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Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008
O Messias

Händel: For unto us a child is born & Glory to God (O Messias): Árias para Coro (The Choir Cantillation & The New Baroque Ensemble) dirigidas por Antony Walke. Sara Macliver como soprano. Por recomendação do Vítor I, do Abaixo de Cão.

 

Corre o ano de 1741. Sobre um morro que se debruça sobre um lago artificial, George Frideric Handel sente a cabeça a latejar com notas de puro amor entrelaçadas ao mais puro cinismo da bíblica poesia que deveria inspirar um sexagenário habituado aos favores de uma alta sociedade que agora o ignorava. Está no centro de um octógono em estilo paladiano, formando o que se chama de templo de jardim. Na outra margem do lago ergue-se o peristilo de seis colunas da mansão georgiana de Gopsall Hall. Mais dois séculos e uma década passarão e nada restará daquele Paraíso a não ser as bases das colunas que agora rodeiam Handel. A primeira coisa a cair, menos de um século após este Verão de inconstantes humores, será a cúpula que agora cobre o compositor que vacila entre as dores do corpo e a quase inconsciência produtiva da mão que entrega tudo o que pode aos versos que o melancólico dono dos jardins surripiou à Bíblia.

 

Cada vale será erguido, cada monte, cada outeiro, abatido; o terreno sulcado, nivelado e o escabroso, aplanado. Isaías 40, 4

 

Gopsall Hall, Pieter Tillemans, primeira metade do século XVIII, Paul Mellon Centre for studies in British Art.

 

Sobre a cúpula, ergue-se uma estátua representando a Religião, escupida por Louis François Roubiliac, que mais tarde esculpirá a última pedra a cobrir o corpo do compositor, na Abadia de Westminster. Jennens, o autor do libretto que ocupa a mente de Handel, é um non-juror. Um dos que se recusaram a prestar juramento de lealdade a Jorge I, inaugurador, protestante, da linha real de Hanôver. Jennens, neto de um magnata das minas de ferro, é particularmente obcecado pela ideia de um cristianismo primitivo, de longe mais puro que o cristianismo contemporâneo, mas, tal como o jovem rico do capítulo XIX do Evangelho de São Mateus, não deixa os bens terrenos em mãos alheias, adornando as suas posses com tesouros de lavra humana. Tenho para mim que, graças a Deus, em tais séculos, não havendo em que gastar os lucros excessivos, as grandes famílias recorriam aos artistas para escoar o dinheiro que não conseguiam empregar noutro sítio. Não fosse assim e o espólio cultural que hoje temos à disposição seria de uma aridez constrangedora. Certo é que, ao passar junto às pedras lavradas que tanto amo, tantas vezes me ocorre pensar nas vidas que foi necessário sacrificar às trevas da fome e da ignorância para que se erigissem o portal das Capelas Imperfeitas ou um simples capitel românico da Igreja de Fontarcada. Cada pormenor que agora me deslumbra traz em si o eco escarlate do sangue e o brilho nacarado da indiferença.

 

Porque para nós nasceu um menino, um filho nos foi dado; sobre os seus ombros recairá o governo, e chamar-se-á Maravilhoso, Conselheiro, Deus Todo Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz. Isaías 9, 6

 

Estátua à Religião de Louis François Roubiliac, Belgrave Hall Museum, Leicester City Council

 

Corre o ano de 1741.Handel talvez nunca tenha estado naquele morro, junto àquele lago, no centro do octógono pagão convertido à geometria sagrada cristã dos templários, de San Vitale de Ravena,da Charola do Convento de Cristo, da Capela de Carlos Magno e do Santo Sepulcro em Jerusalém. Nem sei se a brisa lacustre dos jardins alguma vez poderia inspirar os movimentos sagrados do nascimento, da transformação e da exaltação. Adão e Eva nada sabiam da sua sacra condição quando ingenuamente seguiam por entre as árvores e os arbustos de uma eternidade adiada. Sei que o oratório "Messias", tenha sido ele escrito entre colunas e vegetação ou entre quatro paredes mal caiadas, é mais que um hino à religião e à triste ideia da necessidade de um Messias sobre cujos ombros recaia o governo de uma espécie ingovernável. É um Hino à brisa da tarde e às transformações íntimas da Natureza. Um Hino à circularidade do tempo. Um Hino à perfeita forma de Deus, que não residindo no Homem, por ele é constantemente contemplada. A forma octogonal do eterno desejo da perfeição.


 

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publicado por Manuel Anastácio às 05:00
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