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Domingo, 20 de Maio de 2012
Indian Tempest, dos Footsbarn

 

Haris Haka Resic, no "Indian Tempest" dos Footsbarn. Foto de José Caldeira.

 

A marca que os Footsbarn deixam nos locais onde passam vai para além daquilo que exibem nos seus espetáculos. Trazem consigo uma ideia romântica de liberdade e fraternidade que confunde os sedentários.

 

A sua maneira de fazer teatro reflete esse cosmopolitismo que não esquece as raízes culturais, ao colocarem cada ator a representar na sua língua. Um exemplo inspirador das virtudes do multiculturalismo.

 

Nesta peça convém que o público procure esquecer a história, “A Tempestade” de Shakespeare). Mas se a ler antes, ou à sinopse, pelo menos, mais facilmente seguirá e relacionará a teia de pormenores de que é feita, onde a linguagem universal da música, das expressões faciais, das luzes e sombras e dos adereços primitivos e exuberantes contam outras coisas que as palavras não dizem.

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publicado por Manuel Anastácio às 19:40
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Domingo, 13 de Maio de 2012
Emanuel Salvador: Concerto para violino e orquestra em Ré Menor, de Sibelius

A noite de ontem foi memorável no Vila Flor, onde a Orquestra do Norte teve o ensejo de tocar o  Concerto Para Violino e Orquestra em Ré Menor, Op.47. de Jean Sibelius, tendo como solista no violino o intérprete vimaranense Emanuel Salvador. Já vi nesta mesma sala uma cantora lírica de grande fama, também ela vimaranense (mas envergonhada), a responder de forma educada e fria ao calor dos aplausos dos seus conterrâneos, fosse nas palavras fosse na execução musical onde se limitou a cumprir os mínimos olímpicos – o que não é mau, mas não chega para ave canora da sua envergadura. Emanuel Salvador, porém, sendo digno filho deste chão, tem respondido com um evidente amor pela gente da sua terra, esta mesma gente que nem sempre enche salas para ouvir música erudita-clássica-ou-assim, mas que nunca deixa no seu estádio de futebol o lugar para uma mosca. O amor de um intérprete pelo seu público sente-se de forma visceral nas mais pequenas e simples peças musicais e, perante um público ainda não muito sofisticado, que é o de Guimarães, um público que ainda bate palmas a entre os andamentos do concerto, Emanuel trouxe, citando eu alguém que o ouviu ontem, uma experiência sonora que vai do estremecer mais sublime a uma vibração quase orgásmica. Só há este género de fruição física quando a entrega e o respeito íntimo do intérprete pelo seu público se transmite àquelas mesmas cordas com que ata os ouvintes ao esquecimento do tempo, o que é difícil, sendo a música feita de tempo. A dificuldade técnica para os solistas deste concerto é proverbial e, não sendo eu capaz de tocar o Hino da Alegria com uma flauta de bisel, sou minimamente bom ouvinte e capaz de dizer algumas banalidades próprias de quem, alheio aos tratos de polé a que são sujeitos os dedos do violinista, sentiu, num primeiro andamento, a sensualidade atormentada desta música ganhar um brilho romântico sempre a oscilar entre a expressividade da melodia e uma tensão de fundo estonteante. O segundo andamento aliou a clareza de leitura com o excesso sentimental. E o terceiro, menos piegas e de um virtuosismo louco, acordou-me para o espanto partilhado por uma sala que soube rebentar os diques da contenção perante um exercício de entrega admirável de um justo motivo de orgulho para a cidade. O concerto, dirigido por um carismático Philipe Bender à frente da, já estabelecida na nossa reverente consideração, Orquestra do Norte, incluiu ainda a Abertura Ruslan e Ludmila de Glinka e a suite sinfónica Scheherazade, de Rimsky-Korsakov, cujo brilhantismo russo e popular foi servido com a devida consideração emocional a quem ainda trazia os olhos ensombrecidos pelas paixões recalcadas e latentes do concerto de Sibelius. Memorável.

