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Domingo, 27 de Julho de 2008
Traduttore, traditore

Um Réquiem Alemão, Op. 45, 2.º andamento, Johannes Brahms, Filarmónica de Berlim, Coro da Rádio Sueca e Coro de Câmara Eric Ericson, sob a direcção de Claudio Abbado

Serviu o  meu último post para chegar à conclusão que sou mesmo um bicho papão. Só o António, a Gerana e a Cris me fizeram a vontade e cederam ao meu desejo de ser comentado. Gostaria de ter visto a caixa de comentários com alguns impropérios contra a minha versão do soneto, confesso. Tenho algumas saudades do tempo em que, na Wikipédia, recebia insultos anónimos a toda a hora. Era sinal de que aquilo que escrevia tocava os corações e mexia com os espíritos. Era uma altura em que recebia poemas populares dignos de um cantar ao desafio, como:

 

Sois administrador , Sois fascista
Sois um Reles Wikipedista
Pois lhe dirigo este poema,
Para que pense de uma vez por todas
Que a liberdade de opinião,
deva ser do povo de uma nação.

 

Mas da Wikipédia terei de falar mais tarde, ainda mais agora que, à medida que cada vez (e inevitavelmente) é mais lida - e cada vez de maior utilidade - paradoxalmente, parece, a olhos desavisados, apenas o extremo reduto do vício do copy-paste, da falta de seriedade intelectual e sinal de uma cultura moribunda. Mas isso fica para depois. Voltemos ao soneto.

 

Já aqui defendi que não há texto que seja mais traduzível que a poesia, ao contrário do que é dito por aí. Um pedaço de prosa objectiva, ao ser traduzido, impregna-se de interpretação, de lacunas e de referências que deixam de fazer sentido com a transposição para outro código linguístico. A objectividade é, então, radicalmente traída pela subjectividade do tradutor e pela própria matéria linguística que, por mais parecenças que tenha com a matéria original, conforma todo um outro texto.

 

O problema já não se põe com a poesia. O poema original é sempre o menos interessante do fenómeno poético. A poesia não reside, de facto, no poema, mas no(s) leitor(es). E quantas mais leituras se interpõem entre o poema e o destinatário do poema, mais o poema vive, ao ramificar-se em matéria linguística viva. Reparem nos poemas mais conhecidos de Camões, estudados, dissecados até à mais seca exaustão por gerações de estudantes que de tudo só pareciam ganhar vontade de vazar o segundo olho ao poeta. São grandes poemas por que razão? Apenas porque são de inegável qualidade literária? Porque evocam verdades profundas e intemporais? Se assim fosse, seriam apenas bons poemas - não "grandes poemas". Um poema torna-se grande quando é continuamente interpretado, traduzido, transfigurado, corrompido, parodiado, manipulado. Torna-se grande quando, mais que lido, é usado. Torna-se grande quando prova o seu poder de gerar novos textos ou, mais adequadamente, novos contextos. Quando é lido em voz alta, e o leitor salpica a leitura com gralhas; quando é decorado e a memória altera a construção das frases para algo mais íntimo e pessoal; quando é transformado em canção, num quadro... quando não desemboca num beco sem saída.

 

