Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008
Joel Costa: Questões de Moral

Orson Welles, em "O Requeijão", de Pier Paolo Pasolini. Pelas afinidades óbvias, ou não, com o Joel Costa.

 

Há uns bons oito anos atrás, dormia eu junto à torre da igreja do Alandroal, onde era presenteado, toda a noite e de quarto em quarto de hora com as badaladas de um sino muito devoto à Virgem. E, de manhã, quando o cansaço de uma noite de vigília forçada já conseguiria fazer frente aos carrilhões de Mafra, tinha de aceitar a minha sina de assalariado com horário a cumprir. E lá me deslocava do cubículo traseiro do número um da Rua do Rodo para a exígua casa de banho onde ouvia, como sempre, na minha invariável monotonia, a Antena 2, na altura com um programa da manhã chamado "O Despertar dos Músicos" onde, entre algumas árias de ópera e alguns andamentos de concertos para piano, violino ou oboé, me chegava a voz de Joel Costa num pequeno apontamento matinal. Sempre fui de tomar o pequeno almoço em casa e não sou bebedor de café, mas o momento em que Joel Costa começava a falar, como quem ainda está com o humor negro da noite a fazer remelas com a insuportável luz da manhã, transfigurava por completo os minutos que faltavam até subir a estradita que dava à impressionante escadaria da Escola Dom Diogo Lopes de Sequeira. O cubículo, que fora o único sítio que conseguira alugar para aquele ano lectivo numa terra que lembrava o deserto, tornava-se, de súbito, num café de mesas limpas, chocalhar de chávenas e cheiro a pastéis e a pingos directos (esta dos pingos directos ainda não se dizia assim, em terras tão meridionais, mas agora soa-me bem).

 

Joel Costa é um escritor e leitor de primeira água - quero eu dizer: de primeira bica. Com cafeína suficiente para abrir os olhos a uma preguiça da Amazónia. Isto digo eu (como diria o Joel), que nunca li nenhum livro dele (mas que lerei, de certeza, não venha a tipa da foice romba mais lesta que o tempo que tenho para ler). "Balada para Sergio Varella Cid" e "O Assassino de Salazar" estão já na lista de livros que  terei de ler. Por que? Por causa da força torrencial do seu discurso, simples, directo, coloquial, variando, segundo a real gana do autor, do bom ao mau humor. Torrencial como a água revolta que arrasta consigo os pedregulhos do alto para o raso chão aluvial do quotidiano. E digo isto sem o ter lido. Assim é, por causa dos programas que sigo religiosamente, na minha monótona e monolítica sintonia radiofónica na Antena 2. Joel Costa é autor de um programa chamado "Questões de Moral". E acabo de ouvir um certo Elogio ao gordo (ouvir aqui ou aqui, se entretanto os links não não passarem de validade) que me deixou, primeiro, com vontade de o plagiar, depois, com vontade de o citar (mas como, se a torrente é toda ela una e se ao pegar num pedregulho do alto, logo pede o Caos de blocos para cair todo por ali abaixo?). Entretanto, descubro esta biografia, não assinada, mas onde o estilo do Joel (ele que me perdoe o tutear) se derrama com toda a sua força revolucionária disfarçada de reacção:


Joel Costa, personagem atípica e polidisciplinar, nasceu em Lisboa e não tem a mínima formação universitária.


Foi exercendo na vida e nas circunstâncias intersticiais do tempo, o inteiro e o parcial, diversas e quase disparatadas actividades: paquete, bancário, empregado de escritório, contraguerrilheiro forçado, contabilista incompetente, dactilógrafo temporário, auxiliar de cartografias, cantor lírico, sindicalista, actor de cinema, novelista de gaveta, dramaturgo de cesto de papéis, conferencista de pequeno (e por vezes mau) porte, assessor político, classificador de espectáculos e ghost writer – embora, como grande admirador de romancistas americanos, também gostasse de ter sido marinheiro, publicitário, porteiro da noite, alcoólico, piloto aviador na II Guerra, estucador, jornalista e pastor evangélico.
Em 1994, por um acaso, inicia a inesperada actividade de autor radiofónico. Colabora com a RDP-Antena 2 e é autor de trabalhos que têm merecido o reconhecimento do público e da crítica: Questões de Família e Questões de Moral - actualmente no ar –, além de outras colaborações avulsas. Em 2003, o grupo de teatro Intervalo levou à cena a sua comédia Isto é a Gente a Falar.

 

Quem quiser continuar a sorrir disparatadamente com toda a seriedade destas crónicas de pura excelência literária, ainda por cima com o excelso suporte de escolhas musicais da mais pura melomania, é só aceder aos podcasts dispensados pela RTP. É. A RTP também faz coisas boas...

