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Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008
Il Vangelo Secondo Matteo

Excerto de "O Evangelho Segundo Mateus" de Pier Paolo Pasolini.

 

Em 1962, o Papa João XXIII convocou vários autores, não crentes, para um diálogo em Assis, entre os quais, Pier Paolo Pasolini. Durante a estadia, o realizador pegou no evangelho, leu-o como se fosse um romance, e passou a desejar firmemente realizar, sem guião, a vida de Cristo.  O seu "Evangelho Segundo Mateus" poderá, de facto, tresandar a amadorismo devido às austeras opções do seu conceptor. Parece o tipo de filme que um grupo de alunos católicos adolescentes, mas com alguma consciência política, conseguiria fazer com poucos recursos e muita vontade de trabalhar. Cenas simples, filmadas com o dogmatismo do Cinéma Vérité, actores não profissionais, guarda roupa que parece absurdo e música, à primeira vista, anacrónica. Tudo impregnado de uma imperfeição sobre a qual paira um sopro divino jamais conseguido por outro cineasta (pelo menos por mim visto), desde as xaropadas de Zefirelli ao sadomasoquismo de Mel Gibson. Scorcese é um caso à parte e há muito tempo que pede que o volte a ver.

 

A linguagem cinematográfica deste Evangelho de Mateus segundo Pasolini é uma linguagem puramente poética. Os planos são como unidades de significado e ressonância (tal como as palavras num poema) que são dispostas segundo o sentido ético e estético do autor. Tal como num poema podem existir palavras feias, também neste poema sacro aparecem elementos que repugnarão a muitos espectadores habituados aos filmes de época que impecável e artificialmente transmitem um colorido sucedâneo da verdade. A sensibilidade dos crentes é, contudo, sempre respeitada - de facto, não é de admirar que o filme conste na lista dos filmes preferidos de João Paulo II e na lista dos filmes recomendados pelo Vaticano no que concerne à religião. O suposto marxismo deste filme, parece-me, está mais na cabeça de alguns que no próprio filme. De facto a estética marxista, ou pelo menos aquela que nos chega sem ser datada e fora de validade, sempre foi, paradoxalmente, profundamente religiosa. É certo que fazendo uma certa transferência de valores e significados do campo do maravilhoso cristão para um outro tipo de maravilhoso: o da dignidade do ser humano vulgar que é transfigurado ao concretizar em si a imagem do Espírito que move o Mundo. Neste sentido, o filme é marxista, mas não do ponto de vista ideológico - sê-lo-ia tanto quanto foram Mateus - e Jesus, avant la lettre. Embora o mais correcto seria admitir o marxismo como uma forma alterada do cristianismo. São estas contas de outro rosário, que em nada tocam no filme de que agora falo, ainda que conste que Sartre tenha chamado Pasolini à parte, dizendo  "Estaline reabilitou Ivã, o Terrível; Cristo ainda não foi reabilitado pelos Marxistas." Quanto mais conheço de Sartre, mais gosto das moscas.

 

A linguagem cinematográfico-poética deste Evangelho é exposta, na abertura, com a crueza silenciosa de um filme que recusa colocar na boca das personagens palavras que o Evangelho lá não quis pôr. Tirando breves e raras excepções, todas as palavras ditas são tiradas do discurso directo presente na escritura. José abandona Maria sem uma palavra, volta sem uma palavra. Planos longos. Silêncios medidos. Na cena do baptismo, recusa-se a descida da pomba. O Espírito Santo, em vez de descer sob uma forma simbólica, torna-se presente pelo movimento da câmara que sobe em consonância com o olhar ascendente das personagens. Os milagres são de uma simplicidade infantil - vemos o leproso, corte, vemos Jesus, corte, vemos um homem curado. Jesus andando sobre as águas é, contudo, a mais bela das imagens que poderia imaginar para tal cena, ao juntar luz e horizonte. Simples poesia de claridade, como se fosse Sophia de Mello Breyner a conceber o plano.  No Sermão do Monte, Pasolini atreve-se a fazer uma interpretação, perfeitamente legítima, do texto, ao mantê-lo como uma peça única, a nível de estrutura discursiva, fazendo, contudo, uso de uma bela sequência de montagem para sugerir que tais palavras não tenham sido proferidas de uma vez, mas em diversas ocasiões e locais, ao variar as condições atmosféricas, a paisagem de fundo e a luminosidade que envolvem Jesus. Na Paixão, não se procura o dramalhão melodramático nem a violência gratuita - Pasolini é, até, brando demais: a coroa de espinhos mal parece tocar na testa do supliciado.

