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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008
Carta aberta a Mário Soares

Pêndulo de Newton, Dominique Toussaint, em GFDL.

 

Desde pequeno que ouço gente, das mais variadas proveniências, dizerem que a família Soares sempre teve negócios escuros, escuríssimos, criminosos, lá nas Áfricas. É certo, também, desde pequeno, que ouço boatos parvos que ainda hoje persistem, como o que diz que a margarina é feita com espuma dos esgotos. Confesso que gostaria, um dia, de inventar um boato. É certo que nunca mo creditariam, mas gostaria. Mas um boato, porém, é um sussuro do vento, que é, como quem diz, um suspiro dos cobardes.

 

Lembro-me de, em pequeno, estar no terreiro da Ti' Augusta, sob uma tenda de oleado enfeitada com juncos e trepadeiras, no casamento da Beta com o Vitalino. Era muito pequeno. A minha grande preocupação do dia era se o prato (recolhido entre os vários serviços recolhidos entre os convidados para a ocasião) que me calharia teria um desenho mais vistoso que o do meu colega do lado. Chovia. O tecto da cabana de oleado ameaçava jorrar água por cima dos convidados do banquete nupcial. Os homens já tinham feito mortalha sobre garrafas vazias de vinho tinto e carpiam-nas (literalmente) para chamar a atenção das raparigas a quem ficara a tarefa de levar as travessas de fressura de borrego, chamado verde, terrinas de canja, cozido com folhas verdíssimas e outras dinossáuricas iguarias que hoje gostaria de voltar a provar e já não posso, apenas para que trouxessem mais álcool. Já se tinham batido os pratos, e o noivo já tinha beijado a noiva. Os pratos já tinham batido pelos avós, pelos pais, pelos vizinhos, pelos padrinhos e pelos amigos mais próximos dos noivos e, sempre, sempre, se seguira o beijo esperado, seguido de risos e cheiro a fetos fofos sob os pés. Excepto quando bateram os pratos pelos meus pais. Os talheres tangiam as loiças, sob o olhar aflito das donas dos respectivos serviços que choravam já as lascas de cerâmica que saltavam do vidrado da sua loiça de Sacavém. O meu pai, sentado, rígido, manteve-se no seu lugar. Os pratos continuavam a bater a ponto de escavacarem-se em pó de argila cozida. Ouviam-se impropérios contra a sua recusa em beijar a minha mãe em público.

 

Ele não a beijou.

 

Apesar de ter decorrido um eternidade até que os pratos e as colheres, gradualmente, se calaram.

 

Disse, mais tarde, que não era espectáculo para ninguém. A justificação pareceu-me plausível. Mas confesso que gostaria que ele a tivesse beijado. Não aconteceu. Por alguma razão. Talvez pela razão que me faz escrever, agora, uma carta aberta a alguém que nunca a lerá.

 

Nesse mesmo dia, ou talvez no dia a seguir, não sei, debaixo da tenda, começou alguém a cantar o hino de campanha de um candidato presidencial, de nome Freitas do Amaral. Para a frente, para a frente Portugal, diziam. Para mim, era indiferente que ganhasse o Freitas ou o Soares, mas naquele dia, perante a massa impressionante de apoiantes do Freitas do Amaral, impressionou-me a coragem do meu pai que se levantou e fez um discurso onde, por um lado, criticou aqueles que estavam a transformar o casamento da Beta e do Vitalino num comício eleitoral mas, por outro, tomou o partido do Soares por todos ali denegrido. Fez um discurso que câmara de filmar alguma registou. Era muito pequeno para avaliar a grandeza do discurso. Mas lembro-me do silêncio debaixo do oleado verde. Lembro-me do silêncio quando ele se sentou. Lembro-me do lento retomar do som dos talheres. O meu pai tinha dito algo de impressionante. Eu não sei o quê. Mas tinha sido eficaz. E, para mim, o Mário Soares ganhou aquela eleição por causa do meu pai e daquele discurso. Por causa daquele discurso, acreditei que o presidente Soares era algo como que um rei, mas um rei escolhido pelo Povo.

