.Últimos bocejos

. Hallelujah Money, Gorilla...

. 4

. Educação do meu imbigo

. Voltei! Ou talvez não (co...

. Cristianismo

. Arbeit macht frei

. Enciclopédia Íntima: Pátr...

. LXXVII

. LXXV

. LXXIV

. Amar, casar, perverter

. LXXIII

. LXXI

. LXX

. LXVIII

. Ócio: A Visita da Velha S...

. LIV

. A explicação dos abutres

. Carta aberta a Ângela Mer...

. Tourada, princípios e ima...

. Fausto I

. Sobre a má poesia I

. Nas mesas - reloaded

.

. Excertos de correspondênc...

. Como vais?

. Radicalismo

. AAN

. XVII

. O Coelho das passas

. O Robin Hood era do PNR

. Uma educação socialista?

. Mails da treta: A mãe de ...

. Da lei e das palavras

. As Virgens Ofendidas

. As relíquias de São Gualt...

. Naquela aldeia, uma árvor...

. O que diz o Mies sobre as...

. Prêto

.Velharias

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Agosto 2016

. Maio 2016

. Janeiro 2015

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Março 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

. Dezembro 2003

Sábado, 6 de Abril de 2013
Amar, casar, perverter

Todas as mudanças legais operadas numa sociedade implicam riscos e perversões. Mas a manutenção de quadros legais, nomeadamente aqueles que se sustentam em visões conservadoras da sociedade, não só os implica também como, provavelmente os promove. O conservadorismo é pai do vício e da perversão. O conservador dá largas à maldade e às oportunidades de explorar o seu semelhante (seja económica, psicológica ou sexualmente) porque se move em terreno conhecido, podendo manter a aparência de que vive num mundo formatado, normalizado, ordenado segundo preceitos divinos. Um conservador é, necessariamente, um hipócrita. O conservador, com o seu manto bordado a ouro, esconde todo o género de imundícies. Não é uma opinião. É um truísmo. É tão verdade e evidente que nem sequer necessita de comprovação. Até os textos sagrados dos conservadores o dizem.


Uma mudança no quadro legal, como a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, abriria a possibilidade de se legalizar o incesto, diz Jeremy Irons. A primeira reação de qualquer pessoa minimamente inteligente a esta opinião é de que o gajo deve ser tolo. Mas, depois, vemos que até tem alguma consistência. Pouca, muito pouca, mas é um argumento a ser analisado. À primeira vista parece que Irons segue o caminho da argumentação conservadora de que aprovar a própria homossexualidade como comportamento aceitável na sociedade é abrir caminho a todo o género de perversões. Não é esse o caminho que ele segue, e ainda bem. Pode parecer o argumento mais idiota de todos que é: “se homens podem casar com homens e mulheres com mulheres, também teremos de aprovar o casamento com animais ou com objectos”. Novamente, usa-se o argumento de que a aprovação de uma lei que irá beneficiar uma grande quantidade de pessoas não deve passar porque permitirá a um grupo residual de pessoas expor perante o mundo as suas taras e maluquices, o que implica que a homossexualidade seja uma maluquice, coisa que já nem a maior parte dos conservadores tem a lata de dizer em público  - acontece que o argumento é absurdo, porque não é possível aferir a vontade de um animal ou de um objecto, por isso o casamento entre um homem com uma boneca insuflável ou com uma ovelha é pura e simplesmente impraticável.


O argumento de Irons é de outra ordem. Segundo ele, o incesto é considerado algo de detestável e odioso aos olhos da sociedade devido ao fantasma da endogamia, mas não sendo possível a um pai gerar um filho de um filho ou, uma mãe uma filha de uma filha, os gajos que percebem de finanças e de esquemas para enganar o estado poderão aproveitar a porta aberta pelo novo quadro legal para que os filhos não tenham de pagar impostos em caso de herança. Repare-se que é um argumento que, supostamente, não tem base num julgamento moral sobre o comportamento sexual de quem quer que seja. Mas quase que o faz, ou fá-lo de forma velada, ao fazer menção de um tema considerado tabu: o incesto que, para muita gente, é sinónimo de abuso sexual de menores. A verdade é que não é. Há muitos casos de amor incestuoso pelo mundo fora que são tolerados ou mesmo defendidos pelas populações locais por esta ou por aquela razão.