 

A música e o guarda roupa são mais dois aspectos que podem provocar estranheza mas que pertencem de forma absolutamente coerente ao código escolhido por Pasolini. Ouve-se, como se vê no excerto que abre este artigo (a adoração dos magos), o espiritual  "Sometimes I Feel Like a Motherless Child", provavelmente cantado cantado por Odetta, ainda que alguns, mal informados devido à falta de créditos no genérico do filme, citem Marian Anderson ou mesmo Billie Holiday. Da mesma forma, ouve-se Bach, Mozart, Prokofiev ou a Missa Luba. Este ecletismo de fundo tem uma significação religiosa e teológica particularmente poderosa, ao imprimir um carácter intemporal à história que é contada, tomando uma atitude semelhante às dos pintores sacros que, desde sempre (excepto na modernidade - embora não ponha as mãos no fogo) têm inserido as personagens do evangelho em trajes e espaços arquitecturais que nada devem ao rigor histórico, não só por ingenuidade (ou, talvez, jamais por ingenuidade) mas porque ao fazê-lo transportam diacronicamente a figura de Cristo através dos tempos, já que, enquanto Deus, se mantém fora do Tempo. O guarda roupa é, neste sentido, particularmente interessante e revelador, especialmente no que diz respeito aos estrondosos chapéus de algumas personagens, directamente inspirados em Piero della  Francesca e não em qualquer pesquisa de carácter histórico.

 

Estruturando-se em torno da humanidade de Cristo, a força principal da autoria colectiva deste filme teria de residir nos actores. E assim é, tanto no sorriso de Margherita Caruso (a jovem Maria) como na sua repetição, mais tarde, no sorriso de aprovação resignada de uma Maria envelhecida (Susanna Pasolini, a mãe do cineasta) naquela passagem tão brusca e impiedosa do evangelho, quando Cristo é avisado da visita de sua mãe e este responde que a sua mãe e seus irmãos são aqueles que o seguem. Passagem esta que, tanto pela forma ingénua  mas generosa da fala de Cristo (Enrique Irazoqui) como na forma como a mesma é ouvida e percebida por Maria, se torna, paradoxalmente, numa homenagem à sua mãe, na vez da crueza do excerto da escritura sagrada. É, novamente, daqueles momentos em que o ímpio Pasolini parece entender melhor o espírito cristão que qualquer outro cineasta movido pela crença. Na cena final da paixão, é de novo Susanna Pasolini que carrega em si o sofrimento de toda a passagem quando, como já foi dito, Cristo passa por ela sem grande expressividade a nível da dor física - o que remete, aliás, para a genial curta-metragem "O requeijão", de Pasolini, anterior a este filme e (muito) menos bem recebido pelo público católico.

 

O Evangelho de Pasolini é, em suma, a palavra em vez do verbo. A consequência em vez da origem. O ser humano que sente em vez do ser humano que é. Sem negar a divindade que inegavelmente se resume a um sorriso.

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 15:02
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1 comentário:
De Gerana a 29 de Agosto de 2008 às 01:33
Bom retorno à blogosfera!
Teve poema de Manuel Anastácio, "Das Pedras", no leitoracritica. Está no mês de agosto, basta clicar nele e todo o agosto se apresentará.
Beijo Gerana

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