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publicado por Manuel Anastácio às 12:32
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Sábado, 5 de Maio de 2012
Metamorfoses

 

 

 

Num canto de um quarto com reminiscências expressionistas, visto sob um olhar circular (mas plano, sem utilização de qualquer deformação por lente olho de peixe) projectado na parede do fundo do cenário, um homem (uma larva, um conceito?) contorce-se. No palco térreo, um violinista e um clarinetista, como prolongamentos da mobília, vestidos com o mesmo padrão do estofo das cadeiras formam um biombo mudo no meio dos sons electrónicos difusos e estalidos eléctricos, ao mesmo tempo que lâmpadas confundem-se com velas propiciatórias de um sacrifício ou de um ritual iniciático. O violinista começa um chamamento hierático que estabelecerá com o clarinete baixo um ritmo de horror e de ansiedade em comunicar, concomitante a um alheamento que se manterá até ao fim daquilo que nos é permitido ver. Saindo da tela projectada, que se mantém com o quarto vazio, ao fundo, o homem-larva avança em todo o fulgor anímico e primordial de um pesadelo infantil ou mitológico. As luzes desenham cada pormenor de uma anatomia que parece irromper de uma pele que se estica devido a convulsões internas e dolorosas. A larva estende-se para os músicos, entre a admiração contemplativa, o espanto e o desejo. Os músicos levantam-se, mudam para duas estantes ao fundo do palco. São atiradas roupas semelhantes às que usam para o chão. A larva conceptual, o homem indefinido e em mudança explora as cadeiras deixadas vazias e esconde-se e espreita para lá das estantes. As cadeiras são modificadas pelo ato de as virar e deitar, dando-lhes outro significado, transformando-as num objecto outro que, para além do complemento funcional à postura corporal, toma o lugar, primeiro, de limite, de grade, de fronteira, depois, de cela ou casulo onde a larva se aninha até que eclode. Mas a eclosão não dá imediatamente lugar à transformação. Esta é gradual, o inseto nascido toma as roupas deixadas no chão e abandona o palco. Durante todo o processo, as luzes sobem e tremem no vendaval horrendo e fascinante de uma partitura de íntimas preocupações e fantasmas à procura de uma resolução que não chega. A transmutação não traz alívio. A larva deixa o palco e volta gradualmente, primeiro como sombra, depois como corpo vestido, transformado em desenho monocromático que ondula no canto mais afastado, ao centro da tela em que olhamos e, por onde, por fim, somos olhados e definitivamente excluídos do ato voyeurista de entrar nos sonhos mais perturbadores de alguém tão indefinido quanto nós.

Falo de “Metamorfoses”, uma criação da Companhia “Mundo Razoável”  que assim se estreia com um espetáculo (será um espectáculo, deveras?) tão perturbador quanto belo sobre a relação confusa entre o ver e o intuir, o ser e o devir, o alhear-se e o sentir. O homem-larva, kafkiano, visto como se estivesse sob as pinceladas rudes de Paula Rego, é encarnado e transmutado por uma excelente interpretação de Carlos Silva, ao som da partitura inconformável de Dimitris Andrikopoulos e a coreografia incómoda de Cláudia Marisa.  Os músicos: o violinista, Emanuel Salvador, e o clarinetista Jordi Pons, interpretam um diálogo surdo (dois monólogos em paralelo) de nervos desnudados, numa composição poética dolorosa a que dão um brilho a que a minha imperfeita melomania não consegue dar a justa avaliação para além de um efeito emocional desgastante que não me permitiu sair do espectáculo satisfeito da vida, mas em suspenso perante os monstros que dormem nos recantos da minha alma ou das almas que comigo se cruzam, vestidas com os mesmos trapos com que se vestem as mobílias, dando a imagem de lugares compostos na paisagem social, mas tão revoltos no seu interior quanto o magnífico desenho de luz de Rui Damas.

