Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008
O Império dos Otários - Parte I

Estação de caminhos de ferro de Vilar Formoso. Painel de azulejos: Ponte da Canharda, Linha da Beira Alta

 

Carlos Nepomuceno, professor e pesquisador no Instituto de Inteligência Coletiva (Brasil), co-autor do livro "Conhecimento em Rede" responde, neste artigo, a uma provocação de Henrique Antoun, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro: "o usuário que colabora [em sites colectivos, como a Wikipédia] é colaborador ou apenas um otário?". Segundo Nepomuceno, desenham-se duas teorias: a hipótese do elevador, em que, perante um problema que urge solucionar, todos falam. Num elevador é normal ficarem as pessoas com o olhar vidrado, incapazes de olhar nos olhos os companheiros que compartilham o espaço, ameaçados que se sentem pela proximidade violadora do seu espaço de respiração pessoal. Contudo, quando o elevador pára, subitamente, encravado em terra de ninguém, todos falam. Todos dão a sua opinião. Todos raciocinam colectivamente mesmo que da conversa nada saia de efectivamente praticável. Assim nasceram os fóruns da Internet. Incapazes de resolver um problema, as pessoas viram-se para Santo Google. Quando Santo Google não ajuda, vai-se a um fórum. Deixa-se a questão. E, com sorte, entre opiniões mal informadas, encontramos a saída que procuramos. A gratidão que nasce do alívio de encontrarmos uma resposta predispõe-nos, depois, a também ajudar outros que venham à procura de ajuda. Lemos as suas perguntas. Por vezes, fazemos a simples pesquisa que o pobre em dúvida não conseguiu, por inépcia, fazer. Ajudamos os outros mesmo que nada ganhemos em troca. Mas esta teoria parte sempre da possibilidade de nos virem, alguma vez, também a socorrer. O altruísmo (ou a qualidade de ser otário, segundo Antoun) não é completo.

 

Resta a teoria de que participa na rede quem procura amor na suas várias formas. Como quem frequenta discotecas, pubs e bares, à procura de alguém a quem se possa mostrar. Alguém que olhe para nós e diga: ah, tu existes. Não tenho a menor das dúvidas de que esta teoria, incorporando a primeira hipótese do elevador, é mais abrangente, explica mais casos. É a mais adequada. Mas não explica tudo.

 

Não explica o facto de o contribuinte da Wikipédia ser, geralmente, anónimo...

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publicado por Manuel Anastácio às 21:48
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2 comentários:
De Gerana a 1 de Novembro de 2008 às 00:47
Tudo isto me faz ter vontade de resumir citando Michel Foucault: "Escrevo para ser amado".
De gláucia lemos a 1 de Novembro de 2008 às 18:27
Não considero otário quem distribui o que sabe,de graça, para que outrem com ele aproveite e se enriqueça em sabedoria. Considero um sábio, que quando morrer terá dividido com alguém aquilo que ele aprendeu.

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