Terça-feira, 23 de Setembro de 2008
Das pedras

"A procura da luz" - de Maria Martins. Foto de Robert Portoquá.

 

O Saramago (que também já tem um blogue) também sempre nos prometeu livros que nunca chegaram a ver a luz. As minhas edições de capa suja e usada de alguns dos seus romances ainda continuam a prometer livros que nunca foram ou serão escritos, ou que foram convertidos, na sua intenção, em outros. Eu prometi um livro à Gerana. Chamar-se-ia "Só porque Deus não está ouvindo". Estou bem decidido a escrevê-lo. Poesia, claro. Não há tempo nem imaginação narrativa para romances, como deixo a entender numa auto-entrevista alguns artigos abaixo. O título, claro, tem uma sonoridade brasileira, até porque, sendo editado, sê-lo-á no Brasil. E achei, desde o início, que devia brincar exactamente com a tensão entre o português do Brasil com o português de Portugal. A certa altura, com poucos poemas (inéditos) ainda no forno da reescrita, decidi mostrar um à Gerana. Ela, compassiva (para usar um adjectivo com que o Brabo me presenteou um dia), abraçou o poema e quis dá-lo a conhecer como bebé prematuro, frágil e, talvez por isso, mais biologicamente necessitado de amor.  Estou crente de que o livro, ainda que com pequena tiragem, será editado. Ainda que o poema já tenha sido publicado no blogue da Gerana, acho por bem deixá-lo aqui também.


Está quieta. Não te mexas.
Ignora-me.
Demora-me.
Enterra-me.

Distende agora os membros sobre o chão.
Pensa que o teu corpo é uma prisão.
E não tenhas dúvida de que o é.

Esteja quieta. Não se mexa.
Me ignora.
Me demora.
Me enterra.

Distenda agora o peso pelo chão.
Pense que seu corpo é metal em fundição.
Nem duvide, porque é.

Está quieta. Não se mexa.
Ignora-me.
Me demora.

Espreguiça-te lentamente, ao chão rente.

Levante-se agora.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:59
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1 comentário:
De Gerana a 24 de Setembro de 2008 às 03:13
No primeiro momento pensei que o poema tinha sofrido modificações expressivas. Foi bom ter mantido o verso que causa estranheza para o português BR, porque, sem dúvida, nós entendemos o "está quieta" como a constatação de um estado, ou seja, "você está quieta". Mas o poeta quer dizer "fique quieta", como uma ordem. Isto vai gerar um charme. É ótimo.
Que delícia, blog do meu querido Saramago. Entrei, deixei comentário, tudo que faz uma tiete de carteirinha.

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