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Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008
Acta número um

Excerto de "Animal Farm" - "O Triunfo dos Porcos".

 

Tanta coisa

que gostava de dizer.

Gostava de estender o manto diáfano da saudade

sobre as feridas abertas da memória.

De rasgar pedras,

De moer  cascalho em livres cristais de escória,

De descer aos infernos

e deles sair sem olhar para trás.

 

Tanta coisa.

 

Gostava de dizer que amo

como quem é seiva.

Primeiro bruta,

feita de desejo, ascensão e luta,

solução salina

contra a gravidade,

e, após a luz, alimento, sustento, resina.

 

Gostava de dizer.

 

Mas para viver

Comer

Suster-me de pé

 

E, para, eventualmente, conseguir um dia

um segundo para mim,

 

E para as palavras que queria dizer

 

Tenho, não de dizer,

Mas papaguear:

Interdisciplinaridade

Quadro axiológico

Paradigmas de mudança

Disjunção dos passos de dança conscritos ao

Plano Anual de Actividades, promotor da Vacuidade

Projecto Educativo

Normativo

de Imbecilidades

Critérios de Avaliação

Acta número um. Educação para a absolvição das almas.

 

Palmas para a Ministra

Que, sinistra - passe a frágil rima - nos conduz ao sucesso e às positivas,

E que em asserções copulativas

Nos faz orar:

 

Aos primeiros dias do primeiro mês do primeiro ano

Do, como dizia o outro,

resto da tua vida,

Reuniu-se numa sala esburacada

com vista para teias e poeira

Uma irmandade desencantada

Pelos milagres da bandalheira.

 

E nada mais havendo a tratar, deu-se por completo o nada.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 21:33
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4 comentários:
De Gerana a 9 de Setembro de 2008 às 01:17
Muito bacana: a realidade e seu peso. Vc já leu Bandeira? Há uma afinidade tão grande! E mais: posso levar?
De Manuel Anastácio a 9 de Setembro de 2008 às 04:53
Gerana: este poema era apenas um desabafo, algo panfletário e com intenções políticas concretas, que eu nunca julgaria merecer transplante para outro local. Mas se a Gerana o acha digno de levar, só tenho que me sentir honrado.
De Gerana a 9 de Setembro de 2008 às 22:12
Realmente, você tem razão. O que acontece é que vc escreve muito bem. Lembrei, inclusive, daquele poema de Bandeira que lista "funcionário público, relógio de ponto etc", é quando ele se diz farto do lirismo tabela de seno coseno. É genial. Vale a pena pegar para fazer uma leitura. Saudades (nossa palavra, ou seja, da nossa língua, que ninguém mais tem) de pegar Bandeira, estrela da vida inteira. Vou respeitar sua opinião. De todo modo, gostei do tom, do ritmo, da listagem etc.
De Manuel Anastácio a 10 de Setembro de 2008 às 01:21
Prometo um poema transplantável em breve, assim que a sinistra me dê algum tempo para respirar.

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