Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008
Instantes, do pseudo-Borges

Um mais claro tom de palidez, para uma ária de Bach. A Whiter Shade of Pale, Procol Harum.

 

A respeito da minha machadada no falso Shakespeare da auto-ajuda que publiquei no último artigo, a Gerana referiu-se a outro texto apócrifo, desta feita atribuído a um autor contemporâneo: Jorge Luís Borges. O texto chama-se "Instantes" e Gerana interroga-se quanto à autoria do poema. Uma coisa é certa: Jorge Luís Borges é que não é, de certeza. Aventou-se ainda a possibilidade de ter sido escrito por outro Jorge Luís Borges que não aquele que nunca recebeu o prémio Nobel da Literatura, mas que, obviamente, o deveria ter recebido.

 

O poema é este, em espanhol:

 

Si pudiera vivir nuevamente mi vida,

En la próxima trataría de cometer más errores.

No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más.

Sería más tonto de lo que he sido,

de hecho tomaría muy pocas cosas con seriedad.

Sería menos higiénico.

 

Correría más riesgos,

haría más viajes,

contemplaría más atardeceres,

subiría más montañas,

nadaría más ríos.

 

Iría a más lugares adonde nunca he ido,

comería más helados y menos habas,

tendría más problemas reales y menos imaginarios.

 

Yo fui una de esas personas que vivió sensata

y prolíficamente cada minuto de su vida;

claro que tuve momentos de alegría.

Pero si pudiera volver atrás trataría

de tener solamente buenos momentos.

Por si no lo saben, de eso está hecha la vida,

sólo de momentos; no te pierdas el ahora.

 

Yo era uno de esos que nunca

iban a ninguna parte sin un termómetro,

una bolsa de agua caliente,

un paraguas y un paracaídas;

si pudiera volver a vivir, viajaría más liviano.

 

Si pudiera volver a vivir

comenzaría a andar descalzo a principios

de la primavera

y seguiría descalzo hasta concluir el otoño.

 

Daría más vueltas en calesita,

contemplaría más amaneceres,

y jugaría con más niños,

si tuviera otra vez vida por delante.

 

Pero ya ven, tengo 85 años y sé que me estoy muriendo.

 

 

Agora, uma das traduções em português mais difundidas:

 

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,

na próxima trataria de cometer mais erros.

Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.

Seria mais tolo ainda do que tenho sido;

na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiénico. Correria mais riscos,

viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,

subiria mais montanhas, nadaria mais rios.

Iria a mais lugares onde nunca fui,

tomaria mais sorvete e menos lentilhas,

teria mais problemas reais e menos imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu

sensata e produtivamente cada minuto da sua vida.

Claro que tive momentos de alegria.

Mas, se pudesse voltar a viver,

trataria de ter somente bons momentos.

Porque, se não sabem, disso é feito a vida:

só de momentos - não percas o agora.

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma

sem um termómetro, uma bolsa de água quente,

um guarda-chuva e um pára-quedas;

se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver,

começaria a andar descalço no começo da primavera

e continuaria assim até o fim do outono.

Daria mais voltas na minha rua,

contemplaria mais amanheceres

e brincaria com mais crianças,

se tivesse outra vez uma vida pela frente.

Mas, já viram, tenho 85 anos

e sei que estou morrendo.

 

Benjamin Rossen refere a existência de versões em francês, finlandês e sueco. Provavelmente, é o mais lido de todos os textos de Borges. E, no entanto, não foi ele que o escreveu. Tenho a impressão que ele se divertiria com a situação - aliás, quase parece ter sido retirada do seu universo, onde não faltam reflexões ao sentido da autoria. É frequente que os grandes génios sejam reconhecidos pela multidão, não pelo que fizeram, mas por aquilo que nunca teriam feito, mas que é mais digerível por essa multidão. A multidão que tem gosto em dizer que também gosta de Luís Borges, especialmente daquele poema de velhice, tão sentido e cheio de coisas verdadeiras, que são mesmo assim, e que fazem chorar as pedras da calçada... A multidão adora os grandes (mas têm mesmo que ser muuuuuito grandes!) vultos da cultura, mas adora-os pelo nome que são obrigados a reverenciar desde o tempo da escola ou porque o opinion maker da moda disse que é um grande artista. Eventualmente, alguém de entre a multidão compra um livro e lê a primeira página. Cansa-se. As palavras são estranhas e parece nada quererem dizer. O referente é outro. Tudo parece repetir-se de forma enfadonha e ainda não se virou a página. O livro é arrumado. Mas, nessa mesma tarde, abre-se um mail, e lá vem uma apresentação Powerpoint cheia de ursinhos, fotos com pôres-de-sol, gatinhos, cachorros fofinhos, corações e grinaldas de flores suspensas de gifs animados representando pombas. E, no fim, assinado: Jorge Luís Borges. E o sujeito sente-se reconfortado. Afinal, pelo menos este poema é fácil de compreender, e até é bonito. E foi escrito pelo Borges. E sente-se iniciado na grande literatura. Já não é burro de todo.