A diversidade de situações geradas pela interação entre seres humanos é tão grande que legislar será sempre assumir riscos. Mas é obrigação do futuro ser perigoso, dizia Alfred North Whitehead.  Há sempre que ponderar  a quem vai servir a lei: a uma maioria ou a uma exceção? Repare-se que os casamentos incestuosos que Irons teme não seriam incestuosos de todo - seriam apenas um artifício legal para não pagar impostos. Mas, ainda assim, só em casos muito excecionais é que alguém mancharia a reputação de um filho para manter a fortuna de família intacta. A aprovação de uma lei na generalidade não deve ser posta em causa por argumentos que devem ser analisados na especialidade. A lei deve ser mutável e fluida e todos os abusos verificados devem implicar adendas ou retificações na mesma. É complicado. Mas viver é complicado mesmo. Habituem-se.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 07:06
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (7) | Adicionar aos favoritos
|
LXXIII

A ingenuidade da esquerda que canta vitória à conta da decisão do Tribunal Constitucional e a falsa preocupação do PSD/PP são ambas reveladoras do vazio político em que estamos mergulhados. O governo saberá, impiedosamente, dar a volta aos 1300 milhões de euros "perdidos". Despedimentos e taxas adicionais são perfeitamente constitucionais e serão forçosamente usadas por quem provou que fez juramento de vassalagem à suserania dos mercados. Com uma vantagem para o governo: poderá fazer o choradinho de que foi a Constituição e a oposição radical, alheias à realidade económica, que empurraram o país para um maior endividamento e para a depressão. Sem que, de facto, se privem de cortar nos rendimentos de quem já procura algo mais barato que Nestum misturado com água fria.

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 01:21
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (2) | Adicionar aos favoritos
|
Sexta-feira, 5 de Abril de 2013
LXXI

Ao contrário do que possa parecer, Miguel Relvas foi um presente dos céus para este governo.  Se as massas concentraram em Sócrates, no anterior governo, todo o ódio que um governo inevitavelmente destinado  à impopularidade iria ter, Passos Coelho conseguiu aguentar-se relativamente ileso e não é alvo de um décimo das anedotas corrosivas de que Sócrates já seria alvo por esta altura.

 

Hoje, em resposta a Semedo, Passos disse esta pérola: ""Acho puro cinismo que o seu partido ande há meses a pedir a saída de Miguel Relvas e agora que ele saiu querem saber porque ele saiu". WTF? Onde é que está o cinismo? Em querer saber? Gostava que os meus alunos fossem cínicos, então.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 20:58
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (2) | Adicionar aos favoritos
|
Quarta-feira, 3 de Abril de 2013
LXX