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publicado por Manuel Anastácio às 15:15
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21 comentários:
De almariada a 6 de Setembro de 2008 às 16:37
Também gosto muito das Questões de Moral e de ouvir o Joel Costa! Tem graça porque, "na vida real", não conheço ninguém que o oiça... :)

Por outro lado chamar deserto ao Alandroal... quer dizer que não fez lá amigos?
De Manuel Anastácio a 7 de Setembro de 2008 às 18:22
Nem amigos nem inimigos. Penso eu de que...
De Maximino gomes a 24 de Janeiro de 2013 às 22:26
Boa noite!
Antes de mais os meus parabéns ao Joel Costa, Ana Dias e Cristina do Carmo... Ouvi todos os programas Questões de Moral na Antena 2... Gostava de saber se acabou???? Pois o último que ouvi foi no meu dia de aniversario, dia 26 de Dezembro... Espero que seja apenas uma pausa... :)
Também tenho todos os podcasts no meu iTunes, onde vou relembrando um por um.... :)
Também sigo o seu blog, muito interessante, como eu esperava...

Continue Sff... :)

Um abraço Joel Santos,
Maximino Gomes
De Jose Ferreira a 25 de Janeiro de 2013 às 19:25
Email que hoje enviei a Joel Costa:

Escreve-lhe um cidadão, ouvinte há vários anos do seu programa Questões de Moral.
Suponho que é a primeira vez que o contacto e faço-o agora pelas razões de moral adjacentes ao fim do seu programa na Antena 2.
Soube do seu email e arrisco a escrever-lhe dando-lhe conta das minhas preocupações quanto a este facto e quanto ao que se pode fazer e/o que pode ser feito nas actuais circunstâncias.
Adivinho que estaremos na mesma faixa etária e é notória a identificação das suas preocupações de moral com as minhas; já assisti a muitas tropelias do gentio que ora vai tomando conta dos destinos do mundo e esta é mais uma daquelas que visam manter o homo-sapiens em baixo estágio de desenvolvimento, como forma de manter o domínio da mediocridade sobre a inteligência, da igorância sobre a cultura, e muito mais aspectos retrógados que é redundante aqui citar.
Meu caro Joel Costa (permita-me a liberdade do tratamento) tenho nos ombros muitos anos de luta, sob as mais diversas formas, contra justamente a ignorância, a mediocridade, a desorganização e o alheamento; estou desiludido com o caminho que as coisas vão tomando, mas não me sinto derrotado, pois sei que o futuro, apesar de se apresentar negro, é inevitável que leve o ser humano a um estágio superior da sua vivência; a minha certeza advem de saber que isso é próprio da natureza humana é é inevitável que venhamos, como seres humanos, a percorrer o caminho que nos leva a tal.
A sua dispensa da feitura de um programa como o Questões de Moral é mais um episódio dessa dialética que se vem desenvolvendo há já algum milénios; mas não se acanhe que a razão e a inteligência vão ganhando sobre os medíocres moços de recados, os quais agora estão por cima, provisóriamente. A história se encarregará de os varrer para o caixote do lixo. A menoridade mental só se mantém pela prepotência e pela violência, e enquanto o nível de ignorância e organização estiver insuficiente; quando este pressuposto se inverte acontece história.
No que se refera ao programa Questões de Moral estou em contacto com dois ouvintes que nunca vi nem conheço pessoalmente mas que nos sentimos unidos na rejeição do fim abrupto do mesmo. Muito provavelmente haverá mais aspectos que desconhecemos e não parece que haja alternativa do que alargar os contactos de forma a adquirir o conhecimento que falta para enquadrar a nossa atitude e possível acção.
Neste sentido muito gostaríamos que nos desse uma palavra sobre a sua disponibilidade para continuar a feitura do Questões de Moral ou doutra realização que aproveitasse as suas inegáveis qualidades tão bem demonstradas ao longo destes anos. Não ignoro que a idade e a saúde são algumas das hipotéticas dificuldades de qualquer ser humano, mas poderá haver outras que só o próprio deverá equacionar e divulgar.
O que quero é equacionar uma correcta e eficaz acção no sentido de reverter a situação do Questões de Moral, ou apoiar uma outra acção que viabilize a divulgação do muito que ainda tem para nos transmitir; sim, não acredito que uma pessoa com a sua vivência tenha concluído que chegou ao fim da sua actividade útil e resolva ficar mudo e quedo!
Resumindo, penso que, nós ouvintes e pagantes do serviço público, podemos fazer alguma coisa. O quê é a questão de moral que se me coloca.
Vou dar conhecimento desta missiva aos outros ouvintes com quem estou em contacto e, entretanto, incluo o texto dum email anterior por mim enviado aos mesmos e que acrescenta mais um pouco ao que já escrevi.
Ficamos a aguardar alguma palavra da sua parte,
José Manuel Ferreira, Rana, Cascais
De Joao Marques a 10 de Abril de 2009 às 21:30
Estava a ouvir mais uma ediçao do "Questões de Moral" (sobre Marcelo Caetano) e lembrei-me de (mais uma vez) tentar encontrar alguma informaçao sobre o autor e vim ter aqui ao seu blog. Onde encontrou esta biografia não assinada? E onde posso saber mais sobre a personagem?
Obrigado
De Manuel Anastácio a 10 de Abril de 2009 às 22:29
Onde encontrou esta biografia não assinada?

Basta clicar na mesma.

E onde posso saber mais sobre a personagem?

Não sei.