Sinto que Vasco Graça Moura compartilha comigo esta percepção do fenómeno poético, pelo menos na prática. O "Poème sur le désastre de Lisbonne ou examen de cet axiome: "tout est bien" de Voltaire, citado pelo António nos comentários do último artigo, ou a "Divina Comédia" de Dante deixam de ser de Voltaire e de Dante a partir do momento em que são traduzidos por Vasco Graça Moura, porque Vasco Graça Moura não procura, de modo algum, a fidelidade ao texto original, mas procura registar a febre de que é tomado ao ler o texto original, dando largas à fantasia de ser o autor daquela obra. Quem não sonhou já com a clássica situação do nosso eu vindo do futuro com a grande obra literária da década que se aproxima, bastando-nos a nós plagiar confortavelmente o que o nosso parco cérebro não consegue conceber? Vasco Graça Moura não se limita a "plagiar", até porque o plágio, neste caso, seria uma tarefa incomportável para uma só vida. VGM reescreve e impregna as traduções com a sua interpretação, mas de forma franca e clara. A partir do momento em que considera que os sonetos de Shakespeare são manifestações expressivas da bissexualidade do autor, VGM põe William (é esse o Will do penúltimo verso, ainda que, como a Gerana tenha apontado, o diminutivo de William seja Bill, e creio que já o fosse à época), a dirigir-se a um senhor de quem é escravo. E achei interessante que ninguém focasse este ponto: o poema de Shakespeare é ambíguo quanto à sexualidade do eu poético - VGM torna-o um poema assumidamente homossexual. Não critico essa opção. É uma leitura que apenas torna maior o poema de Shakespeare, enquanto que a minha versão, mais discreta, mantém a ambiguidade original. Eu tento não acrescentar nada ao poema - VGM acrescenta. Eu tento manter abertas as possibilidades expressivas do poema; VGM restringe o poema a um quadro específico, a uma situação que exclui todas as outras possibilidades. No fundo, não são duas versões do mesmo poema, mas dois ramos que nascem do mesmo tronco, dispondo-se em orientações opostas. Não é possível traduzir  poesia de outro modo.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:40
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3 comentários:
De Gerana a 28 de Julho de 2008 às 02:50
Concordo totalmente com o parágrafo que começa: "O problema já não se põe com a poesia..." É isso mesmo. Mas, no caso particular daquele soneto e o agora famoso "will", ponto que chamou mais a atenção, trata-se de uma interpretação um pouquinho além da conta, não é não? É como pegar o leitor pela mão e colocá-lo no ângulo que se quer. Onde a liberdade do leitor, então? Cadê o leque das possibilidades expressivas do poema que você defende e pratica? É, vamos ter ramos saindo do mesmo tronco, algo até saudável; contudo, se visarmos leitores menos informados, há sempre o risco de que a tradução que lhes caia nas mãos seja assim tão forçada (aliviando um pouco, seja assim tão pessoal), que acabe por prejudicar o conhecimento do leitor, levando-o a um falso conhecimento. Deixei material para a polêmica que tanto te seduz: a tradução e o leitor comum.
Você me lembra um escritor, articulista da revista VEJA, participante de um programa de bate-papo da GNT, canal fechado da Globo, altamente polêmico. É Diogo Mainardi. Há um "quê" de Diogo em Manuel Anastácio e vice-versa: a ironia fina e inteligente, a provocação. O que me faz lembrar que o Paulo, lá das Índias Ocidentais, já falou no Mainardi naqueles quadrinhos, não foi? Vai que ele também já levantou o paralelo entre vocês dois.
Ah, isto é um elogio. A primeira coisa que faço ao comprar a VEJA é ler a coluna do Diogo. E tenho todos os livros dele.
De Manuel Anastácio a 28 de Julho de 2008 às 07:44
Se bem me lembro, eu que não leio Mainardi, a opinião do Paulo a respeito do Mainardi não era assim tão encomiástica... Creio que haveria discussão entre a Gerana e o Paulo... :)

Ainda bem, que discutir gostos é coisa muito saudável.

Mas atenção: também concordo com a Gerana no que diz respeito aos problemas levantados às opções do VGM. Apenas as desculpo enquanto obra de arte e meio de provocação. O que me irrita é que só os Diogos Mainardis é que conseguem alguma polémica e algum sururu... anda aqui o Manuel Anastácio a lançar bitaites e só três (muito dignas) pessoas decidem falar - e nenhuma diz nada contra o Anastácio. Está mal. Porque é que o Saramago e o Mainardi têm de ficar com os inimigos todos??? Uns inimigos dão muito jeito nestas coisas dos blogues. É o caso, em Portugal, do horrendo "Blasfémias" que segue de vento em popa à conta das alarvidades que vai dizendo...

Mas claro que é sempre mais fácil arranjar inimigos a defender teorias económicas acéfalas e sentenças racistas do que a discutir poesia... É assim. Escolhi mal o campo de batalha...

... Mas não o troco por outro.
De Gerana a 28 de Julho de 2008 às 22:53
Haja ironia nos quadrinhos de Paulo. A ponte com o Mainardi foi feita e isto é fato. O remédio era para aumentar a dosagem de ambição, lembra?
Diogo Mainardi ou se ama ou se odeia. Como ocorre com quem gosta de polêmica: é um risco assumido. Mas vale a pena.

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