Sábado, 4 de Outubro de 2008
Gosto de... casas no Inverno


Casa da Ti Augusta, Carvalhal, Abrantes, no Inverno passado.

 

Aestus

 

A terra cheira a vinho abafado.

As couves, tenras, aconchegam caracóis.

As vides, soltas, erguem falanges, tecem fantasmas.

A terra cheira a vinho abafado.

A mosto guardado em formol,

Como a doçura de quem nunca morreu.

Só mais umas gotas desta dor que, ardendo

Sabe a mel.

Em vez de fumo, nevoeiro,

E em vez de brasas, bagas de romã.

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publicado por Manuel Anastácio às 18:06
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Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008
Canja de porco

Trailer de "Ratatouille"

 

A canja de porco, ou sopa de ossos, é uma comida típica das matanças na minha terra natal, Carvalhal, Abrantes, e é servida no dia da desmancha do porco - isto é, no dia seguinte à matança, quando este é dividido, depois de se deixar, aberto, pendurado de pernas para o ar no chambaril, que é um pau curvo, parecido com um boomerang. A sopa é feita com os ossos frescos do porco (da cabeça), postos a ferver com presunto curado (do porco anterior). Quando o caldo está feito (com olhinhos de gordura a flutuar, como em qualquer canja), junta-se massa esparguete partida em pedaços de um centímetro, mais coisa menos coisa. A tradição, respeitada em casa do amigo Silvério Salgueiro, no entanto, manda que seja arroz (tal como na canja de galinha tradicional, onde as massas também já se impuseram).  O mais importante para mim, contudo, é lavar muitos raminhos de hortelã que são postos no prato na altura de servir. Tal como a canja de galinha, imputa-se a esta sopa propriedades medicinais, ainda que, em termos nutritivos seja obviamente pobre. Ouvi falar vagamente de uma lenda sobre alguém que a serviu a um rei, mas não sei precisar pormenores. Nunca dei muita importância a tal comezaina, mas a excentricidade da mesma merece referência. E, quer queira, quer não, faz parte dos cheiros e sabores da minha infância... E quem viu o "Ratatouille" sabe do que é que eu estou a falar...


Entretanto, tenho de pensar em escrever algo sobre o Kabra's. Ponham-me a falar de comida... 

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publicado por Manuel Anastácio às 19:03
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Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008
Gosto de... aprender coisas junto à lareira

Lume na lareira junto à qual li Júlio Dinis, José Saramago, Eça de Queirós, Maurício de Sousa, livros do Patinhas, Collodi, Salgari, Condessa de Ségur, Marquês de Sade (só a "Justine, ou Os Infortúnios da Virtude", juro...), alguns russos, José Mauro de Vasconcellos, Rómulo de Carvalho, Jorge Luis Borges, Camões, Camilo Pessanha, a Bíblia, Evangelhos apócrifos, Proust, livros da Anita, revistas das Selecções do Reader's Digest, John Steinbeck, Enid Blyton, Sophia, Santo Agostinho, Heródoto (os volumes que tinham saído das Edições 70... será que já publicaram os outros?), Homero, Henryk Sienkiewicz, Lew Wallace, Salman Rushdie, Edgar Morin, os livros da escola (da minha irmã, que eram mais interessantes que os meus)...

 

...E, claro, o "Seringador", enquanto a roupa molhada secava nas costas de uma cadeira e a minha mãe fazia mexuda de abóbora...

 

... E onde se cozia e assava o bucho que, tal como foi dito em comentário há dois artigos atrás, pelo meu natal-conterrâneo Silvério Salgueiro, também se come recheado, assim como a bexiga do porco, com os ingredientes utilizados nas morcelas. Na bexiga, como as morcelas de arroz e, no bucho, acrescentando pequenos pedaços de carne. Um dos dois, na casa do Silvério Salgueiro, que na minha não, era comido no Domingo Gordo como acompanhamento das sopas alvas com grão-de-bico e hortelã. Hortelã essa que é um dos cheiros típicos de Carvalhal, especialmente na estranha canja de porco que é servida no dia da matança, com massa esparguete.

 

... E junto à qual muito bucho de criança, incluindo o meu, correu o risco de ficar revirado em brincadeiras contorcionistas... Mas quanto a isto, o caro Silvério ainda não me esclareceu cabalmente, já que ouvi a muita gente falar de casos concretos de buchos revirados (claro que pode ser um mito... rural...). E creio que fosse um estado mais grave e permanente que a ânsia de vómito e enjoo referido pela Gerana... E, já agora, creio que descobri o que é chamado de "passarinha" nas matanças de Carvalhal: o baço. Ainda que o uso da palavra "passarinha", na acepção referida pela Gerana num comentário anterior seja, de facto, corrente.

