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Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008
Isto não é um elogio fúnebre

Cena de "O Costa do Castelo". Com a Milu. Numa cena que me faz comichão. No mau sentido.

 

Hoje, morreu a Milu. Confesso que a dor seria substancialmente menor se, em vez da Milu, fosse a Doutora Milu a empalidecer no horizonte (sim, é um eufemismo-metáfora - não muito conseguido, mas é o melhor que posso fazer com o tempo que tenho graças à dita Dona Excelsa Doutora Milu). Mas, depois, ouço esta cantiga e penso que há pouca diferença entre tiranos e intérpretes. A Milu, que deixa saudades, cantou esta cantiga que ficará uma boa eternidade nos ouvidos dos portugueses. Mas a cena do filme é horripilante.Supostamente, pretende homenagear a pobreza e a cultura popular. Na verdade, apenas publicita a pobreza intelectual portuguesa e dá largas à atitude, tão portuguesa também, de crer como superior tudo aquilo que se opõe ao erudito. Não convinha, de facto, aos salazarentos, que o povo olhasse muito para o alto. Vai daí, impingia doses maciças de comédias de bairro vaga e pobremente inspiradas num estilo cinematográfico de um certo René Clair e numa triste caricatura da cultura das elites intelectuais. Vaga e pobremente. A Milu de então, era apenas uma intérprete. Alheia, provavelmente, a subtilezas ideológicas e propagandísticas. A Excelsa Doutora Milu de agora, porém, pretende fazer-se passar por grande educadora. No entanto, faz exactamente o mesmo, com a agravante de que, a não ser que tenha tirado o curso nas Novas Oportunidades, sabe perfeitamente que está a passar atestados de aptidão a uma massa acéfala, só porque acha que todos têm direito ao sucesso educativo (espero bem que o próximo passo do Governo seja permitir a todos os portugueses terem sucesso económico, profissional, amoroso, sexual... sei lá!...). A Milu de agora, enterra este Portugal de que eu gosto na beata ignorância cheia de si mesmo e que usa vómito como se fosse base para a cara.

 

Peço desculpa, à Milu que hoje nos deixou por ser citada neste texto. A Milu mereceu todas as homenagens que teve antes de morrer (que as de hoje para a frente ser-lhe-ão, provavelmente, indiferentes). Pode ter sido veículo de ideias que não compartilho, mas jamais a identificaria com essas ideias.

 

Não peço, contudo, desculpa à Excelsa Doutora Milu. Não enquanto ela não mas pedir sinceramente a mim. E, principalmente, ao país que estrangula diariamente com sorrisos e hálitos de azia.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 21:23
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2 comentários:
De Luis Bonifácio a 6 de Novembro de 2008 às 23:42
As saudades que eu já tinha
da minha alegre casinha
tão modesta quanto eu

Ai meu deus!
como é bom morar
num rés do 1º andar
a contar vindo do céu

Cruzes canhoto! Acho que nem a Milu gostaria de morar numas águas-furtadas.
De gláucia lemos a 8 de Novembro de 2008 às 03:27
Seria preciso saber mais de suas Milus para entender mais profundamente a ponto de comentar a morte dela (s).
Mas preciso perguntar ao Manuel Anastácio se o exemplar do romance Bichos de Conchas que acabei de lançar e lhe enviei daqui do Brasil, da Bahia, da Cidade do Salvador, acabou finalmente chegando a suas mãos. Há duas semanas, mais ou menos o postei. Terá chegado?
Sem ter um email do Anastácio, resta servir-me deste espaço. E aí, poeta? O livro chegou? Abração.

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