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Domingo, 23 de Novembro de 2008
Bichos de Conchas

"A Ostra e o Vento", Chico Buarque

 

Graças à Internet, estabeleci com o Brasil uma relação de amor que eu mesmo não compreendo. Não conheço o Brasil. Não é lendo Cabral de Melo Neto, Machado de Assis e Jorge Amado que se poderá conhecer o Brasil, assim como não se conhece Portugal lendo António Lobo Antunes, ainda que muita gente, que viveu num certo Portugal onde eu nunca vivi, me jure a pés juntos que "aquilo era mesmo assim" - aquilo, aquilo que Lobo Antunes descreve ou evoca. Mas nada é mesmo assim. A literatura pode bem ser grande parte da alma de uma Nação, mas, apreendida sempre do ponto de vista de leitores diferentes, cria tantas nações quantas as noções falsas e preconceitos com que tentamos pintar os outros. Confesso que não conheço o Brasil, da mesma forma que, cada vez mais, não conheço Portugal. E confesso isso porque é importante, para que se compreenda a minha leitura do livro de Gláucia Lemos, "Bichos de Conchas", que se saiba que tenho com este livro uma relação que vai muito além da simples leitura e que se estende a uma relação de propriedade que quase toca as raias da autoria.

 

O exemplar que tenho em casa, de um livro que não está à venda nas livrarias portuguesas (como é costume, aliás, para quase toda a produção literária brasileira), foi-me enviado pela própria autora, com uma dedicatória onde sou tratado como "poeta". A sensação que tenho ao receber tal tratamento é bem mais complexa que a simples satisfação derivada de um elogio, e merecerá tratamento à parte, noutro artigo, que, provavelmente, nunca escreverei.

 

Certo dia, escrevi um poema dedicado à pontífice que me fez encontrar Gláucia, a Gerana Damulakis. O poema começa com o verso "Dizer liberdade e pensar num pássaro. Em voar."

Tendo a Gerana passado o poema para o seu blogue, li eu, nos comentários, que este verso bem poderia ser a epígrafe de um romance que tinha sido lançado na Bienal de São Paulo e laureado com o II Prêmio de Literatura da União Brasileira de Escritores – UBE/ Scortecci 2007. Na verdade, ao ler o romance, deu-me a impressão que tudo o que tinha escrito naquele poema estava ali, traduzido em narrativa.

 

O livro é, em primeiro lugar, de facto, narrativa. História contada. Frases que puxam outras frases que gritam por outras, avessas ao silêncio. Até porque tudo começa com a aversão ao silêncio. Uma mulher, um homem, uma praia e um farol. O homem, impenetrável, confunde-se, de início, com a figura de uma criança autista que cria formas mas não as nomeia. Como Deus que, enquanto Pai, não se pode confundir com o Verbo, a Palavra, apesar de Os Dois serem O Mesmo. Mas isto sou eu, autista, a tentar dar significados religiosos ao que de religioso tem apenas a motivação concreta de um profundo respeito pelo mistério transcendente que reside na mais simples manifestação humana. Mas essa leitura teológica está sempre presente, talvez de modo inconsciente, projectando determinados símbolos e formas de sentir religiosas que impregnam a existência humana, independentemente de qualquer atitude confessional. Gláucia chama a sua personagem principal, e narradora, de Celeste. E Celeste não é mais que um anjo caído. Um anjo que cai no momento certo em que escolhe a liberdade do vento, agente demoníaco que lhe sussura promessas de uma realização que o tacanho mundo de Lídio, o seu marido, não lhe parece, jamais, dar. Da mesma forma que Lídio, como Deus-Pai, lhe permite a emancipação e o livre-arbítrio, com o resignado silêncio de um desejo imponderável, porque nunca expresso. Lídio, organicamente estéril e com uma presença discreta em grande parte do romance é, contudo, a personagem mais fértil, porque dele deriva tudo, seja pelo silêncio, seja pela espera, seja pelo trágico movimento final, criador de todos os medos e encerrando em si a mais completa visão e justificação da ideia de Inferno. Por alguma razão se refere o título do livro aos seus filhos mudos e eternamente experimentais, feitos com galhos secos e conchas.

