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Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008
Carlos Nejar, o poeta da Condição Humana

"The Tunnel", vídeo de César Meneghetti, em colaboração com Carlos Nejar

 

O que é a condição humana? Já muitos leitores entraram por aqui dentro à procura da resposta. E levaram, com certeza, a melhor resposta possível: uma mão cheia de nada. É, provavelmente, isso, a condição humana - apesar do nada e do vazio, ainda assim, resta a mão.

 

A poesia de Carlos Nejar, que descobri há pouco, poucochinho, numa antologia da Editora Pergaminho, é sobre a mão, ainda que não se esqueça do nada. Jacinto do Prado Coelho chamou-o de poeta da Condição Humana. E é-o, por diversas razões, sobre as quais não é possível dissertar.


É esta a condição de não ser homem:

dormir, placidamente, sem remorsos,

no curral dos mortos.

(Canga, 1971)

 

É uma poesia centrada na ideia da repetição ritual das palavras, como se toda a sua obra poética pertencesse ao mesmo poema. É lugar comum dizer-se que todo o artista faz e refaz a mesma obra. Não sendo bem verdade, isso pode, contudo, significar duas coisas: ou que faz várias obras que se repetem; ou cada obra completa as anteriores, formando um conjunto mais ou menos harmónico. Carlos Nejar pertence a estes últimos criadores.

 

Mas o que mais me fascinou foi a sua capacidade para abraçar o Amor, Deus e a Morte em fórmulas de uma exactidão religiosa onde a forma pagã se converte em conteúdo próprio de um cristianismo impartilhável. Nejar é um poeta sempre religioso porque a sua mão, cheia de nada, sabe tocar o absoluto. Se estivesse cheia de alguma coisa, teria primeiro de largar coisa. Em Nejar não há coisas, porque todas essas coisas se fundem, ora na decomposição dos vermes ora nas auroras que perfilam a eternidade possível onde assenta a esperança.


Escreverei aurora nos navios,

nos bosques, nas manhãs dentro do vento,

Escreverei aurora no horizonte,

nas tardes, nos silêncios, nas areias.


Escreverei aurora sobre os mapas,

nos cisnes, nos pássaros, nos rios.

Escreverei aurora sobre os homens,

aurora nas mulheres, nos meninos,

aurora sobre os olhos, sobre os braços.

Aurora está contigo.


Escreverei aurora com o nome de minha mãe

ou uma árvore na infância.

Escreverei aurora no murmúrio das águas,

das palavras.


Escreverei aurora de mansinho

como se diz: amada.

Escreverei aurora.

(Livro de Silbion, 1963)

 

A música da poesia de Nejar é uma música pitagórica, numérica, geométrica. Quero dizer com isto que a beleza musical, sonora, da poesia nejariana é, ao contrário da maioria dos poetas, de uma perfeição traduzível, porque reside não na Língua Portuguesa, mas na ideia e na concepção do poema enquanto conjunto de unidades dispostas segundo uma arquitectura puramente musical, ainda que o seu sentido literal mantenha intacta a sua significação. Não poderei imaginar ao que soará qualquer um dos seus poemas em japonês ou em aramaico, mas nada disso importa, porque o elemento sonoro que compõe estes poemas não se prende a uma língua. É por isso que Nejar não é um poeta brasileiro, nem lusófono. É um poeta da língua transcendental - não de uma língua original, mas de uma língua que paira sobre todos os idiomas.


Deus não é a palavra Deus

e andorinha,

a palavra andorinha.


Há um poço

que não entra

na palavra poço.


O amor, na palavra amor.


E Deus é tudo isso.

(O Chapéu das Estações, 1978)

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publicado por Manuel Anastácio às 10:47
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