Enquanto espero que outros resolvam problemas que eu não sei resolver, e como no Espaço Guimarães não há livraria que resista à escassez de leitores, entro no Jumbo e dirijo-me à banca da literatura de hipermercado. Depois das capas sexy dos livros que enchem os sonhos de quem não se consegue excitar com Dante Alighieri ou Marguerite Duras, encontro uma fila extensa de livros sobre... Economia. Eu sou do tempo em que a secção de Economia era a primeira parte do jornal a ir para o lixo (e até tinha cor diferente, para facilitar a separação) para que a leitura não pesasse nas mãos com as estéreis preleções dos senhores que nos enforcaram, talvez porque tenhamos  lançado demasiadas páginas para a lixeira da ignorância e do eu quero lá saber das tendências da bolsa. Muitos livros de Economia. E, tirando um de Paul Krugman, tudo de endoutrinação política. Um escaparate de propaganda da mais abjeta sabujice ao poder dos Mercados e da ladroíce. João César das Neves, Camelo, perdão, Camilo Lourenço entre outras valentes bestas. Costumo gostar do cheiro a fresco dos livros, mas mal abri o do Camelo, além de me sentir agredido visualmente pelo péssimo grafismo em folhas envernizadas, veio-me uma náusea física que não se podia imputar exclusivamente ao nojo que tenho desta espécie de molusco acéfalo que, para mal dos meus pecados, ouço logo de manhã no Canal 1. Aquela tinta deve cheirar tão bem quanto os sovacos do autor, não que os tenha cheirado alguma vez, mas não preciso de partir uma perna para saber que dói. Mas, entre os outros autores encontro bestas bem piores que o Camelo, como um tal de Henrique Raposo, autor de explícitos panegíricos à ditadura de Salazar e, por inferência, de todas as ditaduras (desde que fascistas, que as comunistas são sempre más). O belo disto tudo, é a forma como estes interessantes pensadores se gostam de apresentar: como politicamente incorretos, como se ser politicamente incorreto fosse louvável... em política. Era tempo de aprenderem que ser politicamente incorreto está bem para artistas, poetas, filósofos, humoristas... mas políticos? oh meus amigos, não havia nechechidade... os políticos existem para melhorar a vida das pessoas e para as respeitarem, e para isso têm de ser politicamente corretos. Não falo de serem educados, cá para mim, podem dizer os palavrões que quiserem. Vou dar um exemplo prático: se fossem para a puta que vos pariu, o país ficava mais rico. Fui muito politicamente correto, apesar de ter dito palavrões, mas se quiserem, posso ir-vos às trombas, que é uma atitude politicamente incorreta e tão representativa das nobres e tradicionais virtudes do excelente povo português em que o vosso nacionalismo mercantilista grunho e bacoco deposita esperanças para salvar as finanças do estado. Marialva virtude essa, caída em decadência por causa da democracia e do estado social (ah, engano-me: a ditadura é que criou o estado social, diz o Raposo). E eu preocupo-me porquê, Deus meu? Quem se mete na boca do lobo é mesmo para sentir a firmeza dos caninos. Deixem-me ser politicamente incorreto, eu que sou apenas político por razões de cidadania e não de carreira: o povo português merece viver eternamente em ditadura. É a sua condição natural, ser escravizado e, masoquista ou devoto, beijar as mãos de quem o açoita. Obladi obladá...

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 22:07
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (2) | Adicionar aos favoritos
|
Terça-feira, 2 de Abril de 2013
LXVIII

Não gosto muito de informação com musiquinha épica a condizer. A música dá a impressão que o senhor, ao falar, está a mudar o mundo como num discurso de um qualquer filme de Frank Capra. Depois, o título é algo exagerado: "O Homem que disse toda a verdade". Não, não disse toda a verdade, mas uma boa parte dela. É indiferente quem nos governa, a nós ou aos Estados Unidos, se esses governos forem comprados pelo sistema financeiro e pelos mercados. Podemos substituir Republicanos por PSD/PP e Democratas por PS. E o discurso valerá também para nós. Mas que ninguém se iluda com a música. O povo ressona, e o ressonar sobrepõe-se a todas as verdades, por mais inflamadas que sejam as palavras.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 19:48
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (2) | Adicionar aos favoritos
|
Segunda-feira, 25 de Março de 2013
Ócio: A Visita da Velha Senhora, de Friedrich Dürrenmatt


A quem veja “A Visita da Velha Senhora” será impossível não fazer paralelismos com a situação política e económica do nosso país. Uma cidade, em profunda recessão, recebe uma velha milionária (desempenhada por Maria João Luís) pronta a injetar capital nas veias da população em troca de um pequenino favor. Há, na sexualidade mal resolvida desta velha senhora, um eco daquela gente que, ao longo da história, tem sublimado e fetichizado, no toque do ouro e do poder, as frustações de um desejo insatisfazível e devorador de almas. Na impossibilidade de copular com o ser amado, decide o ser rejeitado ***** o resto da humanidade. Talvez não seja assim, mas dá-nos uma certa satisfação pensar que sim: que os Calígulas nas suas orgias insanas apenas procuram uma réstia do tremor nas pernas provocado por aquele beijo recusado e sepultado nas coisas que nunca se farão. Um clássico de Friedrich Dürrenmatt, encenado por Nuno Cardoso. Sábado de Aleluia, antes da vigília pascal. No Grande Auditório do Vila Flor.

