missionários que se esforçam por ensinar a religião como ela é...

Camilo Castelo Branco, no já aqui citado "O Santo da Montanha" (a que voltarei mais tarde), descreve com alguma minúcia as festas do "Corpus Christi" em Braga, a 24 de Maio 1687. Se há pormenores que me escapam (e que também escapavam a Camilo) como a "serpe" que vinha atrás da Cruz da Confraria, a qual seria, tão somente "uma bicha festiva aos rapazes" (seja lá o que isto quer dizer), outros parecem-me pintados com todas as cores - pena que eu não tenha paciência nem tempo para fazer um OCR ao capítulo de que aqui falo. Muitas são as referências mitológicas que, já na altura, se utilizavam para explicar os mistérios da fé, para complicação das almas estupefactas que se alcandoravam das varandas do Campo da Vinha, como o autor deliciosamente descreve. Um dos números, o "Triunfo Eucarístico" constava da representação de um bailado-drama cujas personagens seriam Apolo e Latona - onde estas duas últimas personagens assumiam, respectivamente, o papel do Divino Sacramento e da Virgem a calcar a Serpente demoníaca. Ora, se tais identificações eram consideradas de grande piedade, tudo me faz crer que o mito de Prometeu, cujo fígado era repetidamente devorado por uma águia ou abutre, era aqui, também, tomado de forma simbólica. Os portais, seguindo a milenar tradição que remonta aos monumentos castrejos, não deveriam ser apenas a decoração de uma entrada, mas um objecto sacralizador da passagem do espaço público para o espaço interior e sagrado da Igreja - ainda que os mestres cantoneiros se dessem, por vezes, a liberdades obscenas que ou passavam despercebidas ou recebiam uma simples indulgência dada pelo desprezo (ou conivência) dos religiosos em relação assuntos de pedra talhada.

O tema das aves devoradoras pode relacionar-se facilmente com o sacramento da Eucaristia - o que pode explicar a forma cordata como o homem segura, aqui, os dois pássaros que dele se alimentam, assim como Cristo dá o seu corpo aos fiéis que desta forma comungam com o mundo espiritual de que as aves são símbolo. De facto, o tema das aves que debicam uma taça é igualmente frequente, neste caso, simbolizando o sangue de Cristo. Note-se que as aves têm um lugar privilegiado no espectro de animais presente nos bestiários medievais, inclusive em textos moralistas, como no "Livro das Aves" do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.

Contudo, o meu fascínio por estas figuras tão presentes nos templos nortenhos liga-se à figura de Santo Ovídio, terceiro bispo da Sé de Braga, que se tornou santo protector das doenças de ouvidos pelo simples facto de ter um nome que soa a ouvidos... Não consta que tivesse feito, em vida, algum milagre entre os surdos. Documentos hagiográficos do século XVI descrevem-no como cidadão romano nascido na Sicília com o nome de "Auditus" e que foi enviado para Portugal pelo papa Clemente I no ano de 95. Terá sido martirizado em 135. Designado de "Ouvido" pelas gentes, que assim decidiram aportuguesar o seu nome em latim, foi novamente baptizado no século XVI e XVII como Ovídio, que seria um nome mais bonito que o de um simples apêndice da cabeça humana. A lápide sepulcral, que antes trazia gravado "† ossa b. Audit. Episcopi" foi, então, mudada para " † ossa s. Ovidii tertii bracarensis episcopi". Entretanto, os ex-votos em forma de orelhas de cera acumulam-se na Sé e, ao que parece, os surdos faziam fila para enfiarem as orelhas em dois furos que existiriam no túmulo episcopal.

