Domingo, 7 de Abril de 2013
LXXIV

Deve-se ilegalizar o ódio? É impossível legislar sobre as consciências. E indesejável, aliás. Deve-se censurar o discurso do ódio? Tenho as minhas dúvidas. A perseguição movida aos grunhos não ajudará a disseminar e a radicalizar esse ódio, tornando em vítimas os agressores? As contramanifestações da esquerda junto das manifestações da infinita estupidez humana só poderão ter algum efeito junto da opinião pública se forem silenciosas e pacíficas. Ir para batalhas campais ou para ver quem grita mais alto cria na população a percepção de que os dois "extremos" se tocam. O avanço do toureiro Marcelo Mendes sobre manifestantes antitourada na Torreira fez mais pela causa da defesa dos animais que por qualquer manifestação barulhenta. É preciso não perder de vista o objetivo implícito numa manifestação, que é conquistar o apoio e simpatia das populações. Curiosamente, as populações não gostam de manifestações porque as associam a destruição e a violência. É preciso mostrar às pessoas de que lado está a razão, não confundi-las. É uma tarefa difícil, e difícil porque facilmente se minam manifestações pacíficas, seja porque a paciência tem limites, seja por introdução de elementos infiltrados, seja porque ninguém é obrigado a ser mártir. E, infelizmente, a martirização continua a ser o mais eficiente caminho para conquistar corações. É fácil admirar e honrar os mortos.

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publicado por Manuel Anastácio às 12:21
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Sábado, 6 de Abril de 2013
Amar, casar, perverter

Todas as mudanças legais operadas numa sociedade implicam riscos e perversões. Mas a manutenção de quadros legais, nomeadamente aqueles que se sustentam em visões conservadoras da sociedade, não só os implica também como, provavelmente os promove. O conservadorismo é pai do vício e da perversão. O conservador dá largas à maldade e às oportunidades de explorar o seu semelhante (seja económica, psicológica ou sexualmente) porque se move em terreno conhecido, podendo manter a aparência de que vive num mundo formatado, normalizado, ordenado segundo preceitos divinos. Um conservador é, necessariamente, um hipócrita. O conservador, com o seu manto bordado a ouro, esconde todo o género de imundícies. Não é uma opinião. É um truísmo. É tão verdade e evidente que nem sequer necessita de comprovação. Até os textos sagrados dos conservadores o dizem.


Uma mudança no quadro legal, como a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, abriria a possibilidade de se legalizar o incesto, diz Jeremy Irons. A primeira reação de qualquer pessoa minimamente inteligente a esta opinião é de que o gajo deve ser tolo. Mas, depois, vemos que até tem alguma consistência. Pouca, muito pouca, mas é um argumento a ser analisado. À primeira vista parece que Irons segue o caminho da argumentação conservadora de que aprovar a própria homossexualidade como comportamento aceitável na sociedade é abrir caminho a todo o género de perversões. Não é esse o caminho que ele segue, e ainda bem. Pode parecer o argumento mais idiota de todos que é: “se homens podem casar com homens e mulheres com mulheres, também teremos de aprovar o casamento com animais ou com objectos”. Novamente, usa-se o argumento de que a aprovação de uma lei que irá beneficiar uma grande quantidade de pessoas não deve passar porque permitirá a um grupo residual de pessoas expor perante o mundo as suas taras e maluquices, o que implica que a homossexualidade seja uma maluquice, coisa que já nem a maior parte dos conservadores tem a lata de dizer em público  - acontece que o argumento é absurdo, porque não é possível aferir a vontade de um animal ou de um objecto, por isso o casamento entre um homem com uma boneca insuflável ou com uma ovelha é pura e simplesmente impraticável.


O argumento de Irons é de outra ordem. Segundo ele, o incesto é considerado algo de detestável e odioso aos olhos da sociedade devido ao fantasma da endogamia, mas não sendo possível a um pai gerar um filho de um filho ou, uma mãe uma filha de uma filha, os gajos que percebem de finanças e de esquemas para enganar o estado poderão aproveitar a porta aberta pelo novo quadro legal para que os filhos não tenham de pagar impostos em caso de herança. Repare-se que é um argumento que, supostamente, não tem base num julgamento moral sobre o comportamento sexual de quem quer que seja. Mas quase que o faz, ou fá-lo de forma velada, ao fazer menção de um tema considerado tabu: o incesto que, para muita gente, é sinónimo de abuso sexual de menores. A verdade é que não é. Há muitos casos de amor incestuoso pelo mundo fora que são tolerados ou mesmo defendidos pelas populações locais por esta ou por aquela razão.


A diversidade de situações geradas pela interação entre seres humanos é tão grande que legislar será sempre assumir riscos. Mas é obrigação do futuro ser perigoso, dizia Alfred North Whitehead.  Há sempre que ponderar  a quem vai servir a lei: a uma maioria ou a uma exceção? Repare-se que os casamentos incestuosos que Irons teme não seriam incestuosos de todo - seriam apenas um artifício legal para não pagar impostos. Mas, ainda assim, só em casos muito excecionais é que alguém mancharia a reputação de um filho para manter a fortuna de família intacta. A aprovação de uma lei na generalidade não deve ser posta em causa por argumentos que devem ser analisados na especialidade. A lei deve ser mutável e fluida e todos os abusos verificados devem implicar adendas ou retificações na mesma. É complicado. Mas viver é complicado mesmo. Habituem-se.

