Domingo, 20 de Julho de 2008
Vivre sa Vie

"Vivre da Vie", de Jean-Luc Godard. "A Paixão de Joana D' Arc" de Carl Theodor Dreyer.

 

Uma história vulgar de uma mulher que quer mundos e fundos. Que quer a sua liberdade mas consente em se prostituir e submeter-se às regras feitas pelos homens. Uma mulher vulgar que não o é, porque é um conceito puro, criado por Jean-Luc Godard numa altura em que movia marés cinéfilas a repensar a linguagem do cinema e a utilizar à exaustão a palavra desconstrução em conversas aspirando à intelectualidade. "Vivre sa Vie" faz parte do movimento que veio a confirmar o Cinema Francês como senhor feudal da arte cinematográfica para intelectuais, ao mesmo tempo que não se rejeitava, em absoluto, a força expressiva e o imaginário do cinema para as massas. "Vivre sa Vie" é dedicado aos filmes de série B que, pegando e glosando a citação de David Wark Griffith preferida de Godard ("um filme é uma rapariga e uma arma"), são isso mesmo,  os filmes que menos mascaram a necessidade de vampirizar a beleza feminina, com algum condimento de violência. Godard faz isso mesmo: pega em Anna Karina, sua mulher na altura, e usa-a  de forma descarada, impiedosa, até, fazendo do seu desejo real de ser actriz o objecto que depois é espelhado, de forma absoluta e literal, no percurso da personagem. É uma mulher que quer a todo o custo a sua liberdade, desligando-se de qualquer afecto moral e maternal, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, aceita enlaçar-se a outros por obrigações cujas exigências profisionais não são compatíveis com o egoísmo que desde sempre a move. A citação de Montaigne, que abre o filme, sustenta que é necessário emprestar-se aos outros e dar-se a si mesmo. Esta mulher, contudo, jamais se empresta. No máximo, aluga o invólucro exterior - invólucro esse que é igualmente alugado a quem vê o filme. O paralelismo entre a prostituição e a actuação é mais que evidente.  A personagem é designada como "Nana", nome de outra personagem, do romance homónimo de Zola e que percorre o caminho inverso desta. A Nana de Zola é uma mulher que sai das ruas para se tornar actriz e destruir a vida aos homens. A Nana de Godard tenta o teatro e o cinema (num filme série B, com Eddie Constantine - que Godard utillizará mais tarde no seu "Alphaville") e acaba nas ruas destruída pelos homens, mal comparada com Joana D'Arc - já que entre as citações que repassam todo o filme, não há citação mais sublime que todo o excerto de "A Paixão de Joana D' Arc" de Carl Theodor Dreyer, onde também uma mulher é julgada por homens e por estes votada ao martírio. Mas há, a meu ver, ainda outra inversão referencial, a outro filme de Carl Theodor Dreyer: "Ordet", "A Palavra". É uma referência mais subtil, eventualmente apenas impregnada no tecido conceptual proposto por Godard de forma indirecta ou inconsciente. Uma das obsessões do filme são exactamente as palavras, a sua imperativa necessidade, e a sua incapacidade para exprimir a vida interior e a complexidade dos sentimentos ("a felicidade não é alegre"). Ora, no filme de Dreyer, a palavra subentendida no título é Vida. Aqui, é o título, "Vivre sa Vie" - "Viver a sua Vida" que nos faz seguir o caminho inverso do filme de Dreyer. "Ordet" é a história de um caminho que ascende à Vida; "Vivre sa Vie" a  história de um caminho que desce literalmente para  a morte, como bem é sublinhado pelo último movimento da câmara. E Nana segue esse caminho sem, jamais, emprestar (ou alugar) mais que a sua parte exterior e sem, provavelmente, se dar a si mesma. No início do filme o seu ex-marido cita uma improvável composição de uma criança que diz que as galinhas são compostas por uma parte exterior, e outra interior - e que se nos livrarmos das duas, fica a alma. É interessante que a alma não seja confundida com a parte interior. É algo à parte. Intransmissível. Os planos à face de Anna Karina sucedem-se, de perfil, de frente, ao espelho (podendo ver-se simultanemante face e nuca), alternadamente eclipsada pela cabeça de um homem, ofuscantemente iluminada ou transformada em sombra, num ensaio exaustivo sobre a fotografia do corpo humano - da sua exterioridade. Até que Edgar Allan Poe, citado no seu conto "O retrato oval" complementa a história da alma da galinha ao identificar a vida - a alma - com essa mesma exterioridade: ao captar-se dos outros a sua imagem está-se-lhes a retirar-lhe a alma, como supostamente acreditavam muitas tribos indígenas do Novo Mundo. Godard diz-nos, com todas as letras, que está a sacrificar a sua mulher ao usá-la como o próprio material de moldagem da obra, transferindo a sua vida para o filme - tornando o filme na substituição da própria vida.

