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Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008
Espera um pouco mais, e verás

Rio Medellín, Colômbia. Natal de 2004. Foto de Aliman5040,  em GFDL.

 

Este poema, "After a while" anda a percorrer a internet como sendo de Shakespeare. Ora, não é Shakespeare nem no estilo nem no conteúdo. Não é bem o meu tipo de poema, mas tem algum interesse sociológico e, mesmo, estético, já que nasce da remisturagem de um poema inicial de Veronica A. Shoffstall com as verdades que cada um lhe quer acrescentar, num processo que faz lembrar os cadáveres esquisitos do surrealismo renomeados, na era da Internet com o título de textos-frankenstein. Ora, vou também participar no processo, apertando alguns parafusos entre os membros desconjuntados deste monstro simpático e criar o meu próprio monstro. Qualquer semelhança com o original não será, portanto, pura coincidência, com todos os seus tiques de livro de auto-ajuda barata. Antes, apresento o texto original, em inglês.

 

Feliz Natal para todos.

 

 

After A While

After a while you learn
the subtle difference between
holding a hand and chaining a soul
and you learn
that love doesn't mean leaning
and company doesn't always mean security.
And you begin to learn
that kisses aren't contracts
and presents aren't promises
and you begin to accept your defeats
with your head up and your eyes ahead
with the grace of woman, not the grief of a child
and you learn
to build all your roads on today
because tomorrow's ground is
too uncertain for plans
and futures have a way of falling down
in mid-flight.
After a while you learn
that even sunshine burns
if you get too much
so you plant your own garden
and decorate your own soul
instead of waiting for someone
to bring you flowers.
And you learn that you really can endure
you really are strong
you really do have worth
and you learn
and you learn
with every goodbye, you learn...

 

Veronica A. Shoffstall 

 

 ----------------------------------------------------------------

 

Espera um pouco mais e verás

que dar a mão não é prender ninguém à gratidão forçada,

Que Amor não é apoio

Nem presença é salvaguarda.

Espera e verás

que os beijos não selam contratos

e que os presentes nada mais prometem que aquilo que são.

Que os infortúnios não são derrotas

que nos encolham, em infantis cobardias

mas que, em dignidade, nos podem erguer à mais madura das ousadias.
Aprenderás que os caminhos são feitos hoje,

Que o amanhã é terreno inseguro e vão.

Que nem todos farão eco da tua boa vontade.

E que deves sempre reservar uma migalha de perdão

Até para quem, mais fortemente, usa da bondade.

Aprenderás que sol a mais, queima.

E que falar, não interessa como, alivia a dor.

E que a confiança é um castelo de cartas.

E que num só passo há um eterno acusador.

Que a amizade tem raízes mais largas que o olhar e que o estar.

E que não importa o quê, mas quem.
E que um amigo,
jamais genético acaso,

É sempre escolha e eleição,

Sempre em mudança, como tu,

Nada vos prendendo ao que não são.

Que o Amor é a mais escura via de comunicação.

Que as palavras que nos unem são quebradiças

E estalam de futilidade frente às destrinças

Que para sempre nos calarão.

Mas que há palavras que, depois, confortará terem sido ditas.
E que se somos fruto das circunstâncias,

Nossos são os versos, insignificâncias, com que as manhãs são escritas,.

Que de nada te vale comparares-te aos outros, mas ao que podes ser.

Que é preciso ter atenção às raízes enquanto esculpes o lenho da alma.

E que podes ser mais do que te poderá ser dado a parecer.

Aprenderás, por exemplo, que o tempo morre a cada instante e se escoa em vertigem.

Que não há destino nem advento.

Que ser flexível não é ser frágil,

que cada gesto é múltiplo, e cada olhar, fermento.

Que um herói também hesita.

Mas faz.
Que a paciência se exercita.

E que é dentre os que dizemos inimigos

Que virá, por vezes, a mão que se espera.

Que o Mundo ignora o Inverno na tua alma

E que é em ti, que deves procurar as sementes da Primavera.
Que a maturidade não é idade, mas percurso.

Que o que dizemos a uma criança nunca deve ser banal,

Que os seus sonhos são, do Mundo, o sonho principal.

Que o perdão também foi feito para nós mesmos.

Que mais vale ser injustiçado que ser injusto,

A não ser que ignores a justiça e a verdade.

Que todos odeiam, mas nada justifica a crueldade.

E, finalmente, aprenderás

Entre os adeus

Que os poemas nada esclarecem,

E que as verdades, em palavras, apenas se reconhecem.

(versão de Manuel Anastácio, adaptada de uma das muitas que circulam por aí)

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 11:12
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3 comentários:
De Gerana a 25 de Dezembro de 2008 às 15:22
Não gostei, parece poema de auto-ajuda.
De Manuel Anastácio a 25 de Dezembro de 2008 às 21:13
Eheheh. E não é mesmo? Repara que digo no início que não é o meu tipo de poema. E que é, claramente auto-ajuda barata. Não é para gostar, mesmo. Mas há quem goste.
De Gerana a 25 de Dezembro de 2008 às 22:16
Eu li que você adverte quanto ao caráter de auto-ajuda mas podia ser algo do tipo "Instantes", que foi atribuído a Jorge Luís Borges e é um poema maravilhoso; até repito alguns versos na minha cabeça sempre que a ocasião suscita algo assim. Lembra da história do poema? E, afinal, quem escreveu "Instantes"?
"Natal" está lá, brilhando no Leitora.

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