 

Há no livro um rodopiar de situações que o fazem aproximar, do estrito ponto de vista narrativo, às mais delirantes histórias de cavalaria, dando origem a situações inverosímeis do ponto de vista factual, mas que são sempre justificáveis pela verdade poética, filosófica e teológica de uma estrutura que, condensada em breves páginas, não deixa de ser marcada por um ritmo reflexivo que parece contradizer (ou contradiz mesmo) a frase inicial "a vida não traz Moral da História", enigmático ponto de partida de uma história que parece transbordar moralidade por cada poro. O escritor Hélio Pólvora usa a palavra fábula para se referir ao livro. E acerta em cheio. Uma fábula onde os bichos que falam e se substituem aos conceitos são seres humanos. Lídio diz, perto do fim, que "no ninho de uma gaivota pode muito bem nascer um filhote de graúna". Há, na simplicidade desta fórmula, toda uma profissão de fé sobre a Humanidade que faz lembrar o final do livro "Chama Devoradora" de Steinbeck, mas cuja verdade natural, etológica, está bem acima de qualquer construção ética ou moral sobre fidelidade ou sobre perdão. A vida não traz Moral da História. Mas a Vida é em si mesma, a suprema Moral de qualquer História.

 

Obrigado, Gláucia, por este presente. Guardá-lo-ei como parte de mim.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 23:16
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3 comentários:
De Gerana a 24 de Novembro de 2008 às 03:13
Tiro o chapéu, estendo o tapete vermelho e peço para pisar nele: uma resenha feita com emoção! Amanhã cedinho, não fosse meia-noite eu faria isto agora, telefonarei para que Gláucia entre urgentemente no seu blog.
No site da revista, http:// www.verbo21.com.br há uma entrevista que fiz com Gláucia. Saiu bem bacana.
Tenho acompanhado sua peleja e, por respeito ao momento, não fico pedindo poemas. Sei que a poesia não combina com certas fases da vida. Sigo esperando e respeitando.
Falta pouco tempo para escrevermos obrigatoriamente da mesma forma (2 meses). Já está atualizado? Quem trabalha na imprensa tem que seguir na marra, e professores também, acordo é acordo. Não sei como fazer para esquecer o trema, uso-o com freqüência.
Bela postagem, parabéns!
De gláucia lemos a 24 de Novembro de 2008 às 17:06
Meu caro Manuel Anastácio: eu esperava uma resenha, como me foi anunciada, recebo uma joia.Não poderia me surpreender, já que conheço alguns de seus magistrais poemas, que me inspiraram o desejo de obter sua opinião sobre o Bichos de conchas. Sempre interessa a palavra daqueles que merecem o nosso respeito por isso, ou por aquilo. Surpreende-me não a competência, mas a emoção, não a análise em cima do texto, mas a penetração sensível com que ela se apresenta. Enfim, surpreende-me o encontro com o meu próprio inconsciente, trazido à superfície do meu trabalho pela sutileza da sua sensibilidade.Mais que uma resenha você me oferece um encontro comigo mesma.Costuma-se dizer Obrigada.Não! Direi Deus o abençoe por este momento. Guardo-o no meu coração. Gláucia.
De gláucia lemos a 24 de Novembro de 2008 às 17:15
Esqueci-me de informar que, embora nossos livros brasileiros não sejam vendidos em Portugal (lamentável) ,se algum dos seus inúmeros leitores vier a se interessar pelo Bichos de conchas, poderá adquiri-lo pelo site da editora : scortecci@scortecci.com.br ou
fernandadesa@editorascortecci.com.br sempre se dirigindo a sra.Fernanda de Sá. Não posso ser intermediária, por força do meu contrato de cessão de direito de edição e comercialização com a editora Scortecci. Abraço. Gláucia.

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