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Sábado, 27 de Dezembro de 2008
Instantes, de Borges

Pôr-do-sol em Porto Covo. Foto de Joaquim Alves Gaspar, em GFDL e Creative Commons.

 

Conta-se que na livraria Alfonso Guerra, em Sevilha, uma mulher se dirigiu a María Kodama, mulher de Jorge Luís Borges, confessando-lhe a sua admiração pelos versos citados no artigo anterior. Kodama, agastada, respondeu: "Si Borges hubiera escrito eso yo habría dejado de estar enamorada de él en ese momento". "El poema, sin ningún valor literario", escreveu Kodama, "desvirtúa el mensaje de la obra de Borges. Amparándose en una firma famosa, se intenta transmitir un sentido de la vida completamente materialista, sin ninguna busca de perfección espiritual ni inquietud intelectual".

 

Vejamos o poema "O Instante" de José Luís Borges, que integra o seu "O Outro, o Mesmo":

 


 

¿ Dónde estarán los siglos, dónde el sueño
De espadas que los tártaros soñaron,
Dónde los fuertes muros que allanaron,
Dónde el Árbol de Adán y el otro Leño?
El presente está solo. La memória
Erige el tiempo. Sucesión y engano
Es la rutina del reloj. El año
No es menos vano que la vana historia.
Entre el alba e la noche hay un abismo
De agonias, de luces, de cuidados.
El rostro que se mira en los gastados
Espejos de la noche no es el mismo.
El hoy fugaz es tenue y es eterno;
Otro Cielo no esperes, ni otro Infierno.

 

 

Eis a minha tradução/adaptação:

 

 

Onde os séculos, onde a alucinação

De espadas com que os tártaros sonharam,

Onde os perenes muros que arrasaram,

O outro lenho e a Árvore de Adão?

Solitário, o presente. A memória

Erige o tempo. Sucessão e engano

É a rotina do relógio. O ano

Não surge menos vão que a vã história.

Há um abismo, entre a alva e a noite,

De agonias, de luzes, de cuidados.

Nem igual o rosto nos desgastados,

Turvos, reflexos dos espelhos da noite.

O hoje fugaz é ténue, é eterno;

Outro Céu não esperes, nem outro Inferno.

 

A minha tradução/adaptação foge um pouco à regra do que é costume nas traduções para português da poesia de Borges, que seguem a fácil transposição vocabular e desprezam a forma escolhida pelo poeta, neste caso, um soneto. Em português, sonho não rima com lenho (e não encontro, no tempo que tenho, vocábulos que permitam tal correspondência) nem mesmo rima com abismo. É certo que duvido que haja alguém que entenda português e que não entenda o poema original. Por isso, veja-se a minha tradução/adaptação como mero exercício.

 

Voltando a Maria Kodama, este poema é deveras elucidativo da diferença colossal de estilo entre a simplicidade do, involutariamente, pseudo-Borges, Don Herold e a complexidade sempre presente na poesia e na prosa de Jose Luis Borges. Mesmo que o "Instantes" fosse de Borges (o que, como diz Kodama, seria uma traição estilística cometida pelo próprio autor, a ponto de se confundir com um poético adultério), quem quer que fosse que amasse a escrita de Borges jamais deveria amar especialmente este poema. Ora, os comentários que se disseminam na net a respeito do poema "Instantes" é bem revelador do logro que todos nós sabemos que compõe, em grande parte, as preferências estéticas de grande parte dos indivíduos. Se o poema estivesse apenas assinado por um obscuro Don Herold, o máximo que se leria, seria "que belo poema!" ou "que poema comovente e verdadeiro!", sempre realçando o seu forte apelo à identificação com as mais básicas (e, claro, verdadeiras) emoções próprias do ser humano. Mas jamais se passaria para o ponto absoluto de se considerar este o melhor poema de Borges.

 

Num dos sites em que entrei, à procura de opiniões sobre o poema, leio, contudo, um comentário que muito me satisfez:

Sempre recebo textos desse tipo e fico pensando.... será mesmo que o Jorge Luiz Borges e os outros autores estão certo quando dizem que teriam feito muitas outras coisas??? Na verdade, acho que seria muito mais legal ele, por exemplo, ter apreciado a lentilha dele do que pensar no sorvete que ele não possui.... Por que desistir de buscar a perfeição??? Já pensou por esse lado???

