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Terça-feira, 30 de Setembro de 2008
Buxo e buchos

Cena de Eduardo Mãos de Tesoura. Sem buxo.

 

A Gerana pergunta o que é buxo. Em primeiro lugar, é, de todas as plantas, provavelmente a que é mais utilizada na nem sempre nobre arte da topiária, que consiste em aparar árvores e arbustos de forma artística, como fazia o Eduardo Mãos de Tesoura. De facto, é das poucas plantas que gosto de ver aparadas. As árvores têm dignidade própria e uma beleza superior quando não são forçadas a caber nas formas do mau gosto humano. Claro que nem chego a falar do deplorável e criminoso costume de cortar drasticamente os ramos a árvores de grande porte, de modo a promover todos os anos uma copa desproporcionada de pequenos ramos enfezados - costume tão frequente no meu Portugal arboricida e que tem sido especialmente denunciado pelo meu amigo Nuno Teixeira Santos. O buxo (Buxus sempervirens), porém, permite devaneios artísticos ao jardineiro sem que a planta perca a sua dignidade. O jardim de "O Rapaz de Bronze", de Sophia de Mello Breyner Andressen dá especial atenção ao jardim de buxo, local que enchia as medidas da vaidade dos gladíolos.

 

Não confundir buxo com bucho, que é o estômago de alguns animais e que é utilizado na gastronomia da Beira Baixa e arredores. Na minha terra natal, o bucho de carneiro é utilizado para fazer "arroz de maranhos" que, geralmente, é confeccionado em bolsinhas de estômago cozidas. Quando havia a matança do porco (actividade que envolvia sempre muita gente, como se fosse uma festa) havia dois momentos altos que marcavam os trabalhos depois da morte do porco: quando se assava a passarinha e quando se assava o bucho. Quanto à passarinha, nunca entendi o que era bem ao certo - e não tem nada a ver com a genitália feminina, porque os porcos machos também a tinham. Santo Google diz-me que no Brasil chama-se passarinha ao pâncreas do Boi, mas não sei se poderei fazer a extrapolação. O bucho - o estômago do porco - era cozido com as morcelas logo no primeiro dia da matança e era comido grelhado mais tarde, marcando o final de toda a azáfama que se seguia à morte do porco - e que cabia sempre às mulheres. Os homens, depois de matar o porco, dedicavam-se à nobre arte de bem beber e petiscar.

 

Há ainda o bucho revirado, mal que dava a certas crianças e que não sei explicar. Terei de investigar. Santo Google não me ajuda.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:25
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6 comentários:
De Gerana a 1 de Outubro de 2008 às 02:11
Obrigada pela explicação. Quanto ao bucho na gastronomia, é a mesma coisa aqui. Eu conheci uma senhora, que já morreu, que amava bucho. Passarinha: sei explicar. Não é pâncreas, é fígado frito. Só que a palavra contaminou tudo que é frito, daí frango à passarinha (frango frito, geralmente a coxinha e as asas) etc.
Nós andamos falando muito de comida: pães, bucho...
Deu uma fome. E você, sabe o que é acarajé?
De Manuel Anastácio a 1 de Outubro de 2008 às 07:42
O fígado frito são as iscas. Creio que passarinha tinha de ser, pelas minhas bandas, outra coisa. As variações linguísticas no que diz respeito a comida são grandes... e palavras sugestivas como esta, então...
De Manuel Anastácio a 1 de Outubro de 2008 às 07:46
Quanto ao acarajé, palavra de som tipicamente brasileiro, só sei o que é de fotografia... Não conheço, no sentido bíblico, quase nada (ou nada mesmo) da gastronomia baiana... Talvez a minha maior falha cultural... :)
De Silvério Salgueiro a 1 de Outubro de 2008 às 22:21
Sou também natural de Carvalhal, mas na minha casa o bucho não era grelhado mas sim recheado, assim como a bexiga do porco, com os ingredientes utilizados nas morcelas. Na bexiga como as morcelas de arroz e no bucho acrescentando pequenos pedaços de carne. Um dos dois era comido no Domingo Gordo como acompanhamento das sopas alvas com grão e hortelã.
De Silvério Salgueiro a 1 de Outubro de 2008 às 22:36
O bucho revirado não era doença, mas apenas o receio, que julgo infundado, pelo que podia acontecer ao estômago da criança, se esta nas brincadeiras ficasse em posição de cabeça para baixo em relação ao resto do corpo.
De Gerana a 2 de Outubro de 2008 às 02:39
Manuel: fígado à passarinha são as tais iscas de fígado que vão para a fritura. Depois do sucesso das iscas, tudo que for frito em pedaços pequenos é à passarinha.
Silvério: conheço o bucho revirado como você descreveu, mas também conheço a expressão "bucho revirado" para quando a pessoa está com ânsia de vômito, enjoada após comer muito ou comer algo estragado.

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