Como as aves parecem, tantas vezes enfiar os bicos nas orelhas da figura humana que compõe o eixo de simetria destas composições, haverá aqui algo de propiciador para o milagre da cura da surdez? Talvez sim, provavelmente não. Fica apenas registado que me ocorreu.
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publicado por Manuel Anastácio às 22:44
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Quarta-feira, 15 de Novembro de 2006
José Forjaz

Residência Paulino (pormenor) - José Forjaz
- © JOSÉ FORJAZ ARQUITECTOS 2004

Em 16 Outubro de 2004, numa conferência sobre Urbanística, em  Santa Maria da Feira. Além do muito reverenciado Sir Peter Hall, que discursou sobre “The end of the city?” (não, não se falou propriamente de urbicídio), falou o Arquitecto José Forjaz . Na altura, fiquei com a impressão de que o senhor era, realmente, um bom ser humano, mas um muito mau orador. Para começar, ofereceu à assistência a leitura de um texto: “Cidades - Motores do desenvolvimento rural?” onde perorava longamente sobre as horripilantes condições de vida em Moçambique, onde trabalha, recorrendo a estatísticas atrás de estatísticas. Um conferencista-leitor é sempre algo de irritante, salvo raras e honrosas excepções. Quem me dera a mim poder voltar atrás no tempo e ouvir o próprio Charles Dickens a ler os seus romances para uma plateia delirante e munida de lenços para aparar as lágrimas. Mas José Forjaz não fez como Dickens, em vez do tom melodramático, em vez de contar historinhas que pusessem o pessoal a chorar, decidiu mostrar a sua irritação perante uma plateia muito preocupada com os problemazitos das cidades europeias. Enquanto alguns conferencistas matutavam na cidade como espaço cultural e estético, Forjaz queria apenas perguntar - poderão as cidades dar de comer a alguém? Ora, Dickens, através da ficção, conseguiu muito. As deploráveis condições de vida na Inglaterra da Revolução Industrial receberam alguma atenção dos ricos, que se moveram filantropicamente para dar a sua esmolita a todos os Copperfields e Twists que potencialmente existiriam . Como escrevi, um dia, na Wikipédia, "
numa altura em que o Império Britânico era a maior potência política e económica do mundo, Dickens conseguiu apontar para a vida dos esquecidos e desfavorecidos, mesmo no coração do império. Na sua breve carreira de jornalista já tinha batalhado pelo saneamento básico e pelas condições de trabalho, mas foram, claramente, as suas obras ficcionais que mais despertaram a opinião pública para estes problemas." Claro que as acções filantrópicas ajudam apenas superficialmente. Não vou discutir algo de tão óbvio - mas é inegável que muito do socialismo histórico, que levou a algumas das conquistas maiores para a classe trabalhadora, se deveu mais a Dickens, a Vítor Hugo e mesmo a Eugène Sue, do que aos fundadores teóricos da ideologia socialista. O ser humano tem de ser convocado para as grandes coisas primeiro pelo coração. É inevitável. Tabelas, gráficos, números, servem perfeitamente para nos esclarecer, mas não para nos mover à acção. Precisamos de choradinho, sim. Precisamos da história do menino que morre de fome. Não nos basta dizer que morreu de fome. É preciso dizer que, antes de morrer, sofreu. E explicar como sofreu, com pormenores sórdidos misturados com pormenores comoventes. O melodrama é necessário. É socialmente imprescindível. José Forjaz tinha, com certeza, muitas histórias para contar. Mas não as contou, reduziu-as a números. O público bocejou perante o quadro aterrador. Ora, Erasmo sabia muito bem que fazia parte da nobre estupidez humana apreciar os oradores que intercalam anedotas no meio do sermão. E um público de conferência é sempre um público estúpido, mesmo quando constituído pelos mais eruditos ouvintes. Claro que Forjaz trazia indignação na voz e a grande seca que deu aos ouvintes serviu como justo castigo para a frivolidade de todos os outros temas ali discutidos. Mas duvido que tenha rendido algo.

Ontem ouvi José Forjaz numa belíssima entrevista com Ana Sousa Dias, no "Por Outro Lado", na Dois:. Aqui, o arquitecto não pôde trazer as folhinhas atrás. Os relatórios ficaram em casa, mas a mensagem foi, desta feita, límpida - vi um ser humano que não acredita que os seus esforços tenham alguma eficácia para melhorar o mundo, mas que, ainda assim, prossegue neles, porque não conseguiria viver com os remorsos de nada ter feito.