Quarenta e cinco minutos de uma bem merecida tortura emocional e deslumbrante fruição estética a vários níveis. A repetir amanhã e depois de amanhã (dias 5 e 6 de Maio), às 10 da noite no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura, mesmo ao lado do Mercado Municipal de Guimarães.

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publicado por Manuel Anastácio às 02:02
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Sábado, 3 de Dezembro de 2011
Fausto I
Começa por F como o fado. Mas não canta fado, pelo menos que eu saiba. Até porque Fausto, o do imaginário pensado e parafraseado por Goethe, tal como este, não se conformou com a limitada existência que as normas lhe ofereciam, vendeu a alma ao diabo e soube, depois, ficar com o melhor de dois mundos. Fausto, acendendo uma vela ao inimigo e voltando como filho pródigo ao redil de deus, é a personificação da tese, da antítese e da síntese num contexto teológico. Volta a deus, enriquecido pela experiência de ter convivido com diabo. O nosso Fausto, que eu saiba, não é dado a religiões. É dado a ideologias, e isso hoje cai mal a certos estômagos. A palavra ideologia vive hoje num recanto algo empoeirado e confunde-se com doutrina. E quem defende doutrinas vem pregar contra as ideologias como se fossem algemas. Noto isso em muita gente de bem. Muita gente de bem prefere o martírio por deus ao martírio pelos homens. E compreende-se. A ideia de deus é mais reconfortante. Os seres humanos são bichos pouco simpáticos e de carne indigesta, ao contrário do corpo de deus, dado à transubstanciação de todos os desejos. As ideologias deveriam trazer em si as sementes da sua própria transformação, deveriam ser críticas como Fausto, vender-se ao diabo como Fausto mas, depois, recusarem-se a pagar a dívida como fez Fausto, e fez muito bem. As doutrinas essas, são quistos. E por vezes infetam. O nosso Fausto é um artista de longa data e, na sua discografia, há de tudo. Por vezes, as suas canções estão tingidas pela cor datada de uma época. É com pena que reconheço que algumas das suas canções mais políticas já não convencem ninguém, por maiores que sejam as verdades que vomitam. Trazem consigo o cheiro de uma época, e o cheiro, na arte, nem sempre é o dos lilazes, das tílias em flor ou dos limoeiros, por vezes é também do sangue, do suor, do vómito e das fezes prematuramente despejadas sob o efeito de laxantes chamados medo, miséria, cólera, dor e fome. E em Fausto, tanto temos o cheiro das pitangas saborosas como da escassa sardinha sobre a broa rústica. Por vezes, o seu estilo musical faz certos desvios por sonoridades que custam hoje a ouvir, ainda que a poesia seja sempre de um depurado lirismo não sujeito a regras. Um exemplo central desta evolução é aquela peça, tão exótica quanto a realidade que evoca, do "era no tempo dos tamarinos": o coro feminino é simplesmente intragável, ainda que a música em si não seja má, e a letra, fértil em imagens nostágicas, seja das mais líricas e das menos dadas ao panfletarismo político, ainda que já lá esteja tudo, nos gestos e ademanes de uma era colonial dona de uma ordem de respeitinho e perfumes de hipocrisia. Quando o Silvério Salgueiro me pediu para comentar Fausto tive de ouvir a sua extensa discografia para poder dizer alguma coisa que não fosse apenas as generalidades que se poderiam dizer da música chamada de intervenção com raiz na verdadeira música popular portuguesa, mas confesso que quanto mais ouço, menos consigo estabelecer uma descrição. Cada canção é um passo para um diálogo, como se ao nosso lado se sentasse o povo com palavras de ordem que por vezes não compreende porque, da mesma maneira que sente com o pulmão esquerdo, se insensibiliza com o pulmão da direita. Há sopros de