Domingo, 28 de Dezembro de 2008
Este ano foi cocó

Fezes de coelho, Santa Maria de Airão, São Pedro de Oliveira, Guisande ou coisa que o valha, Dezembro de 2008

 

Sucessão e engano é a rotina do relógio. O ano não surge menos vão que a vã história. Di-lo Borges, no artigo anterior.

 

Os Gato Fedorento começaram o ano com os portugueses a cantarem "este fim de ano... foi uma merda... foi cocó...". Mas se há coisa que prezo são as fezes, tão maltratadas pela nossa cultura cropófoba. Os hindus, mantendo um dos traços distintivos de uma suposta cultura-mãe hindo-europeia, veneram as vacas como fonte de vida e alimento, não só por causa do leite que produzem, mas também pela bosta. É a bosta que fertiliza os campos. A bosta ainda em decomposição, graças à acção das bactérias que lhe dá o cheiro, irradia calor que pode ser utilizado para vários efeitos, inclusive para aquecer a cama de muitos seres humanos por esse mundo fora. Seca, serve de combustível (de facto, é composta principalmente por celulose, madeira, portanto). Pode ser utilizada como cimento na produção de tijolo de adobe. É ainda utilizada por muita boa velhinha na selagem do forno enquanto se faz o pão rústico dos nossos sonhos de Inverno. E há até uma terrinha em Portugal onde é a bosta de vaca que, caindo sobre o quadrado certo desenhado no campo de futebol da freguesia, determina o vencedor de um sorteio. Há concursos de lançamento de bosta (de elefante, por exemplo) em várias partes do globo. Já há empresas que fazem papel de qualidade com bosta (novamente, a preferência vai para a do elefante). A bosta é, ainda, uma fonte inesgotável de biomassa.

 

Estava a falar com os meus alunos sobre os fósseis e, mais especificamente, sobre os fósseis dos dinossauros. Falei dos embriões petrificados encontrados na Lourinhã. Mas nada entusiasmou mais os meus ouvintes que a existência dos cropólitos, ou bostas convertidas em pedra, graças às quais tanto sabemos sobre os hábitos alimentares dos antepassados das galinhas.

 

É por isso que, perante a evidente decomposição que ameaça o mundo, ainda posso sorrir. O tempo é um enorme cropólito do qual ainda emana o calor bacteriano de outrora e que nos oferece, de futuro, uma limpa e mineral imagem do passado. 2008 foi cocó. Só falta dar-lhe sentido. Quanto a isso, deixem-me ser céptico.

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publicado por Manuel Anastácio às 13:36
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