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publicado por Manuel Anastácio às 13:40
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Sábado, 19 de Agosto de 2006
Buscas pedidas - "Ribeira da Brunheta II"


O caminho revela então aquilo que já me tinham prometido: rastos de incêndio. A estrada de terra batida serve de fronteira entre um último reduto de pinhal verde e uma longa mancha de eucaliptal queimado.



A estrada segue por um vale que se manteve verde graças a qualquer sopro divino. As chamas parecem ter saltado o pequeno córrego escondido entre ervas e pequenos grupos de árvores isoladas. O calor da tarde quase que me obriga a meter-me pela erva adentro e escavar o fundo em busca de água. A palavra oásis assenta perfeitamente ao vale. Infelizmente.


Está certo que o fogo não mata, de facto, a maioria dos eucaliptos. Antes pelo contrário. Dispersa-os. Faz parte do seu ciclo natural. As suas sementes necessitam de passar pelo fogo para germinarem. Seria uma bela imagem, se não fosse a menos adequada para as outras árvores que, esforçando-se num último grito de vida, estendem ramos verdes sobre os tocos queimados. Como estes amieiros. Tão belos quanto um corpo com cicatrizes.


 Do lado direito, onde, antes, íamos às pinhas, restam apenas fetos e promessas de pequenos pinheiros bravos. Toda esta zona já pertenceu à maior mancha de pinheiro bravo da Europa. Agora não.



A Ribeira da Brunheta aproxima-se. Sento-me na berma ladeada de cardos, erva de serrã-pastor, colhões-de-galo (não conheço outro nome para tais ervinhas - e duvido da designação "corações-de-galo" com que alguns pudicos conterrâneos a baptizaram) e marcela. A marcela é uma erva profundamente aromática. Desconheço o seu nome científico e se tem outra designação no resto do país (não creio que seja o mesmo que macela) e era colhida pela altura das festas dos santos populares para ser queimada, juntamente com rosmaninho, em fogueiras dispostas ao longo da rua que se enchia de fumo branco com a suposta capacidade de curar a rabugem até ao ano seguinte. Era, de facto, este o principal motivo que me levava até à Ribeira da Brunheta, onde esta erva crescia com particular efusão pelas encostas dos campos de lavoura abandonados... Bem, os pêssegos que nasciam no pomar ao lado destas ervinhas comprovavam, também, todos os anos, que a fruta roubada tem um outro sabor... Hoje, nem sequer um pessegueiro se vê entre a erva seca. Só memórias e um tanque seco. Levanto-me. A Ribeira da Brunheta, na minha geografia mental, começa depois daquela curva.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:55
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Sexta-feira, 18 de Agosto de 2006
Buscas pedidas - "Ribeira da Brunheta I"


Enquanto a Carla fazia o jeito de jogar um pouco de Playstation com o Duarte, decidi ir até à curva da Estrada tirar fotografias à velhinha e bela casa da Ti'  Geéda (Tia Geada???), cujo telhado desabou . Pouco depois da casa, fugindo ao sol, entrei pelo pequeno pinhal da Tia Augusta. O caminho por onde seguia até à escola está agora impraticável, coberto de tojo e todo o género de plantas espinhosas. Lembro-me de os donos dos pinhais detestarem a presença de miúdos nas suas propriedades. Supostamente, não permitiam o crescimento de novas árvores. Treta. Não permitíamos, isso sim, o crescimento desregrado de uma selva selvaggia, aspra e forte...

Pouco depois, mesmo sem dar por mim, estou do outro lado da estrada, junto a terrenos de cultivo com sebes de silvas que crescem pelo caminho também abandonado. Por aqui, já nem se brinca nem se trabalha. Deixam-se as silvas abrir caminho aos fogos devoradores de biomassa.



Era este o caminho que fazia quando seguia em direcção à Ribeira da Brunheta. Os fetos cobrem esta parte do vale. Diz a minha mãe que antes não havia por aqui fetos. Hoje, parecem querer lutar com as silvas e com os eucaliptos pelo direito ao monopólio das terras. À direita, havia uma clareira onde fazia cabanas com cascas de eucalipto, sobrepostas, formando paredes com estrias horizontais de luz e onde se entrava pelo tecto.



Entre as silvas, um grande cedro. É difícil o caminho até este Deus recôndito, iniciador da minha persistente dendrolatria.



A máquina fotográfica não consegue, de facto, captar a face do Deus. Volto ao caminho. Subo a encosta e dou, por fim a um caminho liberto, onde retiro os espinhos que, entretanto, se infiltraram pelas sandálias.



É aqui que começava, de facto, o caminho em direcção à Ribeira da Brunheta. Uma pequena aldeola, que mal conheço. Mas, fazendo a vontade a quem procurou por tal nome no Google, é para lá que me dirijo. Amanhã continuo o passeio.
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publicado por Manuel Anastácio às 02:14
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