Artigos da mesma série: , ,
publicado por Manuel Anastácio às 13:03
link do post | Dizer de sua justiça | Adicionar aos favoritos
|
Sábado, 16 de Fevereiro de 2013
LIV

A escalas diferentes, ideias semelhantes têm comportamentos diferentes. Diz a sabedoria popular que quando ralham as comadres, descobrem-se as verdades. Diferente é o caso das agências de notação, donas de um poder arbitrário ou sujeitas ao poder arbitrário de uma minoria humana que joga com a vida e dignidade da grande maioria da população humana, segundo uma lógica de um egoísmo que, infelizmente, nem sequer tem as virtudes da seleção natural. De facto, a forma como a economia neoliberal funciona não é, de todo, conforme à lógica malthusiana que permite a sobrevivência do mais apto porque a dinâmica fundamental do capitalismo contemporâneo já descartou as próprias pessoas do processo daquilo que é seleccionado: os senhores do capital não geram famílias de senhores do capital, mas dependentes tão medíocres e incapazes de qualquer género de sobrevivência quanto qualquer um dos escravos da burguesia. A capacidade de fazer dinheiro, ou de o inventar, ou de usufruir do seu poder, não está no ADN, não é transmissível de um ponto de vista evolutivo. Além disso, a espécie humana deixou de lado, por completo, o objetivo primordial de qualquer espécie biológica, que é a sua perpetuação, já que o poder destruidor da civilização neoliberal não se limita à destruição de outros grupos humanos rivais, como aconteceu ao longo da história, mas pode levar à destruição das próprias condições para a permanência de quem quer que seja. No percurso evolutivo, a consciência humana é um resultado brilhante e extraordinário, mas secundário, de uma excrescência doente de um dos ramos da vida, que ameaça toda a árvore. Ralham as comadres, mas as verdades não se descobrem. Sempre estiveram expostas ao olhar de quem quisesse ver. A maioria, desprovida de consciência, prefere os olhos vendados e exulta com as promessas dos mercados, divina cornucópia da abundância e da razão. Podem esperar sentados.

Artigos da mesma série: , , ,
publicado por Manuel Anastácio às 11:11
link do post | Dizer de sua justiça | Adicionar aos favoritos
|
Quinta-feira, 15 de Novembro de 2012
A explicação dos abutres

Havia um padre na manifestação de ontem da CGTP, ao lado do povo, solidário com o povo. Os bispos portugueses, por seu lado, mostram bem de que massa fermentada são feitos. "Sentem a importância da explicação, clara e prévia, das medidas que se tomam e das razões que as determinam”. Pode parecer inócua esta frase que, aliás, não é nova e já foi proferida várias vezes por tais abéculas que o povo considera como guias espirituais e portadores de anéis dignos de beijoquice santarrona. Mas não é inócua nem apolítica-apartidária, como muito em má hora está na moda. Dizer-se que as medidas de exploração sádica de um povo empobrecido ao limite têm de ser explicadas tem uma mensagem explícita e imediata para quem os ouve: a mensagem de que estas medidas são justas. Incompreensíveis, mas justas. A Igreja, que tem grande prática em pedir/impor crença em troca de argumentos nulos (chamam-lhe Fé), pede agora resignação aos crentes, e uma dose de reforçada de fé numa coisa que tem explicação, mas que os governantes não têm conseguido explicar. Creio que estes senhores são minimamente inteligentes e sabem bem que a única explicação a dar é a de que este governo, e a direita em geral, só quer uma coisa: rebaixar o pobre à indigência para, assim, se arrogar ao papel sádico do exercício do poder e, simultaneamente, ao papel caridoso e paternalista capaz de aumentar a sua influência na sociedade. À Igreja não interessa, nem nunca interessou, que as pessoas vivam com dignidade, mas que só consigam obter essa dignidade graças aos seus favores, como bem o sabe e pratica a Máfia italiana. Um povo pobre e carente é um povo submisso e fiel cumpridor dos preceitos religiosos. Pode ser um povo alcóolico, minado de vícios: desde que peregrine de joelhos até aos santuários onde se prostitui a ideia de Deus e da santidade, tudo estará bem. A desgraça e a miséria é amiga da religião. Um governo que semeia destruição e desespero é um maná dos céus para as instituições de "solidariedade" social, veículo de vaidades de quem dá com a mão direita fazendo questão de que a esquerda e o resto do mundo o saiba. Não são todos assim, dirão. Pois não, o mecanismo é talvez inconsciente, fruto de uma ação impensada. Haverá, porventura, bondade nesta gente, mas é uma bondade envenenada, alienada, docemente drogada pelo cheiro do incenso e dos rituais; uma bondade nascida de uma maldade profunda, que se compraz nos sentimentos mais dolorosos da alma; uma bondade que se compraz em abraçar leprosos, achando nesse abraço a redenção da sua própria lepra moral; uma bondade que gosta de remediar os males que semeia e que evita a prevenção da tragédia; a bondade de quem lava a cara suja de esterco de quem caiu na latrina aberta por essa mesma vontade. Podia explicar isto melhor? Não, não podia. Nada há a explicar para quem, como Pilatos, lava as mãos e, assim, se embebeda no sangue dos mártires. E há quem prefira viver à espera de explicações que não existem do que em abrir os olhos para os expostos frutos podres da sua caritativa maldade.

