Domingo, 29 de Junho de 2008
Enciclopédia íntima: Pútegas

Pútegas, imagem do Wikimedia Commons

 

Há coisas que se aprendem na escola, mas que são falsas. Quase todas as generalidades que dizemos sobre a vida são, num dado momento, falsas. Aprendemos que as plantas são seres autotróficos, isto é, que produzem o seu próprio alimento. Ora, se isso é verdade para a grande maioria, não faltam por aí plantas heterotróficas que, tal como os animais, se alimentam da seiva elaborada pelas suas irmãs providas de clorofila. É o caso das Orobanchaceae, e em especial desta extraordinária Orobanche sanguinea.

 

As pútegas  (Cytinus hypocistis), raro nome, formam outro interessante género de plantas, da família das raflesiáceas, parasitas das estevas (género Cistus), plantas que invariavelmente enchem a paisagem mental da minha infância e que são de todo ausentes aqui no Norte húmido de Portugal.

 

São plantas pequenas, amarelo-avermelhadas, de caules muito curtos, com
folhas escamiformes, densamente imbricadas. São monóicas, ou seja, têm flores hermafroditas. Vivem a maior parte do tempo enterradas, aflorando, junto às raízes das estevas de que se alimentam,  apenas para florescer. As folhas, carnudas, são comestíveis, mas era o néctar doce das flores que punha as crianças à sua procura. Entre os seis quilómetros que separavam a escola do Sardoal e o perímetro da minha aldeia, quando não tínhamos paciência para esperar pelo autocarro, era frequente ir, com os meus colegas, às pútegas. E ríamos com a piada fácil. Mas eu raramente as encontrava. Entre o xisto e as resinas dos pinheiros e das estevas, entre o Vale da Amarela e o Vale de Carvalho, hoje calvas cabeças roídas pelo fogo, apenas encontrava a inocência de quem não sabia que aquele mundo estava a acabar.

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publicado por Manuel Anastácio às 09:13
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11 comentários:
De Gerana a 29 de Junho de 2008 às 23:35
Muito bacana, adorei o texto. É o que chamamos de uma bela crônica.
De Manuel Anastácio a 1 de Julho de 2008 às 00:49
Obrigado, Gerana. Por acaso, creio que foi apenas um sopro de nostalgia. Abraço grande, interatlântico.
De João Sousa a 11 de Julho de 2008 às 20:28
Há para aí uns 20 anos que não vejo uma, mas a descrição que fazes trouxe-me de volta algumas memórias felizes.
De Manuel Anastácio a 12 de Julho de 2008 às 02:40
20 anos? Creio que deve fazer essa conta para mim também... :)
De Anónimo a 13 de Abril de 2009 às 20:11
Gostei da visita a este blogue. Veja as putegas da minha quinta em www.flores.fotosblogue.com
De Joaquim a 17 de Outubro de 2010 às 09:48
Há já quase 60 anos, num denso pinhal do norte de Portugal onde nasci, uma irmã mais velha baixou-se para desenterrar qualquer coisa, e disse:
"Olha, achei uma pútega"
Este nome ficou-me até hoje na memória, pois que desde essa infância e durante muitos anos, fui perguntando se alguém conhecia as ditas, concluindo que nem sequer tinham ouvido tal nome. Porém, repetiam o nome e riam, julgando que me teria enganado e quisesse saber de "outra coisa".
Procurei também em dicionários durante muitos anos, sem que vislumbrasse quaisquer referências.
Agora, que vejo aqui imagens de pútegas, confesso que são mais belas do que minha memória guardava. De facto, ente aquele pinhal da minha infância, a suposta pútega devia ter surgido da raíz de um fêto, onde formou um tubérculo que, ao espremê-lo libertava uma massa cinzenta, como que um creme adocicado. Nos 2 anos seguintes, passei a arrancar alguns fêtos suspeitos de terem o curioso tubérculo, tal como se procura a ostra para se lhe retirar a pérola.
De Manuel Anastácio a 17 de Outubro de 2010 às 10:52
Na verdade, não as encontra na raiz de fetos, mas na raiz de estevas...
De vabels a 4 de Novembro de 2010 às 00:36
E vai mais um, pelas bandas de Coimbra! Mas ... para mais de 40 anos passados.
(é claro que a designação escorregava sempre para a brejeirice)

Pois obrigado pela bela descrição desses "seres" tão desejados e tão procurados. Não era fácil, mas havia um recanto de farta produção. Longe e era necessário subir bastante na montanha. Havia uma nascente por perto e muito mato!. Tojos, se bem me lembro e muita carqueija.

Ia-se colocando o que chamávamos "queijo" numa pedra branca lisa, para dar mais corpo ao assunto, e comíamos com um prazer total. Era de aproveitar, porque a produção era muito breve - e só voltaria um ano depois!.
Não voltei lá, mas tenho a certeza que nada sobrou, depois da invasão eucaliptal. Pior: na sequência de um enorme incêndio, há uns vinte e muitos anos, a já escassa vegetação rasteira foi tomada de assalto pelas sementes do eucalipto, sopradas pelos ventos e sem concorrentes na terra enriquecida por cinza.

Continuação de boas crónicas!
De joa a 5 de Setembro de 2011 às 13:56
bem, em criança não lhes sabia o nome, esse saber não me chegou. No entanto nós não nos atrapalhávamos e batizámo-la de Maia. Guardei-a na minha memória e hoje sei que são importantes para muita gente!
Essa Natureza bem ensinada, estuda, acredito seria capaz de dar verdadeira educação à bicharada da cidade!
abraço
joa
http://veredanatural.blogspot.com/
De Manuel Anastácio a 8 de Setembro de 2011 às 05:26
Muito se tenta fazer para ensinar as maravilhas da Natureza à bicharada da cidade. ;)
De Helder André a 24 de Julho de 2012 às 01:01
Belas tardes de Quarta-feira.
E os banhos nos açudes do Vale da Amarela...
Abraço

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