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publicado por Manuel Anastácio às 07:06
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LXXIII

A ingenuidade da esquerda que canta vitória à conta da decisão do Tribunal Constitucional e a falsa preocupação do PSD/PP são ambas reveladoras do vazio político em que estamos mergulhados. O governo saberá, impiedosamente, dar a volta aos 1300 milhões de euros "perdidos". Despedimentos e taxas adicionais são perfeitamente constitucionais e serão forçosamente usadas por quem provou que fez juramento de vassalagem à suserania dos mercados. Com uma vantagem para o governo: poderá fazer o choradinho de que foi a Constituição e a oposição radical, alheias à realidade económica, que empurraram o país para um maior endividamento e para a depressão. Sem que, de facto, se privem de cortar nos rendimentos de quem já procura algo mais barato que Nestum misturado com água fria.

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publicado por Manuel Anastácio às 01:21
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Sexta-feira, 5 de Abril de 2013
LXXI

Ao contrário do que possa parecer, Miguel Relvas foi um presente dos céus para este governo.  Se as massas concentraram em Sócrates, no anterior governo, todo o ódio que um governo inevitavelmente destinado  à impopularidade iria ter, Passos Coelho conseguiu aguentar-se relativamente ileso e não é alvo de um décimo das anedotas corrosivas de que Sócrates já seria alvo por esta altura.

 

Hoje, em resposta a Semedo, Passos disse esta pérola: ""Acho puro cinismo que o seu partido ande há meses a pedir a saída de Miguel Relvas e agora que ele saiu querem saber porque ele saiu". WTF? Onde é que está o cinismo? Em querer saber? Gostava que os meus alunos fossem cínicos, então.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:58
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Quarta-feira, 3 de Abril de 2013
LXX

Enquanto espero que outros resolvam problemas que eu não sei resolver, e como no Espaço Guimarães não há livraria que resista à escassez de leitores, entro no Jumbo e dirijo-me à banca da literatura de hipermercado. Depois das capas sexy dos livros que enchem os sonhos de quem não se consegue excitar com Dante Alighieri ou Marguerite Duras, encontro uma fila extensa de livros sobre... Economia. Eu sou do tempo em que a secção de Economia era a primeira parte do jornal a ir para o lixo (e até tinha cor diferente, para facilitar a separação) para que a leitura não pesasse nas mãos com as estéreis preleções dos senhores que nos enforcaram, talvez porque tenhamos  lançado demasiadas páginas para a lixeira da ignorância e do eu quero lá saber das tendências da bolsa. Muitos livros de Economia. E, tirando um de Paul Krugman, tudo de endoutrinação política. Um escaparate de propaganda da mais abjeta sabujice ao poder dos Mercados e da ladroíce. João César das Neves, Camelo, perdão, Camilo Lourenço entre outras valentes bestas. Costumo gostar do cheiro a fresco dos livros, mas mal abri o do Camelo, além de me sentir agredido visualmente pelo péssimo grafismo em folhas envernizadas, veio-me uma náusea física que não se podia imputar exclusivamente ao nojo que tenho desta espécie de molusco acéfalo que, para mal dos meus pecados, ouço logo de manhã no Canal 1. Aquela tinta deve cheirar tão bem quanto os sovacos do autor, não que os tenha cheirado alguma vez, mas não preciso de partir uma perna para saber que dói. Mas, entre os outros autores encontro bestas bem piores que o Camelo, como um tal de Henrique Raposo, autor de explícitos panegíricos à ditadura de Salazar e, por inferência, de todas as ditaduras (desde que fascistas, que as comunistas são sempre más). O belo disto tudo, é a forma como estes interessantes pensadores se gostam de apresentar: como politicamente incorretos, como se ser politicamente incorreto fosse louvável... em política. Era tempo de aprenderem que ser politicamente incorreto está bem para artistas, poetas, filósofos, humoristas... mas políticos? oh meus amigos, não havia nechechidade... os políticos existem para melhorar a vida das pessoas e para as respeitarem, e para isso têm de ser politicamente corretos. Não falo de serem educados, cá para mim, podem dizer os palavrões que quiserem. Vou dar um exemplo prático: se fossem para a puta que vos pariu, o país ficava mais rico. Fui muito politicamente correto, apesar de ter dito palavrões, mas se quiserem, posso ir-vos às trombas, que é uma atitude politicamente incorreta e tão representativa das nobres e tradicionais virtudes do excelente povo português em que o vosso nacionalismo mercantilista grunho e bacoco deposita esperanças para salvar as finanças do estado. Marialva virtude essa, caída em decadência por causa da democracia e do estado social (ah, engano-me: a ditadura é que criou o estado social, diz o Raposo). E eu preocupo-me porquê, Deus meu? Quem se mete na boca do lobo é mesmo para sentir a firmeza dos caninos. Deixem-me ser politicamente incorreto, eu que sou apenas político por razões de cidadania e não de carreira: o povo português merece viver eternamente em ditadura. É a sua condição natural, ser escravizado e, masoquista ou devoto, beijar as mãos de quem o açoita. Obladi obladá...

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publicado por Manuel Anastácio às 22:07
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