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 20:55
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (2) | Adicionar aos favoritos
|
Domingo, 11 de Novembro de 2012
Carta aberta a Ângela Merkel, Nossa Senhora muito amada:

Carta aberta a Angela Merkel:

Cara Ângela. És um anjo caído do céu, mas não um anjo caído. Resplandeces na tua aura messiânica e apocalíptica e, como sedutor anjo da morte cavalgas os póneis da fomezita, das guerritas civis e das pestinhas. És a Carlota do Werther, mas mais simpática. Levas ao suicídio coletivo os jovens idealistas do seu próprio bolso e fazes crescer a turba fervilhante dos movimentos apartidários contra os políticos, essas sanguessugas que são sempre sanguessugas só porque sobem a um palanque e fazem promessas. Porque fazer promessas num palanque é crime, e os gafanhotos com rabo de escorpião e cara humana dos vermes islandeses mordem sem cessar os culpados da crise - os políticos, claro. Não aqueles que enriqueceram e continuam a enriquecer com dinheiro que inventaram e desviaram para o cálice sem fundo dos offshores implantados no seu peito, não aqueles que controlam a seu modo o pão de cada semana, falsificando-o com a serradura dos corpos secos e decepados de braços daqueles que antes eram trabalhadores e agora são meros desempregados, inúteis, bocas a mais, pulseiras verdes em salas de longas e mortas esperas, não esses que dizem que as radiografias depois de um acidente na escola deve ser pago com audiências vazias nos concertos, não esses que dizem que num país onde alguns jamais voltarão a ser úteis, o único caminho é abrir um negócio - engraxar sapatos, com certeza, para quem ainda tiver sapatos. Não esses. Esses não são criminosos, esses devem ser protegidos como espécie em risco. E são. São uma espécie em risco, mas longe da extinção, curiosa espécie biológica em que um parasita é maior e alimenta-se de múltiplos hospedeiros. Espécie curiosa e apocalíptica, acarinhada pelo povo que acende velas à Senhora de Fátima e agasalha-se sob as amplas asas da fé e da resignação. Esses não, esses não são criminosos. São lemingues suicidas e tu, cara Ângela, és o seu desnorte, és a paixão desvairada dos famintos e dos ignorantes. Porque todos os políticos são culpados da morte, da fome e da peste, dizem os apartidários manhosos que alimentas com as tuas fartas tetas túrgidas de pus e podridão. Cara Ângela, és bem-vinda a Portugal. O povo que detesta os políticos ama-te porque estás acima da política. És o veneno mortal que todos querem ter a correr no sangue quando a dor e a falta de esperança não permite manter em pé as magras pernas desta gente que chora e que merece cada lágrima que tem no rosto pela sua ignorância e pelo atraso mental que os dignifica. Ângela, grande educadora, guia dos necessitados, candeia dos cegos, avé. Nós te amamos, Ângela, nós te adoramos, e continuaremos a beijar os santos pés de Portas, Passos e Seguros, fiéis depositários do teu corpo consubstanciado em cada apartidário, de cada revoltado contra o demónio, o diabo, o porco sujo chamado política. Nós te amamos, nós te adoramos. Nós te rogamos, Ângela, concede-nos a beatitude do teu abraço mortal e torna-nos felizes instrumentos do melhor dos mundos. Bem-vinda sejas hoje e sempre, nesta forma ou noutra que mantenha a mesma substância com que se alimenta o fim do mundo.

