Segunda-feira, 16 de Agosto de 2004
A Cidade de Vidro - Paul Auster

Enquanto as ondas dispõem corpos voltados a ocidente e o sol me abrasa a pele com um irresponsável escaldão, leio em voz alta Paul Auster, enquanto a Cristiana aproveita os modelos semi-nus que lhe são dados de graça.

A primeira das três obras que constituem a trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster, apareceu-me, então, como um prodígio de coincidências. Só quem não lê é que não se espanta com as vezes com que o romance em que pegamos vai de encontro e prolonga os pensamentos que dentro de nós fluem... E este romance-novela parecia espraiar até ao horizonte do espanto alguns momentos e pensamentos meus, coincidindo como um molde. Coincidências - o argumento dos cépticos e dos crentes. Auster revisita as coincidências fantásticas do seu "O Caderno Vermelho", que nos fazem vacilar entre a crença na veracidade e na dúvida quanto às suas narrativas. Nesse pequeno livrinho de short stories heterogéneas há uma que marca facilmente o leitor (pode ler o episódio em http://memoriavirtual.weblog.com.pt/arquivo/021200.html) e onde a coincidência fantástica não é mais que um acontecimento quotidiano interpretado fantasticamente pelas personagens.

A "Cidade de Vidro", o primeiro livro da trilogia, envolve-se de mistério que transcende a vulgar história de detectives - que também o é, ainda que não vulgar - transmutando a gabardine e os óculos de sol pelos paramentos hieráticos de uma religião que nos liga ao mistério da nossa condição de personagens a actuar para os anjos. Um dos atractivos do livro consiste  nas referências diversas a várias histórias, fictícias ou reais que vão comentando a história principal  e, através de uma relação que ultrapassa a simples dialéctica, comparação e paralelismo, dão forma a outra história que se interpreta à sua luz (o capítulo onde se apresenta uma breve "História das crianças selvagens" é disso exemplo). Paul Auster dá-nos a chave para a interpretação da sua obra. Não requer de nós conhecimentos prévios. Podemos não ter lido o Dom Quixote - livro que, por coincidência, andava a ler ao mesmo tempo -mas tudo o que é necessário compreender em relação às referências meta-narrativas do livro é nos dado pelo próprio Auster... Ou melhor: pelo Paul Auster reiventado por Paul Auster, noutra referência ao narrador fantasma (paradoxalmente porque se supõe real) de "Arthur Gordon Pym" - como Edgar Allan Poe, situando-se entre autor e narrador, num jogo complexo de vários contadores da história que se narram sucessiva e mutuamente (Umberto Eco tem um texto bastante interessante sobre o assunto em "Seis Passeios no Bosque da Ficção). Neste livro, o jogo expande-se às personagens. Um homem decide fazer-se passar por Paul Auster, que não parecendo ser o autor deste livro, acaba por sê-lo (ou não), assumindo a máscara até se perder nas palavras com que vai enchendo um caderno vermelho, numa cidade apocalíptica onde renasce a Torre de Babel, transfigurada em vidro, em vez de tijolos de adobe.

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publicado por Manuel Anastácio às 16:49
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