Domingo, 21 de Dezembro de 2008
João Luís Carrilho da Graça, Prémio Pessoa 2008

Pormenor do Museu do Oriente, de João Luís Carrilho da Graça. Foto de Fernando Guerra

 

Carrilho da Graça é o segundo arquitecto a receber o Prémio Pessoa, depois de Souto de Moura há dez anos atrás. E merece, por razões diferentes das de Souto de Moura. Souto de Moura é dono de uma forma de fazer arquitectura que assenta na relação entre forma e materiais. Carrilho da Graça cria sementes de poesia no espaço sem se impor como criador. Recebe os elementos poéticos a que o lugar apela e adequa-os aos percursos íntimos de quem os vai habitar. Não tem  mérito por causa de qualquer pureza conceptual e linguística que caracteriza, por exemplo, o Siza Vieira, mas porque sabe que a arquitectura reside não nas formas, não nos materiais, não nas relações espaciais, não no projecto, mas nas pessoas. Carrilho da Graça é um criador colectivo, um líder, decerto, de várias sensibilidades que orquestra consoante a partitura que o momento pede - não é um criador pessoal, no sentido estrito e limitador do génio que concebe a obra total, mas o criador que interpreta as vontades e procura o eco dessas vontades no local onde vai intervir. Para isso precisa do saber técnico que determina a forma, mas precisa também, de dominar o saber próprio da compaixão própria dos grandes condutores de orquestra - dos condutores das vontades múltiplas que só ganham sentido através de uma liderança que permite uma emoção de base comum, sem prejuízo de uma posterior experiência subjectiva. E esta característica de Carrilho da Graça é que verdadeiramente justifica o Prémio, mais que a coerência da obra, "que se adequa ao ambiente onde é instalada", ou "a clareza e a limpidez das formas", ou a "capacidade de criar obra nova e recuperar obra antiga, uma função altamente criativa". Vivemos, actualmente, em Portugal, uma grave crise de lideranças própria dos momentos que sempre antecederam os mais trágicos episódios da história. Julga-se que o líder é aquele que impõe a sua vontade, o iluminado, ou, pelo menos, o mais iluminado que poderíamos ter. Carrilho da Graça é um exemplo das lideranças que fazem falta a Portugal. Precisamos de alguém que, como a Blimunda do Memorial do Convento, recolha as vontades. Não de alguém que determine as vontades. A entrega deste prémio é, talvez inconsciente e inadvertidamente, um acto político crítico, lúcido e necessário.

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publicado por Manuel Anastácio às 11:18
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