De A Rodrigues a 5 de Setembro de 2012 às 11:25
Gostaria de voltar a ouvir 'Um Simples Gesto', de Joel Costa mas a antena 2 já o apagou. Alguém mo consegue disponibilizar?
Agradeço.
António
De frioleiras a 8 de Setembro de 2009 às 00:03
adoro as crónicas do Joel Costa..

Então a de hoje, sobre Wagner em Veneza.... uma delícia !...
De francisco cogumbreiro a 22 de Fevereiro de 2010 às 14:30
Boa tarde
Ex. Sr. Joel Costa
Acabo de ouvir o seu programa de 2ª feira, o que faço como se religioso fosse, concordo que são de facto momentos de uma grande delicia, mas o que ouvi neste programa espero que " almariada " tenha razão pela sua vida ou seja que ninguém na vida real ouça o seu programa o que é pouco provável.
Esta temática que o jornalista Inglês através do seu livro nos alerta para algo que será de facto melhor não termos consciência.
Ou se for o caso contrario pense bem que esta é mesmo uma ponta do " ice berg ".
Uma grande abraço para si Joel Costa e parabéns pela coragem.
Francisco Cogumbreiro
De Carlos Fernandes a 23 de Dezembro de 2010 às 21:35
Durante um zapping de rádio à cerca de ano e meio, descobri esta pérola no éter. Concordo que a RTP/RDP tem coisas boas também , afinal é o que se espera dum serviço público... Contudo e referindo-me ás questões de moral em especial, sou já um aficionado seguidor de TODOS os programas editados, chegando mesmo a "tirar" do site em formato podcast . Quero desde já felicitar o excelso bom gosto do Joel Costa, o seu humor e a sua coerência nos temas escolhidos. Que a RTP o tenha sempre em conta. Um simples ouvinte...Carlos Jorge
De vilhena, antónio a 10 de Janeiro de 2011 às 16:43
Da mesma forma que há mais coisas sobre a terra e sob o mar que todas as que possamos imaginar, também Joel Costa tem mais e diversos ouvintes que se pense. Eu, que operário me confesso, de condição e formação, rio, sorrio com as palavras e delicio-me com a música de um dos poucos bons programas de rádio. Até vou propor ao provedor que o dito se estenda para a 1 e até para a 3. Seria prestar um serviço de sanidade intelectual a este pobre povo nação valente. Estais comigo? Bora aí.
De Manuel Anastácio a 12 de Janeiro de 2011 às 20:21
Bora lá.
De antonio vilhena a 28 de Janeiro de 2011 às 21:47
bom, lá mandei a sugestão para o provedor e uma máquina respondeu dizendo que o recado tinha sido dado. Quem sabe se mais recomendos levam o dito a sugerir o sugerido. Cumprimentos .
De N Garrido a 20 de Janeiro de 2011 às 19:54
O mais sério (bem) comentado e bem editado. Abraço
De Rui Marques a 16 de Abril de 2012 às 00:10
Este programa e este homem,são as razões porque, apesar do overdose de "futebolose"continuo a ouvir rádio
De Victor Azevedo a 17 de Maio de 2012 às 00:31
Fui companheiro do Joel durante mais de 2 anos nas contraguerrelhices " e guardo na memória episódios únicos que não esqueço. Já nessa altura - 1966/1969 - o Joel era alguém muito especial entre nós. Destacava-se e impressionava pela sua cultura e pela sua facilidade de comunicação.
Não poucas vezes os oficiais - milicianos! - "requisitavam" o amigo Joel para os acompanhar e animar nos seus serões com as respectivas esposas que na guerra os acompanhavam.
Sou testemunha que o nosso amigo levou toda a guerra, sempre como que a pairar sobre ela, como alguém que estava ali fisicamente mas com o espírito a léguas de tudo aquilo.
Tenho muitas histórias, como é bom de ver, mas de forma alguma aqui poderiam ter lugar.
Ficou só este "cheirinho", numa pequena traição do "gordo" ao "gordo" que sei que nada gosta que lhe recordem este período menos bom das nossas vidas.
Um abração para ele, amigo que conheci ali e que ficou para todo o sempre!
PS - Um dia destes voltaremos a almoçar umas costeletas de porco para recordar um episódio na fome que passamos no Leste de Angola...
Victor Azevedo
De Lígia a 17 de Maio de 2012 às 17:09
Pois eu sou mais uma das ouvintese admiradoras deste programa e do seu apresentador. Delicia-me aquela voz, aquela forma de contar, aquele humor, por vezes mordaz, aquelas tonalidades com que impregna as suas crónicas. E a música, claro, sempre a música! Só apanho é parte do programa. Quando saio da escolinha vai ele vai no ar. Depois , fico no carro, a ouvir...E o almoço que espere... pois então! Ao Joel Costa, obrigada!
De Maria Conde a 11 de Agosto de 2012 às 19:55
O seu discurso é na verdade um discurso de excelência. Essa excelência surge no modo como transfigura e surpreende os temas. Escutá-lo é desfrute porque tudo se torna conto, fábula e parábola. A ironia é surpreendente; é simultaneamente hilariante e constrangedora (Álvaro de Campos e Raymon Carver)

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