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publicado por Manuel Anastácio às 18:42
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Domingo, 5 de Novembro de 2006
Urbicídio

Pormenor de "As Tentações de Santo Antão" de Hieronymus Bosch (1450 – 1516) - Museu Nacional de Arte Antiga

O termo urbicídio foi criado por Marshall Berman, nos anos 80 para descrever o processo de degradação de uma parte do Bronx. O termo foi especialmente adoptado pelo arquitecto Bogdan Bogdanovitch para referir-se ao assassinato deliberado da cidade de Sarajevo, até então considerada um modelo vivo da convivência de culturas e etnias, ao assumir-se como o centro comum da variedade que se disseminava pela periferia - uma visão espacialmente diferente daquela que Saramago propõe na sua alegoria de "A Caverna", onde a centralização funcional da cidade apenas acentua as diferenças entre as periferias em convulsão revolucionária (ou agónica?) e o Centro artificial - um sucedâneo do Mundo que deste apenas quer reter uma imagem segura e controlada - um mundo de fantasia para quem, pelo medo, prefere o plástico ao barro. Saramago, talvez movido por fantasias literárias, vê no meio rural o último reduto de uma humanidade impoluta, onde ainda se vai buscar água à fonte com cântaros que perdem a asa e onde os cães vadios ainda podem ser adoptados sem mais. Falo de fantasias literárias não porque desdenhe da vida do campo nem de quem nele viva - mas porque aquilo que defendo como sendo humanidade deve-se, essencialmente a essa criação definidora da identidade humana que é a cidade. Até o desejo de preservação do meio rural, com os seus valores ambientais e culturais é, essencialmente, um desejo urbano. A corrupção do meio natural é facilmente digerida pelo rústico. Poucos são os aldeões que se comportam como aquela personagem do Júlio Dinis (creio eu que n' "A Morgadinha dos Canaviais") que se deixa morrer com as árvores que são assassinadas pelos construtores de estradas, arautos do progresso.

A morte da cidade, seja por meios insidiosos, lentos, de incúria política e social, seja por actos bélicos e terroristas é desejada essencialmente por grupos cuja proximidade à natureza lhes distorceu o sentido da solidariedade humana, ao mesmo tempo que o sentido moralista e acusador é agudizado. Assim é com os povos nómadas bíblicos e com os seus profetas cuja função essencial é predizer a desgraça das cidades - antros de hedonismo pecaminoso. Pecaminoso, porque afasta o homem da agreste pureza dos ermos onde Moisés e Maomé puderam entrar em contacto com Deus. É assim que Sodoma e Gomorra são extirpadas pelo fogo divino e submersas pelo sal do esquecimento. A Teocracia exige que o homem se disperse, não que se junte ou agregue em torno de projectos comuns, como Torres de Babel. Deus, o Grande Arquitecto, nunca foi Urbanista - pelo menos como nos tem sido servido até hoje. O Senhor dos Exércitos é o Senhor dos acampamentos, não das fundações. Por alguma razão decorreram 40 anos de desterro antes da promessa de uma Terra onde fincar o pé, com a destruição das suas muralhas defensivas.

Claro que hoje não é necessário derrubar muralhas. Basta sequestrar e desviar aviões ou lançar mísseis. A fúria divina dirige-se, de imediato, contra o Centro - não contra a periferia, que, por seu lado, também já não é uma fronteira, mas um local de dissolução. As cidades são antros de desigualdades, de dores, de solidões atrozes entre paredes que apenas comunicam com paredes. Mas isso só acontece graças à subversão da sua função comunitária em função do armazenamento de seres humanos segundo lógicas que escapam a qualquer entendimento. Mas, ainda assim, é nas cidades que o humanismo tem as suas mais perenes raízes. Deixar morrer, passivamente, as cidades ou feri-las com actos de destruição são, igualmente, duas formas de assassinato por negligência ou premeditação. Assassinato porque se trata da morte dos centros de onde emanam os únicos valores que nos poderão resgatar da bestialidade egoísta que, por sua vez, tornam a própria humanidade num tecido necrótico deste planeta em agonia.
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publicado por Manuel Anastácio às 20:29
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