tuberculose em cada movimento respiratório da nossa gente. Posso pegar numa das música mais políticas e mais panfletárias de Fausto. "Uns vão bem e outros mal". O convite é feito: Senhoras e meus senhores, façam roda por favor. O ritmo, de pura dança de arraial, acompanha um poema de uma perfeição invejável tendo em conta que não se esconde em metáforas nem noutros subterfúgios com que os poetas enganam a sua dificuldade em se exprimir. Limita-se a usar a clássica cassete comunista que de tanto ser ouvida perdeu significado para quem apenas balança a cabeça ao som da música. Avante: aqui não há desamores, se é tudo trabalhador o baile vai começar. Se é tudo trabalhador. Repare-se na condição: se é tudo trabalhador. Só para que conste, que há quem julgue que nestas ideologias o que se defende é a preguiça. Que a esquerda é pelos feriados e pelos subsídios. Ora batam certos os pézinhos, como bate este tambor. Não queremos cá opressores, pois não, se estivermos bem juntinhos, vai-se embora o mandador. Novamente o condicional se. Se estivermos bem juntinhos. Coisa utópica, que isso de dançarmos juntinhos só conta mesmo para a dança, não para a contradança. É que eu não quero o que tu queres, que eu sou doutra condição. Está cá tudo, afinal: juntinhos não. Mas a verdade, venha em cassete, venha em panfleto, não deixa de ser verdade, mesmo que contra tudo haja argumentos (ao contrário do que é dito num bem sucedido momento de propaganda estatal ao cargo de uma senhora que tinha em melhor conta, chamada Alberta Marques Fernandes, mas a culpa não é dela, que ela, como os outros, faz o trabalho que lhe encomendam e não estamos em tempo de recusar trabalho, mesmo que seja a abrir a cova onde nos hão de enterrar). Segue a canção dizendo, em puro jeito didático, que "De velhas casas vazias, palácios abandonados, os pobres fizeram lares, mas agora todos os dias, os polícias bem armados desocupam os andares". Há nesta frase alguns equívocos para quem a ouça. As pessoas preferem polícias bem armados, até porque se os criminosos andam armados, a polícia não pode andar de mãos a abanar. A questão é espinhosa, até porque custa a distinguir entre criminosos e pobres ocupantes de palácios abandonados. Mas a propriedade é mais importante que a vida, por isso, o povo dança e vai caindo como folhas secas. Para que servem essas casas, a não ser para o senhorio viver da especulação? Pergunta o cantor e falha a intervenção. Aqui falha, porque o povo não sabe o que é isso da especulação, e a informação que é dada, isto é, de que os palácios abandonados afinal servem para alguma coisa, acaba por legitimar a intervenção da polícia bem armada que, afinal, está apenas a proteger o ganha-pão dos ricos que, como sabemos, são ricos por alguma razão. É difícil explicar estas coisas de que a propriedade nem sempre é fruto do trabalho. Ou melhor: que nunca é fruto do trabalho. Vá-se lá explicar que os ricos são ricos não porque possuem ou criem riqueza mas porque possuem dívidas e calotes que fazem render. Não. É mais fácil explicar ao povo as medidas de austeridade. É preciso explicar, explicar, explicar tudo para que ninguém saiba nada e tudo aceite. Quem governa faz tábua rasa, mas lamenta com fastio a crise... Está tudo aqui. O Fausto diz tudo. Mas o povo português não o merece. O povo português não merece um fado numa taberna rasca. Eu não quero o que tu queres, que eu sou doutra condição. Eu sou doutra condição. Não sou gente, não sou nada. Sou vómito, folha apodrecida à beira da estrada. Cágado de pernas viradas. Bago de uva esmagada. Gota de vinho que não sabe a nada.</p>
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publicado por Manuel Anastácio às 15:00
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L

