Terça-feira, 21 de Outubro de 2008
Gosto de... repetições

Nas fotos: Aquilegia vulgaris, Pombeiro de Riba Vizela, Felgueiras.

 

A essência da poesia é a repetição tornada não redundante pela variação. Isso é verdade para a literatura, mas também para a música, para a arquitectura, para a dança e para todas as artes que reclamem para si o desejo de dar uma ordem sublime ou significante - ou, simplesmente, interessante - a uma das mais arbitrárias medidas da percepção: o ritmo.

 

A Maria Helena pergunta-me se a repetição (sorte tenho eu em não dizer ela redundância...) é intencional. É, claro.

 

Intencional a repetição de gostos (ó) e de desgostos (ó) - estes últimos ainda por estrear.

 

Intencional a repetição de títulos e de articulações entre matérias e materiais e, especialmente, entre o orgânico e o inorgânico, o fútil e o sublime, o público e o privado, o partilhável e o impartilhável, o significante e o assignificante. Intencional a repetição sucessiva de referências geográficas que funcionam como unidades estróficas.

 

A repetição inscrita nestas variações entre extremos serve-me de meio expressivo. Dá-me a ilusão de criar um espaço independente a partir dos espaços que piso. A ilusão de que as léguas de terra que devoro  (citando Adolfo Rocha...) me concedem um pingo da sua lenta efemeridade nos segundos a que a elas sacrifico o meu olhar. Dá-me a ilusão de estar a dizer algo.

 

 

Mesmo que não tenha nada (mais) a dizer. Como quem reza o terço.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:07
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1 comentário:
De Maria Helena a 22 de Outubro de 2008 às 09:38
Fraternidade

Nem sol, nem lua, nem o céu imenso.
Só precisa de imagens quem não tem
A brancura de um lenço
Quando do coração lhe acena alguém.

Semelhantes que somos, criaturas
Abertas como rosas neste lodo,
Sejam mitos astrais as pisaduras
Do nosso sangue todo.

Miguel Torga

Dizer de sua justiça

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