Manuel Anastácio

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 10:38
link do post | Dizer de sua justiça | Adicionar aos favoritos
|
Domingo, 27 de Maio de 2012
Tourada, princípios e imagem

Tive a honra de participar como delegado na última Convenção do Bloco de Esquerda, onde se definiriam as orientações políticas do partido. Muita gente, ao saber desta Convenção pelas notícias, regalou-se com as cisões ideológicas entre alas mais "Louçã" (as minhas) e outras alas, simpáticas umas (como a antitotalitária) e a extremista (que, entretanto, debandou para outras freguesias). Para mim, foi o revelar de um partido feito de partidos, feito de opiniões e de gente que não canta a mesma cartilha como se fosse a tabuada na escola. Estava entre gente que pensava por si, entre ovelhas negras, azuis e de todas as cores, não dispostas a seguir o rebanho, mas a decidir em conjunto o caminho a seguir pelo rebanho. À entrada, ativistas dos direitos dos animais pediam para votarmos a favor da inclusão de uma adenda que colocasse o Bloco de Esquerda como defensor implacável dos direitos destes animais nobres e criados na natureza como soberbos na sua herbívora dignidade. Detesto o taticismo político. Sei que o há também no Bloco de Esquerda, como em qualquer partido. Sou por princípios. E o princípio de que tourada na arena é barbárie e na cama é coisa boa, é daquelas coisas que gostaria de ver ser considerada pelos meus camaradas como coisa unânime, fossem eles marxistas, leninistas, maoístas, estalinistas ou que bem lhes apetecer na carola. Não era contra os bifes que se insurgiam os ativistas - e bem podiam. Custa-me admitir, mas é verdade que eu como e gosto de carne, mesmo reconhecendo a violência implícita no ato. Mas há uma diferença entre matar um animal para comer (como acontece, violentamente, na Natureza desde que há animais) e matar para divertimento e prazer estético. Talvez um dia me torne vegetariano, mas essa é outra conversa, embora me custe deixar a posta mirandesa (sinto-me como um canibal com peso na consciência). Não tive dúvidas de que deveria votar a favor de um partido absolutamente antitourada. E foi assim que votei, tal como a maioria dos delegados. Mas dos outros que votaram contra, curiosamente, ninguém era a favor das touradas. E eu não compreendo isso, nem no Bloco nem na Santa Madre Igreja. Princípios são princípios. Vão contra um gosto enraizado de um povo embrutecido, que se diverte a passar coelhos e sapos a ferro na estrada, e a ver sangue a jorrar e vísceras a latejar em corpos de belos animais esventrados. Há gostos para tudo, dizem. Pois há, mas nesse caso também deveríamos legalizar a pedofilia, são gostos, não é assim? Que gostos não se discutem. Parvoíce, extrema, que os gostos são a coisa mais discutível do mundo e por isso mesmo são o melhor tema de conversa entre gente que se conhece há pouco tempo. Nesse dia, o Bloco de Esquerda passou a ser, contra a tradição grunha portuguesa, contra as touradas. E eu fiquei mais orgulhoso do meu partido do que nunca, pela coragem tomada. Há dias, à conta de uma fotografia falsa que anda pela Internet, deparei-me novamente com uma coisa que me incomoda deveras - quando aqueles que estão supostamente do meu lado tentam convencer os outros usando da mentira. Quando Saramago ou Miguel Torga descreveram o sofrimento do animal sob o seu ponto de vista fictício, usaram de uma mentira benigna e nobre. Mas quando se apresentam fotografias de um suposto acontecimento que, se alguma vez ocorreu, não foi fotografado, aí, quem se indigna sou eu. A mentira descarada nunca poderá servir de alicerce à mudança das consciências. Ou a verdade fala por si, ou a luta é contaminada pelos mesmos vícios daqueles que já mandam nos destinos do mundo. A fotografia mostra um toureiro sentado em posição de desânimo, como se tivesse sido atacado por um qualquer achaque físico ou psicológico perante um touro, sangrando no dorso, numa atitude não ofensiva. Descobri que a fotografia foi sendo interpretada e reinterpretada por muitos, a ponto de se identificar o toureiro com o colombiano Álvaro Múnera, que se dedica atualmente à defesa dos direitos dos animais e das pessoas incapacitadas, depois de ter sido colhido quase fatalmente na arena, pouco antes de outro amigo seu, também toureiro, ter morrido em situação semelhante. Na verdade, Múnera confessou numa entrevista que por várias vezes tinha ponderado deixar a arte de matar em público. Depois de matar uma novilha grávida e ver o feto morto, vomitou,mas foi convencido de que nojos desses eram para maricas. Foi preciso que a força torturada de um animal o convencesse. A sua história é mais bela e convincente que uma fotografia falsa. Mas uma imagem, mesmo falsa, vende melhor uma ideia; um texto é sempre difícil e ninguém está para isso. É verdade que uma imagem diz mais que mil palavras. Mas cuidado. Pode dizer também aquilo que nunca foi. E, aí, só as palavras resgatam a imagem daquilo que ela não diz.

