Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008
Fábulas de Esopo: o lobo e o grou

Capitel do portal da Catedral de Autun (1130 - 1140). Desenho de Eugène Viollet-le-Duc, em

Dictionnaire raisonné de l’architecture française du XIe au XVIe siècle.

 

Depois de ver morta a presa,

O lobo deitou-lhe o dente.

Mas calhou-lhe na empresa

Que um ossinho impertinente

Se viesse a alojar

No pescoço imprevidente.

Estando assim a agonizar,

Incapaz de engolir,

Incapaz de vomitar,

Tanto se pôs a ganir

À procura de conforto

Que, sem ninguém oprimir,

Para chegar a bom porto,

Desfez-se em suaves juras,

Por não poder falar torto

Às mesquinhas criaturas

De quem estava dependente.

"É com palavras seguras,

Que eu, agora penitente,

Prometo mundos e fundos

A quem se mostrar valente,

E nos estreitos profundos

Do meu nobre gorgomilo,

Onde os ais são oriundos,

Consiga tirar aquilo

Que agora me tira o sono

E não me deixa tranquilo."

Não deixado ao abandono,

Veio o grou em valimento

Pelo prometido abono.

Directo ao encravamento,

Fez perfeita a cirurgia

E apagou o sofrimento

Ao lobo que assaz gania.

"Abri, senhor, a goela

Até ver a luz do dia,

P'ra que dê uma olhadela,

E, com o bico, consiga

Remediar a mazela."

Antes que o grou se desdiga,

Fica o lobo escancarado

E o grou pronto investiga

Com o pescoço enfiado

Da boca até à barriga

Do predador melindrado

Até ter visto extraído

O ossinho aziago.

"O que me foi prometido

Espero qu' ora seja pago",

Disse o grou, persuadido

De não vir dali estrago.

Ao que o lobo respondeu

Mostrando os feros caninos

E assim agradeceu:

"Que desejos peregrinos

É que, tola, concebeu

A tua mente? Cretinos

São os que suspiram

E anseiam favor régio

E nem sequer se admiram

Nem do benefício egrégio

A que mui poucos aspiram

Nem do grande privilégio

Que é na minha boca entrar

E de lá sair inteiro."

Assim faz quem governar,

Que quem se vê em Primeiro

Bem se pode endividar,

Que o calote voa ligeiro.

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publicado por Manuel Anastácio às 18:59
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