 

Na verdade, a primeira vez que ouvi este poema foi na Antena 2, que é a rádio "culta" de Portugal. Foi na comemoração de uma data qualquer que não fixei. Uma voz serena, talvez de Luís Caetano (não tenho a certeza), lia o poema de Borges. Confesso que não me pareceu Borges, mas também não pus as mãos no fogo. Deixei passar. Embora nunca mais tenha encontrado tal poema em lado algum das suas obras completas.

 

Na Folha de São Paulo de 17 de Dezembro de 1995, o poeta brasileiro Moacir Scliar confessa-se como um dos culpados na divulgação do poema, num artigo a que chamou "Versos Infames: A Fragilidade da Falsificação". Tendo tido conhecimento dele na Argentina, em 1987, transcreveu-o no jornal Zero Hora, no Brasil. Conta que “a repercussão foi extraordinária. ... ... imediatamente surgiram cópias que eu encontrava afixadas em lugares os mais variados: casas de amigos, restaurantes, repartições públicas. Ao mesmo tempo, pessoas me escreveram de Buenos Aires, contestando a autoria de 'Instantes'." Segundo Scliar, o texto teria sido escrito por uma norte-americana, Nadine Stair de seu nome, e "publicado numa antologia da Bantam, e divulgado por Leo Buscaglia, autor de muitos livros de auto-ajuda. Em 1986 o texto apareceu em Buenos Aires numa revista tipo New Age, intitulada “Uno Mismo”. Daí chegou aos rádios, aos jornais e ao xerox...”

 

Assim nasce o mais mítico (em todos os sentidos) dos poemas de Borges. Mas não pára aqui. Maria Kodama, a esposa de Borges, chegou a pedir à justiça argentina para que deixassem de depositar na sua conta os direitos de algo que o marido jamais havia escrito.

 

Mas quem escreveu o poema, afinal? Nadine Stair?

 

O texto (que não é) de Stair é o seguinte, em inglês. Nota-se que o plágio feito na versão espanhola (cronologicamente anterior à portuguesa) é quase total, à excepção da parte final de ambos os poemas.

 

If I had my life to live over again,

I'd try to make more mistakes next time.

I would relax.

I would limber up.

I would be sillier than I have been this trip.

I know of very few things I would take seriously.

I would be crazier.

I would be less hygienic.

I would take more chances.

I would take more trips.

I would climb more mountains, swim more rivers, and watch more sunsets.

I would burn more gasoline.

I would eat more ice cream and fewer beans.

I would have more actual problems and fewer imaginary ones.

You see, I am one of those people who live prophylactically and sensibly and sanely.

Hour after hour. Day by Day.

Oh, I have had my moments, and if I had it to do over again, I'd have more of them.

In fact, I'd having nothing else.

Just moments, one right after another instead of living so many years ahead of each day.

I have been one of those people who never go anywhere without a thermometer,

a hot water bottle, a gargle,

a rain coat, and a parachute.

If I had it to do over again, I would go places and do things and travel lighter than I have.

If I had my life to live over, I would start barefoot earlier in the spring and stay that way later in the fall.

I would play hockey more often.

I would ride more merry-go-rounds.

I'd pick more daisies.

 

Note-se que uma das características principais deste tipo de poema que tão facilmente encanta as massas consiste no uso, até à exaustão, da anáfora - que também aparece no poema que referi no meu último artigo, ainda que no caso de "After a While" a repetição de palavras no início dos versos se deva à contínua colaboração de autores anónimos que foram acrescentando o seu verso utilizando a mesma fórmula inicial. Aqui, verifica-se o fenómeno inverso: o poema original faz maior uso deste recurso estilístico que, entretanto, se perde numa constante aliteração de "ia"s, devido à tradução.

 

Entretanto, o poema não foi, de facto, originalmente escrito por Nadine Stair, mas por Don Herold, na Revista das Seleções do Reader's Digest, de Outubro de 1953. O que significa que o poema não é um simples plágio, mas o plágio de um outro plágio. O resto da história deste apócrifo pode ser lida, em detalhe e com todas as fontes brilhantemente citadas neste texto de Betty Vidigal.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 13:35
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2 comentários:
De Gerana a 27 de Dezembro de 2008 às 01:25
Manuel: foi o texto mais completo sobre o assunto que já tive oportunidade de ler. Queria que você enviasse para o site de um grande amigo meu, o poeta Soares Feitosa. O Jornal de Poesia é o mais completo site de e sobre poesia que conheço. Imagine que você indo para o lugar das letras do alfabeto e clicando em G e buscando meu nome, você encontra até esta humilde e pseudo poeta. Queria muito que você participasse e enviasse também alguns poemas. Estou passando o endereço que leva direto para a problemática do poema "Instantes". Este seu texto da postagem tem e deve figurar ali porque é o mais abrangente.
http://www.jornaldepoesia.jor.br/jlb02e.html
De Manuel Anastácio a 27 de Dezembro de 2008 às 11:07
O texto da Betty Vidigal (que está marcado com um link) parece-me ser muito mais abrangente que o meu. Sei que houve outro site ainda mais completo sobre o mesmo tema, mas não está acessível actualmente.

Dizer de sua justiça

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