"O fado é talvez a mais significativa forma de expressão artística em Portugal (...) e aquela que melhor define a alma do nosso povo”,  afirmou o nosso chefe de Estado, sua excelência Aníbal Cavaco Silva. É verdade, até a pessoa mais bacoca e insensível, como é o caso do nosso presidente é capaz de dizer coisas acertadas. O Fado é a expressão artística que melhor define a alma portuguesa. Um enorme lamento uivado e resignado.

Cavaco Silva lembrou os tempos em que o fado não era ainda “reconhecido e estimado” pelos portugueses: “Tempos houve em que o fado era apenas associado a uma vida boémia que continha em si retratos de uma Lisboa pouco recomendável”. Tempos em que o fado continha em si germes de revolta, e por isso tão pouco recomendável para o nosso presidente, ou tempos em que o fado era apenas uma forma autocomplacente das classes miseráveis transformarem em beleza a exordície em que viviam? Fica a questão.  Assim, ao longo de décadas, acrescentou, o fado “resistiu às modas e ao tempo”. Apesar de não ser verdade. O próprio presidente o afirma antes, ao recordar a origem boémia e pouco recomendável do fado, para não falar de todas as renovações que os grandes nomes do estilo sempre foram acrescentando, seja o Alfredo, a Amália, a Maria Teresa e que continua, com diferentes roupagens, hoje em dia. Mas o conservadorismo do senhor presidente faz-lhe ver resistências ao tempo em tudo. Só é pena que não a veja num pacote de leite azedo. Continua o senhor presidente a sua preleção dizendo que nas décadas de 70 e 80, o público acabou por se afastar um pouco do fado “por razões mais ou menos ideológicas”. A ideologia não deveria interferir com qualquer forma de expressão artística, como penso que é óbvio, mas é provável que não fosse a ideologia a afastar o fado mas o fado que, ao transmitir geneticamente uma ideologia de resignação, não soubesse lá muito bem, no seu travo rançoso, aos palatos de quem bebia pela primeira vez o néctar inebriante da liberdade. Inebriante porque deu em ressaca. E com a ressaca voltou o gosto pela choraminguice uivada. “Felizmente, os tempos de hoje são bem diferentes", diz o presidente. E diz muito bem, felizmente para ele e para todos os que espezinham a gentalha pouco recomendável mas devidamente resignada e grata pelos açoites que leva nos lombos. “Lembra-nos sobretudo que a crise não se vence apenas com a economia, vence-se também com a cultura, criatividade e alma”. Nesta frase outras questões se levantam: a crise vence-se? O presidente quer vencer a crise? Defina crise. Crise para quem? Criatividade? Criatividade de quem? Alma? Alma de quê? O senhor presidente não saberá que a alma foi sempre coisa negada aos escravos? Os escravos são objetos manipuláveis de acordo com os interesses dos seus amos. Não precisam de alma para nada... Ou talvez não. A existência da alma, imortal, sff, é a única esperança de quem é transformado em mero resíduo ou excremento de uma sociedade que prega moral enquanto semeia a imoralidade, que vangloria a arte e a criatividade e instaura a censura através da pauperização mental das massas.

 

Em termos musicais, a existência de estilos musicais é coisa que a mim pouco interessa. A música é boa ou é má. Se é fado ou não é fado, tanto me faz - reconheço a qualidade artística e poética de uma peça musical independentemente dos valores mais progressistas ou mais retrógrados que o vulgo associa a cada estilo ou género. Mas calha bem ver o Fado reconhecido como Património Mundial nos dias que correm, em que os salazares se multiplicam em cada esquina. Agora, só falta canonizar os pastorinhos, e teremos a díade da resignação e do sacrifício estúpido a guiar os passos da felicidade choramingona que, dizem eles, e muito bem, nos define. Enquanto vamos à bola, claro.

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publicado por Manuel Anastácio às 10:11
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Sábado, 12 de Março de 2011
Já que explodes...

 

 

 

Orelha Negra parece nome de organização secreta. E há, talvez, muito de secretismo narrativo num grupo de Hip Hop que consegue ir além dos tiques revoltados mas ociosos deste género cultural urbano. Da mesma forma, Vhlis, como assina o artista português Alexandre Farto, reinventa a arte de marcar o espaço urbano através de meio que só aparentemente é mais violento e subversivo que a vulgar graffitagem com latinhas de spray. O trabalho de Vhils consiste em rasgar o estuque das paredes através da colocação paciente de explosivos sobre a sua superfície. Se o resultado final é belo, o fascínio do fogo e da explosão pede mais que o simples divertimento perante as bombinhas de carnaval. Há nestas imagens lentas de um processo de destruição calculada a chave metafórica para a mudança do mundo, do indivíduo e da sociedade. Há, sempre, no acto de fazer nascer, um gesto de morte.