 

Este leitor, que leu o poema como tudo o que é escrito deve ser lido, com espírito crítico, apercebeu-se imediatamente de que falta estrutura ética ao mesmo. O poema é apenas uma exaltada e superficial apologia ao mais acrítico dos epicurismos, sem qualquer inquietação metafísica, que é sempre a imagem de marca de Jorge Luis Borges. Este leitor, sem ser "culto" ao ponto de dizer simplesmente "esta coisa não é de Borges!" é o leitor que faz falta. É o cidadão que faz falta. Lê a poesia pelo que ela é, não por quem a escreveu. E acredito que quem lê poesia assim, também lerá o mundo da mesma forma.

 

Na circular (ou espiral) evolução das ideias, seria bom que o autor fosse um pouco mais dessacralizado. O Homem que escreve, que pinta, que projecta, que cria é, enquanto ser humano, mais digno que qualquer uma das suas obras, mas em termos de perenidade da arte, seria importante que o génio fosse descentrado do criador e procurado na criação.

 

De facto, é a tendência para considerar os Homens de excepção como génios incontestáveis que permite argumentações tão ocas quanto as dos (anti)pensadores New Age que, sem nada saberem sobre as teorias científicas de Newton ou de Einstein, se socorrem do interesse vagamente demonstrado por estes homens a respeito de matérias mais obscuras, para defenderem a profunda verdade das suas economicamente produtivas crenças.

 

Ontem, vi na TV2 um documentário sobre as capacidades intelectuais dos símios e a sua comparação com as mesmas no ser humano. Uma das experiências consistia em mostrar uma caixa opaca, com um orifício por onde saía uma guloseima. O experimentador ensaiava, frente ao macacos e às crianças, um conjunto de procedimentos absolutamente desnecessários para a obtenção da guloseima. Mas como a caixa é opaca, tanto as crianças como os símios repetiam o mesmo ritual para a obtenção do reforço positivo. Numa segunda fase da experiência, a caixa é transparente, e torna-se visivel que muitos dos procedimentos rituais do experimentador são, em absoluto, inúteis para a obtenção da guloseima. Os macacos saltam de imediato todos os procedimentos desnecessários, obtendo rapidamente a sua recompensa. As crianças humanas, contudo, ainda que se apercebam da inutilidade de muitos dos gestos, respeitam o ritual de forma servil e acrítica e só depois acedem à recompensa. O comentário feito aos resultados é simples: aquilo que pode parecer uma desvantagem dos seres humanos em relação aos símios (que, neste caso, parecem ser mais espertos) é, em termos evolutivos, uma enorme vantagem. A vontade de copiar os procedimentos dos adultos permite a um ser humano, no pequeno período da sua infância e juventude, saltar todas as descobertas que os seus avós foram acumulando. A atitude servil do ser humano em relação ao mestre é uma atitude vantajosa em termos evolutivos. Por isso se compreende que, desde que existem documentos escritos que existem, também, textos falsificados e assinados por pseudo-mestres (muitos deles estudados e comentados por Jorge Luis Borges). A assinatura falsa de um texto confere-lhe, à partida, uma vida que não teria com outra assinatura. Neste caso, utiliza-se uma atitude intelectual da espécie, que tem fundamentos biológicos, para falsear o próprio sistema de ideias humano que, em última análise, é o meio e o fim da evolução da humanidade. Reside aqui, na sua própria génese, uma das sementes da notável auto-destruição que acompanha a história da Humanidade. Crescemos porque imitamos e reverenciamos, mas como também sabemos manipular a Natureza, conseguimos envenenar a corrente criativa de que nos deveríamos orgulhar.

 

Estas reflexões têm consequências a nível das teorias da educação que durante as últimas décadas tanto se pelaram pela aprendizagem pela descoberta e outros logros ideologicamente orientados e socialmente irresponsáveis (que persistem, por exemplo, nos programas educativos propostos pelo Ministério da Educação português), ao legitimarem, de forma obscena, a mais crua reprodução social, sob o pretexto de o estarem a minorar. No fundo, as propostas dos nossos pedagogos mais ilustres limitam-se a colocar as crianças ao nível dos macaquinhos. Recompensa-se a esperteza em vez da inteligência e o respeito pela autoridade da sabedoria. O resultado é do conhecimento de todos.

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publicado por Manuel Anastácio às 15:58
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2 comentários:
De Gerana a 28 de Dezembro de 2008 às 02:17
É fato que "Instantes" denuncia por si mesmo que Borges não o escreveria. Entrei no Betty, que você aponta na postagem anterior e ela remete ao jornal de poesia de meu amigo Soares Feitosa, o mesmo que eu citei. Favorzinho: coloque seus poemas lá, é um site muito conhecido, vale a pena.
De Manuel Anastácio a 28 de Dezembro de 2008 às 02:37
Farei isso com certeza, Gerana.

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