"Vivre sa Vie" de Jean-Luc Godard. Arte é vida.

 

No fim de tudo, o que fica? Uma obra-prima, pelo seu virtuosismo experimental e enquanto obra de arte conceptual, teórica,  baseada numa poética onde a forma quer ser o próprio conteúdo. E onde qualquer interpretação jamais conseguirá levar a cabo um discurso coerente porque o conteúdo do filme - as ideias, porque Godard filma sempre ideias e não histórias - é tão contraditório e paradoxal como o seu objecto de identificação, havendo, contudo, uma extrema coerência de conjunto. É como se pressentíssemos que há uma mensagem de verdade plena e de reveladora profundidade, mas que, passada para o corpo da palavra, encarna de novo numa coisa concreta, impossível de interpretar porque apenas é. Porque o que é, apenas é, não pode ser interpretado, sob pena de morte. Joana D' Arc interpretou as suas visões como ordens de Deus. Porthos (um dos  três mosqueteiros, citado no filme pelo filósofo Brice Parain, fazendo de si mesmo - vivendo a sua vida, deixando-se vampirizar pela câmara) também morre porque tenta interpretar o mistério da possibilidade de se dar um passo em frente. Esta pena de morte é apenas um pretexto poético, é certo. A angústia existencial é igual para aqueles que nada interpretam, e de nada vale a pena julgar que quem se atreve a enfrentar o absurdo da condição humana será mais feliz, que não o será. O diálogo de Nana com Parain, quase a caminho do martírio final, centra-se nessa inutilidade das palavras, da interpretação e da expressão discursiva, ao mesmo tempo que se conclui, de forma inconclusiva, que o discurso é afim ao amor. Viver sem falar seria tão apaziguante como não amar - mas é impossível. Inútil, isso de querer explicar as coisas, de entendê-las, mas impossível de prescindir, porque faz parte da nossa condição amar - amar uma mulher, um objecto, uma ideia. E quem ama, discursa - e quem discursa, ou conversa (e empresta-se) ou faz poesia (e dá-se)."Vivre sa Vie", de Jean-Luc Godard. Cena do filósofo (Brice Parain).

 

Incluí este filme no 56.º lugar da minha primeira lista de filmes da minha vida. Foi o primeiro sobre o qual quis discursar. Agora, só faltam 99.

"Vivre sa Vie", de Jean-Luc Godard. Cena da dança.

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publicado por Manuel Anastácio às 19:22
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2 comentários:
De glaucia lemos a 15 de Maio de 2012 às 01:19
fiquei curiosíssima para conhecer o filme na íntegra. O comentário faz perceber a riqueza q há no conteúdo dele. Mas é preciso também realçar aqui o final do discurso do comentarista. Quem ama discursa, ou conversa (e se empresta) ou faz poesia ( e se dá). Sei q vou aplaudir o filme, mas aqui já posso aplaudir o comentarista que dele fala deixando um gostinho de quero mais. :)
(Dá gosto de ver a paixão com a qual vc fala de cinema. tomara q vire director , assim vamos filmar o Bichos de Conchas, q é o meu sonho, mas só consigo isso se vc virar director . risadas )
De Manuel Anastácio a 15 de Maio de 2012 às 20:08
Tomara eu... :)

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