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publicado por Manuel Anastácio às 12:49
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Como vais?

 

Michel Gondry tem neste vídeo das Living Sisters uma atitude poética nihilista que funciona bem com o dia de hoje. Chove e há meninos mimados na rua que não querem sujar as mãos com política, mas que querem ser tratados como bebés que são.

 

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publicado por Manuel Anastácio às 12:27
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Sábado, 25 de Setembro de 2010
U smile, Justin Bieber 800% mais lento

Excerto de "U smile", de Justin Bieber, tocado 800% mais lento. Sincronizado com imagens genesíaco-apocalípticas (a parte final, com imagens do próprio Justin Bieber, é menos conseguida - mas o que interessa mesmo é o som).

 

Sobre a experiência  que Nick Pittsinger decidiu fazer, ao tocar 800% mais lento uma canção pop fraquinha de um miúdo com voz de gaja chamado Justin Bieber, e que é o ídolo das meninas pré-adolescentes, já muito se escreveu na Internet. Que é parecido a Sigur Ros ou a música ambiente ou New Age (eu prefiro a primeira das hipóteses, ainda que sem grande intenção de a defender). As ideias mais tolas, desde que minimamente divertidas ou extravagantes, têm a capacidade de se disseminar neste meio como o vírus da gripe A jamais conseguiu e, no íntimo da sua cápsula proteica, gostaria de ter feito. Acontece que este fenómeno é particularmente interessante do ponto de vista estético. A obra musical deste fedelho, ao ser deturpada, tem um valor artístico superior ao da peça original. Se considerarmos que essa obra derivada continua a ser uma obra de arte. Ora, se o é, é apenas indirecta e involuntariamente. É o dilema clássico do lenhador que, inadvertidamente, esculpe uma vaca num lenho: a obra do acaso poderá ser uma obra de arte? A Arte Pop e o Dadaísmo deram pistas para a resolução do problema. É arte aquilo que considerarmos arte - inclusive aquilo que foi feito sem intervenção humana mas que, ao ser observado ou escolhido passa a ser objecto de intervenção e eleição por parte do Homem. Esse carácter electivo é, de facto, a característica principal da Arte. A vaca esculpida pelo lenhador, ao ser queimada, caso não tenha sido identificada a imagem, nunca chega a ser obra de arte, mas se for posta a enfeitar a casa do lenhador, já o passa a ser, ainda que, eventualmente, um crítico de arte a venha a considerar mero artesanato. O problema da música esticada de Bieber (que é arte acústica de maior valor que muita feita intencionalmente) prende-se com a autoria. Nick Pittsinger não aceita ser o autor, já que se limitou a distender o tempo de execução de uma gravação de forma mecânica. Mas não se pode imputar a autoria a Bieber porque este não escolheu tocar assim nem cantar assim (e se tivesse escolhido não teria a fama que tem entre as meninas da mesma idade). A alteração mecânica simples da obra de outra pessoa, ao tornar irreconhecível o material original, não pode, do meu ponto de vista, ser considerado, sequer, obra derivada. É uma obra original, que deve a Justin Bieber tanto quanto o escultor de madeira deve à árvore abatida. E o seu autor é, sem dúvida, colectivo. Começa em Pittsinger e continua rede fora, mails fora, viralmente, sempre que alguém a ouve e se questiona quanto ao seu valor íntimo, espiritual, estético e filosófico.

