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Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008
Enciclopédia íntima: Memória II

Números 1, 5, 6, 7, 9, 11 e 14, das 'Catorze Anotações' de Fernando Lopes-Graça. Quarteto Lyra, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Matosinhos, em Novembro de 2006 .

 

Há um tipo especial de memória que se prende directamente aos objectos em si mesmos, sem que exista neles, de facto. É a memória que reside nos próprios objectos pelo facto de terem estado fisicamente presentes em determinados acontecimentos. Em termos puramente objectivos, essa memória é inexistente. É uma crença que apenas beneficia os falsificadores de antiguidades, já que só se pode conceber em termos subjectivos: é a presunção dessa presença, verdadeira ou falsa, que, efectivamente, se imprime no objecto. Qualquer marca acidental, involuntária ou contingente num objecto não tem significado em si mesmo. Pode conter em si "pistas" que podem esclarecer determinados aspectos do passado que aí ficam fossilizados, mas não é a esse carácter detectivesco ou científico que me refiro. O ser humano, tal como os elefantes, fetichizam determinados objectos na sua qualidade de relíquias. E o facto de estas serem falsas ou não é secundário. Enquanto não se provar que determinada relíquia é falsa, ela é, para todos os efeitos, verdadeira na sua qualidade de relíquia. Uma relíquia é um objecto onde está impressa a ideia da morte, porque preterifica uma realidade. Torna-a absoluta, completa, canonizada. É por isso que ninguém é santo em vida - em termos teológicos, de facto, nem Cristo o seria até ao momento do sacrifício. O seu nascimento por obra e graça do Espírito Santo tenta resolver o problema ao colocar Cristo fora da ordem natural das coisas, mas o facto de existirem tentações no seu caminho implica uma real possibilidade do ingresso de Jesus na ordem material, imperfeita porque não consumada. Assim que o passado fecha um capítulo, os objectos a ele associados tornam-se as únicas testemunhas desse capítulo que ficará necessariamente por contar na sua globalidade.

 

Há uns anos atrás ouvi, num programa da manhã da Antena 2, alguém que já não me lembra a entregar à então presidente da Casa Fernando Pessoa uma tábua de um chão que teria sido pisado pelo poeta e, quiçá, que terá testemunhado a fricção da sola dos seus sapatos ou os calos dos seus pés contra o verniz em, provavelmente, alguns dos momentos decisivos da história da cultura lusófona. Momentos esses vividos, pressupõe-se, na solidão própria do escritor. Ora, o valor daquela tábua reside no quê ao certo? Alguém que a veja num museu não ficará em nada mais esclarecido quanto à obra do poeta em causa. Mas tenho a certeza de que se dissermos a um grupo representativo da nossa sociedade, composto por pessoas que já ouviram, pelo menos, falar de Fernando Pessoa e da sua importância como figura tutelar da nossa cultura, serão mais, em termos puramente estatísticos, aqueles que se sentirão arrepiados por estar a ver aquela tábua ("ELE pisou-a!") do que aqueles que se sentirão arrepiados ao ler qualquer um dos mais geniais poemas de Fernando Pessoa. E isso será assim, numericamente, porque é bem provável que aqueles que verdadeiramente são devedores de Fernando Pessoa (os que se arrepiarão com o génio da sua escrita) terão a mesma atitude irracional em relação a esse objecto.

 

O ser humano, como os elefantes, é um ser vivo religioso. Sempre. Mesmo quando é ateu.

 

Fernando Lopes-Graça, reconhecidamente não-crente, foi autor de uma das obras sacras mais profundas da arte portuguesa, se não a mais profunda: o seu "Requiem pelas Vítimas do Fascismo em Portugal". Já li muita justificação para a contradição intrínseca que existe na produção artística de muitas peças de Arte Sacra, desde a figurinha posta num altar a uma peça musical, por parte de artistas agnósticos ou ateus. E estas justificações centram-se sempre nos motivos subtilmente religiosos que moveram o autor. Este é o involuntário instrumento de Deus, que através dele providencia um objecto de veneração (quando o autor cria o objecto porque é de alguma forma forçado a fazê-lo ou por pura diversão) ou, pelo contrário, é realmente o artífice de um sincero testemunho de adoração teológica, seguindo um caminho paralelo à ortodoxia e/ou ao misticismo. Fernando Lopes-Graça pertence a este último grupo. Um dia, disse ao seu discípulo Pedro Amaral: "Rapaz: cada homem tem necessariamente um Deus, de outro modo não é possível viver... Ainda que esse Deus seja uma árvore, ou um rio". O Deus de Lopes-Graça pode bem não ser pessoal, omnipotente ou, simplesmente, místico. Pode ser apenas um Deus simbólico. De facto, os ateus não negam o valor dos símbolos. Ora, o símbolo é apenas uma forma mais abstracta da relíquia. O símbolo nasce quando o Homem se apercebe que a memória preterificada (o "pastness of the past") não reside nos objectos em si, mas na memória em si, pelo que o objecto de adoração ou de identificação pode ser criado no presente, com características mais ou menos convencionais que terão, por si mesmas, o poder da evocação (memória). De qualquer modo, o símbolo limita-se a heroizar um conceito absoluto, tal como o faz a relíquia, só que seguindo uma estratégia de linguagem diferente: em vez da metonímia que há num pedaço da "Vera Cruz", o símbolo recorre à metáfora e é, assim, que nasce o sinal da cruz. Memória gravada nos gestos. Poesia. Porque à memória histórica, científica, há que acrescentar e não desprezar a memória como poema; memória com que contamos as coisas para sempre invisíveis. É por isso que me arrepiarei se um dia estiver frente à tábua pisada por Fernando Pessoa. E apetecer-me-á roubar uma lasca e levá-la para casa. Eventualmente, para engastar num relicário. Mesmo que saiba que pode ser falsa.

publicado por Manuel Anastácio às 19:01
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3 comentários:
De Maria Helena a 26 de Setembro de 2008 às 23:31
(...)
Coisa esquisita é esta da lembrança!
Na maior noite,
na maior solidão,
vem a tua presença verdadeira,
e eu vejo no teu rosto o teu desgosto,
e um ramo de flores que não existe,cheira!

Miguel Torga, Lembrança, Cadeia do Aljube, 1939
De Manuel Anastácio a 27 de Setembro de 2008 às 00:01
Dado o mote para o Memória III.

Obrigado.
De Gerana a 27 de Setembro de 2008 às 02:02
Bacana! Tem gente que vai longe, vai além do escritor, chega ao personagem. Conheço um contista que fez o caminho que Saramago descreve em O ano da morte de Ricardo Reis, em Lisboa. Leu 4 vezes, depois foi lá fazer o caminho do hotel até a estátua de Camões. Creio que seja uma tentativa de sentir mais profundamente o que o artista passou, ou talvez seja o desejo de fazer uma homenagem. Há de tudo: pisar onde o ídolo pisou, ir ao túmulo etc. Acabei de ter uma idéia, um dia irei postar as fotos de todos os poetas que estão imortalizados no metal: Carlos Drummond de Andrade sentado em um banco na praia de Copacabana, Mário Quintana em Porto Alegre, João Cabral de Melo Neto em Recife.

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