Artigos da mesma série: , ,
publicado por Manuel Anastácio às 13:48
link do post | Dizer de sua justiça | Adicionar aos favoritos
|
.Nada sobre mim
.pesquisar
 
.Março 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
.Artigos da mesma série

. notas

. cinema

. livros

. poesia avulsa

. só porque

. política

. curtas

. arte

. guimarães

. música

. estupidez

. traduções

. wikipédia

. religião

. poesia i

. gosto de...

. ono no komachi

. narrativas

. tomas tranströmer

. buscas pedidas

. plantas

. arquitectura

. blogues

. enciclopédia íntima

. blogs

. braga

. fábulas de esopo

. as quimeras

. gérard de nerval

. carvalhal

. animais

. cultura popular

. disparates

. Herbário I

. poesia

. póvoa de lanhoso

. estevas

. pormenores

. umbigo

. bíblia

. ciência

. professores

. vilar formoso

. barcelos

. cinema e literatura

. coisas que vou escrevendo

. curtíssimas

. Guimarães

. rádio

. receitas

. ribeira da brunheta

. teatro

. vídeo

. da varanda

. economia

. educação

. família

. leitura

. lisboa

. mails da treta

. mértola

. Música

. os anéis de mercúrio

. cachorrada

. comida

. cores

. dança

. diário

. direita

. elogio da loucura

. escola

. esquerda

. flores de pedra

. hip hop

. história de portugal

. kitsch

. memória

. ópera

. profissão

. recortes

. rimas tontas

. sonetos de shakespeare

. terras de bouro

. trump

. Álbum de família

. alunos

. ângela merkel

. arte caseira

. aulas

. avaliação de professores

. ayre

. benjamin clementine

. citações

. crítica

. ecologia

. edgar allan poe

. ensino privado

. ensino público

. evolucionismo

. facebook

. todas as tags

.O que vou visitando
.Segredos
  • Escrevam-me

  • .Páginas que se referem a este site

    referer referrer referers referrers http_referer
    .Já passaram...
    .quem linka aqui
    Who links to me?
    .Outras estatísticas
    eXTReMe Tracker
    blogs SAPO
    .subscrever feeds