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publicado por Manuel Anastácio às 13:53
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Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010
IX

 

 

 

O gótico foi um estilo artístico medieval que se definia, estruturalmente, pela ascensão. Hoje em dia, os chamados góticos definem-se estruturalmente pelo peso e pela atracção pelo abismo. Sempre houve este desejo doentio pelo que morre e pelo que cai nas trevas. Valha-nos o Monte dos Vendavais. Nunca vi nenhum filme nem li nenhum livro da chamada "Saga" Twilight (apesar dos produtos anexos serem explícitos quanto à coisa) e os vampiros de agora são todos uns coisos que não vale a pena nomear. Que diferença entre esta vampiresca moda e o Nosferatu de Murnau... A profundidade do mito ao serviço da expressão da Condição Humana desceu (ou subiu - à superficialidade) às partes baixas dos adolescentes e,em vez de sangue, que segundo o Renfield do Bram Stocker, era vida, são as hormonas a ditar a lei da parte escura da alma. Talvez tenham razão. Calo-me. Às vezes a verdade vem ao de cima, quer dizer, à superfície, como o azeite - ou os elefantes.

 

Isto só para apresentar o vídeo da Florence Welsh. Gótico à moda moderna, para essa Saga que ainda não vi. E lembro-me, entretanto, que não apareci no lançamento do segundo volume da Lua da Anabela Lopes, porque não pude mesmo (ela deve julgar que não apareci porque não me deu a ler o livro antes, como tinha prometido inicialmente.... :| )... E não faço ideia onde é que o livro está à venda, por isso ainda continuo sem saber se a Lua, ao entrar na pré-adolescência, se rendeu à licantropia ou se tornou vestal... Entretanto, tenho umas resenhas sobre livros da Gláucia que estão a custar a parir. Muitas folhas, muitos apontamentos, muita responsabilidade nas palavras que aqui gravar, muito medo de meter os pés pelas mãos... Gláucia, uma coisa lhe garanto: não há dia que não passe desde há dois meses atrás (mais: a sua assinatura é de Maio, Deus meu!...) que não me julgue em dívida. Já escrevi muito sobre as suas palavras. O pior é dar-lhes luz. Banhá-las com a luz do sol que (antigamente) matava os vampiros. Tenho a "Trilha de Ausências" aqui ao lado. A capa vai dando sinais de uso. E o mesmo acontece ao Marujo Verde que, coitado, é obrigado pela minha insistência a voltar ao alcance da bocarra do Dragão de Komodoro ou das setas dos caçadores de cabeças... para não falar daquele cão azul nunca visto, saído da mochila amarela de Mariela... É assim, há meses para mim cheios, sem que deles reste registo fóssil ou outra coisa que aos outros preste.

 

Mas já falei de mais. Aliás. Hoje nem era para dizer coisa nenhuma. Falei e disse. E quem fala assim, na verdade... às vezes gagueja.

 

E queria aproveitar para mandar um beijinho e um abraço ou vice-versa, conjuntiva ou disjuntivamente... posso?... para... adivinhem. Esqueçam. Não vou mandar beijos para ninguém. Nem abraços. Se os querem, venham cá buscá-los, que é de graça.

 

Perdoem-me a parvoíce.

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publicado por Manuel Anastácio às 22:02
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Domingo, 12 de Setembro de 2010
VI

 

Jacques Loussier Trio - Gavotte em Ré maior - 2004 (Leipzig)
Não há músico mais intemporal que Bach. Não é o cume da música barroca, nem o cume da História da Música. Em vez de Ribeiro (Bach), dizia eu aos cinco sentidos residentes na cóclea do ouvido interno, deveria Bach chamar-se Fluss (rio) ou, quiçá, Meer (mar). Diz-me a retina dos olhos que poderia ser Oceano. Ozean, em alemão, soará bem a qualquer impositor de nomes artísticos. Ozzy para os amigos. Mas, pensando bem, não está correcto. Johann Sebastian não é Bach, mas Quelle. Nascente. E, isto, porque Grundwasserspiegel seria difícil de pronunciar.

 

 

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publicado por Manuel Anastácio às 21:52
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