 

Ao longo do tempo, fui crendo que o presidente Soares era o cúmulo da sabedoria. Era o ancião dos tempos antigos. Amante da cultura e dos bons livros, culto, calmo, ponderado, mas corajoso. Corajoso.

 

Hoje, leio no Público que o Mário Soares elogiou a coragem da Ministra da Educação. Senti um baque no coração. Bem feito para mim. Quem me mandou a mim acreditar em reis escolhidos pelo povo? Mário Soares é apenas um homem. Tão homem e tão mal informado como a minha irmã, que também adora o Sócrates, mais a sua postura sexy decorrente das gravatas Armani. Mário Soares é apenas um homem. Um dia, esse homem perguntou a um Alentejano, perante as câmaras da televisão: "que árvore é aquela?". E o Alentejano, rural que baste, disse: "é uma oliveira, senhor Presidente!". Na minha terra toda a gente gozou aquele presidente sábio e culto que nem sabia o que era uma oliveira. Eu desculpei-o, mais tarde, ao verificar que no Alentejo, todas as árvores têm a  mesma forma para olhares menos treinados, sejam elas azinheiras, sobreiros, oliveiras, zambujeiros ou até, mesmo, alfarrobeiras. Desculpei-o por ser homem, e porque ninguém tem a obrigação de ser botânico.

 

Hoje, leio no Público que o Mário Soares elogiou a coragem da Ministra da Educação. E associei os dois episódios protagonizados pelo meu pai no casamento da Beta e do Vitalino. A incompreensível resistência do meu pai em beijar a minha mãe em público pareceu-me a absurda intransigência de um Ministério que se recusa a ouvir os talheres que ameaçam rachar a loiça. Mas a associação esvaneceu-se. O meu pai recusou-se por orgulho. Este governo recusa-se porque sabe que está a ganhar votos com as Hidras de Lerna que a maioria dos Portugueses nutriu no peito contra os professores que, no fundo, não são mais que funcionários públicos ainda mais preguiçosos que os outros.

 

Meu caro caro Mário Soares, que jamais lerá esta carta aberta: sou professor. Sempre acreditei que um professor precisa de tempo para ler, para investigar, para aprender, para, condignamente, poder ensinar. Pedem esse tempo, agora, para fazer portefólios, planificações de aula, matrizes, critérios, planos de planos e projectos de planos de planificações para planificar projectos. Essa coisa a que chama coragem, chamo eu de cobardia. Essa senhora sabe que está a tomar uma posição iníqua. Sabe perfeitamente que não é o mérito que se está a procurar, mas a poupança de mais uns cobres, dando a ideia de que está a fazer algo pela qualidade do ensino em Portugal. Está, com certeza. A fazer muito pela qualidade do ensino privado onde a família Soares tem firmadas as suas mais interesseiras raízes.

 

Interesseiras.

 

Hoje, o bochechas (com minúscula, sim), passou, para mim, a ser, mesmo, apenas o bochechas. Sem Claudinho. O bochechas passou a ser apenas uma figura ridícula que conspurca os poetas que cita. Hoje, envergonho-me de o meu pai ter defendido heroicamente o bochechas.

 

Para mim, hoje que o Manuel de Oliveira faz 100 anos, o Mário Soares fez 100 milhões. E restam, à minha frente, duas bochechas fósseis de caricatura, de uma criatura a quem a Geologia deveria, simplesmente, ter transformado em poeira e em figura mítica de uma resistência mais ou menos acobardada e confortavelmente mantida num exílio parisiense. Nada mais. Nem um pingo de inteligência.

 

O meu despeito é, talvez, interesseiro. No fundo, não sou mais que um professor a defender os seus "direitos adquiridos", não é assim? Caro Mário Soares, acredite que hoje o odeio tanto quanto odeio um certo Sócrates e uma certa Maria de Lurdes Rodrigues. Ódio. Puro ódio.

