Sábado, 5 de Julho de 2008
Enciclopédia Íntima: Memória (I)

Trailer de "Youth Without Youth" de Francis Ford Coppola.

 

A memória é uma das faculdades cognitivas mais mal compreendidas, mas também uma das mais fascinantes. Primeiro, porque, individualmente, manifesta-se de formas insuspeitas, por caminhos que ainda não entendemos, quer a nível fisiológico, quer a nível da sua estrutura conceptual. Segundo, porque é também um fenómeno social: há uma memória colectiva que se relaciona com outros conceitos como, por exemplo, o imaginário e, a nível da teoria da comunicação, com os suportes ou canais de comunicação. Terceiro, porque é uma faculdade da própria natureza, podendo-se manifestar em outros seres vivos que não o ser humano ou, quiçá, até em seres não vivos.

 

Há memória se houver evocação. A evocação é a contemplação de um objecto ou acontecimento não directamente apreendido pelos sentidos ou que pode, simplesmente, não existir. Há memória quando um animal reage a uma situação em conformidade com os efeitos que espera dessa situação (por exemplo, no reflexo condicionado) porque apesar de a situação ser, na altura, apreensível directamente pelos sentidos, os efeitos da mesma não o são. O cão sabe que o pau, batendo-lhe nas costas, provoca dor, e reage a quem o ameaça com o pau, não porque a memória evoque o pau, que é apreendido directamente, mas porque a memória vai evocar a dor, o que o obriga a reagir. Da mesma forma, há memória quando evocamos numa imagem, num som ou num cheiro o objecto que não está, efectivamente, ao alcance dos nossos sentidos, ainda que estes possam ser parcialmente iludidos. Há memória quando pensamos em flores ao cheirar um perfume. O cachimbo de Magritte é o mais flagrante dos ensinamentos sobre a memória enquanto representação: não é um cachimbo, mas evoca o cachimbo. Da mesma forma, quando vemos a representação de um unicórnio, esse ser, que, ao que parece, nunca existiu, é, da mesma forma, evocado, pelo que pode haver memória do inexistente -  entra-se aqui também no campo do imaginário, mas não exclusivamente. De facto, os próprios factos assentam em conceitos que, para todos os efeitos, não existem. A Matemática não é intrínseca à Natureza, ainda que a Natureza a ela obedeça  sem questionar a sua autoridade. A Matemática não existe, mas, ao ser evocada, tem, para o espírito, a autoridade da existência. Não sendo, é.

 

Paulo Rendeiro Marques, na Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura diz que a memória existe em todos os animais pluricelulares, excepto nos poríferos e nos mesozoários. Pouco sei de tal bicharada, nem sei a que género de testes foi submetida, mas duvido que não encontremos neles, de alguma forma, o conceito de memória. Não podemos, contudo, cair na tentação de confundir informação com memória. Por exemplo, a memória dos computadores não é, de facto, memória mas, apenas, armazenamento de informação - ou seja, disposição de matéria segundo uma ordem que pode evocar significados a um sujeito. A informação guardada num computador está tanto na memória como nos traços de um desenho sobre o papel... No entanto, depois de esquecermos alguma coisa (de a termos apagado da memória), pode acontecer que a reevoquemos a partir desses repositórios de informação externa à nossa memória. Isso é, de facto memória? É-o, já que algo não apreensível pelos sentidos (no passado) é evocado, posto à nossa apreciação, apesar de já não existir no mesmo contexto espácio-temporal do sujeito. E então, como é que ficamos: uma biblioteca ou um museu são ou não suportes físicos de memória? São. Enquanto existir gente que ao percorrê-los, consiga evocar o quer que seja, mesmo que de forma errada. O arqueólogo que interpreta de forma errónea um dado artefacto, fá-lo não por incompetência ou má fé mas porque a Ciência, enquanto mobilização da memória, vive da aproximação à realidade que se quer evocar tão próxima quanto possível da verdade objectiva, exterior ao sujeito. Acontece que qualquer evocação é sempre acompanhada de distorção e, por vezes, implica a reconstrução total do acontecimento, mesmo quando fomos actores nesse acontecimento. Um dia encontramos uma frase escrita num caderno e sabemos que fomos nós os autores da mesma, mas, por mais que nos esforcemos, não nos conseguimos lembrar o que nos motivou a escrever aquilo nem como e quando o fizémos. Resta-nos colocar hipóteses, algumas das quais, por serem consistentes, acabam por serem tomadas como factos e ficamos convencidos de que nos lembrámos da razão por que  escrevemos a frase.  A convicção torna-se quase certeza, ou mesmo certeza, porque o poder evocativo da hipótese mais consistente chega a propor-nos imagens do acontecimento que já estavam de todo apagadas da nossa memória ou que nunca nela poderiam ter estado, porque nunca as vivemos. Contudo, outra pessoa encontra a mesma frase e diz: escreveste isso naquele dia em que... e descobrimos que fomos traídos pela memória que, neste caso, se confundiu com a imaginação.

 

O conhecimento da História só pode germinar quando assumimos a impossibilidade de regredirmos ao passado, mesmo que a regressão ocorresse apenas com recurso à mentepsicose,  como acontece no filme "Youth without Youth" de Francis Ford Copolla. A Ciência teria sempre de olhar para a arqueologia mental da personagem do filme de Copolla (e do romance de Mircea Eliade) como um caso de imaginação prodigiosa - eventualmente muito proveitosa mas, ainda assim, imaginação e não memória. As duas, mais tarde, poderiam eventualmente diluir-se até a imaginação se transformar em imaginário, que constitui grande parte da memória colectiva.

 

Quero dizer, então, que, na Ciência, a memória tem origem na imaginação? Claro que sim: na imaginação que se desenvolve activamente a partir de um suporte objectivo e/ou cuja consistência e adequação ao que nos é dado a apreender pelos sentidos a habilita a transformar-se em memória colectiva, ou seja, a formar um dado quadro mental, que se inserirá, por sua vez, num paradigma mais vasto.

 

Quando escrevi, no poema do artigo anterior, que "creio (...) num só múltiplo princípio", evoco esta mesma indefinição do começo das coisas, sejamos nós mais ou menos deterministas. Contudo, o fim só pode ser um, ainda que eternamente adiado porque é inevitavemente incognoscível tendo em conta as nossas limitações corporais: esse fim é a verdade. O Juízo Final.

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publicado por Manuel Anastácio às 01:11
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5 comentários:
De José Lopes a 6 de Julho de 2008 às 21:16
Há uma narrativa, belíssima, de Borges, que decerto o Manuel conhece, "Funes ou a Memória", que deixa no ar diversas questões e possibilidades relacionadas com a memória.
De Manuel Anastácio a 6 de Julho de 2008 às 21:56
Borges entrará, com certeza, neste ciclo sobre a memória. Obrigado por... lembrares... ;)
De Gerana a 7 de Julho de 2008 às 02:09
Também lembrei de Borges, mas primeiramente lembrei de José Saramago: "Memória é invenção".
De Manuel Anastácio a 7 de Julho de 2008 às 07:16
Muito oportuno. E não é que é mesmo?
De Gerana a 8 de Julho de 2008 às 01:49
Tanto é assim ("memória é invenção") que já diz o dito popular que quem conta um conto aumenta um ponto. Mas, mesmo sem narrar, sem contar o fato, a simples lembrança dele já estará impregnada pelas cores dos nossos desejos. Temos o dom de colorir, de enfeitar a vida.

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