Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008
Fábulas de Esopo: O homem e a serpente

Excerto de "A Sagração da Primavera" de Stravinsky, Pina Bausch, Wuppertal Tanztheater

Por azar, em acidente,
O filho de um fazendeiro
Tropeçou numa serpente,
Que dando troco certeiro
O mordeu até matar.
O pai, feito justiceiro,
Em raiva a foi procurar
E munido de um machado
P'la cauda se fez cobrar,
Deixando o bicho amputado.
A serpente, enraivecida,
Virou-se-lhe contra o gado
Causando-lhe, de vencida,
Um enorme prejuízo.
Com a esperança perdida,
Perante um fim indeciso,
Pensou este lavrador
Fazer o que era preciso.
À toca do predador
Foi levar pãozinho e mel
E disse, apaziguador:
"Minha cara cascavel,
Creio que chegou a hora
De, enfim, pedir quartel.
Que sentido tem agora
Manter esta divergência?
É viúva a minha nora
Pela tua violência,
E mortos os animais
Que me davam subsistência.
Que podes tu querer mais
Que não te console já?"
E foi com palavras tais
Que apelou à bicha má
Contra o orgulho ferido.
"A mim tanto se me dá"
Disse o verme enraivecido
"Que me venhas com presentes,
Que não nos é concedido
Ignorar que estão ausentes,
Para sempre, a cauda minha,
Primo orgulho das serpentes,
E o que já não acarinha
Tua parental esperança."
A moral já se adivinha
Desta dança e contradança:
É possível perdoar,
Mas jamais a confiança
Se fará do olvidar.

 

(versão de Manuel Anastácio)

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publicado por Manuel Anastácio às 06:00
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1 comentário:
De Artur a 31 de Dezembro de 2008 às 11:37
vê-se bem que estamos em pausa lectiva. já ganhamos tempo para outros prazeres. obrigado por animares as leituras diárias!

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