 

Ódio passivo. Jamais lhe daria uma chapada nessas bochechas, fosse aqui fosse na Marinha Grande. Jamais lhe atiraria ovos à cabeça ou à capota do carro. Jamais incitaria alunos a atirarem-lhe o quer que fosse à cabeça. Mas, se me perguntassem: "quem foi o bochechas?", agora, diria apenas "um homem, tão certo e tão errado como os outros. Tão ignorante como os outros, tão interesseiro como os outros". E acredite, caro leitor que jamais me lerá, que o ódio que hoje passei a ter por si (e contente-se, que os cientistas dizem que a área do cérebro que processa o ódio é a mesma que processa o amor) jamais passará os limites do meu direito à indignação. Indignação por não ser a pessoa que, por mais que me dissessem o contrário, sempre acreditei que fosse.

publicado por Manuel Anastácio às 22:55
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7 comentários:
De Nuno Vieira a 12 de Dezembro de 2008 às 20:43
vê-se que é um texto sentido e isso é tudo que é preciso para se dizer alguma coisa...


blog elegante....
De Luís Bonifácio a 13 de Dezembro de 2008 às 02:16
É preciso ser um citadino puro (para não dizer burro) para não conseguir distinguir uma Oliveira de um Sobreiro.

Já entre um Sobreiro e uma Azinheira só mesmo estando à beira e observando o tronco é que conseguimos distinbuir.
De Manuel Anastácio a 13 de Dezembro de 2008 às 02:31
Plenamente de acordo. Há ignorâncias indesculpáveis, mesmo para citadinos.
De Silvério Salgueiro a 14 de Dezembro de 2008 às 09:00
Compreendo a tua indignação, mas não me “mates” o Mário Soares , pois é para mim entre os da sua classe uma das poucas referências positivas que utilizo na educação cívica que tento transmitir aos meus filhos. Por ter “milhões de anos” não terá já por completo o adjectivo que te serviu de titulo ao artigo anterior. Mas não foi Mário Soares que me trouxe aqui, até porque não tenho os dotes persuasivos do outro Silvério.
Entrei no comentário apenas para te agradecer as imagens que mais uma vez (já o tinhas feito no teu artigo “Arroz Doce”), me fizeram recordar alguns anos passados, cenas debaixo do oleado ou da rama de eucalipto , nos casamentos da nossa aldeia e com uma nitidez tão grande que qualquer câmara de filmar, se as houvesse à época, não teria feito melhor.
De Manuel Anastácio a 14 de Dezembro de 2008 às 15:57
Obrigado pelas palavras e pela presença. É bom saber que certas imagens que evoco não se reacendem apenas em mim.

Quanto ao Mário Soares, a verdade é que, para mim, morreu. De vez. É por isso que digo que esta carta aberta é dirigida a alguém que nunca a lerá. Se está morto, como é que a irá ler? Creio que os fantasmas não são figuras muito interessadas no que se publica na blogosfera. ;)

Abraço grande e fraterno.
De Anónimo a 17 de Abril de 2009 às 15:56
O Mario Soares, mais conhecido pelo "BOCHECHAS",e o maior traidor que Portugal teve em toda a sua Historia. Desgraçou milhares de Portugueses com a venda de Moçambique... na vedrdade ele e um politico falhado, burro, quadrupede, e um dia a historia ira contar a verdade sobre este camelo. Enganou muita gente, mas hoje ele pode estar ciente que ja nao ilude ninguem... e velhaco, cinico, invejoso e a sua intelegencia e em boa verdade rara... desgraçado que mesmo assim ainda ha quem grita por ele... se passasse na minha rua... de certeza que o pinico que tenho debaixo da cama, voaria pela janela... era o meu tributo a essa besta...
De Manuel Anastácio a 17 de Abril de 2009 às 21:27
Só tenho pena, caro anónimo, que seja anónimo. Estas coisas são para se dizer de cara descoberta, não atrás do anonimato.

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