Terça-feira, 16 de Setembro de 2008
Curta 40

"Modern Times", de Charles Chaplin - início.

 

- Por que escreve poesia em vez de...  Romance?... Crônica... Ensaio...?!

- A poesia é sintética. Rápida. É o Big Mac da literatura. As crónicas, essas, já são um bife à café ou uma açorda à alentejana - é fácil de fazer, dá pouco trabalho, é água a ferver, coentros e alho... Um romance exige mais tempo. Muito lume brando.

- É por isso que os portugueses escrevem mais poesia que ficção?

- Poesia é ficção.

- É?

- É.

- É por isso que os portugueses escrevem mais poesia que prosa?

- Não acredito muito nisso. Acho que toda a literatura portuguesa é poesia. E a que não é, não presta.

- Cara: acha que é por isso que os portugueses escrevem mais poemas p'rá titia que romances p'rá vovó?

- Ah! Assim já estamos a falar a mesma língua. Não.

- Não?

- Não acho nada disso. Os portugueses - eu incluído - escrevemos poesia porque não temos tempo para escrever coisas que se pareçam com a verdade. A verdade, ou o seu simulacro, exige tempo. É artesanato. Pode não ser tão apreciado e valorizado quanto a arte, mas exige mais trabalho. Trabalho físico e intelectual, entenda-se. A arte socorre-se apenas da ideia de "génio". Enfim, coisa de preguiçosos. O artesanato tem um valor intríseco maior que a arte - ou, pelo menos, que grande parte da arte... Enfim, e em suma: os portugueses são quase todos escritores de nascença. Mas só podem ser poetas porque não têm vida para serem romancistas, nem ensaístas. Produzem coisas rápidas para serem digeridas com lentidão.

- Quanto demora digerir um hamburguer?

- Não sei. Depende do estômago.

- Quanto demora fazer um hamburguer?

- Não sei.

- Rápido?

- Não sei.

- Fico esclarecido quanto à sua ignorância.

- Fico feliz por ter sido útil.

- ...

- Já agora: quanto tempo leva a fazer um hamburguer?

- Qual?

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publicado por Manuel Anastácio às 21:46
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1 comentário:
De Gerana a 17 de Setembro de 2008 às 02:45
Bacana o diálogo. Também acho que poesia é ficção; costumo dizer, inclusive, que poesia é a ficção do sentimento.
Falando nisso, não tem um poema por aí, não?

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